Eletromobilidade

Auto Bless mira frota 100% elétrica e Valter Bispo diz que operação já recupera passageiros em São Paulo

Empresário afirma que pretende chegar ao fim de 2026 com a frota totalmente ou quase totalmente eletrificada; após viagem à China, aponta disponibilidade de energia como principal diferença para a expansão dos ônibus elétricos no Brasil

ALEXANDRE PELEGI

A Auto Bless pretende encerrar 2026 com a totalidade, ou praticamente a totalidade, de sua frota de ônibus convertida para veículos elétricos. A afirmação é de Valter Bispo, empresário à frente da operadora paulistana, que também revela que a empresa já comprou os veículos previstos para completar o processo de eletrificação neste ano.

Em entrevista ao Diário do Transporte, Bispo afirmou que a experiência acumulada pela empresa reforçou sua convicção de que a eletrificação é um caminho sem volta para o transporte coletivo.

“O elétrico veio para ficar. Quem não se adaptou ou quem está começando a se adaptar vai ver que a diferença é muito grande”, declarou.

Segundo o empresário, o avanço da frota elétrica já trouxe reflexos não apenas nos custos de operação e manutenção, mas também na procura pelo transporte coletivo. Bispo afirma que, depois de eletrificar aproximadamente um quarto da frota, a Auto Bless registrou um acréscimo da ordem de 600 mil passageiros transportados.

Ele relaciona parte desse crescimento à preferência dos usuários pelos veículos elétricos.

“Se o cliente vê um ônibus a diesel e um ônibus elétrico, para um itinerário mais ou menos igual, ele entra no elétrico”, afirmou.

Para Bispo, a melhoria da qualidade do serviço está ajudando a recuperar parte da demanda perdida durante a pandemia.

O empresário cita como exemplo as linhas que atendem a região de Paraisópolis, na capital paulista. Segundo ele, moradores que haviam migrado para deslocamentos a pé, por motocicleta ou por aplicativos de transporte estariam voltando a utilizar o ônibus.

“Nós estamos recuperando o passageiro que perdemos na pandemia”, disse.

China mostra outro estágio da eletrificação

Bispo falou ao Diário do Transporte depois de uma viagem à China, onde conheceu operações e estruturas relacionadas à eletrificação, incluindo instalações ligadas à BYD.

Uma das principais diferenças que chamou sua atenção foi a disponibilidade de energia elétrica.

“Nós estamos atrasados no nível de energia. Enquanto aqui a gente sofre para as garagens terem energia, lá sobra energia”, afirmou.

Ele relatou ter conhecido uma garagem chinesa com disponibilidade próxima de 30 MW, enquanto sua operação em São Paulo conseguiu cerca de 4 MW, mesmo após aproximadamente dois anos buscando ampliar o fornecimento.

Na avaliação do empresário, esse é um dos maiores obstáculos para a eletrificação em grande escala no Brasil.

Na China, segundo Bispo, algumas estruturas de recarga não servem exclusivamente aos ônibus. A infraestrutura pode atender também caminhões, veículos de serviço e outros consumidores, transformando a energia em atividade comercial.

“Aqui nós nos preocupamos com a energia. Lá eles se preocupam em vender energia”, resumiu.

Carregamento de oportunidade ajuda a contornar limitação

A Auto Bless tenta compensar a restrição da infraestrutura energética com uma operação planejada de recargas.

Bispo explica que nem todos os ônibus precisam atingir 100% de carga durante a madrugada. Parte da frota retorna à garagem nos períodos de entrepico para receber nova carga.

A localização da garagem também favorece essa estratégia, por estar próxima aos trajetos operados.

“Se eu fizer isso muito bem ajustado, eu consigo fazer com que a minha frota 100% seja carregada”, afirmou.

Além da rede convencional, a empresa estuda outras possibilidades para ampliar a disponibilidade energética, incluindo geração solar e sistemas de armazenamento.

Bispo também mencionou uma tecnologia experimental desenvolvida por uma empresa brasileira envolvendo água e turbinas. O próprio empresário ressaltou, entretanto, que se trata de uma solução ainda em desenvolvimento, sem testes conclusivos, e que existem informações protegidas por acordo de confidencialidade.

Realidade brasileira exige adaptação

A viagem também reforçou para Bispo a diferença entre as condições operacionais das cidades chinesas e brasileiras.

Ele destaca que vias mais largas, pavimento de melhor qualidade e cidades planejadas facilitam a operação de ônibus na China.

Em São Paulo, aclives, declives, valetas e vias estreitas exigem veículos e estratégias específicas.

“Aqui a gente tem que ser mais criativo. Lá, na realidade, eles operam. Aqui a gente tem que ficar arrumando soluções”, afirmou.

O empresário citou Shenzhen como exemplo de cidade cuja expansão urbana ocorreu de maneira relativamente recente e planejada.

Bispo também conheceu soluções de transporte sob demanda, nas quais passageiros utilizam aplicativos para solicitar viagens em ônibus, em um modelo que ele compara ao funcionamento de serviços como Uber, porém com veículos coletivos.

Ônibus autônomos já fazem parte da realidade chinesa

Outro ponto que chamou a atenção foram os ônibus autônomos.

Segundo Bispo, a tecnologia já está em operação em ambientes e percursos previamente definidos na China.

Apesar dessas inovações, ele afirma não ter identificado, durante a viagem, outra tecnologia de propulsão com capacidade de substituir no curto prazo o ônibus elétrico a bateria.

“Para nós, eu acho que é sem volta. Não tem uma tecnologia que supera o elétrico”, disse.

Manutenção pode cair drasticamente

Uma das vantagens mais significativas percebidas pela Auto Bless está na manutenção.

Segundo Bispo, considerando determinadas atividades mecânicas e estruturais, a necessidade de mão de obra pode chegar a uma relação próxima de nove para um, na comparação entre ônibus a diesel e elétricos.

Ele pondera que a empresa ainda precisa atender às regras e estruturas de mão de obra previstas para a operação municipal.

A redução ocorre porque o ônibus elétrico elimina uma série de componentes existentes nos veículos a combustão.

“Eu não tenho bomba, eu não tenho bico, eu não tenho turbina”, exemplificou.

Outro ganho citado é a redução de falhas relacionadas ao sistema de ar-condicionado.

Nos ônibus convencionais, correias e componentes ligados ao motor e ao alternador faziam parte do sistema. Nos elétricos, o ar-condicionado também possui acionamento elétrico.

Bispo afirma ainda que os veículos elétricos apresentam menor índice de quebras, contribuindo para ampliar a regularidade operacional.

Motoristas também sentem a diferença

A eletrificação, segundo o empresário, alterou também as condições de trabalho dos motoristas.

Com menos ruído, ausência de trocas convencionais de marchas, maior torque e climatização mais eficiente, os veículos proporcionariam uma operação menos desgastante.

“Eu acho que o prazer que o motorista está tendo em pegar um carro elétrico é ter uma comodidade maior”, afirmou.

Na avaliação de Bispo, funcionários mais confortáveis também podem prestar um atendimento melhor aos passageiros.

Para o empresário, esse relacionamento precisa começar pela própria forma de enxergar quem utiliza o transporte.

“Para mim, nunca vai ser um passageiro. É meu cliente. Se eu fidelizar ele, ele vai ser meu cliente para o resto da vida”, declarou.

Nova garagem será inteiramente voltada aos elétricos

A transformação da Auto Bless não está restrita à frota.

A empresa está reconstruindo uma garagem localizada na região da divisa de São Paulo com Taboão da Serra para que toda a estrutura seja voltada exclusivamente à operação de ônibus elétricos.

Segundo Bispo, o espaço terá equipamentos específicos para lavagem, manutenção, oficina e funilaria dos veículos elétricos.

“Quando você começa a trabalhar com elétrico, você vê que tem que mudar de pensamento. Se você ficar no pensamento da combustão, você não anda com elétrico”, afirmou.

A empresa também estudou operações fora do Brasil.

Uma equipe da Auto Bless visitou duas garagens com frota integralmente elétrica na Colômbia, buscando referências para estruturar a nova instalação brasileira.

Estoque de peças deve cair de 1.200 para cerca de 300 itens

A mudança tecnológica deve produzir também forte impacto no estoque.

Bispo afirma que a empresa mantém atualmente aproximadamente 1.200 itens para atender à manutenção de sua frota convencional.

Com os ônibus elétricos, a expectativa é trabalhar com algo próximo de 300 itens, grande parte relacionada à carroceria.

“De chassi é muito pouco”, afirmou.

A redução do número de componentes é uma das razões pelas quais o empresário considera a tecnologia elétrica estruturalmente mais simples para a operação.

Menos óleo e menor impacto ambiental na garagem

Os benefícios ambientais aparecem ainda em situações cotidianas da operação.

Bispo relata que, na frota a diesel, era necessário realizar constantemente a limpeza de resíduos de óleo acumulados no pátio.

Com os elétricos, segundo ele, esse problema praticamente desaparece.

A mudança reduz a necessidade de tratamento desses resíduos e complementa a redução das emissões locais proporcionada pelos veículos de emissão zero no escapamento.

100% elétrico ainda em 2026

A Auto Bless já adquiriu os veículos necessários para avançar até a eletrificação integral de sua operação neste ano, segundo Bispo.

O cumprimento da meta dependerá, entre outros fatores, do cronograma de entrega dos veículos e da infraestrutura disponível.

“Se der para entregar todos os carros, esse ano ainda a gente troca 100% da nossa frota para elétrico”, declarou.

Para o empresário, a experiência dos últimos anos mostra que a aposta inicial, considerada ousada por parte do setor, começa a produzir resultados.

“Quando eu comecei a colocar os elétricos, escutei algumas pessoas perguntando: ‘O que você está vendo nisso? Por que você está fazendo isso? Você é louco’. Hoje estão dizendo: ‘Você andou na frente e agora a gente está correndo e não consegue alcançar’.”

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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