ESPECIAL: Exemplo francês mostra que transição de tecnologia para ônibus menos poluentes exige comprometimento e não somente dinheiro do poder público
Publicado em: 4 de junho de 2023
Além de injetar recursos, poder público é atuante em modelos de negócio e na criação de um ambiente de investimentos
ADAMO BAZANI
É inegável que a transição tecnológica de frotas de ônibus requer muitos recursos financeiros.
Por mais que a indústria que produz veículos alternativos à tração a diesel diga que os modelos duram mais e ao longo do tempo têm custos de manutenção e operação menores, os investimentos iniciais ainda são muito altos: os ônibus elétricos são bem mais caros que os movidos à diesel e ainda são necessárias altas cifras em infraestrutura de geração e transmissão de energia, além de recarga de baterias.
Entre os dias 21 e 26 de maio de 2023, a convite da Iveco, uma das maiores fabricantes de ônibus elétricoso na Europa, o Diário do Transporte esteve na França e conferiu como é política pública por lá e que pode ser adaptado à realidade brasileira.
Tanto em relação à indústria como à operação, o que foi possível perceber é que o Governo Francês decidiu ser protagonista. Neste aspecto, participa de praticamente todas as etapas necessárias para que os transportes coletivos tenham menores emissões. E este protagonismo vai além de injetar recursos e criar leis ou normas. Mas desenvolver junto com a iniciativa privada um ambiente de investimentos.
Neste aspecto, a pesquisa e desenvolvimento são fundamentais.
A reportagem esteve na RATP, empresa pública de transportes de Paris e região metropolitana. A companhia ao assumir a meta anunciada pelo Governo Francês de eletrificar os cinco mil ônibus urbanos até 2030, criou um departamento de transição tecnológica. Na COP 21, em 2015, o governo anunciou 1,5 bilhão de euros para esta eletrificação: mas não se limitou a abrir a carteira e atua na pesquisa como melhor investir este dinheiro estrondoso.
A RATP é pública, o que em tese seria mais fácil para o Estado assumir o protagonismo.
Mas a participação da iniciativa privada é um dos focos neste processo de mudança.
Foi possível perceber isso na visita à fábrica da Iveco/Heuliez. As atualizações do processo de produção seguem as determinações do governo para que a tecnologia seja desenvolvida na própria França: a indústria que alcança níveis superiores a 50% da nacionalização dos ônibus elétricos, recebe um selo do governo francês que resulta em incentivos.
Além disso, diferentemente do que ocorre no Brasil, o preço não é o principal critério para uma empresa ser vencedora em licitações, mas antes, é atender uma pontuação com quesitos técnicos e de qualidade. O preço é só um componente da concorrência e em algumas ocasiões serve para desempate.
Nos workshops promovidos pela Iveco no evento sobre eletromobilidade foi possível ver que a indústria local busca o aperfeiçoamento dos produtos e processos produtivos. Tudo isso é possibilitado por uma política pública, que não se restringe a marcos legais, subsídios ou desonerações.
Claro que a realidade brasileira é diferente em diversos aspectos, mas há ações que podem servir de inspiração para a criação de soluções próprias com o objetivo de o avanço conseguir se sustentar e não parar apenas no discurso.
LULA PROMETE APOIAR CIDADES:
Nessa sexta-feira, 02 de junho de 2023, o presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva visitou a fábrica da Eletra, em São Bernardo do Campo: uma empresa que trabalha com tecnologia nacional para ônibus elétricos.
Lula prometeu que o Governo Federal dará apoio aos municípios para que deixem as frotas de ônibus menos poluentes.
O presidente não detalhou como seria esta ajuda, mas ao menos deu um aceno sobre o tema.
O que prefeitos e mercado dizem esperar é que a ajuda seja financeira, mas não se limite a apenas liberação de recursos: apoio técnico, infraestrutura de distribuição de energia e recarga de baterias, desenvolvimento e pesquisa, capacitação de mão de obra, entre outros pontos.
Ou seja, como fez o governo francês que de fato participou e não apenas abriu a carteira, é o que se espera do governo brasileiro.
Veja a reportagem:
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


No Brasil os governos se escondem, com isso difícilmente funcionaria, infelizmente.