Reino Unido anuncia investimento de £ 3 bilhões (R$ 21,7 bilhões) para reforçar sistema de ônibus

Bee Network, na Grande Manchester, será usado como exemplo de sistema de franquia para outras regiões

 

Aporte bilionário dará autonomia às autoridades locais, impulsionará modelo de franquias, ampliará oferta, modernizará a bilhetagem e busca reverter queda histórica na demanda pelo transporte por ônibus

ALEXANDRE PELEGI

O Governo do Reino Unido — que representa Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, coletivamente conhecidos como o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte — anunciou um pacote de £ 3 bilhões (cerca de R$ 21,7 bilhões) para revitalizar os serviços de ônibus em todas as suas nações. O objetivo é ampliar a frequência, reduzir tarifas, modernizar a bilhetagem e fortalecer a autonomia das autoridades locais. O anúncio foi feito pelo Department for Transport (DfT).

O pacote integra o recém-aprovado Bus Services Act, que transfere aos governos locais o poder de planejar e operar os serviços com mais autonomia — inclusive com possibilidade de adotar o modelo de franchising (franquia), já utilizado em regiões como Greater Manchester. A descentralização, segundo o governo, deve permitir soluções mais adequadas à realidade de cada comunidade.

Segundo o comunicado oficial, “o financiamento plurianual dará às autoridades locais os recursos de que precisam para oferecer tarifas mais baixas, serviços mais frequentes e confiáveis e viagens mais seguras aos passageiros”.

“Depois de anos de declínio, ônibus melhores estão finalmente a caminho”, diz a secretária

A secretária de Transportes, Heidi Alexander, afirmou que o investimento representa uma mudança estrutural na política de mobilidade do Reino Unido:

“Depois de anos de declínio, ônibus melhores estão finalmente a caminho.”

Ela ressaltou que o pacote proporciona estabilidade às autoridades regionais:

“Nosso investimento de £ 3 bilhões dará às autoridades locais o financiamento de longo prazo de que precisam para oferecer tarifas mais baixas, serviços mais frequentes e o transporte confiável do qual as comunidades dependem.”

Alexander lembrou que o governo já adotou medidas emergenciais para aliviar custos aos passageiros:

“Já prorrogamos o limite de £ 3 na tarifa de ônibus para ajudar as pessoas em seus deslocamentos diários, e agora estamos acompanhando isso com o financiamento necessário para que os conselhos transformem seus serviços locais.”

A secretária situou o plano dentro de uma estratégia nacional mais ampla:

“Esta é parte da nossa estratégia para tornar o transporte público mais barato em todo o país — congelamos as tarifas ferroviárias pela primeira vez em 30 anos e estamos implementando a Great British Railways para oferecer melhor valor aos passageiros.”

E reforçou o impacto social do transporte:

“Seja o ônibus para o trabalho, o trem para visitar a família ou a ida a uma consulta médica, transporte acessível é essencial para reduzir o custo de vida e impulsionar nossa economia.”

Modelo de franquia: o que significa e por que o Reino Unido está investindo nele

O pacote está alinhado ao avanço do modelo de franquia (franchising) no transporte público. Nesse sistema, o poder público define rotas, tarifas, níveis de serviço e padrões de qualidade, enquanto empresas privadas operam mediante contratos licitados. A rede deixa de ser fragmentada e passa a funcionar com planejamento centralizado, como serviço público, e não como mercado competitivo entre operadoras.

Greater Manchester: o caso de referência

A Greater Manchester — uma região metropolitana no noroeste da Inglaterra, composta por 10 boroughs e cerca de 2,8 milhões de habitantes — tornou-se, desde 2023, o principal exemplo do novo modelo de franquias fora de Londres.

Trata-se da Bee Network, sistema integrado de transporte público de Greater Manchester, que reúne ônibus, bondes (Metrolink) e futura integração ferroviária sob identidade visual única, planejamento centralizado pela autoridade regional (TfGM) e contratos de franquia. O objetivo é operar toda a rede como um serviço público coordenado, com tarifas padronizadas, metas de qualidade e integração total entre modais.

Desde sua implantação:

  • todas as rotas passaram a ser planejadas pela TfGM;

  • operadoras privadas concorrem apenas em licitações;

  • a rede ganhou frota e comunicação visual padronizadas;

  • foram introduzidas metas rígidas de confiabilidade e pontualidade;

  • houve maior integração com o Metrolink e futura integração com trens.

O prefeito Andy Burnham defendeu que a mudança devolve ao transporte o caráter de “serviço público”, e resultados iniciais já mostram melhora na satisfação dos passageiros, maior estabilidade operacional e expansão de horários.

Esse modelo é agora citado pelo governo britânico como exemplo do que o novo financiamento pode permitir em outras regiões.

Autonomia local, bilhetagem moderna e flexibilidade

Com o Bus Services Act, autoridades locais ganharam mais poder para planejar e contratar serviços conforme necessidades regionais. Os recursos poderão ser usados para criar novas rotas, reduzir tarifas, modernizar pontos de parada, reforçar segurança e adquirir ônibus de emissão zero.

O plano também prevê a expansão da bilhetagem “tap-in tap-out”, que permite ao passageiro pagar conforme a distância percorrida, tocando o cartão na entrada e na saída do veículo.

Reações do setor

As entidades do setor repercutiram de imediato o anúncio.

A Confederation of Passenger Transport (CPT) — principal associação que representa as empresas operadoras de ônibus e “coaches” no Reino Unido — afirmou que “o momento dos ônibus é agora. Com o financiamento plurianual disponível, as autoridades precisam investir no que realmente importa para os passageiros: mais ônibus, ônibus mais rápidos e serviços mais confiáveis.”

Na outra ponta, representando os passageiros, a Bus Users UK destacou que a previsibilidade financeira permitirá reconstruir a confiança do público no transporte coletivo. A entidade afirmou que “dar às autoridades estabilidade para planejar e investir nos serviços dos quais suas comunidades dependem é essencial para reverter o declínio”.

Já a Urban Transport Group, organização que reúne autoridades metropolitanas e atua na formulação de políticas de mobilidade, afirmou que o pacote e o novo fundo para franquias “mostram a importância do ônibus como espinha dorsal dos sistemas locais de transporte”.

O governo britânico espera que, com novos recursos, expansão das franquias, bilhetagem moderna e autonomia local, seja possível retomar a confiança dos passageiros, aumentar a demanda pelo transporte coletivo e construir uma rede mais integrada, sustentável e acessível em todo o Reino Unido.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Farley Espinha disse:

    Está notícia deve de estar um pouco baralhada ou desfasada da realidade. A Escócia tem Governo próprio. São eles que podem decidir e gerir os transportes públicos como tem feito e não a Inglaterra e provavelmente acontece com a Irlanda do Norte porque são autónomos nas decisões.

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