Eletromobilidade

Ações da BYD caem mais de 6% após balanço; marca avança fora da China, disputa vice-liderança de ônibus elétricos no Brasil e cresce entre carros de passeio

Lucro voltou a subir no segundo trimestre, mas resultado acumulado do semestre ainda caiu 20,5%; fabricante chinesa responde por 32% dos ônibus elétricos da América Latina e tem forte avanço no mercado brasileiro de automóveis

ADAMO BAZANI

As ações da BYD fecharam em forte queda nesta segunda-feira, 31 de agosto de 2026, mesmo depois de a fabricante chinesa voltar a apresentar crescimento do lucro trimestral após mais de um ano de retrações. Os papéis recuaram 6,47% em Hong Kong e 4,46% em Shenzhen, refletindo a preocupação dos investidores com a queda das receitas e do lucro no acumulado do primeiro semestre, além da forte concorrência e da demanda mais fraca na China. Ao mesmo tempo, a expansão internacional ganhou peso: as vendas externas avançaram 71% no primeiro semestre e já responderam por 44% dos veículos comercializados pela companhia.

O Brasil e outros países da América Latina fazem parte desse movimento. Nos ônibus elétricos brasileiros, a BYD passou da segunda para a terceira posição no primeiro semestre, superada momentaneamente pela Mercedes-Benz, e voltou à vice-liderança no acumulado até julho, enquanto a Eletra, contabilizada pela Fenabrave em conjunto com a Caio/Induscar, permanece na frente. Na América Latina e Caribe, a BYD é a maior fornecedora histórica de ônibus elétricos, com 2.961 veículos e 32% do mercado no levantamento mais recente por fabricante. Nos automóveis, a empresa mais que dobrou os emplacamentos no Brasil em 2026, chegou à quarta posição do mercado e mantém expansão relevante em países como Uruguai, Chile, Colômbia e Argentina, embora tenha registrado leve retração no México.

Lucro do segundo trimestre subiu 30%, mas semestre ainda mostra queda

O desempenho financeiro da BYD exige uma leitura em duas partes.

No segundo trimestre de 2026, o lucro líquido alcançou 8,2 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 1,22 bilhão, crescimento de 30% sobre igual período de 2025. Foi a primeira alta trimestral do lucro em mais de um ano.

Mas a receita trimestral caiu 3,2%, para 194,6 bilhões de yuans.

E, quando considerados os seis primeiros meses de 2026, o resultado permanece negativo: o lucro líquido caiu 20,5%, para 12,33 bilhões de yuans, enquanto a receita recuou 7,1%, para 344,82 bilhões de yuans.

A principal diferença está no desempenho fora da China.

Segundo a Reuters, os embarques internacionais da BYD superaram 790 mil veículos no primeiro semestre, avanço de 71% sobre um ano antes. O exterior representou 44% das vendas e a margem bruta das operações internacionais chegou a 22%, ajudando a compensar as dificuldades enfrentadas no mercado chinês.

Assim, é correto dizer que houve recuperação do lucro no segundo trimestre, mas seria incorreto transformar essa melhora em uma recuperação completa do balanço: no semestre, lucro e receita ainda recuaram.

Ações acumulam perdas próximas de 25% em 12 meses em Hong Kong

O comportamento dos papéis também ajuda a explicar a reação aparentemente contraditória do mercado ao crescimento do lucro trimestral.

Os dois principais mercados em que as ações da BYD são negociadas diretamente são Hong Kong, pelo código 1211, e Shenzhen, na China continental, pelo código 002594.

Período Hong Kong (HK$) Shenzhen (CNY)
Ago/2025 114,40 114,17
Set/2025 110,20 109,20
Out/2025 100,60 100,79
Nov/2025 97,50 95,17
Dez/2025 95,35 97,72
Jan/2026 97,75 90,91
Fev/2026 94,95 89,32
Mar/2026 105,80 105,25
Abr/2026 102,50 102,98
Mai/2026 91,30 96,64
Jun/2026 72,45 79,70
Jul/2026 94,15 95,77
31 Ago/2026 86,00 88,20

PESQUISA: ADAMO BAZANI/DIÁRIO DO TRANSPORTE – dados de mercado

Os dados mostram uma trajetória bastante volátil. Em Hong Kong, a ação estava em HK$ 114,40 no encerramento de agosto de 2025 e terminou esta segunda-feira em HK$ 86,00. A perda em aproximadamente 12 meses é de 24,8%.

No acumulado de 2026, tomando o fechamento de 2025 como referência, a queda é de aproximadamente 9,8%.

Em Shenzhen, o movimento é semelhante. O papel passou de 114,17 yuans no fim de agosto de 2025 para 88,20 yuans nesta segunda-feira, retração de aproximadamente 22,7%. Em relação ao fechamento de 2025, a perda acumulada é de cerca de 9,7%.

O período de maior pressão ocorreu no segundo trimestre, com os papéis de Hong Kong chegando ao fim de junho a HK$ 72,45. Em julho houve recuperação significativa, para HK$ 94,15, mas parte desses ganhos voltou a ser eliminada em agosto.

Nos ônibus elétricos do Brasil, BYD alterna segundo e terceiro lugares com Mercedes-Benz; Eletra permanece líder

É necessário fazer uma distinção importante: a disputa entre BYD e Mercedes-Benz pela segunda posição acontece no segmento de ônibus elétricos, e não no mercado brasileiro total de ônibus.

Considerando todos os tipos de ônibus, inclusive modelos a diesel, a Mercedes-Benz é disparadamente líder. De janeiro a julho, foram 7.390 ônibus Mercedes-Benz, correspondentes a 47,12% do mercado total, enquanto a BYD aparece em nono lugar, com 175 unidades e 1,12%.

Nos elétricos, porém, a fotografia é completamente diferente e vem mudando rapidamente ao longo do ano:

Acumulado Eletra/Caio BYD Mercedes-Benz
Jan–Mai 149 95 50
Jan–Jun 224 109 113
Jan–Jul 244 175 116

PESQUISA: ADAMO BAZANI/DIÁRIO DO TRANSPORTE – FENABRAVE/ABVE

Até maio, a BYD era vice-líder, com 95 ônibus elétricos, atrás das 149 unidades da Eletra/Caio e bem à frente dos 50 Mercedes-Benz.

Junho mudou radicalmente essa situação. As grandes entregas de ônibus elétricos daquele mês fizeram a Mercedes-Benz chegar a 113 unidades no semestre, contra 109 da BYD. A BYD caiu, portanto, para o terceiro lugar por uma diferença de apenas quatro ônibus.

A Eletra permaneceu isolada na liderança, com 224 unidades e participação de 38% no primeiro semestre. A Mercedes-Benz ficou com 19,2% e a BYD com 18,5%. Ao todo, o Brasil emplacou 589 ônibus elétricos nos primeiros seis meses de 2026, alta de 92,5% sobre o mesmo período de 2025.

Julho inverteu novamente a disputa pela segunda colocação.

A BYD emplacou 66 dos 89 ônibus elétricos registrados naquele mês, participação mensal de 74,16%. A Mercedes-Benz teve apenas três unidades.

Com isso, de janeiro a julho, a Eletra/Caio continuou na liderança, com 244 ônibus e 35,99%; a BYD retomou a segunda posição, com 175 unidades e 25,81%; e a Mercedes-Benz caiu para terceiro, com 116 unidades e 17,11%.

Ou seja: a descrição mais precisa é que a BYD vem oscilando entre segundo e terceiro lugares no mercado brasileiro de ônibus elétricos, em uma disputa direta com a Mercedes-Benz, enquanto a Eletra segue na liderança do acumulado.

Campinas chega a mil chassis elétricos produzidos pela BYD

Neste contexto, é correta a informação de que a BYD alcançou a produção de mil chassis de ônibus elétricos na fábrica de Campinas, no interior de São Paulo.

O milésimo veículo foi um chassi BC10LE e deixou a linha de produção em agosto de 2026.

A evolução mostra a aceleração recente da fábrica.

A operação começou a produzir ônibus elétricos no Brasil em 2016. Até 2023, aproximadamente 200 chassis tinham sido fabricados. Agora, a unidade trabalha em ritmo de aproximadamente 30 chassis por semana, ou seis por dia, e a companhia anunciou ampliação da fábrica.

A BYD também participou da entrega recente de 265 ônibus elétricos para a cidade de São Paulo, mercado que explica boa parte da aceleração dos emplacamentos da empresa no País.

BYD ainda lidera ônibus elétricos na América Latina, mas participação relativa caiu

No conjunto da América Latina e Caribe, a BYD continua sendo a maior fornecedora de ônibus elétricos.

O levantamento mais atualizado que permite dividir a frota regional por fabricante é o estudo do ICCT, Conselho Internacional de Transporte Limpo, referente ao encerramento de 2025.

A BYD contabilizava 2.961 ônibus elétricos vendidos entre 2017 e 2025, equivalentes a 32% da frota regional.

Na sequência aparecem Foton, com 1.492; Yutong, com 1.417; Zhongtong, com 946; e Eletra, com 894 ônibus. Os cinco fabricantes juntos concentram 85% do mercado regional.

É interessante observar que liderança e perda de participação relativa estão ocorrendo simultaneamente.

No levantamento anterior do ICCT, encerrado em 2024, a BYD somava 2.606 ônibus e nada menos que 43,7% da frota elétrica da América Latina.

Assim, entre os dois levantamentos, a frota histórica associada à BYD cresceu em 355 veículos, ou aproximadamente 13,6%, mas sua participação regional caiu de 43,7% para 32%.

Isso não significa que a BYD tenha encolhido em número de veículos. Significa que o mercado latino-americano cresceu ainda mais rapidamente e se tornou mais diversificado, com expansão de Foton, Yutong, Zhongtong, Eletra e outros fabricantes.

No início de 2026, a América Latina e Caribe tinham 9.115 ônibus elétricos, 40% acima de um ano antes. A atualização do E-Bus Radar chegou a 9.909 unidades em fevereiro e a região posteriormente ultrapassou a marca dos dez mil veículos.

A ressalva é que não existe ainda uma atualização por fabricante para esses quase dez mil ônibus. Por isso, 32% é a participação mais recente verificável da BYD, correspondente ao fechamento de 2025, e não deve ser simplesmente aplicada à frota atualizada de 2026.

Carros: BYD mais que dobra vendas no Brasil e chega à quarta posição

Nos automóveis e comerciais leves, a trajetória brasileira da BYD é ainda mais acelerada.

Segundo dados da Fenabrave, a marca acumulou 122.475 emplacamentos de janeiro a julho de 2026, contra 57.388 no mesmo período de 2025. É um crescimento de aproximadamente 113%.

A BYD chegou à quarta colocação entre as marcas de veículos leves no Brasil.

Somente em julho foram 23.465 emplacamentos, recorde mensal da companhia, com participação próxima de 9% no mercado total de automóveis e comerciais leves. No varejo, que considera principalmente compradores pessoa física, a BYD liderou as marcas pelo quarto mês consecutivo e respondeu por 12,02% das vendas em julho.

E há indícios de continuidade do avanço em agosto.

Na parcial até o dia 27, três modelos da BYD estavam simultaneamente entre os dez carros mais vendidos do Brasil: Dolphin Mini, com 7.523 unidades; Dolphin, com 6.386; e a família Song, com 6.003.

Estes números ainda não representam o fechamento oficial de agosto.

ABVE mostra eletrificação passando de nicho para mais de 20% do mercado

Os números da ABVE ajudam a explicar a velocidade do avanço da BYD no País.

De janeiro a julho de 2026, foram vendidos 271.091 veículos leves eletrificados no Brasil. Esse volume, em apenas sete meses, já é 21% maior do que todas as 223.896 unidades comercializadas ao longo de 2025.

Julho registrou 56.074 eletrificados, alta de 18% sobre junho e de 195% em relação a julho de 2025.

Pela primeira vez, os eletrificados chegaram a 21,1% do mercado brasileiro mensal de veículos leves.

Os plug-in representaram 83% das vendas de eletrificados: foram 25.782 elétricos puros e 20.500 híbridos plug-in no mês.

A BYD está diretamente posicionada nos dois segmentos que mais crescem, com modelos como Dolphin e Dolphin Mini entre os elétricos puros e Song entre os híbridos plug-in.

Anfavea mostra peso cada vez maior da China, mas dado não pode ser tratado como venda exclusiva da BYD

Já os dados da Anfavea permitem enxergar outro aspecto dessa transformação.

O Brasil importou 344,1 mil veículos entre janeiro e julho de 2026, alta de 25,7%.

Mais de 180 mil vieram da China, crescimento de 105,4%. Os veículos de origem chinesa já representam 52,4% de todos os automóveis importados pelo Brasil.

Mas este número não é da BYD.

Ele engloba todas as fabricantes e modelos produzidos na China e, por isso, não deve ser usado para atribuir à BYD 180 mil importações.

Além disso, a situação da própria BYD está mudando com a implantação da produção brasileira em Camaçari, na Bahia. Portanto, a evolução futura terá de ser acompanhada separando veículos produzidos localmente daqueles trazidos do exterior.

Na América Latina, crescimento dos carros da BYD não ocorre no mesmo ritmo em todos os países

Também não existe, até agora, uma base única equivalente à Fenabrave que permita calcular com precisão uma participação da BYD em todo o mercado latino-americano de automóveis.

Os dados nacionais mais recentes mostram, entretanto, uma expansão bastante forte, mas desigual.

No Uruguai, a BYD tornou-se a maior marca do mercado como um todo. De janeiro a julho de 2026, acumulou 5.180 veículos, à frente da Fiat, com 4.368, e Chevrolet, com 3.775. O mercado uruguaio somou 44.515 unidades no período.

No Chile, a BYD ocupava o segundo lugar entre os elétricos puros no primeiro semestre, com 546 veículos e 10,1% desse segmento, atrás da Tesla, que tinha 29%. Nos híbridos plug-in, o Song Plus acumulou 438 unidades e a Shark, 258.

Na Colômbia, a BYD emplacou 984 veículos apenas em julho, alta de 21,9% sobre julho de 2025, alcançando 3,4% do mercado e a 11ª posição entre todas as marcas.

Na Argentina, a própria BYD anunciou em 26 de agosto ter alcançado dez mil veículos vendidos menos de um ano depois do início oficial das operações. O carro de número dez mil foi um Dolphin Mini. Neste caso, entretanto, trata-se de um número divulgado pela própria fabricante, e não de um balanço consolidado de associação setorial.

O México apresenta a principal exceção à tendência de expansão.

As marcas chinesas, em conjunto, cresceram quase 30% no primeiro semestre e passaram a deter 17% do mercado mexicano, mas a BYD teve uma pequena queda: passou de 34.606 veículos no primeiro semestre de 2025 para 33.969 no mesmo período de 2026, retração aproximada de 1,8%. Ainda assim, permanece como a principal fabricante chinesa naquele mercado.

O quadro latino-americano, portanto, não é de crescimento uniforme: a BYD acelera fortemente no Brasil e no Uruguai, avança nos segmentos eletrificados de Chile e Colômbia e começa a ganhar escala na Argentina, enquanto enfrenta uma pequena retração no México.

Expansão internacional virou peça central para compensar pressão na China

Esse conjunto de mercados ajuda a explicar por que o balanço da companhia apresenta duas tendências aparentemente contraditórias.

A BYD sofre com competição agressiva, descontos e demanda menos favorável no mercado chinês, mas consegue compensar uma parcela dessa pressão ampliando presença no exterior.

Os mais de 790 mil veículos enviados aos mercados internacionais no primeiro semestre e o crescimento de 71% das exportações mostram que a internacionalização deixou de ser complementar e passou a ser uma das principais bases do resultado da companhia.

Brasil e América Latina fazem parte justamente dos mercados onde essa estratégia é mais visível, tanto nos carros de passeio como nos ônibus elétricos.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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