Empresas do transporte rodoviário de São Paulo têm maturidade ESG média de 24,5%, aponta primeiro panorama do setor
Publicado em: 9 de setembro de 2026
Notas variam de 5,7% a 71,7%; desempenho médio é de 26,2% no eixo Social, 25,4% no Ambiental e 22,0% em Governança
ADAMO BAZANI
As empresas do transporte rodoviário do Estado de São Paulo que concluíram a auditoria de um levantamento inédito sobre ESG alcançaram score médio de 24,5%, resultado classificado como “Não Integrado”. ESG é a sigla em inglês para Environmental, Social and Governance, ou Ambiental, Social e Governança. Na prática, o conceito mede como uma empresa trata temas como emissões e uso de recursos naturais, segurança e condições de trabalho, relacionamento com passageiros e comunidades, ética, transparência, controles internos e qualidade da gestão.
As notas individuais variaram de 5,7% a 71,7%, uma diferença de 66 pontos percentuais que mostra empresas ainda em estágio inicial convivendo com organizações que já incorporaram a agenda ESG de maneira mais estruturada. Entre os três eixos analisados, o melhor resultado médio foi o Social, com 26,2%, seguido pelo Ambiental, com 25,4%, e Governança, com 22,0%.
O estudo também mostra que o transporte rodoviário de cargas apresenta maturidade média superior à dos segmentos de passageiros e fretamento. O material divulgado, entretanto, não informa os percentuais individuais de cada atividade nem o número total de empresas com auditoria concluída, o que impede uma comparação numérica mais detalhada entre os três segmentos.
O levantamento faz parte do Panorama ESG do Transporte Rodoviário no Estado de São Paulo, apresentado conjuntamente pela FETCESP, que representa o transporte de cargas; FETPESP, ligada ao transporte de passageiros; e FRESP, do segmento de fretamento.
Segundo as entidades, é a primeira vez que as três federações se unem em torno de uma agenda comum de sustentabilidade para o transporte rodoviário paulista.
ESG VAI ALÉM DA REDUÇÃO DE EMISSÕES
Apesar de sustentabilidade ser frequentemente associada somente ao meio ambiente, a metodologia ESG é mais ampla.
No eixo Ambiental entram, por exemplo, redução de emissões de poluentes e gases de efeito estufa, eficiência energética, consumo de combustíveis, gestão de resíduos, água e outros recursos.
Para uma empresa de ônibus ou de transporte de cargas, isso pode envolver renovação tecnológica da frota, veículos menos poluentes, eletrificação, uso de combustíveis alternativos, manutenção que reduza consumo e emissões e destinação adequada de resíduos de oficinas.
O eixo Social abrange questões como segurança, saúde e condições de trabalho, diversidade, direitos humanos, relacionamento com comunidades, desenvolvimento de trabalhadores e, no transporte de passageiros, aspectos que também se relacionam à qualidade e segurança do serviço oferecido ao público.
Governança diz respeito à forma como a empresa é administrada: existência de controles, transparência, ética, combate a irregularidades, definição de responsabilidades, gestão de riscos e incorporação desses temas às decisões empresariais.
O objetivo de uma avaliação ESG, portanto, não é apenas verificar se uma empresa adota uma ação ambiental isolada, mas identificar se essas práticas fazem parte da maneira como o negócio é administrado.
MÉDIA DE 24,5% COLOCA SETOR NO NÍVEL “NÃO INTEGRADO”
A avaliação foi realizada de acordo com a ABNT PR 2030, referência brasileira que organiza a agenda ESG em eixos, temas e critérios e estabelece cinco níveis de maturidade.
Com média de 24,5%, o transporte rodoviário paulista analisado pelo estudo foi enquadrado no estágio denominado “Não Integrado”.
Segundo a metodologia apresentada pelas entidades, esse nível significa que as empresas já possuem algumas práticas relacionadas à sustentabilidade, mas elas ainda não estão plenamente conectadas à estratégia empresarial e às rotinas de gestão.
O resultado não significa, portanto, ausência de ações ambientais, sociais ou de governança. O diagnóstico indica que essas iniciativas ainda precisam ser incorporadas de maneira mais sistemática aos processos de planejamento e decisão das organizações.
SOCIAL TEM MELHOR NOTA E GOVERNANÇA FICA ABAIXO DOS DEMAIS EIXOS
A divisão dos resultados mostra relativa proximidade entre os três pilares, mas também evidencia onde existe maior espaço para evolução.
| Eixo | Score médio |
|---|---|
| Social | 26,2% |
| Ambiental | 25,4% |
| Governança | 22,0% |
| Média geral | 24,5% |
O eixo Social ficou 4,2 pontos percentuais acima de Governança e 0,8 ponto acima do Ambiental.
Governança apresentou o menor resultado, com 22%.
O release não detalha quais critérios individuais tiveram melhor ou pior desempenho dentro de cada eixo. Assim, não é possível concluir somente pelos dados divulgados quais práticas específicas de governança, meio ambiente ou relações sociais mais influenciaram as notas.
NOTAS ENTRE 5,7% E 71,7% MOSTRAM GRANDE DIFERENÇA ENTRE EMPRESAS
Um dos resultados mais relevantes do estudo é a distância entre a menor e a maior avaliação.
A pontuação mais baixa foi de 5,7%, enquanto a maior chegou a 71,7%.
A diferença de 66 pontos percentuais levou os responsáveis pelo levantamento a caracterizar o setor como operando em “duas velocidades”.
Na prática, isso significa que dentro de uma mesma atividade econômica há empresas ainda começando a estruturar políticas ESG e outras que já possuem processos mais consolidados.
Segundo as federações, a maior concentração das organizações avaliadas permaneceu no nível “Não Integrado”.
Os resultados são divulgados de maneira anônima e agregada. O estudo não identifica as empresas avaliadas nem informa qual organização obteve a menor ou a maior nota.
TRANSPORTE DE CARGAS APARECE À FRENTE DE PASSAGEIROS E FRETAMENTO
O levantamento também realizou uma comparação por atividade econômica.
Segundo os dados divulgados, o transporte rodoviário de cargas apresentou a maior maturidade média entre os segmentos analisados, superando o transporte de passageiros e o fretamento.
O material, entretanto, não apresenta os scores médios de cada um deles.
Por isso, não é possível calcular a diferença entre cargas, transporte regular de passageiros e fretamento ou estabelecer quanto cada atividade precisaria avançar para alcançar o estágio seguinte da classificação.
Para as empresas de ônibus, a agenda ESG se relaciona diretamente a temas presentes no cotidiano operacional, como redução de emissões, renovação e tecnologia da frota, segurança de passageiros e trabalhadores, acessibilidade, relações de trabalho, eficiência operacional, transparência e governança corporativa.
RESPOSTAS PASSARAM POR AUDITORIA E EMPRESAS NÃO SÃO IDENTIFICADAS
As organizações participantes responderam a um questionário estruturado segundo os critérios da ABNT PR 2030.
As respostas foram posteriormente auditadas na plataforma utilizada pela Aliança Transporte Sustentável.
De acordo com as entidades, a apresentação somente de informações agregadas permite medir a evolução do setor sem expor individualmente as empresas.
O levantamento foi desenvolvido e operado tecnicamente pela Easy ESG e contou com patrocínio da Mercedes-Benz e do Despoluir, programa ambiental mantido pela CNT (Confederação Nacional do Transporte) e pelo SEST SENAT.
O release não informa quantas empresas participaram inicialmente do questionário nem quantas tiveram a auditoria concluída. Esse número é relevante para avaliar a representatividade estatística do panorama e não deve ser estimado sem acesso ao relatório completo.
ALIANÇA REÚNE PELA PRIMEIRA VEZ AS TRÊS FEDERAÇÕES PAULISTAS
O Panorama ESG surgiu dentro da Aliança Transporte Sustentável, iniciativa que reúne FETCESP, FETPESP e FRESP.
A FETCESP representa o transporte rodoviário de cargas; a FETPESP, empresas de transporte rodoviário de passageiros; e a FRESP, o transporte de passageiros por fretamento.
A proposta é utilizar o primeiro levantamento como linha de base para que o desempenho possa ser comparado nos próximos anos.
Isso permitirá verificar se as empresas estão migrando dos níveis iniciais de maturidade para estágios nos quais práticas ambientais, sociais e de governança passem a fazer parte de planejamento, investimentos e decisões empresariais.
FETCESP: MEDIÇÃO PODE SE TRANSFORMAR EM COMPETITIVIDADE
Para o presidente da FETCESP, Carlos Panzan, o transporte rodoviário de cargas tem responsabilidade relevante na economia paulista e precisa acompanhar as transformações relacionadas à sustentabilidade.
Segundo Panzan, medir o estágio de desenvolvimento das empresas com base em uma referência técnica é o primeiro passo para transformar essas práticas em competitividade.
FETPESP RELACIONA SUSTENTABILIDADE À QUALIDADE DA MOBILIDADE URBANA
O presidente da FETPESP, Mauro Herszkowicz, relacionou a agenda diretamente ao transporte público e ao desenvolvimento das cidades.
Segundo ele, o transporte público sustentável pode melhorar a mobilidade da população e contribuir para cidades mais acessíveis e justas.
Herszkowicz afirma que a Aliança pretende integrar setor privado e sociedade em torno de um transporte eficiente e alinhado aos compromissos sociais, ambientais e ao desenvolvimento urbano.
FRESP DESTACA UNIÃO ENTRE CARGAS, PASSAGEIROS E FRETAMENTO
Para o presidente da FRESP, Milton Zanca, a união das três federações representa um marco para o transporte rodoviário paulista.
Zanca destacou o papel do fretamento na mobilidade segura, eficiente e sustentável e afirmou que o levantamento representa o início de um processo contínuo de evolução.
PRIMEIRO RESULTADO CRIA REFERÊNCIA PARA MEDIR AVANÇOS DO SETOR
Mais do que a pontuação absoluta de 24,5%, um dos objetivos do primeiro panorama é criar uma referência para medições futuras.
Sem uma linha de base, uma empresa pode adotar iniciativas ambientais, sociais ou de governança sem conseguir medir de forma padronizada se efetivamente avançou.
Com o levantamento, as três federações passam a ter um ponto inicial contra o qual futuras avaliações poderão ser comparadas.
Para o transporte de passageiros, isso também permite acompanhar se investimentos em novas tecnologias, redução de emissões, segurança, gestão de pessoas, acessibilidade e governança passam a produzir uma mudança mensurável no grau de maturidade das empresas.
O primeiro resultado mostra diferenças significativas: enquanto algumas organizações permanecem próximas do início da escala, outras chegaram a 71,7%. A média de 24,5%, entretanto, indica que, considerando o conjunto auditado, a integração das práticas ESG à estratégia empresarial ainda está em processo de desenvolvimento no transporte rodoviário paulista.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
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