História

CURIOSIDADE: Já que a moda foi lembrar os anos 1980, por que não com os ônibus, mas de um jeito diferente

Projeções de pinturas dos anos 1980 em ônibus modernos e pinturas atuais em modelo dos anos 1980, presenteadas ao Diário do Transporte, trazem resultados interessantes e curiosos

ADAMO BAZANI

Colaborou Arthur Ferrari

A internet é cheia de modinhas e ondas que logo passam. Boa parte, é verdade, sem utilidade nenhuma, mas algumas são, ao menos, curiosas.

Nesta semana, uma delas foi reviver os anos 1980, um dos mais agitados do mundo em relação à cultura, contracultura, formação de novos hábitos, costumes, evolução industrial e profundas alterações econômicas, políticas e geopolíticas.

E, nesta onda, o Diário do Transporte foi presenteado com montagens cujos resultados ficaram bastante interessantes.

Trata-se de pinturas de ônibus bem comuns dos anos 1980 em modelos novos e, em dois casos, pinturas atuais em um modelo desta década.

Como a leitora, que nem quis ser identificada, sabia que este repórter é do ABC Paulista, não teve dúvidas: pegou fotos antigas de ônibus da região e fotos atuais e fez a arte.

Os veículos/montagens são:

  • Turismo Bozzato, fretamento de Mauá (SP), em uma carroceria Marcopolo Paradiso G8 1200 – Geração Oito (foto original, um veículo da Viação Garcia).

  • Bonini Turismo, fretamento de São Bernardo do Campo (SP), em uma carroceria Marcopolo Paradiso G8 1200 – Geração Oito (foto original, um veículo da Viação Garcia).

  • Viação Padroeira do Brasil, urbana e metropolitana intermunicipal de Santo André (SP), em uma carroceria Marcopolo Torino – 2027 (novo Torino) – foto original com a pintura da própria Marcopolo.

  • Empresa Auto Ônibus Circular Humaitá, urbana e metropolitana intermunicipal de Santo André (SP), em uma carroceria Caio Apache Vip 4 – foto original é um ônibus da Viação Guaianazes – detalhe: a empresa é oriunda da Humaitá.

  • Expresso Brasileiro Viação Ltda., rodoviário e metropolitano de São Paulo (SP), em uma carroceria Marcopolo Paradiso 1600 LD – foto original de divulgação da Marcopolo. – empresa não é do ABC, mas foi muito marcante na região.

  • Viação Cometa S.A., rodoviária de São Paulo (SP), em uma carroceria Marcopolo Paradiso G8 1200 – Geração Oito – foto original de divulgação da Marcopolo. – empresa também não é do ABC, mas ainda é muito marcante na região.

E o inverso?

O tradicionalíssimo Caio Amélia recebeu as pinturas atuais da Suzantur e Viação Guaianazes (Consórcio União Santo André), ambas urbanas municipais de Santo André (SP), e da BR7 Mobilidade, urbana municipal de São Bernardo do Campo (SP).

O QUE OS ESPECIALISTAS DIZEM SOBRE ESTA ONDA DOS ANOS 1980 NA SEMANA?

A onda que tomou as redes nesta semana consiste principalmente em usar inteligência artificial para transformar fotografias atuais em retratos com cabelos, roupas, maquiagem, cenários e cores associados aos anos 1980. A tendência ganhou força no Instagram e chegou a artistas e personalidades que aderiram às montagens ou, no caso de quem realmente viveu aquele período, passaram a publicar fotografias verdadeiras de seus arquivos.

Mas a explicação não se limita à estética. A estrategista de comunicação Day Nascimento avaliou que o interesse pode representar uma busca por refúgio diante do excesso de informação e da vida permanentemente conectada, com valorização idealizada de maior espontaneidade, privacidade e simplicidade. Pesquisa acadêmica da UFMG sobre a memória dos anos 1980 nas redes também mostra como nostalgia, infância e memória social acabam se misturando na construção coletiva da imagem de uma época.

Há também ressalvas. A professora de Psicologia Monik Monteiro chamou atenção para o fato de imagens muito idealizadas por inteligência artificial poderem interferir na autoestima de algumas pessoas ao criar versões fantasiosas da própria aparência. Ou seja: a brincadeira pode ser divertida, mas é justamente por trabalhar com memória afetiva e identidade que exerce tanto fascínio.

BREVE RETROSPECTO DO PRINCIPAL DOS ANOS 1980 NA CULTURA, ECONOMIA, INDÚSTRIA DE ÔNIBUS, POLÍTICA NACIONAL E GEOPOLÍTICA INTERNACIONAL

CULTURA

Os anos 1980 foram marcados por uma explosão de linguagens visuais e musicais: rock nacional, pop, new wave, heavy metal, videoclipes, sintetizadores, cores fortes, roupas e cabelos volumosos conviveram com a consolidação do videocassete, dos videogames e da televisão como elementos centrais do cotidiano. No Brasil, artistas, bandas e programas de TV que surgiram ou ganharam enorme projeção naquele período acabaram transformando a década em uma fonte permanente de referências estéticas e memória afetiva.

ECONOMIA

No Brasil, a década também ficou associada à chamada “década perdida”, com crise da dívida externa, baixo crescimento em diversos períodos e uma inflação que avançou até níveis extremamente elevados. Planos econômicos, mudanças de moeda, congelamentos de preços e tentativas de controlar a inflação, como os planos Cruzado, Bresser e Verão, passaram a fazer parte da vida cotidiana e ajudaram a marcar uma geração de consumidores e empresas.

INDÚSTRIA DE ÔNIBUS

Para a indústria brasileira de ônibus, os anos 1980 representaram uma fase de forte transformação de desenho, estrutura, conforto e capacidade. A Caio substituiu o Gabriela pelo Amélia no início da década e lançou o Vitória em 1988; a Marcopolo reorganizou sua linha com a Geração IV, da qual nasceram nomes como Torino, Viaggio e Paradiso. Foi também uma época de ampliação das aplicações padron, articuladas e de motor traseiro, acompanhando a expansão das cidades e dos sistemas de transporte coletivo.

POLÍTICA NACIONAL

Politicamente, o Brasil atravessou a transição do regime militar para a democracia. A campanha pelas Diretas Já ganhou as ruas, Tancredo Neves foi eleito indiretamente em 1985, José Sarney assumiu a Presidência após a morte de Tancredo, a Constituição Federal foi promulgada em 1988 e, em 1989, o País voltou a realizar uma eleição direta para presidente depois de quase três décadas.

GEOPOLÍTICA INTERNACIONAL

No cenário internacional, a Guerra Fria ainda dominava a primeira metade da década, com forte tensão entre Estados Unidos e União Soviética, enquanto conflitos como a Guerra Irã-Iraque e a guerra no Afeganistão ocupavam o noticiário. A chegada de Mikhail Gorbachev ao comando soviético, com a perestroika e a glasnost, acelerou mudanças que culminaram simbolicamente na queda do Muro de Berlim, em 1989, sinalizando o encerramento de uma ordem geopolítica que havia marcado praticamente toda a segunda metade do século XX.

BREVE HISTÓRICO DA TURISMO BOZZATO

A história da família Bozzato nos transportes começou muito antes dos anos 1980. Guido Bozzato, imigrante italiano que chegou ao Brasil em 1922, iniciou em 1937 o transporte de passageiros entre Marília e Paraguaçu Paulista com uma jardineira. A família mudou-se para o Grande ABC em 1939, entrou depois no transporte de cargas e, em 1957, adquiriu a Auto Viação Mauá. Na década de 1960, com a industrialização da região e a crescente necessidade de levar trabalhadores às fábricas, o fretamento contínuo passou a ganhar importância e tornou-se uma das marcas da Turismo Bozzato.

BREVE HISTÓRICO DA BONINI TURISMO

A Transporte e Turismo Bonini é uma das tradicionais empresas de fretamento de São Bernardo do Campo. O registro empresarial remonta a junho de 1973, e a companhia construiu sua atuação principalmente no transporte sob regime de fretamento e turismo, atividades diretamente relacionadas ao perfil industrial do ABC Paulista e à necessidade histórica de deslocamento de trabalhadores entre bairros, cidades e fábricas. A empresa permanece com sede em São Bernardo do Campo.

BREVE HISTÓRICO DA VIAÇÃO PADROEIRA DO BRASIL

A história da Padroeira começa antes de a própria empresa adotar esse nome. As origens remontam à linha Vila Assunção–Estação de Santo André, operada desde 1936. A Viação Padroeira do Brasil foi constituída em 1959 e acompanhou de perto a urbanização de Santo André e do ABC, ampliando linhas para Rudge Ramos e posteriormente até a região da antiga fábrica Trol, em São Paulo. Nos anos 1980, modelos como Caio Gabriela, Marcopolo San Remo e Mercedes-Benz O-364 ficaram ligados à sua imagem. A empresa deixou de existir entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, com suas operações sendo assumidas por outras companhias.

BREVE HISTÓRICO DA EMPRESA AUTO ÔNIBUS CIRCULAR HUMAITÁ

A Circular Humaitá surgiu em Santo André nos anos 1950 e, em 1961, foi adquirida pelo empresário Sebastião Passarelli. Nos anos 1970, incorporou a Viação Campestre e, em 1984, passou para um grupo de empresários liderado por Ronan Maria Pinto. A empresa foi durante décadas uma das tradicionais operadoras de Santo André, tanto em ligações municipais como metropolitanas. Em 2004, suas linhas municipais passaram a ser operadas pela Viação Guaianazes, enquanto a Humaitá permaneceu ligada às operações intermunicipais.

BREVE HISTÓRICO DA EXPRESSO BRASILEIRO VIAÇÃO LTDA.

A Expresso Brasileiro nasceu em outubro de 1941, a partir da antiga Estrella Azul, sob o comando do empresário espanhol Manoel Diegues, inicialmente nas ligações entre São Paulo e Santos. Cresceu rapidamente, chegou à disputada ligação Rio–São Paulo e marcou também o ABC Paulista e a Via Anchieta com seus tradicionais ônibus verdes e amarelos. Em 2009, parte das linhas paulistas foi adquirida pelo Grupo JCA; em 2011, a empresa passou ao Grupo Santa Cruz e, em 2017, seu controle foi assumido pela Águia Branca, que posteriormente incorporou as operações à própria marca.

BREVE HISTÓRICO DA VIAÇÃO COMETA

A origem da Cometa está na Auto Viação Jabaquara, criada por Tito Mascioli em 1937 para ligar o então distante Jabaquara ao centro de São Paulo. Depois da encampação da operação urbana pela CMTC, Mascioli adquiriu, em 1947, a Auto Viação São Paulo-Santos, e em maio de 1948 surgiu oficialmente o nome Viação Cometa. A empresa se tornou uma das marcas mais conhecidas do transporte rodoviário brasileiro, notadamente nos eixos São Paulo–Santos e São Paulo–Rio de Janeiro. Hoje integra o Grupo JCA.

BREVE HISTÓRICO DA VIAÇÃO GUAIANAZES

A razão social Viação Guaianazes de Transporte foi aberta em 1999, em Santo André, e a empresa passou a ter papel mais evidente na rede municipal a partir de 2004, quando linhas até então operadas pela Circular Humaitá foram transferidas para a Guaianazes, do mesmo grupo empresarial. A companhia tornou-se uma das operadoras tradicionais do transporte urbano andreense e segue vinculada à rede municipal.

BREVE HISTÓRICO DA SUZANTUR

A Suzantur foi fundada em junho de 1982 e, inicialmente, atuava exclusivamente no transporte rodoviário de passageiros. A entrada mais marcante no transporte urbano ocorreu em outubro de 2013, em Mauá, no ABC Paulista. Depois, a empresa ampliou a presença em sistemas municipais, incluindo Santo André e Diadema, além de outras cidades. Assim, curiosamente, a própria Suzantur cuja pintura atual aparece aplicada ao Caio Amélia nasceu justamente na década homenageada pelas montagens.

BREVE HISTÓRICO DA BR7 MOBILIDADE

A BR7 Mobilidade assumiu oficialmente o transporte municipal de São Bernardo do Campo em 1º de abril de 2020, após vencer uma licitação para uma concessão de 25 anos. Sua razão social é Bernatrans Transportes Urbanos S.A. e a empresa integra o Grupo ABC, da família Setti & Braga. Na prática, sucedeu a SBCTrans, que operava a rede desde 1998, inicialmente aproveitando aproximadamente 400 ônibus que já atendiam o sistema.

BREVE HISTÓRICO DO CAIO AMÉLIA

O Caio Amélia é um dos ônibus urbanos mais representativos dos anos 1980. A Caio iniciou a década transferindo suas atividades industriais para Botucatu e, em 1982, apresentou oficialmente o Amélia como sucessor do Gabriela. O modelo podia ter estrutura de aço ou alumínio e tornou-se presença comum em sistemas urbanos de todo o País. Em 1988, começou a ser substituído pelo Caio Vitória, que representou a etapa seguinte do desenho urbano da fabricante.

BREVE HISTÓRICO DO MARCOPOLO TORINO

O Torino nasceu exatamente no ambiente de renovação industrial dos anos 1980. Desenvolvido em 1982 e lançado comercialmente em 1983 para substituir o Veneza II, tornou-se uma das famílias urbanas mais longevas da indústria brasileira. Passou por inúmeras gerações, versões articuladas, biarticuladas, de piso baixo e aplicações intermunicipais. Em 2026, a Marcopolo apresentou o Torino 2027, dando continuidade a uma trajetória de mais de quatro décadas.

BREVE HISTÓRICO DO CAIO APACHE VIP

O Apache Vip surgiu em 2001, já na nova fase industrial da Caio, e rapidamente se tornou um dos modelos urbanos de motor dianteiro mais difundidos do mercado brasileiro. A segunda geração chegou em 2008, a terceira em 2012, a quarta em 2014 e a quinta em 2021. Em 2026, durante a Lat.Bus, a fabricante apresentou o Apache Vip VI, mostrando como uma família criada no início do século conseguiu atravessar 25 anos de transformações nos sistemas urbanos.

BREVE HISTÓRICO DO MARCOPOLO PARADISO

O Paradiso nasceu dentro da reorganização da linha Marcopolo que resultou na Geração IV, apresentada no início dos anos 1980 junto de nomes como Viaggio, Torino e Sênior. A família se consolidou como uma das principais referências brasileiras para ônibus rodoviários de médias e longas distâncias e, ao longo das gerações, passou a contar com diferentes alturas, configurações Low Driver e Double Decker. A atual Geração 8 foi lançada em 2021 e ampliou recursos de segurança, conforto, aerodinâmica e tecnologia, preservando um nome que atravessa mais de quatro décadas.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    O Marcopolo G-8 com a “roupa” do CMA-Flexa Azul, ficou um show de excelência!!!
    Fica a sugestão ao Grupo JCA, para ao menos parte da frota da Cometa!

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