ARSESP aprova contrato para Comgás comprar biometano da Edge em São Paulo que corre em meio ao avanço do BioSP para ônibus na capital
Publicado em: 8 de setembro de 2026
Negócio saiu da segunda chamada pública de 2025 para ampliar gás renovável no mercado regulado; Agência exige rastreabilidade, determina ajuste no início do fornecimento e diz que riscos comerciais não podem ser repassados às tarifas; capital paulista prepara testes de ônibus a biometano
ADAMO BAZANI
A ARSESP (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo) aprovou o contrato pelo qual a Comgás comprará biometano da Edge Comercialização S.A. para abastecer o mercado regulado da distribuidora no Estado. O acordo é resultado da segunda chamada pública para aquisição do combustível renovável realizada em 2025 e foi autorizado com condições: a documentação precisa deixar mais clara a transferência dos certificados de rastreabilidade do produtor aos usuários e a data de início do fornecimento deve considerar a aprovação regulatória. A Agência também determinou que eventuais riscos comerciais do negócio não poderão ser repassados aos consumidores por meio de compensações tarifárias.
Apesar da importância do biometano para a discussão atual sobre ônibus e descarbonização de frotas pesadas, o contrato não é específico para o transporte coletivo e o ato publicado nesta terça-feira, 08 de setembro de 2026, não estabelece qualquer vinculação com o BioSP, com a SPTrans ou com empresas de ônibus. A coincidência está no momento do mercado: São Paulo (SP) criou em 2025 um programa específico para incorporar ônibus a biometano, enquanto a oferta do combustível no Estado cresce e o primeiro modelo desenvolvido no padrão SPTrans pela Scania e Caio está previsto para entrar em testes operacionais ainda em setembro.
Contrato veio da segunda chamada pública da Comgás
A Comgás abriu a Chamada Pública de Biometano nº 2/2025 em 03 de novembro de 2025.
O objetivo declarado pela concessionária era ampliar o fornecimento do combustível renovável para consumidores do mercado cativo, ou regulado.
As propostas poderiam ser apresentadas até 03 de dezembro daquele ano.
A própria Comgás esclareceu na chamada que não havia volume mínimo ou máximo para participação e que o combustível comprado pela distribuidora poderia posteriormente ser oferecido ao chamado mercado cativo verde.
No ato desta terça-feira, a ARSESP informa que o contrato com a Edge decorre da seleção da melhor proposta apresentada nesse processo competitivo.
Comgás e Edge fazem parte da estrutura empresarial da Compass
A Comgás é controlada pela Compass. A Edge é a marca pela qual o mesmo grupo estruturou suas atividades de Marketing & Serviços, que incluem comercialização e originação de gás natural e biometano. A própria área de relações com investidores da Comgás identifica a Edge Comercialização como parte relacionada.
Por essa razão, o próprio ato da ARSESP ressalta as regras previstas para negócios entre a concessionária e partes relacionadas, incluindo a necessidade de anuência prévia da Agência e, quando aplicável, processo competitivo.
Neste caso, a contratação foi precedida da chamada pública e o Diário Oficial registra que a proposta da Edge foi a selecionada.
A aprovação da ARSESP, porém, é expressamente limitada aos aspectos regulatórios do contrato.
Depois de assinado, o documento deverá ser encaminhado à Agência em até 30 dias.
Agência exige rastreabilidade do combustível
Uma das exigências feitas pela ARSESP diz respeito aos certificados de rastreabilidade.
A Agência concluiu que o contrato precisa trazer regra mais clara sobre os procedimentos para transferência direta e válida desses certificados do produtor aos usuários.
Esta questão é particularmente importante no mercado de biometano porque o atributo renovável do combustível precisa ser comprovado e rastreado ao longo da cadeia.
A chamada pública da Comgás já estabelecia interesse na compra conjunta da molécula de biometano e do respectivo certificado, não apenas do certificado ambiental isoladamente.
Riscos comerciais não podem ir para a conta dos consumidores
Outro ponto da decisão é financeiro.
A ARSESP afirma que sua aprovação não representa garantia ou concordância quanto aos riscos comerciais assumidos pelas empresas.
E determina expressamente que esses riscos não poderão ser transferidos aos usuários mediante compensações tarifárias.
Isso significa que o aval regulatório não funciona como uma garantia de rentabilidade do negócio paga pela tarifa de distribuição.
Mercado paulista já ganhou produção em grande escala
A decisão ocorre enquanto a infraestrutura de produção e distribuição de biometano aumenta em São Paulo.
Um dos maiores projetos é a Onebio, em Paulínia (SP), formada em parceria pela Edge e pela Orizon. A planta transforma em biometano o biogás produzido a partir de resíduos urbanos e possui capacidade de até 225 mil metros cúbicos por dia, segundo o BNDES.
A própria Edge apresenta a unidade como a maior planta de purificação de biometano do Brasil e da América Latina, com capacidade de 225 mil m³ por dia.
A Edge também possui outros contratos de originação do combustível. O relatório de sustentabilidade do grupo relaciona, por exemplo, aquisição de 65 mil m³ por dia de biometano produzido pela São Martinho e outros 30 mil m³ por dia provenientes de aterro sanitário de Itapevi (SP).
Comgás diz que distribuiu 13,4 milhões de m³ de biometano em 2025
Segundo informações da própria Comgás, 13,4 milhões de metros cúbicos de gás renovável foram entregues pela companhia em 2025.
A concessionária também informou ter conectado a planta de Paulínia à sua infraestrutura de distribuição.
A estratégia declarada da empresa inclui ampliar a presença do gás renovável e incentivar aplicações em mobilidade, especialmente em frotas pesadas.
Esse contexto ajuda a explicar por que a contratação é relevante para o setor de transportes, ainda que não tenha destinação específica para ônibus.
E onde entram os ônibus?
São Paulo (SP) instituiu o Programa BioSP em setembro de 2025 justamente para permitir a entrada de ônibus movidos a biometano na frota municipal.
O programa estabelece que as concessionárias de ônibus interessadas deverão contratar uma cadeia integrada de fornecimento, abrangendo a molécula do biometano, transporte, distribuição, compressão no ponto final e infraestrutura nas garagens.
A regulamentação determina ainda que sejam priorizados fornecedores ou consórcios capazes de demonstrar disponibilidade total mínima de 50 mil Nm³ de biometano por dia.
Este número não é uma previsão de consumo da frota e também não corresponde à quantidade de ônibus que será comprada. É uma exigência de capacidade de fornecimento para a cadeia contratada.
Contrato Comgás–Edge não é contrato do BioSP
É importante separar os dois assuntos.
No BioSP, a responsabilidade pela contratação da cadeia integrada de combustível é das próprias concessionárias de ônibus que aderirem ao programa.
Já o contrato aprovado nesta terça-feira é entre Comgás e Edge para atendimento do mercado regulado de gás da distribuidora.
Não há no ato da ARSESP indicação de que o combustível será reservado à SPTrans, às empresas de ônibus da capital ou ao BioSP.
O que existe é uma relação indireta: quanto maior a produção, comercialização, distribuição e infraestrutura disponível para biometano no Estado, maior tende a ser a capacidade de diferentes segmentos consumidores encontrarem oferta do combustível.
Mas uma eventual utilização deste contrato especificamente no transporte público dependeria de outros arranjos comerciais e regulatórios que não aparecem na publicação.
Primeiro ônibus a biometano padrão SPTrans deve entrar em testes neste mês
Até domingo, 06 de setembro de 2026, não havia confirmação oficial de ônibus a biometano incorporados à operação regular da SPTrans, como mostrou o Diário do Transporte.
O projeto mais avançado é um Scania K 280 4×2 com carroceria Caio, desenvolvido para atender aos requisitos técnicos da capital paulista.
A previsão apresentada pela Scania é iniciar os testes operacionais nas ruas de São Paulo (SP) em meados de setembro.
A fabricante informou ainda ao Diário do Transporte que existe interesse de um grupo operador em um lote considerado relativamente grande, mas não revelou a empresa nem a quantidade de veículos. A concretização depende da conclusão dos testes e das etapas contratuais e econômicas.
Biometano não elimina obrigação de eletrificação
O BioSP também não substitui automaticamente o programa de ônibus elétricos da cidade.
O próprio decreto municipal estabelece que a adesão ao biometano não afasta nem altera as obrigações de eletrificação já assumidas pelas concessionárias. Eventuais compensações de obrigações futuras precisam ser formalmente negociadas entre Prefeitura e operadores.
Assim, o biometano foi colocado pela administração municipal como uma rota adicional de substituição do diesel, enquanto a eletrificação continua sendo parte dos compromissos ambientais dos contratos de transporte.
A decisão da ARSESP desta terça-feira não coloca ônibus a biometano nas ruas, mas acrescenta uma nova peça ao mercado paulista do combustível: um contrato de compra entre dois agentes de grande porte, originado em chamada competitiva e destinado a ampliar a disponibilidade de gás renovável no mercado regulado.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



Pelo que entendi, a adoção dos ônibus a biometano dependerá de que o concessionário tenha ou não interesse neles.
Mais uma vez o poder público terceirizando decisões que lhe caberiam assumir.
– Ônibus Euro-6? Proibido!
– Ônibus elétrico? Obrigatório, subvencionado pela Prefeitura, porém com longa espera na fila!
==> Ônibus a biometano??? Só se o empresario quiser!!!
Absurdo…