Novas testemunhas apontam ao MP graves riscos de segurança nas linhas 8 e 9 e promotoria pede à Polícia investigação e respostas do Governo do Estado

Entre os apontamentos estão falhas em equipamentos de mudança de via que podem causar descarrilamentos como o que ocorreu na linha 8 em dezembro e infiltrações que provocam abertura de portas sem o acionamento do maquinista

ADAMO BAZANI

O promotor Silvio Antonio Marques, da Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social, do Ministério Público de São Paulo, ouviu nos dias 15 e 16 de dezembro, duas testemunhas que apontaram o que foi considerado pelo MP como graves problemas de segurança, manutenção e operação que podem gerar acidentes com risco contra a vida de usuários e trabalhadores das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, concedidas à empresa ViaMobilidade (CCR e Grupo Ruas).

Diante das denúncias, o Ministério Público pediu abertura de inquérito à Policia Civil pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) e que a STM (Secretaria dos Transportes Metropolitanos) e o Coordenador da Comissão de Monitoramento de Concessões e Permissões da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), Adailton Ferreira Trindade, respondam em dez dias após a notificação quais as providências que serão tomadas para apurar e corrigir as situações de insegurança apontadas pelas testemunhas.

O MP já recomendou o Governo do Estado a romper contrato com a ViaMobilidade.

Entre os apontamentos feitos pelos depoentes ao MP, estão oscilações intermitentes e sem controle das chaves de transição dos AMVs (Aparelhos de Mudança de Via), responsáveis por fazer os trens trocarem de trilhos, que teriam sido, inclusive, a causa do descarrilamento de um trem da linha 8-Diamante no dia 07 de dezembro de 2022.

Como mostrou o Diário do Transporte, o descarrilamento ocorreu na estação Domingos de Moraes, sentido Itapevi da linha 8 Diamante.

Ninguém se feriu.

Um vídeo obtido pelo Diário do Transporte, mostra que o trem já chegou à plataforma descarrilado, ou seja, as rodas saíram dos trilhos e a composição continuou em movimento.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2022/12/07/video-mostra-que-trem-da-viamobilidade-ja-encostou-na-plataforma-com-um-dos-carros-vagoes-descarrilado-na-manha-desta-quarta-07/

As testemunhas apontaram ainda que ocorreram outros descarrilamentos.

Por um recurso da ViaMobilidade ao CSMP (Conselho Superior do Ministério Público), esta investigação do MP chegou a ser suspensa em 05 de dezembro de 2022, mas no dia 11 do mesmo mês, o relator do recurso da ViaMobilidade no Conselho, Antonio Carlos da Ponte, após analisar o pedido, liberou novamente as apurações.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2022/12/12/liberada-investigacao-do-ministerio-publico-contra-a-viamobilidade-pelas-falhas-das-linhas-8-e-9/

Outro ponto destacado por testemunhas ouvidas, segundo o MP, estão infiltrações nos carros (vagões) que contribuem para problemas como abertura de portas dos trens sem o acionamento dos maquinistas.

Falta radiocomunicadores em quantidade adequada para o controle dos trens e de manutenção correta em ar-condicionado também estão entre os problemas relatados.

Uma das testemunhas chegou a trabalhar como operador de trens para a ViaMobilidade.

Segundo o profissional, “muitos empregados do setor de manutenção da ViaMobilidade não tinham experiência para resolver imediatamente todas as falhas nos trens. Tais empregados foram treinados por pouco tempo por funcionários da CPTM”

Ainda de acordo com o depoimento, alguns colegas maquinistas das Linhas 8 e 9 de trens metropolitanos foram obrigados a “resetar” trens com passageiros dentro, ou seja, desliga-lo e liga-lo novamente, depois de cinco minutos, para que voltassem a funcionar.

O procedimento, ainda segundo o relato, também ocorria nas ocasiões que a CMCP (Comissão de Monitoramento de Concessões e Permissões da Secretaria do Estado de Transportes Metropolitanos) realizava as vistorias, ou seja, para disfarçar as condições precárias de funcionamento.

A testemunha relatou ainda à promotoria que com exceção de dois trens sob a administração da ViaMobilidade, que sempre funcionaram corretamente, todos os demais apresentavam pelo menos uma falha durante o dia.

O profissional relatou seis casos de descarrilamento, dos quais, três disse ter presenciado.

A maioria ocorreu por problemas no AMV (Aparelho de Mudança de Via).

A quantidade de seguranças apontada como insuficiente também teria ocasionado problemas à operação, ainda segundo o depoimento.

De acordo com o relato, em agosto de 2022, por exemplo, um homem em situação de rua colocou uma barra de ferro em uma chave AMV nas proximidades da Estação General Miguel Costa, provocando o descarrilamento do último carro (vagão) do trem, que seguia no sentido Júlio Prestes. Nesse caso, segundo o ex-maquinista, o descarrilamento não ocorreu por falta de manutenção, mas por falta de vigilância.

Sobre os equipamentos de ar-condicionado, a temperatura dentro dos trens varia entre 32 a 37 graus, quando o correto, se os aparelhos estivessem funcionando corretamente, deve variar entre 17 e 22 graus.

O homem disse ter ouvido de um supervisor que as peças para o conserto e manutenção de aparelhos de ar-condicionado dos trens são muito caras.

O depoimento ainda dá conta que a limpeza dos trens na parte interna é precária e na parte externa praticamente inexistente. A lavagem externa das composições ocorre apenas antes de o trem ser “adesivado” com publicidade, segundo esta testemunha.

Sobre as possíveis infiltrações na estrutura dos trens, além de provocar a abertura das portas sem acionamento do maquinista, inclusive com a composição em movimento, o depoente relatou que entra água nas cabines dos maquinistas e pelos gangway (“sanfona” de borracha entre os carros/vagões) de trens do modelo 8500, que rodam apenas na Linha 9 e estão rompidos.

Outra testemunha ouvida pelo Ministério Público é um usuário frequente.

O homem relatou que os intervalos entre um trem e outro constantemente fica em 10 minutos ou mais mesmo nos horários de maior movimento, sendo que o normal nas duas linhas, quando eram administradas pelo CPTM, era entre 5 e 7 minutos.

O rapaz presenciou o descarrilamento do trem da linha 8 na estação Domingos de Moraes no dia 07 de dezembro de 2022 e no dia foi informado que os trens possuem um sensor de descarrilamento que provoca o acionamento do freio de emergência e a parada obrigatória da composição. Todavia, segundo ouviu, o sensor do trem descarrilado citado não foi acionado, fazendo com que ele se movimentasse até chegar à Estação Domingos de Moraes.

O jovem apresentou uma foto de um dormente de madeira nos trilhos que teria sido “rasgado” ao meio pelo trem descarrilado que se movimentou por vários metros nesta condição.

O depoente ainda relatou que ocorreram outros descarrilamentos problemas como invasão às cabines de maquinistas que não são fechadas adequadamente e não funcionamento de escadas rolantes e elevadores.

O relato ao MP ainda diz que a concessionária não cuida de animais mutilados e feridos pelos trens e atropelamentos, abanando em qualquer lugar.

RESPOSTAS:

O Diário do Transporte procurou a ViaMobilidade e a STM (Secretaria dos Transportes Metropolitanos), responsável pelo contrato e que foi oficiada pela Ministério Público.

A Secretaria dos Transportes Metropolitanos respondeu apenas que irá prestar os devidos esclarecimentos ao Ministério Público, assim como tem feito em todas as solicitações do órgão até o momento.

Em nota, a ViaMobilidade diz que não está tendo acesso ao conteúdo da investigação e que continua investindo na melhoria das linhas 8 e 9

A concessionária ViaMobilidade informa que não lhe tem sido permitido acesso aos autos do procedimento e, por isso, não tem condições de se manifestar sobre tais documentos. De todo modo, esclarece que segue envidando todos os esforços na recuperação da infraestrutura e no aprimoramento operacional das Linhas 8 e 9, e tais melhorias já podem ser percebidas pelos usuários.

Veja algumas imagens que fazem parte da investigação:

 

Veja a documentação:

 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Kaio Henrique Medeiros disse:

    Fora a periculosidade que não pagam aos maquinistas das linhas 8 e 9 por atuarem em equipamentos elétricos dos trens e da via. Os maquinistas atuam na via e nem recebem por isso, só aumentam o trabalho a cada dia.

    Existem 4 salários diferentes pra a mesma função, é tanta coisa errada que fica difícil expressar.

    Pior é ainda quererem dar 4% de aumento aos maquinistas, enquanto os supervisores tiveram mais de 40% de aumento neste ano. VERGONHA! É assim que os gestores da ViaMobilidade tratam seus profissionais que conduzem milhares de vidas.

  2. Gislaine disse:

    E o governador eleito ainda estuda conceder mais linhas a tal empresa, e vamos de VIA MOBILIDADE E TARCÍSIO São Paulo 👏👏👏👏

  3. Flavio Livino disse:

    O engraçado é que a resposta da via mobilidade é que recebemos as linhas sucateadas!!!
    Mas isso não acontecia com a CPTM!!!!!!
    Na verdade, isso mostra a incapacidade da iniciativa privada de administrar o transporte de grande complexidade, é uma tendência mundial, a reestatizar/não privatizar é uma realidade que só o Brasil ainda não enxerga.
    Empresas querem lucro, e serviços deste tipo não geram lucro, então precarizar, através de mão de obra barata, postergar manutenção ou até mesmo material de reposição de baixa qualidade, aumenta o lucro e os acidentes.

  4. Vivian Miranda da Silva disse:

    Negativo eu entrei na estação Santo Amaro as 17:25 e já estava tudo parado cheguei na está Vila Natal as 18:27 1 horas depois

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