HISTÓRIA – ESPECIAL: Há 11 anos, ANTT autorizava incorporação da São Geraldo pela Gontijo; compra havia sido realizada em 2003
Publicado em: 20 de setembro de 2026
Decisão publicada em 16 de setembro de 2015 abriu caminho para a absorção definitiva das linhas, da frota e da estrutura da companhia fundada em Caratinga (MG); trajetória das duas empresas acompanha a expansão do transporte rodoviário brasileiro
ADAMO BAZANI
A publicação que completa 11 anos na última quarta-feira, 16 de setembro de 2026, marcou o encerramento definitivo da Companhia São Geraldo de Viação como empresa e marca independente. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) concedeu anuência para que a São Geraldo fosse incorporada pela Empresa Gontijo de Transportes, permitindo a transferência de sua estrutura operacional, frota e linhas.
O Diário do Tramsporte relembra a resolução da Agência:

A decisão, entretanto, não representou a compra da São Geraldo pela Gontijo. O negócio havia sido acertado no fim de 2003 e concluído em 2004. Durante mais de uma década, as duas empresas permaneceram no mesmo grupo econômico, mas ainda mantinham identidades próprias. A autorização de setembro de 2015 permitiu a incorporação societária e regulatória, seguida pela retirada gradual da marca São Geraldo dos ônibus e das rodoviárias.
O Diário do Transporte noticiou a autorização da ANTT em 16 de setembro de 2015, destacando que as companhias já faziam parte do mesmo grupo, mas que a medida permitiria a transferência das linhas da São Geraldo para a Gontijo.
Relembre a notícia:

A compra da São Geraldo ocorreu ainda antes: foi negociada no fim de 2003 e concluída em 2004. Assim, são aproximadamente 23 anos desde o início da aquisição e 22 anos desde sua conclusão.
O ato da ANTT foi breve. A agência concedeu anuência prévia para a operação de incorporação da Companhia São Geraldo de Viação pela Empresa Gontijo de Transportes. O documento foi assinado pelo então diretor-geral substituto da agência, Marcelo Vinaud Prado.

A autorização era necessária porque as linhas rodoviárias interestaduais integram um serviço regulado pelo poder público. Mudanças societárias envolvendo empresas responsáveis por essas ligações dependem de análise do órgão regulador, principalmente quando incluem transferência de mercados, linhas e direitos operacionais.
São Geraldo nasceu em Caratinga e cresceu nas ligações de longa distância

Os registros históricos disponíveis apresentam divergência sobre o ano exato de fundação da São Geraldo. Material ligado à memória empresarial do setor aponta 1949, enquanto outras referências indicam 1957. Há consenso, entretanto, de que a empresa nasceu em Caratinga, no leste de Minas Gerais, a partir da aquisição de uma pequena transportadora por um grupo de empresários locais.
Na década de 1960, sob a liderança do empresário Benito Porcaro, a São Geraldo iniciou uma fase de expansão. A companhia ampliou as ligações dentro de Minas Gerais e avançou para rotas interestaduais, principalmente entre as regiões Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste.
A empresa passou a operar percursos longos, atravessando diferentes estados e atendendo cidades que ainda possuíam poucas alternativas de transporte. Em muitos desses trajetos, os ônibus rodoviários eram a principal ligação dos municípios menores com as capitais e centros regionais.
No início dos anos 1980, depois de uma cisão societária, a sede foi transferida para Belo Horizonte. Posteriormente, a estrutura operacional ficou instalada em Contagem, na Região Metropolitana da capital mineira.
Revezamento de motoristas e venda informatizada de passagens fizeram parte da trajetória

A São Geraldo ficou conhecida no setor pelo uso do revezamento de motoristas em viagens de longa duração. Nesse modelo, diferentes profissionais assumiam a condução durante o percurso, reduzindo a necessidade de longas paradas e evitando que um único motorista permanecesse ao volante por períodos excessivos.
A companhia também esteve entre as empresas rodoviárias que adotaram sistemas informatizados de venda, reservas e emissão de passagens de ida e volta. Eram mudanças importantes em uma época na qual grande parte dos controles ainda era feita manualmente nos guichês das rodoviárias.
Em 2003, a empresa lançou a chamada TV Santo Forte em parte da frota. Os ônibus receberam aparelhos para exibição de programação durante as viagens. A denominação fazia referência à expressão associada à São Geraldo e utilizada em sua comunicação com os passageiros.
A empresa também era chamada de Sanger por funcionários, passageiros e admiradores. Antes da incorporação, atendia 17 estados, percorria aproximadamente 95 milhões de quilômetros por ano e possuía uma frota estimada em cerca de 800 veículos, segundo registros históricos publicados na época.

Gontijo começou com uma jardineira no interior de Minas Gerais

A história da Gontijo começou em 1943, em Carmo do Paranaíba, também no interior de Minas Gerais. O fundador Abílio Pinto Gontijo tinha 19 anos e trabalhava como mecânico quando iniciou o transporte de passageiros com uma jardineira Chevrolet Comercial fabricada em 1940.
A primeira ligação atendia Carmo do Paranaíba e Patos de Minas. As viagens eram realizadas em estradas de terra, sujeitas a poeira nos períodos secos e a lama durante as chuvas.
Com o crescimento da demanda, a empresa transferiu sua estrutura para Patos de Minas e ampliou os serviços em direção a Belo Horizonte. Entre as ligações implantadas estavam os trajetos entre a capital mineira e Patos de Minas, passando por São Gotardo ou Três Marias, além da conexão com Pirapora.
Em 1965, Abílio Gontijo transferiu a sede para Belo Horizonte. A mudança aproximou a empresa de um dos principais centros urbanos do país e facilitou a expansão para outros estados.
Nas décadas seguintes, a Gontijo avançou para o Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Norte. Esse crescimento acompanhou a abertura e pavimentação de rodovias e os movimentos migratórios internos, período em que milhões de brasileiros passaram a viajar entre o interior, as capitais e as novas áreas de desenvolvimento econômico.

O grupo também passou a reunir outras empresas, entre elas as viações Nacional e Continental.
Compra ampliou presença da Gontijo nas regiões atendidas pela São Geraldo

Quando a aquisição foi negociada, no fim de 2003, Gontijo e São Geraldo estavam entre as empresas mais conhecidas do transporte rodoviário nacional. As duas possuíam origem mineira, mas haviam construído redes interestaduais de grande extensão.
A operação permitiu à Gontijo assumir mercados nos quais a São Geraldo possuía presença histórica, especialmente nas ligações de longa distância envolvendo o Nordeste, o Norte e o Sudeste.
Mesmo depois da conclusão da compra, em 2004, a São Geraldo continuou circulando com nome, pintura, funcionários, guichês e ônibus próprios. Para o passageiro, as empresas ainda apareciam como marcas diferentes, apesar de pertencerem ao mesmo grupo.
Os valores e as condições comerciais da aquisição não aparecem na resolução da ANTT de 2015. O documento tratou exclusivamente da anuência regulatória para a incorporação.
Autorização de 2015 iniciou retirada gradual da marca São Geraldo
Relembre a reportagem:
Com a autorização concedida pela ANTT, a Gontijo pôde avançar na absorção definitiva da companhia adquirida mais de uma década antes. A mudança não ocorreu de uma só vez.
Inicialmente, ônibus da São Geraldo começaram a receber o nome Gontijo. Posteriormente, os veículos foram repintados ou substituídos, e os guichês, sistemas de venda e demais estruturas passaram a adotar a identidade da incorporadora.
Para os passageiros, a principal consequência foi a mudança da empresa identificada nas passagens, nos ônibus e nos pontos de atendimento. As ligações não foram simplesmente encerradas por causa da incorporação: passaram a integrar a operação da Gontijo ou de outras empresas do mesmo grupo, conforme as autorizações regulatórias.
A São Geraldo deixou de existir gradualmente como marca, mas sua rede de linhas, seus veículos, trabalhadores e estruturas foram incorporados à operação do grupo. Parte da história da companhia permaneceu, portanto, nas ligações rodoviárias que continuaram sendo atendidas.
A decisão de setembro de 2015 encerrou um processo iniciado quase 12 anos antes e reuniu definitivamente duas trajetórias ligadas ao desenvolvimento do transporte rodoviário brasileiro. A Gontijo seguiu em operação, enquanto a São Geraldo passou a fazer parte da memória de passageiros e trabalhadores que atravessaram o país em seus ônibus.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes




Tive o prazer de fazer parte da Companhia São Geraldo de viação entre 2005 e 2006.
Agradecimentos eternos pela experiência e amigos q lá fiz. minha função era Auxiliar de Almoxarifado em Vitória da Conquista-BA.
Gratidão!!!
A Gontijo pode até ter uma ampla atuação e disponibilidade de horários, mas a qualidade dos ônibus deixa muito a desejar, principalmente na rota Belo Horizonte–Espinosa e Espinosa–Belo Horizonte.
Há diversos registros de quebras de ônibus durante as viagens, com casos em que a resolução dos problemas demora mais de quatro horas, causando atrasos significativos e comprometendo a segurança, o bem-estar e os compromissos dos passageiros.
A situação é ainda mais preocupante porque a Gontijo é a única empresa que realiza essa rota, fazendo com que muitos passageiros dependam exclusivamente do serviço para chegar a Belo Horizonte e cumprir compromissos médicos, profissionais e outros compromissos importantes. Quando ocorre uma quebra ou um atraso excessivo, essas pessoas acabam sendo diretamente prejudicadas.
Além disso, chama a atenção o fato de que, em grande parte das viagens nessa rota, são utilizados ônibus com mais de dez anos de uso, o que pode contribuir para a ocorrência frequente de problemas mecânicos.
Diante disso, é necessário que a empresa reveja as condições dos veículos utilizados nessa linha, invista na manutenção preventiva e disponibilize ônibus em melhores condições, garantindo aos passageiros um serviço mais seguro, confiável e adequado à importância dessa rota.