Prefeitura de São Paulo confirma que traçado da Linha 20-Rosa mudou da Faria Lima para Fradique Coutinho e Girassol e promete nova discussão com Metrô

Área técnica municipal verificou que mapa do Plano Diretor de 2014 previa passagem pela Faria Lima e Pedroso de Moraes, mas base encaminhada à cidade em 2023 já trazia novo caminho; Prefeitura investirá R$ 120 milhões na futura linha e fórum com participação do Metrô deve ser realizado ainda neste semestre

ADAMO BAZANI

A Prefeitura de São Paulo confirmou oficialmente que o traçado da futura Linha 20-Rosa do Metrô apresentado nos documentos de planejamento da cidade foi alterado entre 2014 e 2023. Enquanto o Mapa 9 do Plano Diretor de 2014 previa a passagem pela Avenida Brigadeiro Faria Lima e pela Avenida Pedroso de Moraes, a base atualizada dos traçados metropolitanos enviada à administração municipal em 2023 já mostrava a linha seguindo por Fradique Coutinho e Girassol, na região de Pinheiros e Vila Madalena.

A informação consta de ata publicada no Diário Oficial da Cidade desta terça-feira, 15 de setembro de 2026, referente a uma reunião do Conselho Participativo Municipal de Pinheiros realizada em 3 de setembro. No encontro, representantes da Prefeitura também se comprometeram a apresentar uma devolutiva ainda neste semestre, estudar mudanças nas regras urbanísticas relacionadas às futuras estações e construir um fórum com participação do Metrô. O debate ganha peso porque o município já firmou convênio para aplicar R$ 120 milhões da Operação Urbana Consorciada Faria Lima na implantação da Linha 20-Rosa.

O encontro reuniu representantes da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), SP Urbanismo, Subprefeitura de Pinheiros, Conselho Participativo e moradores, além de representantes de associações da região. A própria coordenação do conselho fez questão de registrar que a reunião não substitui uma audiência pública.

Prefeitura compara mapas de 2014 e 2023

A confirmação sobre a mudança foi feita por Fernando Gasperini, coordenador de Planejamento Urbano da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.

Segundo a ata, a área técnica municipal fez uma verificação dos documentos e constatou que o Mapa 9 do Plano Diretor Estratégico de 2014 continha efetivamente a Linha 20-Rosa pela Faria Lima e pela Pedroso de Moraes.

Já na revisão do Plano Diretor realizada em 2023, a base de dados dos traçados metropolitanos que foi repassada à Prefeitura apresentava o novo desenho, passando pela região de Fradique Coutinho e Girassol.

Gasperini afirmou ainda que tomou conhecimento da alteração do traçado em condições semelhantes às dos participantes da reunião.

A decisão sobre por onde passa a linha, no entanto, é estadual. Pedro Martin Fernandes, diretor-presidente da SP Urbanismo, explicou que a definição do traçado cabe ao Metrô, embora atos formais relacionados ao empreendimento sejam publicados pela Secretaria de Parcerias em Investimentos do Estado.

Mudança não cria automaticamente novas zonas de adensamento, diz Prefeitura

Um dos principais pontos de preocupação dos moradores é a possibilidade de a alteração da Linha 20 provocar mudanças no uso e ocupação do solo em Pinheiros e Vila Madalena.

A Secretaria de Urbanismo disse que a mudança do traçado, por si só, não criou automaticamente novas ZEUs, as Zonas Eixo de Estruturação da Transformação Urbana.

Segundo a Prefeitura, as áreas de adensamento atualmente existentes continuam baseadas no traçado registrado em 2014. Como as linhas incorporadas à atualização de 2023 têm horizonte de implantação posterior à vigência do atual Plano Diretor, que vai até 2029, não foram criados novos eixos com base no novo caminho da Linha 20.

A revisão da Lei de Zoneamento de 2024 também não teria criado novas zonas por causa da alteração do metrô, embora tenham ocorrido mudanças nos raios de influência das estações. Assim, enquanto estiver em vigor o atual Plano Diretor, não existe mudança automática das regras de ocupação do solo em razão do novo traçado, segundo a área técnica municipal.

Prefeitura vai estudar proteção adicional para áreas próximas às estações

A administração municipal assumiu, entretanto, um compromisso que pode ter efeitos importantes sobre a ocupação dos bairros.

A SP Urbanismo propôs revisar os critérios que impedem determinadas áreas no entorno de estações de serem transformadas em eixos de adensamento.

Atualmente, a legislação já exclui, por exemplo, zonas exclusivamente residenciais. A Prefeitura avalia estudar outras situações, como áreas de interesse cultural e remanescentes de Mata Atlântica, especificamente diante das discussões provocadas pela Linha 20-Rosa.

É uma frente na qual o município pode agir diretamente, independentemente da decisão do Metrô sobre o caminho da linha.

SP Urbanismo quer manter estações no eixo da Faria Lima

Outro ponto relevante registrado na reunião é que a SP Urbanismo manifestou interesse na preservação de estações da Linha 20 dentro do perímetro da Operação Urbana Faria Lima.

De acordo com Pedro Martin Fernandes, quanto maior a presença de estações dentro da Operação Urbana, maior tende a ser a capacidade de gerar valorização e recursos que possam ser reinvestidos naquela própria região.

A ata cita especificamente as estações Tabapuã e “Jesuíno Arruda” no eixo da Faria Lima. Há, neste ponto, uma divergência de nomenclatura no próprio registro: documentos oficiais recentes da Prefeitura identificam a estação como Jesuíno Cardoso.

O município informou ainda que estações localizadas fora do perímetro da Operação Urbana deixam de estar diretamente ao alcance de parte desses investimentos.

Município colocou R$ 120 milhões no projeto

A discussão ocorre pouco mais de dois meses depois de a Prefeitura formalizar um aporte de R$ 120 milhões para a Linha 20-Rosa.

O convênio foi firmado em 6 de julho de 2026 entre SMUL, SP Urbanismo, Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte e Metrô.

Os recursos vêm da Operação Urbana Consorciada Faria Lima e podem ser empregados na elaboração de projetos, obras e outros serviços relacionados à futura linha. O convênio tem vigência de 60 meses e prevê acompanhamento técnico, prestação de contas e fiscalização.

Segundo a Prefeitura, o projeto atualmente considerado para a Linha 20-Rosa possui aproximadamente 32,6 quilômetros e 24 estações, ligando São Paulo, São Bernardo do Campo e Santo André. A estimativa divulgada pelo município é de atendimento a cerca de 1,3 milhão de passageiros por dia útil.

Prefeitura diz que ainda não recebeu todos os dados técnicos do Metrô

Apesar do aporte financeiro, a SP Urbanismo informou durante a reunião que ainda não teve acesso a dados técnicos solicitados pelos participantes, como porte das futuras estações, tempos de transferência e outros aspectos da operação e integração da Linha 20.

Segundo a empresa municipal, os projetos técnicos deverão ser apresentados pelo Metrô no âmbito do convênio e passarão pela análise da SP Urbanismo.

O documento diz que o convênio é recente e que os projetos continuam em desenvolvimento.

A Prefeitura também afirmou que não considera sua atribuição questionar instrumentos estritamente técnicos de competência do Metrô, mas se comprometeu a examinar os critérios apresentados, inclusive o atendimento à demanda atual, que, de acordo com a manifestação registrada na ata, também poderia favorecer a manutenção de estações no eixo da Faria Lima.

Moradores questionam mudança e pedem comparação das alternativas

Durante a reunião, representantes de associações e moradores contestaram o deslocamento da linha.

Entre os pedidos estão a apresentação dos estudos geotécnicos das diferentes alternativas, comparação dos custos de implantação, dados de demanda, capacidade das estações e tempos de transferência entre linhas.

Representantes da Associação dos Amigos dos Jardins relataram ter contratado uma análise independente para contestar a mudança e disseram que uma notícia de fato foi apresentada ao Ministério Público.

Essas manifestações são posições de moradores e entidades e não conclusões técnicas da Prefeitura ou do Metrô.

Prefeitura terá de responder seis perguntas

O Conselho Participativo formalizou seis questões à administração municipal.

Entre elas estão os estudos que a Prefeitura possui sobre os impactos urbanísticos, ambientais, patrimoniais e sociais das alternativas, a influência que o município pretende exercer em razão do aporte de R$ 120 milhões e a origem da decisão que deslocou a linha do eixo da Faria Lima.

Como encaminhamento, ficou prevista uma devolutiva da Prefeitura ainda neste semestre, preferencialmente em formato de fórum, além da construção de uma discussão conjunta com presença do Metrô.

Também será acompanhada uma audiência pública sobre a Linha 20-Rosa que, segundo a ata, já foi aprovada pela Comissão de Transporte da Câmara Municipal de São Paulo.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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