Monotrilhos batidos em leilão: Metrô de São Paulo coloca em leilão com lance inicial de R$ 285,4 mil estruturas dos trens M22 e M23 da Linha 15-Prata que bateram em 2019

Lote reúne aproximadamente 14 caixas de carros das duas composições do monotrilho, que nunca mais voltaram à operação após colisão em Jardim Planalto; disputa online será em 29 de setembro e inclui ainda trilhos, rodas, eixos, discos de freio e outros materiais ferroviários

ADAMO BAZANI

O Metrô de São Paulo colocou em leilão as estruturas remanescentes dos trens M22 e M23 do monotrilho da Linha 15-Prata, envolvidos em uma colisão em janeiro de 2019 e que desde então não retornaram à operação comercial. O lote específico dos dois trens tem lance inicial de R$ 285.368,72 e reúne aproximadamente 14 “caixas dos carros”, expressão técnica usada para identificar as estruturas que formam os corpos dos veículos ferroviários. A disputa será online em 29 de setembro de 2026.

A quantidade chama atenção porque cada composição da Frota M da Linha 15-Prata é formada por sete carros, portanto os dois trens completos originalmente somavam exatamente 14 carros. Isso não significa, porém, que estejam sendo vendidos dois trens completos e aptos a circular: o anúncio identifica especificamente as caixas dos carros, e não conjuntos operacionais com todos os equipamentos de tração, controle, rodas, pneus, sistemas elétricos e demais componentes necessários ao funcionamento. Os M22 e M23 bateram na noite de 29 de janeiro de 2019, próximo à Estação Jardim Planalto, quando estavam vazios. Uma investigação do próprio Metrô concluiu posteriormente que uma ação humana tornou o M22 “invisível” para o sistema de sinalização CBTC e permitiu a colisão com o M23.

Leilão será em 29 de setembro e tem 40 lotes

O leilão tem como comitente a Companhia do Metropolitano de São Paulo e será conduzido pelo leiloeiro oficial Paulo Cesar de Carvalho, registrado na Jucesp sob nº 882.

A disputa será realizada pela internet em 29 de setembro de 2026, com encerramento do primeiro lote a partir das 10h. Ao todo, a relação publicada possui 40 lotes.

A visitação está programada para 23, 24, 25 e 28 de setembro, das 9h às 11h e das 13h30 às 16h, mediante agendamento.

O Metrô relaciona como locais de visitação e retirada os pátios e instalações no Jabaquara, Itaquera e Oratório, além de um canteiro de obras na Avenida Doutor Orêncio Vidigal. Na listagem do lote 84, relativo aos M22 e M23, o portal do leilão indica aproximadamente 14 peças e menciona o Pátio Jabaquara.

O que exatamente está sendo leiloado dos M22 e M23

O lote 84 aparece no portal com a descrição “caixas dos carros dos trens M22 e M23”.

O lance inicial é de R$ 285.368,72.

O anúncio informa aproximadamente 14 peças.

No vocabulário ferroviário, “caixa” é essencialmente o corpo estrutural do carro, a parte que constitui a estrutura física do veículo e recebe revestimentos, portas, janelas, equipamentos internos e diversos subsistemas.

No caso do monotrilho da Linha 15-Prata, essa informação é ainda mais relevante porque a caixa dos carros é construída em alumínio. O próprio Metrô destaca essa característica técnica como uma das soluções adotadas para redução de peso da Frota M.

Assim, é inadequado interpretar o lote como a venda de dois “trens usados” que poderiam simplesmente ser comprados e colocados novamente para transportar passageiros.

O que está indo a leilão são estruturas remanescentes de composições que deixaram de integrar a frota operacional depois do acidente.

M22 e M23 eram trens de sete carros

A Linha 15-Prata utiliza trens da tecnologia Innovia 300, originalmente fornecidos pela Bombardier Transportation, fabricante posteriormente incorporada à Alstom.

Cada composição possui sete carros, passagem livre entre eles e aproximadamente 85 metros de comprimento.

O Metrô informa capacidade de pouco mais de mil passageiros por composição, considerando seis passageiros por metro quadrado. A frota opera com sustentação e guiagem por pneus sobre vigas de concreto, diferentemente dos metrôs convencionais com rodas de aço sobre trilhos.

A frota inicial da Linha 15 recebeu 27 trens desse modelo.

Posteriormente, o Metrô contratou outros 19 trens, também com sete carros, para ampliar a frota diante das expansões da linha. A Alstom assumiu o fornecimento depois da aquisição da área ferroviária da Bombardier.

ACIDENTE: trens bateram por volta das 23h em Jardim Planalto

A história dos M22 e M23 mudou na noite de 29 de janeiro de 2019.

Como mostrou o Diário do Transporte na ocasião, por volta das 23h, um dos trens seguia vazio para uma área não operacional, utilizada para manobras, quando colidiu com outra composição que estava parada na plataforma da Estação Jardim Planalto.

A estação ainda não recebia passageiros naquele período e as composições estavam vazias. Não houve passageiros envolvidos no acidente.

As imagens mostraram danos significativos nas partes dianteiras das duas composições.

Apesar do acidente, a operação da Linha 15-Prata ocorreu normalmente na manhã seguinte.

O Metrô abriu uma sindicância para descobrir o que havia provocado uma colisão em um sistema que utiliza sinalização e controle automático dos trens.

Metrô concluiu que M22 ficou “invisível” para o CBTC

Uma semana depois, em 5 de fevereiro de 2019, o Metrô divulgou o resultado de sua Comissão Permanente de Segurança.

Segundo a companhia, houve falha humana.

A conclusão divulgada pelo Metrô foi de que uma ação humana tornou o M22, que estava estacionado na plataforma de Jardim Planalto, invisível para o CBTC, permitindo que o M23 avançasse e colidisse com ele.

O CBTC, sigla em inglês para Communications-Based Train Control, é o sistema de sinalização baseado em comunicação utilizado para identificar, localizar e controlar a circulação das composições.

É justamente uma das tecnologias responsáveis por manter distâncias seguras entre os trens.

Depois da apuração, o Metrô informou que os procedimentos operacionais da Linha 15-Prata, especialmente os ligados à segurança, passariam por uma revisão rigorosa para reduzir a possibilidade de novas ocorrências.

Sindicato contestou explicação; Bombardier defendeu o sistema

A conclusão do Metrô não encerrou a controvérsia à época.

O Sindicato dos Metroviários sustentou que existia uma vulnerabilidade na comunicação e no controle dos trens. A entidade questionou o fato de uma composição poder deixar de ser detectada pelo sistema.

A Bombardier contestou a interpretação sindical e afirmou que a colisão não decorreu de falha do CBTC, alinhando-se à conclusão apresentada pelo Metrô de que houve intervenção humana.

Portanto, historicamente, houve posições diferentes sobre as implicações técnicas da ocorrência, embora o laudo oficial da companhia tenha atribuído o acidente à ação humana.

Oito anos depois do acidente, destino físico das composições começa a ser encerrado

Desde a colisão, os prefixos M22 e M23 desapareceram da frota operacional da Linha 15-Prata.

Agora, o leilão dá uma destinação definitiva pelo menos às caixas de seus carros.

Um documento financeiro oficial do próprio Metrô traz ainda um detalhe importante sobre o patrimônio ligado aos dois trens.

Nas informações trimestrais referentes a março de 2026, a companhia registrou uma reversão de perda relacionada à identificação de recuperabilidade de sistema proveniente dos trens M22 e M23, mencionando expressamente que as composições sofreram a colisão de 2019.

Isso mostra que, contabilmente, componentes ou sistemas relacionados às duas composições ainda tiveram algum valor recuperável identificado pelo Metrô.

O documento não especifica quais peças foram recuperadas nem estabelece que todos os equipamentos das duas composições tenham sido reaproveitados.

Por essa razão, também é importante diferenciar os componentes aproveitáveis das estruturas que agora aparecem formalmente no leilão.

Linha 15 teve outra colisão em 2023

Quatro anos depois do acidente dos M22 e M23, a Linha 15-Prata registrou outra colisão entre composições.

Em 8 de março de 2023, os trens M14 e M15 bateram nas proximidades da Estação Sapopemba, antes do início da operação comercial.

As composições também estavam sem passageiros, mas um operador ficou ferido. A operação precisou ser interrompida e ônibus da Operação PAESE foram acionados. A Avenida Sapopemba também sofreu interdições por causa do risco de desprendimento de peças dos trens elevados.

Na época, os M22 e M23 continuavam fora de operação desde a colisão de 2019.

Os M14 e M15, ao contrário dos dois trens que agora têm suas caixas levadas a leilão, foram posteriormente recuperados.

Leilão vai muito além dos dois monotrilhos

As estruturas dos M22 e M23 são o lote de maior interesse histórico para a Linha 15-Prata, mas representam apenas uma parte dos bens colocados à venda pelo Metrô.

Também estão relacionados trilhos de aço, rodas usadas de carros metroviários, eixos de trens, discos de freio, transformadores, baterias de chumbo, cabos, cobre, alumínio, aço carbono, extintores e outros equipamentos e materiais.

Só o lote de trilhos reúne aproximadamente 299 toneladas de material entre os pátios Jabaquara e Itaquera, com lance inicial de R$ 596,5 mil.

Outro lote reúne aproximadamente 278 toneladas de aço carbono, com início em R$ 417 mil.

As cerca de 14 caixas dos M22 e M23 formam o lote 84, com lance inicial de R$ 285,4 mil.

Venda não significa retirada de trens que hoje atendem passageiros

Para o usuário da Linha 15-Prata, o leilão não representa redução da frota atualmente utilizada na operação.

Os M22 e M23 já estavam afastados havia anos e não integravam a oferta regular de trens aos passageiros.

A Linha 15-Prata opera atualmente entre Vila Prudente e Jardim Colonial, com 11 estações. O projeto continua em expansão, e o Metrô prevê uma frota maior para os prolongamentos do sistema.

O que o leilão representa é o encerramento de mais uma etapa da trajetória de duas composições que entraram para a história problemática do monotrilho paulistano: os M22 e M23, que deixaram de transportar passageiros depois da colisão de 2019 e cujas estruturas agora estão oficialmente sendo oferecidas ao mercado.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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