Jaé chega a 1 bilhão de viagens no Rio após um ano de operação exclusiva; veja como usar e relembre trajetória de atrasos e disputas
Publicado em: 20 de agosto de 2026
Prefeitura informa que sistema tem 5 milhões de usuários cadastrados; implantação acumulou adiamentos, disputas judiciais e administrativas e críticas do Rio Ônibus e da Riocard
ADAMO BAZANI
O sistema de bilhetagem Jaé atingiu a marca acumulada de 1 bilhão de viagens registradas nos transportes do Rio de Janeiro, segundo balanço divulgado pela prefeitura nesta quinta-feira, 20 de agosto de 2026.
O número corresponde a validações de viagens realizadas pelo sistema e não a 1 bilhão de passageiros diferentes. De acordo com a administração municipal, atualmente há cerca de 5 milhões de usuários cadastrados.
O marco ocorre pouco mais de um ano depois de 2 de agosto de 2025, quando o Jaé passou a ser o sistema exclusivo de bilhetagem para os transportes municipais do Rio, como ônibus, BRT, VLT, vans e os chamados “cabritinhos”.
Há exceções. O Riocard continua necessário, por exemplo, para usuários do Bilhete Único Intermunicipal e permanece como meio de pagamento dos sistemas estaduais e intermunicipais. O MetrôRio também aceita o Jaé desde agosto de 2025, mas mantém outros meios de pagamento e os benefícios tarifários estaduais vinculados ao Riocard.
Segundo a Prefeitura do Rio, aproximadamente 30% dos usuários do Jaé utilizam atualmente o aplicativo no celular para pagar as viagens por QR Code. A administração informa ainda que os pagamentos por PIX já foram usados aproximadamente 2 milhões de vezes.
O prefeito Eduardo Cavaliere afirmou que os dados produzidos pela bilhetagem permitem à administração municipal acompanhar arrecadação, demanda e operação das linhas.
“Hoje, permite que a Prefeitura tenha acesso aos dados, fiscalize o cumprimento das regras e tenha muito mais controle e transparência sobre a operação dos ônibus”, declarou.
O discurso segue a justificativa adotada desde a gestão do então prefeito Eduardo Paes para retirar das empresas de ônibus o controle da bilhetagem e centralizar as informações de arrecadação sob fiscalização municipal.
A mudança, entretanto, teve uma implantação bem mais longa e conturbada do que inicialmente previsto, acumulando adiamentos, baixa adesão inicial, questionamentos entre empresas concorrentes, decisões judiciais, intervenção do Tribunal de Contas do Município e disputas entre a prefeitura, as empresas de ônibus e a antiga operadora da bilhetagem.
COMO O PASSAGEIRO PODE USAR O JAÉ
O usuário pode utilizar o cartão físico do Jaé ou o aplicativo para celular, com pagamento por QR Code.
O sistema municipal é utilizado nos ônibus convencionais, BRT, VLT, vans e “cabritinhos”.
No MetrôRio, o Jaé também é aceito desde 2 de agosto de 2025 nas 41 estações. Entretanto, não é o único meio disponível no metrô. Continuam válidos o Riocard, Giro, pagamento por aproximação e demais formas oferecidas pela concessionária. Benefícios estaduais, como Bilhete Único Intermunicipal e Tarifa Social do metrô, permanecem vinculados ao Riocard.
BILHETE ÚNICO CARIOCA
Os benefícios do Bilhete Único Carioca, o BUC, são realizados pelo Jaé nos transportes municipais.
De acordo com a prefeitura, o passageiro pode fazer até três viagens dentro de três horas pagando uma tarifa de R$ 5, desde que uma das viagens seja realizada pelo BRT.
Nas regras divulgadas anteriormente pela própria prefeitura, as viagens devem ocorrer de forma consecutiva e no mesmo sentido. Sem utilização do BRT, o benefício fica limitado a duas viagens consecutivas.
BILHETE ÚNICO MARGARIDAS
Já o Bilhete Único Margaridas, o BUM, é voltado a passageiros que chegam da Baixada Fluminense ao Rio e utilizam o Terminal BRT Metropolitano.
Segundo a prefeitura, o passageiro paga R$ 5 pela integração dentro da rede municipal e pode fazer até quatro viagens, sendo duas na ida e duas na volta, entre BRT, VLT e ônibus municipais, dentro de um período de até 20 horas.
O benefício deve ser diferenciado do Bilhete Único Intermunicipal, programa do Governo do Estado. Para o BUI, o Riocard continua sendo necessário, inclusive com validadores mantidos nos veículos municipais especificamente para essa finalidade.
DO ACORDO JUDICIAL À LICITAÇÃO DA BILHETAGEM
A origem da mudança é anterior ao Jaé.
Em 2021, a Prefeitura do Rio decidiu separar a arrecadação tarifária da operação dos ônibus e contratar uma empresa independente para administrar a bilhetagem.
A primeira tentativa de licitação estava marcada para dezembro daquele ano. Empresas de ônibus e a então operadora Riocard questionaram judicialmente pontos das regras. A prefeitura conseguiu autorização para prosseguir, mas, em 7 de dezembro de 2021, nenhuma empresa apresentou proposta.
Uma nova concorrência foi preparada para 2022. Em 23 de maio daquele ano, dois dias antes da data prevista para o certame, a 13ª Vara de Fazenda Pública suspendeu a licitação por decisão liminar em ação apresentada pelo Sindpass, Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Barra Mansa e Volta Redonda.
Paralelamente, em maio de 2022, prefeitura, consórcios de ônibus e Ministério Público chegaram a um acordo judicial para reorganizar a operação do transporte coletivo.
Entre os compromissos assumidos, as empresas de ônibus renunciaram à tentativa de retomar a operação do BRT e também à participação na licitação da nova bilhetagem digital. Em contrapartida, foram estabelecidos subsídios calculados principalmente pela quilometragem dos ônibus e outras condições para a continuidade dos contratos.
LICITAÇÃO TEVE SEGUIDAS REVIRAVOLTAS
A concorrência finalmente avançou em julho de 2022.
O Consórcio Bilhete Digital, CBD, formado inicialmente pela RFC Rastreamento de Frotas e Alto Tijuca Participações, apresentou o maior lance de outorga: R$ 110 milhões.
A Tacom ofereceu R$ 108 milhões, a Sonda Mobility, R$ 81 milhões, e a Autopass, R$ 34 milhões.
O resultado, porém, passou por diversas reviravoltas administrativas e judiciais.
O CBD chegou a ser desclassificado pela prefeitura em agosto de 2022 após recurso da Sonda, o que colocou a Tacom provisoriamente na primeira posição. O consórcio recorreu à Justiça e conseguiu retornar à disputa.
Em setembro, Tacom, Sonda e Autopass apresentaram recursos administrativos contra a habilitação do CBD.
Em outubro, o recurso da Tacom foi acolhido e o CBD voltou a ser retirado do certame. Houve nova intervenção judicial e a situação voltou a mudar.
Finalmente, em 1º de novembro de 2022, a Secretaria Municipal de Transportes homologou e adjudicou a concessão ao CBD, mantendo o lance de R$ 110 milhões. O contrato, com prazo de 12 anos e valor estimado de R$ 1,34 bilhão, foi assinado em 21 de dezembro de 2022.
JAÉ DEVERIA TER SIDO EXCLUSIVO MUITO ANTES
A Ordem de Início foi emitida em 19 de janeiro de 2023.
Pelas regras contratuais, a concessionária teria seis meses para implantar o novo sistema integralmente no BRT, até 15 meses para os demais transportes municipais e, depois, uma etapa mínima de três meses de transição.
Somadas as fases, a operação exclusiva deveria ocorrer em até 18 meses da Ordem de Início.
Isso significava que a substituição integral deveria estar concluída em 2024.
Quando o Jaé foi apresentado aos passageiros, em julho de 2023, a programação divulgada pela prefeitura previa que o Riocard deixaria de ser aceito nos transportes municipais já em 1º de fevereiro de 2024.
O cronograma não foi cumprido.
Em julho de 2024, reportagem do Diário do Transporte mostrou que, mesmo após o prazo originalmente previsto, a utilização do Jaé ainda era reduzida.
Naquele momento, no VLT, as transações com o novo sistema representavam menos de 1% das registradas pelo Riocard. No BRT, a proporção também ficava abaixo de 1%, enquanto a participação nos ônibus convencionais era ainda menor. A prefeitura informava que os validadores já estavam instalados na frota, mas que a ativação ocorria gradativamente.
QUATRO ADIAMENTOS E TENTATIVA DE TROCA DE CONTROLE
Em 8 de janeiro de 2025, Eduardo Paes anunciou outro adiamento: a exclusividade, que então estava prevista para 1º de fevereiro, foi transferida para 1º de julho.
Era o quarto adiamento anunciado para a implantação definitiva.
Na mesma ocasião, Paes informou que a Autopass estava negociando a aquisição do controle da empresa responsável pelo Jaé.
A negociação abriu uma nova frente de disputas.
A Tacom, segunda colocada na licitação de 2022, acionou a Justiça e órgãos de controle questionando a possível transferência. A empresa argumentou que os problemas de execução do contrato deveriam levar à análise da possibilidade de convocação da segunda colocada.
A Tacom também afirmou que o CBD havia atrasado a implantação em pelo menos 12 meses e não havia quitado metade da outorga de R$ 110 milhões.
Outra empresa, a Billing Pay, fornecedora de tecnologia e validadores, alegou possuir direito de preferência para comprar participação no negócio.
Em 7 de fevereiro de 2025, a Justiça suspendeu as negociações envolvendo a transferência do controle à Autopass.
No dia 25 daquele mesmo mês, o Tribunal de Contas do Município também suspendeu o ato administrativo da prefeitura que autorizava a operação, determinando a apresentação de informações e documentos.
Em março, nova decisão da 1ª Vara Empresarial determinou a interrupção das tratativas de mudança de controle societário e previu multa em caso de descumprimento. A suspensão foi mantida em decisão publicada em 29 de abril de 2025.
Posteriormente, a Autopass passou a atuar na operação do Jaé, depois das dificuldades enfrentadas pelo CBD para concluir a implantação do projeto, como mostrou o Diário do Transporte em setembro de 2025.
PREFEITURA TAMBÉM PUNIU OPERADORA DO JAÉ
Os problemas não ficaram restritos às disputas entre as empresas.
Em maio de 2025, a própria Prefeitura do Rio aplicou uma advertência à CBD Bilhete Digital por descumprimento de obrigação prevista no contrato de concessão.
No dia seguinte, foi divulgada multa de R$ 155.454,10 relacionada a outro atraso contratual. A empresa teve direito à apresentação de defesa administrativa.
EXCLUSIVIDADE FINALMENTE CHEGOU EM AGOSTO DE 2025
A transição ganhou ritmo apenas no meio de 2025.
Em 5 de julho, o Jaé passou a ser obrigatório para passageiros com direito a gratuidades no sistema municipal.
Para os demais usuários, a exclusividade começou em 2 de agosto de 2025.
Poucos dias antes da mudança, porém, a adesão voluntária ainda era baixa. Levantamento do Diário do Transporte com base nos painéis públicos mostrou que, entre 22 e 28 de julho de 2025, somente 17% das transações pagas com cartões eram realizadas pelo Jaé, enquanto o Riocard respondia por 83%.
Com a obrigatoriedade, a participação mudou rapidamente. No primeiro dia útil da exclusividade foram registrados mais de 2 milhões de embarques, e o Jaé passou a responder por cerca de 80% das viagens contabilizadas naquele período.
RIO ÔNIBUS CONTESTOU DISCURSO SOBRE “CAIXA-PRETA”
A relação entre a prefeitura e as empresas de ônibus sobre a bilhetagem sempre foi marcada por versões divergentes.
Desde 2021, quando a gestão municipal defendia a mudança alegando necessidade de maior transparência, o Rio Ônibus contestava a afirmação de que os dados do sistema anterior não estariam disponíveis ao poder público.
Naquele ano, a entidade afirmou que os dados eram fornecidos à Secretaria Municipal de Transportes na forma prevista nos contratos e argumentou que a discussão sobre socorro econômico às empresas não deveria ser vinculada à mudança da bilhetagem.
Em janeiro de 2025, após novas críticas de Eduardo Paes aos operadores, a Riocard Mais afirmou que havia colaborado com a transição e atribuiu as dificuldades ao baixo desempenho inicial do Jaé. Na ocasião, sustentava que o sistema municipal registrava apenas 1,7% dos passageiros.
Depois da implantação exclusiva, dirigentes ligados às empresas continuaram questionando o modelo.
Em agosto de 2025, o diretor do Rio Ônibus Paulo Valente classificou a situação da bilhetagem como uma “crise” e argumentou que a separação dos sistemas criou inconvenientes para passageiros que utilizam transportes municipais e estaduais, já que em diversas situações ainda é necessário manter Jaé e Riocard. A entidade também passou a defender mudanças mais amplas no financiamento do transporte, incluindo a discussão de tarifa zero.
A prefeitura, por sua vez, sempre sustentou que a separação da arrecadação em relação às empresas operadoras era necessária para ampliar fiscalização, controle financeiro e acesso aos dados.
JAÉ TAMBÉM ENTROU EM NOVA DISPUTA JUDICIAL ENTRE PREFEITURA E VIAÇÕES
Mesmo depois da implantação definitiva, a bilhetagem voltou a aparecer nas disputas envolvendo o sistema de ônibus.
O acordo judicial firmado originalmente em 2022 foi repactuado em 30 de abril de 2025 e estabeleceu novas obrigações entre município e concessionárias, inclusive critérios de remuneração e subsídios.
Em 2026, as empresas passaram a alegar que a prefeitura não estaria cumprindo integralmente compromissos econômicos assumidos, entre eles a remuneração por quilômetro rodado prevista após a implantação completa do Jaé.
A administração municipal contesta essa interpretação e sustenta que parte das reduções de pagamento decorre do descumprimento de metas operacionais e de alterações na programação das linhas.
Em julho de 2026, a Justiça suspendeu temporariamente a transferência de novas linhas aos futuros vencedores da atual licitação do sistema de ônibus enquanto são analisadas as alegações de descumprimento do acordo. A concorrência em si não foi suspensa.
Assim, a marca de 1 bilhão de registros mostra que o Jaé atingiu uma escala que estava distante nos primeiros anos de implantação, mas não apaga o histórico de atrasos, judicializações e divergências sobre a forma como a nova bilhetagem foi introduzida e sobre seus efeitos no modelo econômico do transporte carioca.
TECNOLOGIA PASSA A SER USADA EM OUTROS SERVIÇOS
A Prefeitura do Rio também começou a empregar a estrutura tecnológica relacionada ao Jaé em outros serviços.
O Rio Rotativo Digital substitui gradativamente os antigos talões de estacionamento e já foi implantado inicialmente na Lagoa Rodrigo de Freitas e, desde agosto de 2026, em áreas da orla da Zona Sul. O pagamento pode ser realizado pelo aplicativo Jaé.
Para o Rock in Rio 2026, a administração municipal informa ainda que a comercialização dos bilhetes dos serviços especiais do BRT está sendo feita pelo Jaé.
Segundo a prefeitura, o projeto também recebeu em 2026 uma premiação do Transport Ticketing Awards, evento internacional dedicado a sistemas de bilhetagem e tecnologia para transportes.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


