Janela extraordinária da ANTT evidencia demanda por expansão e reforça necessidade de modernização do setor

Foto: Divulgação

Processo de autorizações no transporte interestadual revela potencial de ampliação da oferta, ao mesmo tempo em que expõe dúvidas sobre critérios, transparência  e concorrência no setor

ALEXANDRE PELEGI

A chamada “1ª janela extraordinária” da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) passou a ocupar posição central no debate sobre a abertura do mercado de transporte rodoviário interestadual de passageiros. Previsto na Resolução nº 6.033/2023, o mecanismo foi estruturado como forma de viabilizar a entrada de novas empresas em um setor historicamente marcado por concentração e barreiras regulatórias. Na prática, trata-se de um processo seletivo para autorizar a operação entre cidades de diferentes estados. A expectativa da ANTT é divulgar os resultados em 24 de abril de 2026, em meio a um ambiente de crescente pressão institucional e jurídica sobre o modelo adotado.

Um setor grande, mas ainda pouco conectado

O transporte rodoviário interestadual movimenta dezenas de milhões de passageiros por ano e é essencial para a mobilidade no Brasil, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Ainda assim, mais de 63% dos municípios brasileiros não possuem ligação direta por linhas regulares, evidenciando uma lacuna relevante de cobertura.

Além disso, o setor apresenta características de concentração em diversos mercados. Embora existam centenas de empresas habilitadas, apenas parte delas opera efetivamente — o que indica que a ampliação da concorrência ainda não se traduziu plenamente em oferta real para o passageiro. A entrada de novos concorrentes em mercados dominados por poucas empresas poderia reduzir os preços em até 15%, beneficiando diretamente o consumidor. No entanto, mesmo com grande interesse do mercado, restrições estabelecidas pela Resolução 6.033/2023 têm dificultado essa expansão. Nos últimos dois anos, o crescimento dos serviços foi possibilitado principalmente por meio de decisões judiciais, e não por processos administrativos, mostrando a dificuldade de criar e pôr em prática uma regulação mais aberta e eficaz, como se busca desde 2015.

A dimensão da janela e o interesse do mercado

Durante discussões públicas, a própria ANTT apresentou números preliminares que indicam a dimensão da janela extraordinária: cerca de 70 mil solicitações para operação de mercados interestaduais, com possibilidade de atendimento de aproximadamente 57 mil dessas.

Os dados revelam um forte interesse do mercado e reforçam a existência de demanda reprimida. Também indicam a presença de milhares de mercados com baixa concorrência.

Na prática, isso significa que há espaço para ampliar significativamente a oferta de transporte rodoviário no país, com impactos diretos na conectividade entre cidades e no acesso da população a opções mais acessíveis de viagem.

O debate sobre o modelo regulatório

A discussão em torno da janela extraordinária também envolve aspectos jurídicos e estruturais. O modelo escolhido pelo legislador brasileiro na última década determina a aplicação do regime de autorizações, com o objetivo de reduzir barreiras de entrada e ampliar a concorrência.

No entanto, a utilização de mecanismos como limitação de vagas e, no caso da Janela, leilões, tem sido interpretada por diferentes agentes como uma aproximação com modelos mais restritivos, historicamente associados a permissões.

Esse ponto tem gerado questionamentos sobre a aderência da regulação às diretrizes legais e sobre os limites do poder normativo da Agência, especialmente em um contexto em que a ampliação da concorrência é vista como caminho para modernização do setor.

Pressão institucional e necessidade de transparência

O tema passou a ser acompanhado por diferentes instâncias. Há manifestações no âmbito do Judiciário e de órgãos de controle que apontam riscos concorrenciais no modelo adotado, além de questionamentos sobre critérios utilizados na seleção de mercados.

Também foram levantadas dúvidas sobre a exclusão de rotas e a ausência de informações detalhadas sobre o processo, reforçando a necessidade de maior transparência e previsibilidade na condução da política pública.

Para um setor que depende de planejamento de longo prazo e investimentos relevantes, a clareza regulatória é um elemento essencial para atrair novos operadores e garantir expansão sustentável.

Modernização, eficiência e impacto no passageiro

Outro aspecto relevante no debate é o impacto direto para o usuário. A ampliação da concorrência tende a aumentar a oferta de horários, melhorar a qualidade do serviço e contribuir para a redução de preços — além de estimular inovação na experiência de viagem.

A experiência internacional mostra que a abertura de mercado, quando bem estruturada, pode gerar ganhos relevantes de eficiência, conectividade e acessibilidade.

Um momento decisivo para o setor

A janela extraordinária representa um avanço relevante ao retomar a agenda de autorizações e evidenciar a existência de demanda reprimida no transporte rodoviário interestadual.

Ao mesmo tempo, o processo também expõe desafios importantes relacionados a critérios, transparência e ritmo de expansão. Mais do que um instrumento pontual, a iniciativa se torna um indicativo dos caminhos que o setor pode seguir nos próximos anos.

O desfecho dessa rodada e eventuais ajustes futuros na regulação serão determinantes para definir se o Brasil avançará na construção de um ambiente mais aberto, competitivo e conectado — alinhado às transformações já observadas em outros mercados de mobilidade.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Maria Eunice disse:

    Bom dia, vem pedir um socorro pela situação que se encontra a frota de ônibus da gardênia, sentido jacutinga a Campinas. Faço esse caminho a mais de vinte anos. Não dá mais pra calar, os ônibus quebram todas as viagens que faço cada trinta dias para jacutinga. Os riscos são eminentes todos sem higiene, etc. Todos sem condições de trafegar em rodoviá. Corremos risco em todas as viagens porque os ônibus condições de rodarem, situação precária…

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