O papel do transporte rodoviário no acesso a lazer, bem-estar e na qualidade de vida dos brasileiros

Em um país onde o ônibus alcança lugares que outros modais não chegam, preço, oferta e acesso ao transporte ajudam a definir quem consegue transformar o tempo livre em descanso, lazer e encontros com familiares e amigos

ALEXANDRE PELEGI

A discussão sobre qualidade de vida ganhou uma nova dimensão no Brasil nos últimos anos. A transformação das relações de trabalho, o avanço da tecnologia e uma rotina cada vez mais conectada trouxeram ganhos de flexibilidade, mas também tornaram menos claras as fronteiras entre o tempo profissional e o pessoal.

Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por burnout passaram de 823, em 2021, para 7.595 em 2025, crescimento superior a 800% em quatro anos. No mesmo período, questões relacionadas à saúde mental ganharam maior espaço no debate sobre trabalho, produtividade e qualidade de vida.
É nesse contexto mais amplo que descanso, lazer e convivência também ganham relevância. Fazer uma pausa, mudar de ambiente ou simplesmente passar tempo com familiares e amigos são experiências que fazem parte da vida e do bem-estar das pessoas. E, para que elas aconteçam, existe uma condição muitas vezes menos lembrada: conseguir chegar.

O tema esteve entre as reflexões apresentadas por Edson Lopes, CEO da FlixBus, durante o SP2B, realizado em agosto, em São Paulo. As mudanças na forma como as pessoas trabalham e organizam a rotina também ajudam a lançar um novo olhar sobre os motivos pelos quais elas se deslocam.
Dados do Brand Tracking Research da FlixBus ajudam a estimar essa relação. Entre os brasileiros que viajam durante as férias, 58% associam esse período à busca por relaxamento e uma pausa para cuidar da saúde mental. As conexões pessoais também aparecem com força: 60% dos entrevistados afirmam viajar para visitar amigos e familiares.
Os números mostram que, mesmo em uma sociedade cada vez mais digital, as experiências presenciais continuam relevantes. Na visão de Lopes, a tecnologia pode facilitar o trabalho a distância, o consumo e o acesso a serviços, mas não substitui o encontro com familiares, uma viagem de descanso ou a possibilidade de sair temporariamente da rotina.

Para a FlixBus, nesse contexto, o transporte assume um papel que vai além de conectar uma origem a um destino. Uma rede acessível amplia as possibilidades para que mais pessoas possam chegar a familiares, destinos turísticos e experiências de lazer e descanso que fazem parte de sua qualidade de vida.

O acesso ao descanso passa pelo transporte — e esbarra no preço

Essa relação ganha ainda mais importância em um país com as dimensões e desigualdades do Brasil.

O transporte rodoviário interestadual é essencial para a integração territorial, econômica e social do país, garantindo acesso à educação, saúde, trabalho, visitas familiares e lazer. Só no último ano, o modal interestadual regular transportou quase 37 milhões de passageiros e, para muitos brasileiros, o ônibus é a opção mais acessível ou a única para viajar entre cidades e estados. Nesse contexto, o preço da passagem pode determinar não apenas o meio de transporte, mas até mesmo a realização ou não de uma viagem.

Na visão da FlixBus, esse aspecto ganha mais relevância diante do comportamento recente dos preços das passagens. Dados de 2025 revelaram que o transporte interestadualobservou uma queda no número de passageiros transportados de quase 9% em comparação com o ano anterior, uma diferença de quase 4 milhões de usuários. No mesmo período, segundo a ANTT, os preços médios das passagens chegaram a aumentar até 22%, com a tendência sendo observada em quase todas as faixas de distância avaliadas na publicação.

Segundo a empresa, é nesse ponto que a discussão sobre qualidade de vida encontra uma questão essencial para o futuro da mobilidade: acesso.

A FlixBus entende que ampliar o acesso ao transporte rodoviário passa por criar condições para que viajar continue sendo uma possibilidade para diferentes faixas de renda. Isso envolve ampliar a oferta de rotas e horários, estimular a concorrência e oferecer ao passageiro mais opções de preço e de escolha.

Para a FlixBus, tecnologia e novos modelos de operação têm papel importante nesse processo. O uso de dados permite compreender mudanças na demanda e identificar oportunidades de conexão entre cidades, enquanto a digitalização torna mais simples a experiência de pesquisar destinos, comparar opções e comprar passagens.
Quanto mais opções estiverem disponíveis,
maior tende a ser a capacidade do passageiro de encontrar uma viagem compatível com sua necessidade e seu orçamento.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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