CNTTL propõe protesto nacional de trabalhadores dos transportes pelo fim da escala 6×1; empresas alertam para custos e risco de pressão sobre tarifas

Confederação sindical quer mobilização em capitais e grandes cidades, mas data e formato ainda serão definidos; CNT defende negociação coletiva e NTU estima que jornada de 40 horas poderia elevar em cerca de 15% os custos com motoristas de ônibus urbanos

ADAMO BAZANI

A CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística) propôs nesta sexta-feira, 11 de setembro de 2026, a realização de uma mobilização nacional dos trabalhadores do setor em defesa do fim da escala 6×1 e da redução da jornada semanal sem diminuição dos salários. A proposta prevê atos em capitais e outras cidades importantes, mas ainda não há data definida nem confirmação de paralisação dos serviços. Os detalhes serão discutidos na segunda-feira (14), em reunião ampliada com sindicatos e federações ligados à entidade.

O movimento ocorre poucos dias depois de a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado aprovar a PEC 221/2019, que reduz gradualmente a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas e estabelece dois dias de repouso remunerado, sem redução salarial. Do outro lado da discussão, entidades que representam empresas de transportes afirmam não ser contrárias ao debate sobre qualidade de vida e condições de trabalho, mas alertam para impactos operacionais e financeiros. A CNT (Confederação Nacional do Transporte) defende que mudanças sejam negociadas de acordo com as particularidades de cada atividade, enquanto a NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) calcula que, nos ônibus urbanos, a redução para 40 horas pode elevar em aproximadamente 15% os custos ligados aos motoristas e pressionar tarifas ou subsídios públicos.

PROTESTO AINDA NÃO TEM DATA NEM FORMATO DEFINIDOS

A proposta foi apresentada durante reunião da Diretoria Nacional da CNTTL pelo presidente da entidade, Paulo João Estausia, conhecido como Paulinho do Transporte, e pelo secretário de Transporte e Logística da CUT, Wagner Menezes, o Marrom.

Segundo a confederação, a intenção é reunir sindicatos e federações de diferentes segmentos dos transportes e da logística numa mobilização de alcance nacional.

A CNTTL informa que a próxima etapa será uma reunião na segunda-feira (14), às 17h, com dirigentes sindicais para definir data, organização e formas de participação.

Até o momento, entretanto, o comunicado da entidade não anuncia uma greve nacional, nem informa quais serviços poderiam ser afetados.

Também não há definição sobre duração dos atos, eventual suspensão de operações ou participação efetiva de categorias específicas, como motoristas de ônibus urbanos, rodoviários, metroferroviários, ferroviários, portuários ou trabalhadores do transporte de cargas.

O que existe, neste momento, é uma proposta de protesto a ser organizada pelas entidades sindicais.

Paulinho do Transporte afirmou que o objetivo é utilizar a capacidade de mobilização dos trabalhadores do setor para pressionar pela aprovação da mudança no Congresso.

“Precisamos fazer uma grande mobilização nacional e mostrar a força dos trabalhadores em transportes”, afirmou o dirigente.

TRABALHADORES DEFENDEM MAIS DESCANSO SEM PERDA SALARIAL

Para a CNTTL, o fim da escala em que o empregado trabalha seis dias e descansa um permitiria ampliar o tempo disponível para repouso, convivência familiar e vida pessoal.

A reivindicação da confederação não se limita à organização semanal: a entidade também defende redução da carga horária sem redução dos salários.

Segundo Wagner Menezes, a mobilização deverá ser acompanhada de diálogo com a sociedade para explicar os objetivos defendidos pelo movimento sindical.

A reivindicação tem apoio majoritário da população segundo pesquisa Datafolha realizada entre 3 e 5 de março de 2026. O levantamento mostrou que 71% dos entrevistados defendiam a redução do número máximo de dias trabalhados por semana, 27% eram contrários e 3% não responderam. Foram ouvidas 2.004 pessoas em 137 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais.

O próprio levantamento, entretanto, mostrou maior divisão quando a pergunta tratava das consequências para as empresas: 39% acreditavam que o efeito seria positivo e outros 39%, negativo.

EMPRESAS DE TRANSPORTE PEDEM CAUTELA E NEGOCIAÇÃO POR SETOR

As entidades empresariais do transporte apresentam outra preocupação.

A CNT afirma que a discussão deve considerar que parte significativa do setor opera continuamente, inclusive à noite, aos fins de semana e feriados, e que uma redução uniforme da jornada pode exigir mais contratações para manter a mesma oferta de serviços.

A entidade não rejeita expressamente a discussão sobre redução da jornada, mas sustenta que o tema deveria ser tratado prioritariamente por negociação coletiva entre empresas e trabalhadores.

Segundo a CNT, acordos e convenções permitiriam adaptar jornadas às características de cada atividade, região e empresa.

A confederação também argumenta que existem atividades nas quais a escala 5×2 já é possível e praticada, enquanto outras apresentam maior dificuldade operacional.

FALTA DE MOTORISTAS É UM DOS ARGUMENTOS DO SETOR EMPRESARIAL

Uma das principais preocupações apresentadas pela CNT é a disponibilidade de trabalhadores.

Pesquisa citada pela entidade aponta que, no transporte urbano de passageiros, 53,4% das empresas consultadas relataram escassez de motoristas e 63,2% dificuldade para encontrar mecânicos e profissionais de manutenção.

No transporte rodoviário de cargas, pesquisa anterior apontou falta de motoristas profissionais para 65,1% das empresas consultadas.

Para a CNT, se houver redução da carga individual de trabalho sem disponibilidade suficiente de profissionais para preencher novas escalas, pode haver aumento de custos e dificuldade para manter a regularidade dos serviços.

A posição representa a avaliação da entidade empresarial e não uma projeção oficial do Governo ou do Congresso.

PARA EMPRESAS DE ÔNIBUS, JORNADA DE 40 HORAS PODERIA ELEVAR CUSTO COM MOTORISTAS EM 15%

No transporte público coletivo urbano, a NTU apresentou cálculos mais específicos.

Segundo simulações divulgadas pela entidade em maio de 2026, a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas poderia elevar em cerca de 15% os custos relacionados aos motoristas.

Uma eventual redução para 36 horas produziria impacto calculado pela associação em até 33%.

A NTU informa que a mão de obra representa 43,1% do custo total da operação dos sistemas urbanos de ônibus.

A associação argumenta que, para manter a mesma quantidade de viagens e horários com jornadas individuais menores, empresas poderiam precisar contratar mais profissionais.

Dependendo da forma de financiamento de cada sistema, esse aumento poderia ser absorvido por tarifas mais altas, ampliação de subsídios dos municípios e estados ou outras fontes de financiamento público.

A entidade, portanto, teme que uma mudança sem compensação ou transição tenha efeito sobre o preço ou o financiamento do serviço.

NTU TAMBÉM CITA POSSÍVEL PERDA DE HORAS EXTRAS

A NTU apresenta ainda outro argumento, desta vez relacionado à renda dos próprios trabalhadores.

Segundo a associação empresarial, a reorganização das escalas poderia reduzir a quantidade de horas extras realizadas por motoristas, diminuindo uma parcela da remuneração efetivamente recebida por profissionais que hoje dependem desses adicionais.

A entidade avalia ainda que alguns trabalhadores poderiam buscar atividades complementares nos períodos livres, inclusive como motoristas de aplicativos, o que, na visão da NTU, poderia aumentar o tempo total de trabalho e a fadiga.

Esse entendimento difere da posição da CNTTL, que considera que a redução da jornada sem redução salarial representaria melhoria na qualidade de vida e no tempo de descanso dos trabalhadores.

PEC PREVÊ 40 HORAS E DOIS DIAS DE DESCANSO

A proposta atualmente mais avançada no Congresso é a PEC 221/2019.

O texto aprovado pela CCJ do Senado estabelece jornada máxima de 40 horas por semana, oito horas por dia e dois dias de repouso semanal remunerado, sendo um deles preferencialmente aos domingos.

A mudança não ocorreria de uma vez.

Dois meses após eventual promulgação, a jornada máxima passaria de 44 para 42 horas semanais.

Um ano depois dessa primeira redução, cairia para 40 horas.

A proposta também mantém a possibilidade de compensação de horários e prevê espaço para acordos e convenções coletivas dentro dos limites constitucionais.

CONTRATOS DE ÔNIBUS E CONCESSÕES TÊM REGRA ESPECÍFICA

Há um ponto do texto particularmente importante para o setor de transportes públicos.

Nos contratos da administração pública que envolvam mão de obra, incluindo concessões de serviços e obras, a redução da jornada somente deverá ser aplicada depois de um aditamento contratual destinado a preservar o equilíbrio econômico-financeiro.

O texto estabelece prazo de até um ano para esta adequação.

Já o segundo dia de repouso semanal entraria em vigor dois meses depois da promulgação, independentemente do aditamento.

A regra é relevante para concessões de ônibus urbanos e metropolitanos porque os contratos costumam ter planilhas de custos que consideram número de empregados, salários, encargos e jornadas.

Assim, uma eventual necessidade de ampliar o quadro de motoristas poderia levar à discussão sobre reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos.

PROPOSTA AINDA NÃO ESTÁ APROVADA DEFINITIVAMENTE

A CCJ do Senado aprovou o parecer favorável à PEC em 2 de setembro de 2026.

Nesta sexta-feira (11), a matéria está pronta para análise do Plenário, mas ainda aguarda inclusão na Ordem do Dia.

Por se tratar de emenda à Constituição, são necessários dois turnos de votação e pelo menos três quintos dos senadores — 49 votos — em cada votação.

O texto analisado pelo Senado é o mesmo aprovado anteriormente pela Câmara dos Deputados. Se for aprovado sem alterações pelos senadores, poderá seguir para promulgação.

Portanto, tanto a mobilização anunciada pela CNTTL quanto os alertas das entidades empresariais ocorrem antes de uma decisão definitiva do Congresso.

De um lado, sindicatos argumentam que trabalhadores precisam de mais tempo de descanso e defendem a manutenção integral dos salários.

Do outro, empresas e entidades representativas alertam que transportes de passageiros e cargas funcionam de forma contínua e podem precisar aumentar quadros de pessoal e custos para conservar a mesma oferta.

O debate que chegará ao Plenário do Senado envolve, assim, não apenas a duração da jornada, mas também quem absorverá os custos da reorganização — empresas, poder público, sistemas tarifários — e até que ponto a negociação coletiva poderá adaptar as novas regras às diferentes atividades do transporte.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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