Reduzir jornada não resolve tudo: o transporte já fez isso — e a conta não fechou, diz especialista

O advogado Ilo Löbel da Luz, que atua no setor de transporte rodoviário, alerta que debate sobre fim da escala 6×1 ignora a realidade de um setor onde a regulação já é rígida, mas a falta de motoristas só cresce

ALEXANDRE PELEGI

A discussão sobre redução da jornada de trabalho e o possível fim da escala 6×1 ganha força no país, mas, para quem vive o dia a dia do transporte rodoviário de passageiros, o tema está longe de ser novidade — e, principalmente, longe de ser solução isolada. A avaliação é de Ilo Löbel da Luz, que fala com a experiência de quem acompanha um setor onde a regulação já avançou há anos, sem que isso tenha resolvido o problema central.

“A sensação que a gente tem, olhando esse debate nacional, é de déjà vu. O transporte já passou por isso. Já tem controle rígido de jornada, tacógrafo, limite de direção, intervalo obrigatório, acordo coletivo específico. Na teoria, o motorista já vive esse modelo que outros setores estão tentando construir agora.”

Mas o resultado, segundo ele, está longe do esperado. “Se a redução de jornada fosse a bala de prata, o transporte não estaria enfrentando o que enfrenta hoje. E o cenário real é simples: falta motorista”, aponta Löbel da Luz.

O editor-chefe e criador do Diário do Transporte , Adamo Bazani, também já havia ia abordado o assunto

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Ao longo da conversa, Ilo constrói uma crítica direta à ideia de que cumprir regras no papel resolve o problema da operação. Para ele, existe uma diferença clara entre estar dentro da lei e ter um sistema funcionando de forma saudável. E ressalta: “Cumprir escala não significa que o descanso foi de qualidade. Estar dentro da norma não quer dizer que o motorista está motivado, que ele quer continuar ou que a operação está segura. A gente está confundindo conformidade com solução.”

Ele vai além e desloca o eixo do debate. “A pergunta que precisa ser feita não é quantas horas o motorista dirige. A pergunta é outra: por que ele não quer mais ficar? Porque é isso que está acontecendo. O profissional está saindo.”

Na visão dele, o setor vive hoje uma crise de atratividade. “O motorista é um profissional altamente treinado, que carrega uma responsabilidade enorme — são dezenas de vidas todos os dias. E mesmo assim ele está olhando para o lado. Está comparando com outras atividades, muitas vezes mais flexíveis, com menos pressão e menos peso regulatório.

Esse movimento, segundo Ilo, já tem impacto direto na operação e não pode mais ser tratado como uma variável secundária. “Quando o motorista sai, não é só uma vaga em aberto. É custo de formação, de integração, é tempo até esse novo profissional ganhar experiência. E, no meio disso, você tem ônibus parado. Frota encostada por falta de gente. Isso é prejuízo direto.”

Ele chama atenção ainda para um custo muitas vezes negligenciado: “E tem o custo do acidente por fadiga. Esse não entra na planilha de forma simples. Mas quando acontece, é irreparável. Não dá para tratar isso como detalhe.”

Ao abordar o papel da regulação, Ilo é claro ao reconhecer sua importância, mas alerta para seus limites. “A regulação é fundamental para a segurança. Ninguém está discutindo isso. O problema é achar que ela resolve tudo sozinha. Não resolve. Nunca resolveu.”

Para ele, a fadiga do motorista não pode ser reduzida a uma conta de horas. “Fadiga não é só relógio. É condição de trabalho, é ambiente, é respeito. É onde esse motorista descansa, como ele é tratado, qual é a rotina dele. Se você ignora isso, pode ter a melhor escala do mundo no papel — não vai funcionar.

A crítica também recai sobre a forma como muitas empresas ainda encaram o tema internamente.

“Se o motorista continua sendo visto só como custo, como número de planilha, o resultado é inevitável. A operação começa a parar. A frota encosta. Não tem mágica.”

Na avaliação de Ilo, o setor já entrou em um momento de virada obrigatória. “Valorização de verdade, condição digna em ponto de apoio, tecnologia para apoiar o motorista — e não só para vigiar — isso deixou de ser diferencial. Virou requisito de sobrevivência.”

Ele insiste que a lógica é simples, embora muitas vezes ignorada. “Quem entender que o motorista é o principal ativo estratégico vai conseguir manter a operação rodando com segurança e eficiência. Quem não entender isso vai ver o mercado passar.

E conclui com um recado direto ao debate nacional que hoje ganha espaço fora do setor: “Reduzir jornada pode ser parte da solução, mas está longe de ser a solução inteira. O transporte já testou isso. E a conta, do jeito que está, não fecha.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Adair Silva disse:

    Concordo plenamente com a análise clínica do Dr. Ilo. A mudança do 6×1 para 5×2 é um avanço importante, mas não resolve a raiz do problema. Fadiga e estresse no transporte estão muito mais ligados à escala mal planejada, à pressão operacional, à falta de estrutura e à gestão do que apenas aos dias de descanso.
    E há um ponto ainda mais crítico: remuneração. Se há escassez de motoristas, a lógica básica de mercado — oferta e procura — exige salários e benefícios mais atrativos. Sem isso, o setor perde competitividade na atração e retenção de profissionais. Ajustar o valor pago pela função, reconhecer a complexidade da atividade e oferecer condições adequadas é tratar a causa raiz.
    Reduzir a jornada isoladamente é atuar no efeito, não na causa — sem enfrentar os fatores estruturais, o problema apenas se desloca, mas não se resolve.

  2. Rodrigo Zika! disse:

    O problema não é escala 6×1 e sim baixa produtividade.

    1. Francisco Fernandes disse:

      A função de diminuir a escala está intimamente ligada à qualidade de vida aos motoristas e não resolver todos os setores do transporte que aliás paga uma miséria.

  3. Diego Francis Ávila Lara disse:

    Não existe “falta de motorista” por causa da redução de jornada. Reportagem ridícula, a do miolo pelo menos é mais correta. O que existe é falta de respeito com a profissão.

    Esse discurso de que o setor vive um déjà-vu e que o transporte rodoviário já é modelo de organização simplesmente não se sustenta na prática. Quem está no dia a dia da operação sabe: a realidade é outra — dura, desgastante e cada vez mais desmotivadora.

    O problema não é ausência de profissionais. O problema é que os profissionais não aceitam mais as condições impostas.

    Estamos falando de uma categoria que carrega vidas, conduz veículos que muitas vezes ultrapassam R$ 1 milhão, enfrenta trânsito pesado, pressão de horário, estresse de passageiros e riscos constantes. E, ainda assim, recebe salários cada vez mais defasados, corroídos pelo custo de vida. A conta simplesmente não fecha.

    Enquanto isso, o que as empresas fazem? Transferem seus problemas de gestão diretamente para o motorista. Falta planejamento? Cobra do motorista. Atraso operacional? Cobra do motorista. Cliente insatisfeito? Cobra do motorista. Tudo recai sobre quem está na ponta — sem suporte, sem estrutura e, muitas vezes, sem o mínimo de dignidade.

    Falar que há controle rígido de jornada e boas condições é ignorar a realidade. Alojamentos precários, longos períodos longe da família, desgaste físico e mental e uma qualidade de vida extremamente baixa continuam sendo regra, não exceção.

    E aí vem a consequência inevitável: alto turnover.

    O motorista não está “sumindo”. Ele está escolhendo sair. Está migrando para outras atividades, muitas vezes ganhando igual ou mais, com menos pressão, mais autonomia e melhor qualidade de vida — como nos aplicativos, por exemplo.

    Ou seja: o profissional existe, mas não aceita mais ser tratado como peça descartável.

    Antes de discutir redução de jornada como se fosse um problema técnico do setor, é preciso encarar o problema real: valorização. Salário digno, condições humanas de trabalho, respeito e gestão eficiente.

    Sem isso, não existe escala que resolva.

    Porque o que falta no transporte hoje não é motorista — é dignidade.

  4. Edson disse:

    Nada haver esta matéria fazendo a comparação de setores diferentes. Hoje este setor que está brigando no bom sentido, não tem mão de obra justamente por ter que vc trabalhar domingo a domingo. Sendo que a mão de obra específica neste setor a maioria são jovens.
    Pense…………….

  5. Vagner “Careca” Va disse:

    Motoristas precisam de melhorias no salário ,benefícios para si e dependentes, melhores condições de trabalho , escalas atraentes ,chefias flexíveis aos diálogos, ferramentas de trabalho ( ônibus ) em boas condições gerais ( manutenção em bancos e assentos e mecânica ) no mínimo para se ter qualidade de vida sou a favor de escala 6×2 ;

  6. Francisco Fernandes disse:

    A falte de motorista simplesmente é em virtude das condições de trabalho como descanso, remuneração etc. A redução da escala de trabalho com certeza seria um atrativo para novos motoristas, pois lhes daria mais qualidade de vida.

  7. Ademir Silva disse:

    Enquanto não tiver a vocalização e salário digno vai faltar motorista. Em Sorocaba não falta motorista lá tem valorização e salário digno

  8. Eduardo Zimmer disse:

    É ridícula uma pessoa que se propõe a escrever sobre algo que não domina, as mazelas que assolam a nossa profissão vão muito além da falta de fiscalização com horário. Salários baixos, falta de segurança, falta de respeito com o profissional na maioria das empresas em que vai descarrega, o motorista é humilhado até mesmo para tomar um banho, quase precisa implorar por um lugar para estacionar e passar a noite com o mínimo de segurança, é extorquido por agentes da lei, tem peças do caminhão ou partes da carga roubados enquanto descansa, é frequentemente tratado como marginal pela opinião pública, leva o rotolo de drogado, mesmo que a grande maioria nunca tenha experimentado substâncias ilícitas, e claro longas e longas jornadas fora de casa, vendo os filhos cresceram pela tela do celular, perdendo aniversários, comemorações de família, e todos as outras alegrias em família que muitos dos parlamentares que são a favor da escala 6×1 não abrem mão.

  9. Eduardo disse:

    Eu trabalho no maior grupo de transporte do Brasil ( grupo comporte) sabe porque ninguém quer ser motorista mais, porque as empresas não respeitam as leis, se o motorista bate um ônibus de forma culposa a empresa cobra do motorista.
    Não existe segurança dentro de ônibus, as cidades como aqui em Maringá não investem em mobilidade para transporte público, mas sim em ciclovias.
    Salários baixos, ônibus cada vez mais ruim.
    Como disse um encarregado aqui no meu trabalho, vc é apenas um número. Pois é enquanto motorista for tratado como número as vagas vão aumentar e ônibus vão ficar parado.

  10. Rodrigo Ramos disse:

    Anos e anos de desvalorização dos profissionais do transporte em geral. Seja ônibus ou caminhão e agora tentam tapar o sol com a peneira jogando a culpa na escala. Que mesmo mudando não vai resolver. Acham mesmo que empresários vão deixar funcionários trabalhando menos e pagando a mesma micharia sem reclamar? Vão querer tirar de algum lado pra não ficarem no prejuízo. Onde no final quem vai perder somos nós como sempre.

  11. Paulo César disse:

    É simples, é só fazer a escala 6×2 que é boa tbm

  12. Daniel Ferreira disse:

    A falta de profissional para o transporte público se dá por vários fatores, um desses é a escala com uma folga na semana e também salários defasados, além disso a escala de horários as vezes com 3 – 4 horas de intervalo.
    Então seria interessante sim começar ajustando a escalda para 5 – 2, não vai resolver o problema todo, mas já melhora bastante.

  13. Regis Campos disse:

    Discutir fim da 6×1, implantade 5×2, 4×3, etc… é um ENGODO! Uma isca, truque de mágica ou prestidigitação para ser mais exato. Falta antes disso reformas gerais no país para CORTAR IMPOSTOS e SUPERSALÁRIOS da elite do funcionalismo estatal além da retirada do excesso de burocracia e regulações que ateavancam o país, impedem obras de infraestrutura essenciais e mantém escravos do estado que precisam trabalhar quase 6 MESES apenas para pagar oferendas aos deuses de Brasília apenas para terem privilégios como o empurrador de cadeiras por 7 mil mensais.

  14. Antônio Carlos disse:

    Além de escala e da grande pressão diária com trânsito e estar sempre lutando contra o relógio, problema é lidar com pessoas. Cada vez mais circulam vídeos de discussões e reclamações de passageiros contra o motorista como se ele fosse grande culpado de atrasos ou quebras do ônibus. Essa questão de motorista fazer a função de cobrador tbm é o que afugenta profissionais nessa área

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