Biodiesel polui mais que o diesel: estudo mostra que só eletrificação de caminhões de carga evita colapso climático e custos bilionários
Publicado em: 10 de setembro de 2025
Pesquisa revela que eletrificação pode reduzir 46% das emissões até 2050 em São Paulo e evitar R$ 5 bilhões em danos à saúde e ao meio ambiente
ALEXANDRE PELEGI
A eletrificação do transporte de carga pesada no Brasil pode gerar reduções de 46% nas emissões de gases de efeito estufa e de R$ 5 bilhões em custos ambientais e de saúde evitados até 2050. No caso dos modelos híbridos a diesel, a queda é bem inferior: apenas 8% de redução nas emissões e R$ 298 milhões em custos evitados. Já caminhões movidos a gás natural e biodiesel, por sua vez, aumentam as emissões líquidas e os custos econômicos ao longo do tempo. É o que mostra um estudo inédito do Instituto Ar, que também alerta para o impacto da expansão do biodiesel sobre a área cultivada no país: a utilização integral de biodiesel (B100) até 2050 exigiria cerca de 215 milhões de hectares de terras agrícolas, o equivalente a mais de 25% do território nacional.
A pesquisa foi liderada por Patrícia Ferrini, especialista em avaliação dos impactos ambientais, econômicos e em saúde da poluição atmosférica em áreas urbanas, especialmente em fontes de transporte. Para ela, “as conclusões não deixam dúvidas sobre as consequências econômicas e para a saúde pública advindas da escolha que o país faz sobre a matriz energética do transporte de cargas. O enfrentamento das mudanças climáticas exigirá a transição energética do setor de transportes, portanto este é o momento de conciliar a redução de emissões com ganhos para a saúde pública. Sem uma intervenção eficaz, as emissões de caminhões a diesel continuarão a sobrecarregar o sistema de saúde brasileiro, levando ao aumento de custos e à piora dos resultados de saúde, principalmente para populações vulneráveis”, alerta.
Custos sociais e desigualdades
O relatório também aponta o peso econômico da poluição gerada pelo transporte de cargas: “entre 2013 e 2023 foram gastos R$ 24,5 bilhões em hospitalizações causadas por doenças relacionadas à poluição do ar”.
Além disso, chama atenção para a desigualdade na exposição: “populações negras e de baixa renda, concentradas próximas a corredores logísticos, são desproporcionalmente expostas aos níveis de NOx e material particulado”.
Benchmarking internacional
O estudo traz ainda uma análise comparativa mostrando que o setor de transporte de cargas brasileiro apresenta grandes defasagens de eficiência em relação a outros mercados globais. Enquanto países desenvolvidos avançam em padrões rígidos de eficiência energética e metas de eletrificação, o Brasil segue com lacunas regulatórias que comprometem a competitividade e dificultam a redução das emissões.
Outras alternativas tecnológicas
O estudo também avaliou outras rotas de transição energética no setor de cargas.
O hidrogênio aparece como aposta de médio prazo, mas enfrenta barreiras: “Hidrogênio: promissor, mas enfrenta altos custos e barreiras de infraestrutura”.
Os híbridos a diesel apresentam ganhos tímidos: “8% de redução nas emissões até 2050, com R$ 298 milhões em custos evitados”.
Já o gás natural foi avaliado de forma crítica: “benefícios limitados no curto prazo e risco de aumento das emissões e custos no longo prazo”.
Biodiesel em xeque
Embora o biodiesel esteja consolidado na matriz energética brasileira, o relatório evidencia seus limites para o transporte rodoviário de cargas. “O Brasil adota atualmente até 14% de mistura obrigatória (B14), sendo a maior parte proveniente da soja”.
No entanto, caso o país optasse pelo uso integral, o cenário seria preocupante: “a utilização integral de biodiesel (B100) até 2050 demandaria cerca de 215 milhões de hectares de terras agrícolas — o equivalente a aproximadamente 25% do território nacional”.
O veredito dos pesquisadores é claro: “biodiesel apresentou pior desempenho ambiental do que o diesel”.

Recomendações do estudo
O relatório dedica uma seção às recomendações estratégicas, defendendo um pacote de medidas estruturantes para acelerar a transição no transporte de cargas.
Primeiro, enfatiza a necessidade de “acelerar a implementação de regulamentações de economia de combustível para caminhões”, suprindo uma lacuna histórica da política brasileira para veículos pesados.
Outro eixo é a renovação da frota. O estudo reforça que é fundamental “apoiar a renovação da frota com políticas eficazes”, o que inclui mecanismos para retirar de circulação veículos antigos e substituí-los por modelos mais limpos.
Sobre incentivos, os pesquisadores são diretos: é preciso “eliminar gradualmente os subsídios ao diesel, implementar precificação de carbono e alinhar políticas com justiça climática”, medida que, segundo eles, corrige distorções e pode financiar a nova infraestrutura.
Também defendem a criação de previsibilidade industrial com “metas obrigatórias de fabricação de Veículos com Emissão Zero até 2040”, algo já adotado em mercados internacionais.
Por fim, o estudo destaca o papel da infraestrutura: “criar infraestrutura de recarga elétrica e hidrogênio” é visto como indispensável para viabilizar a transição. Para financiar esse processo, recomenda-se “implementar mecanismos financeiros concretos, tais como créditos, subsídios, taxações”, reduzindo riscos de investimento e acelerando a escala.
O que é o Instituto Ar
O Instituto Ar foi idealizado pela médica Evangelina Araújo e estabelecido em dezembro de 2008, em São Paulo, por um grupo multidisciplinar de 64 associados, composto por um terço de médicos e dois terços de profissionais de outras áreas.
A singular união entre saúde, clima e poluição do ar representa a marca distintiva do Instituto Ar. Essa característica, aliada à habilidade de promover colaborações intersetoriais em prol de um objetivo comum, constitui sua maior força. Por meio da organização e tradução clara do conhecimento científico em informações acessíveis à sociedade, o Instituto conecta a saúde ao debate climático e contribui para o fortalecimento de ações de combate às emissões atmosféricas.
Desde 2008, empenha-se em produzir e difundir conhecimentos embasados na ciência, apoiar os tomadores de decisão e fomentar o empoderamento cidadão no enfrentamento climático. Mobilizando cidadãos, governos e instituições, busca fortalecer os direitos em saúde e construir políticas públicas.
Com isso, tornou-se uma referência nacional em informação sobre os impactos climáticos na saúde humana e na formulação de soluções para políticas de melhoria da qualidade do ar, reconhecendo a preservação da vida e do meio ambiente como elementos fundamentais de direitos humanos.
Patrícia Ferrini, líder do estudo, tem mais de 10 anos de experiência na interface entre saúde pública, economia, ciências ambientais e políticas públicas. Dedicada a quantificar e mitigar os impactos globais da poluição do ar e das mudanças climáticas, fornece dados e análises econômicas para o desenho de políticas públicas que reduzam emissões de poluentes atmosféricos e climáticos.
Doutora em Ciências Atmosféricas pela Universidade de São Paulo (USP), colaborou com a NASA em pesquisas de sensoriamento remoto de atmosferas urbanas. Tem experiência em pesquisa e consultoria em países como Brasil, Alemanha, Portugal, França e Suíça, incluindo trabalhos de impacto para a Organização Mundial da Saúde (OMS). Autora de diversas publicações científicas e premiada por pesquisas em qualidade do ar e saúde.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


Srs, me desculpem mas preciso tecer uma crítica à reportagem:
A matéria anuncia que as emissões líquidas provenientes da queima do biodiesel aumentam com o tempo, quando comparados ao diesel B14.
Mas o cerne da reportagem não foi tratado: qual o motivo do biodiesel ser ambientalmente pior do que o diesel “normal”?
Me parece um contrassenso que o diesel extraído de plantas seja mais nocivo em termos de emissões do que o diesel de petróleo, visto que o ciclo de carbono das plantas (soja, que seja) recicla boa parte do CO2 emitido na combustão.
É a mesma lógica do etanol da cana de açúcar.
Por esse contrassenso, achei muito interessante a chamada da reportagem. Mas infelizmente o conteúdo frusta ao não expor a motivação dessa conclusão.
Tenho lido que o nosso diesel vem sendo um problema devido à excessiva mistura nele de 15% de biodiesel (o recomendável seria 8%), o que vem comprometendo o funcionamento e a manutenção dos motores devido à humidade do óleo vegetal. Sendo assim isso certamente há de acarretar maior poluição pelos motores, gerando exatamente o efeito contrário à proposta que incentiva essa mistura.
Já a “solução” de se eletrificar os caminhões com a tecnologia de baterias recarregáveis, reacende a valha e persistente pergunta:
– De onde virá a eletricidade pra recarga???
Ao mesmo tempo a tecnologia hibrido-elétrica vem sendo escanteada por baixar a emissão em apenas 8%, usando diesel!!!
Ninguém pensou em empregar essa tecnologia com biometano, HVO, etanol, e outros???
Além destes combustíveis serem limpos, a tecnologia hibrido-eletrica faz cada litro render bem mais quilômetros, já que a fase-combustão trabalha em rotação suave e sem fazer o esforço de tração.
– Srs engenheiros!!!
A questão é que no passado destruíram as ferrovias, ficando dependente de rodovia.