SPTrans contrata demolições por R$ 1,7 milhão para preparar terminal e estaleiro do Aquático-SP na Represa Billings

Empresa terá de retirar construções, fundações e resíduos de imóveis desapropriados em uma área de aproximadamente 34,7 mil metros quadrados na Rua do Mar Paulista; intervenção antecede as obras definitivas das novas estruturas

ADAMO BAZANI

A SPTrans (São Paulo Transporte) homologou a contratação da empresa Valentim & Rosa Comercial Ltda. por R$ 1,7 milhão para demolir construções existentes nos terrenos destinados ao futuro Terminal e Atracadouro Pedreira e ao Estaleiro Pedreira do Aquático-SP, na margem da Represa Billings, zona sul da capital paulista. A área, localizada na Rua do Mar Paulista, soma aproximadamente 34,7 mil metros quadrados e foi declarada de utilidade pública pela Prefeitura de São Paulo em 2022.

O contrato terá vigência de dez meses, com prazo de seis meses para a execução dos serviços a partir da primeira ordem emitida pela SPTrans. Além da demolição dos imóveis e das fundações, a empresa deverá retirar e destinar corretamente os resíduos, limpar e cercar os terrenos, manter vigilância durante 24 horas e produzir um levantamento topográfico georreferenciado de toda a área. A contratação representa uma etapa preparatória: ainda não corresponde às obras de construção do terminal, do atracadouro ou do estaleiro.

Contrato prepara o terreno, mas ainda não contempla a construção do terminal e do estaleiro

A homologação da licitação foi publicada no Diário Oficial da Cidade de São Paulo nesta sexta-feira, 18 de setembro de 2026.

A Valentim & Rosa Comercial Ltda. foi declarada vencedora da concorrência, realizada pelo critério de menor preço. O valor global autorizado pela SPTrans é de R$ 1,7 milhão.

Apesar desse valor global, a contratação foi estruturada pelo regime de preços unitários. Isso significa que os pagamentos deverão considerar os serviços efetivamente realizados e medidos a cada mês, de acordo com as quantidades previstas nas planilhas contratuais.

O objeto limita-se à preparação dos imóveis desapropriados. Não estão incluídas nessa contratação as edificações do futuro terminal, as instalações do atracadouro, os equipamentos náuticos, as oficinas do estaleiro ou as intervenções viárias necessárias para conectar o equipamento à rede de ônibus.

Também ainda não é possível estabelecer uma data exata para o início das demolições. A contagem do prazo de execução dependerá da assinatura do contrato e da emissão da primeira ordem de serviço pela SPTrans.

Como mostrou o Diário do Transporte em 30 de julho de 2026, a concorrência foi aberta inicialmente com orçamento mantido sob sigilo até a sessão pública. Na ocasião, as empresas interessadas poderiam encaminhar propostas até 21 de agosto.

Área de 34,7 mil metros quadrados foi declarada de utilidade pública em 2022

Os terrenos foram reservados pela Prefeitura de São Paulo por meio de dois decretos publicados em 2022.

Uma área de aproximadamente 21.825 metros quadrados foi destinada ao futuro Terminal e Atracadouro Pedreira. Outros 12.853 metros quadrados foram reservados para a implantação do Estaleiro Pedreira do Aquático-SP.

Somados, os dois perímetros alcançam cerca de 34.678 metros quadrados, às margens da Represa Billings, na Rua do Mar Paulista.

A desapropriação permite que o município obtenha a posse dos imóveis particulares necessários para a implantação dos equipamentos públicos. Como esse procedimento pode avançar em momentos diferentes para cada propriedade, o contrato permite que a SPTrans libere os serviços de forma parcial, conforme a Prefeitura de São Paulo assuma legalmente cada terreno.

Assim, a empresa não necessariamente receberá toda a área de uma única vez. Poderão ser emitidas diversas ordens de serviço ao longo do contrato, correspondentes aos imóveis já disponíveis para intervenção.

O termo de referência da licitação explica que as construções atualmente existentes não serão aproveitadas no projeto do terminal e do estaleiro. A SPTrans também justifica a necessidade de demolição rápida para evitar ocupações irregulares depois que os imóveis forem desocupados e passarem para o controle municipal.

Demolição inclui fundações, pavimentos externos, limpeza, cercamento e vigilância permanente

O trabalho não ficará restrito à derrubada das edificações.

A contratada deverá remover também pisos externos, blocos de fundação, estruturas enterradas e outros elementos que possam interferir nas futuras obras. Depois da demolição, será necessário limpar e regularizar os terrenos, deixando as áreas em condições adequadas para as próximas etapas do projeto.

Antes de iniciar os trabalhos, a empresa terá de realizar um levantamento detalhado de cada imóvel, registrar fotograficamente as condições existentes e elaborar o plano de demolição. Também deverão ser apresentados o plano de gerenciamento de resíduos da construção civil, o cronograma de execução e as anotações ou registros de responsabilidade dos profissionais envolvidos.

A demolição deverá ser predominantemente mecanizada. O método manual será adotado em locais onde máquinas não possam operar com segurança ou quando houver risco para construções vizinhas, redes de serviços públicos e estruturas que precisem ser preservadas.

A contratada será responsável por solicitar o desligamento ou a retirada de instalações de energia elétrica, água, esgoto, gás e telecomunicações, com a participação de concessionárias como Enel, Sabesp e Comgás. Se os trabalhos afetarem a circulação de veículos, também deverá haver coordenação com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).

Durante as intervenções, deverão ser adotadas medidas para controlar poeira, ruído, vibração e lançamento de fragmentos. A empresa terá de manter o acesso seguro às residências e aos estabelecimentos que permanecerem nas proximidades.

Muros considerados necessários para a proteção do perímetro deverão ser preservados ou reconstruídos. A contratada também ficará responsável pelos tapumes, cercamentos, sinalização e vigilância da área durante 24 horas, inclusive nos períodos em que não houver atividade de demolição.

Caso o trânsito de caminhões ou a retirada de resíduos não possa ocorrer durante o dia, o edital admite trabalhos entre 22h e 6h, desde que sejam observadas as autorizações e as regras de segurança e controle de ruído.

Todo o material retirado deverá ser separado, acondicionado, transportado e encaminhado a locais legalmente autorizados. A empresa deverá comprovar a destinação dos resíduos, incluindo concreto, alvenaria, metais, madeira e outros materiais encontrados nos imóveis.

Levantamento topográfico será usado para orientar as futuras obras

Ao término das demolições, a contratada deverá executar um levantamento planialtimétrico e cadastral georreferenciado de toda a área de intervenção.

O serviço terá de registrar os limites dos terrenos, níveis, desníveis, alinhamentos, acessos, calçadas, interferências, construções remanescentes e o lado oposto das vias existentes.

Os documentos deverão ser entregues à SPTrans em formatos digitais, incluindo arquivos técnicos editáveis e versões em PDF, acompanhados da responsabilidade técnica do profissional responsável.

Esse levantamento deverá oferecer uma representação atualizada do terreno depois da retirada das construções e poderá servir de base para projetos executivos, terraplenagem, drenagem, acessibilidade, implantação das edificações e conexão do futuro complexo com o sistema viário.

Execução terá seis meses e poderá ocorrer por etapas

A vigência contratual será de dez meses contados da assinatura. Dentro desse período, os serviços deverão ser executados em até seis meses após a primeira ordem de serviço.

A diferença entre os dois prazos existe para acomodar atividades anteriores e posteriores à demolição, como mobilização, elaboração de planos, emissão de licenças, obtenção das áreas, medições, correções e entrega da documentação final.

A empresa terá 15 dias corridos depois da assinatura para apresentar o plano de trabalho detalhado. As responsabilidades técnicas relacionadas às intervenções deverão ser formalizadas depois da primeira ordem de serviço.

A divisão das atividades dependerá da posse dos imóveis. Se uma parte da área ainda estiver submetida a procedimentos de desapropriação, a SPTrans poderá autorizar o início em outro trecho já liberado.

Mesmo nos intervalos sem imóveis disponíveis para demolição, a contratada deverá manter a vigilância mínima exigida nas propriedades que já estiverem sob responsabilidade do município.

Novo terminal deverá integrar barcos e linhas de ônibus em Pedreira e Grajaú

O Terminal e Atracadouro Pedreira é planejado para ampliar a integração entre o transporte aquático e as linhas de ônibus que atendem bairros das regiões de Pedreira e Grajaú.

O projeto prevê que os passageiros possam chegar de ônibus ao terminal, realizar parte do deslocamento pela Represa Billings e depois continuar a viagem por outras linhas do transporte coletivo. A proposta também considera futuras ligações viárias e corredores de ônibus conectados ao sistema hidroviário.

A estrutura será diferente do terminal usado atualmente na região do Mar Paulista. O novo complexo deverá oferecer instalações permanentes e maior capacidade para atender à eventual expansão do Aquático-SP.

Já o Estaleiro Pedreira deverá concentrar serviços de manutenção preventiva e corretiva das embarcações, reparos, armazenamento de peças, apoio operacional e logística. A instalação de uma base própria tende a reduzir a necessidade de retirar os barcos da região sempre que houver manutenção, aumentando a disponibilidade da frota.

A efetiva implantação dessas estruturas, entretanto, ainda dependerá de novos projetos, licenças ambientais, recursos orçamentários e contratações específicas. O contrato agora homologado não autoriza a construção dos equipamentos.

Aquático-SP começou a operar em maio de 2024 e reduziu travessia para cerca de 17 minutos

O Aquático-SP começou a transportar passageiros em 13 de maio de 2024, em operação assistida. Foi o primeiro serviço regular de transporte público por barcos implantado pela Prefeitura de São Paulo.

A ligação inicial tem aproximadamente 5,6 quilômetros e conecta o Terminal Hidroviário Parque Linear Cantinho do Céu ao Terminal Hidroviário Parque Mar Paulista Bruno Covas.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, a travessia é feita em aproximadamente 17 minutos. Por ruas e avenidas, o mesmo deslocamento poderia consumir até uma hora e 20 minutos, dependendo do trânsito e das conexões necessárias.

No início da operação, o serviço contava com cinco embarcações de diferentes capacidades. Os barcos foram apresentados com ar-condicionado, rede Wi-Fi e entradas USB para carregamento de celulares.

A operação começou de forma gratuita e assistida, com apresentação do Bilhete Único para controle da demanda. Os terminais receberam integração com linhas de ônibus.

A linha 627M-10 liga a região do Mar Paulista ao Terminal Santo Amaro, com paradas em pontos estratégicos da Avenida Miguel Yunes e da Avenida das Nações Unidas. No Cantinho do Céu, a linha circular 606C-10 faz a distribuição dos passageiros pelos bairros próximos.

Prefeitura de São Paulo assumiu o serviço após intervenção na Transwolff

O planejamento original vinculava a operação aquática a um dos lotes da concessão de ônibus administrados pela Transwolff.

A Prefeitura de São Paulo e a SPTrans assumiram diretamente a organização do serviço depois da intervenção municipal na empresa de ônibus, decretada em 9 de abril de 2024. A medida ocorreu após a Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo para investigar suspeitas de ligações de dirigentes de empresas de transporte com o crime organizado.

Com a intervenção, a SPTrans adotou outro modelo para iniciar o Aquático-SP. Em vez de deixar toda a estrutura sob responsabilidade da concessionária de ônibus, foram credenciadas empresas especializadas para fornecer embarcações, tripulações, manutenção e apoio à operação.

Entre as empresas contratadas estão BK Consultoria e Serviços, F. Andreis Neto e Internacional Marítima. Os contratos tiveram início em 2024 e foram prorrogados pela SPTrans em setembro de 2026.

As três prorrogações somam R$ 14,22 milhões adicionais, considerando R$ 4,74 milhões para cada empresa, e estendem os serviços por mais 12 meses. Os valores referem-se à manutenção da operação, com fornecimento de embarcações e pessoal, e não fazem parte dos R$ 1,7 milhão destinados às demolições.

Ao longo de 2025, a Prefeitura de São Paulo também realizou novos credenciamentos e contratações para aumentar a disponibilidade de barcos e reforçar a operação na Billings.

Serviço passou de 180 mil passageiros em seis meses para mais de 1,1 milhão em dois anos

Nos primeiros seis meses, o Aquático-SP transportou aproximadamente 180 mil passageiros e realizou cerca de oito mil viagens. A média naquele período chegou a aproximadamente mil passageiros por dia.

Em maio de 2025, quando completou o primeiro ano, o sistema alcançou a marca de 500 mil passageiros. Em outubro daquele ano, o total chegou a 800 mil.

O milionésimo embarque foi registrado em fevereiro de 2026. Três meses depois, no segundo aniversário da operação, o sistema acumulava mais de 1,1 milhão de passageiros.

Em abril de 2026, foram registradas mais de 61 mil utilizações. Naquele momento, seis embarcações realizavam viagens diariamente entre os dois terminais.

Pesquisa divulgada pela Prefeitura de São Paulo apontou aprovação geral de 90,3% entre os passageiros. A limpeza recebeu avaliação positiva de 97,5%, enquanto o conforto foi aprovado por 93,7% dos entrevistados.

Como mostrou o Diário do Transporte em 13 de maio de 2026, a redução do tempo de deslocamento modificou a rotina de moradores que dependiam de longos trajetos por ônibus ao redor da represa.

Prefeitura de São Paulo estuda levar o Aquático-SP a outros pontos da Billings e da Guarapiranga

A implantação do Terminal e Atracadouro Pedreira faz parte de um plano mais amplo de expansão do transporte aquático na zona sul.

A SPTrans também abriu licitação para contratar estudos de viabilidade de quatro novos terminais e atracadouros. Um deles é previsto para a região de Apurá, na Represa Billings. Outros três são estudados para Guaraci, Santa Paula e Clube Náutico, na Represa Guarapiranga.

Os levantamentos devem avaliar condições técnicas, operacionais, econômicas e ambientais, além da demanda potencial e das possibilidades de integração com ônibus e trens.

As regiões consideradas nos estudos abrangem bairros e distritos como Grajaú, Pedreira, Jardim Ângela, Cidade Dutra e Santo Amaro.

Esses quatro pontos ainda estão na fase de estudos e não representam obras autorizadas. Os projetos deverão indicar se as ligações são viáveis, qual seria a demanda, quais embarcações poderiam ser usadas e que intervenções seriam necessárias em terra e na água.

Nesse contexto, a contratação das demolições em Pedreira é uma medida mais concreta, por envolver terrenos já declarados de utilidade pública e reservados para equipamentos definidos. Ainda assim, a construção do novo terminal e do estaleiro dependerá de etapas posteriores.

A SPTrans não informou, na publicação da homologação, quanto deverá ser investido nas estruturas definitivas nem quando o complexo poderá entrar em operação.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    Tão importante quanto a implantação e a expansão do Aquático, é a sua eficiente integração com os ônibus.
    Especialmente no tempo gasto nas baldeações entre ambos modais, a fim de que o tempo economizado na travessia fluvial não seja perdido com longas esperas na baldeação.

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