ViaMobilidade diz ao MP que CPTM restringiu acesso a equipamentos e instalações das linhas 8 e 9 na transição e que manutenção estava bastante desfavorável

Seguranças da ViaMobilidade cercam trem que bateu em estação no dia 10 de março

Diário do Transporte teve acesso à documentação completa. Concessionária também alega que muitas das manutenções corretivas e preventivas deveriam ter sido concluídas pela CPTM antes de entregar as linhas, que havia pendências contratuais com empresas terceirizadas e que os incidentes noticiados na mídia derivaram de razões de ordem técnica preexistentes

ADAMO BAZANI

A ViaMobilidade, concessionária das linhas 8 e 9 de trens metropolitanos de São Paulo, apontou ao MP (Ministério Público do Estado de São Paulo) uma série problemas que seriam de responsabilidade da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), estatal que operava os serviços .

Esse conjunto de problemas poderia, de acordo com as respostas aos promotores, explicar porque ambas as ligações apresentam tantas falhas, que vão desde pequenos defeitos nos trens, a início de incêndio nos rodeios (conjunto de rodas) e até situações como risco de acidentes.

O Diário do Transporte teve acesso às respostas na íntegra nesta sexta-feira, 13 de maio de 2022.

Toda a documentação completa tem mais de 300 páginas, contando com as respostas e os anexos, obtidos pelo Diário do Transporte

A existência dos documentos foi revelada pela Folha de São Paulo.

A ViaMobilidade elencou ao Ministério Público diversos pontos como:

– Havia problemas que não foram avisados nas visitas técnicas, no processo de concessão e nem mesmo no período de transição entre a estatal e a concessionária;

– Manutenções preventivas e corretivas de trens e equipamentos que deveriam ter sido feitas antes da transferência e não foram realizadas;

– A infraestrutura foi entregue em condições de manutenção bastante desfavoráveis;

– Havia problemas “ocultos” que não foram descobertos na transição e nem avisados. Muitas destas situações de precariedade não puderam ser identificadas por esta restrição de acesso;

– Muitas ações de manutenções corretivas e preventivas deveriam ter sido concluídas pela CPTM antes de entregar as linhas, mas não eram realizadas;

–  Havia pendências contratuais com empresas terceirizadas;

– Os incidentes noticiados pela imprensa derivaram de razões de ordem técnica preexistentes;

– Curto período para transição.

(Veja mais ao fim da reportagem as transcrições das respostas)

O contrato foi assinado em 30 de junho de 2021. No fim de dezembro de 2021, ViaMobilidade e CPTM atuaram em conjunto e no dia 27 de janeiro de 2022, a concessionária assumiu integralmente a operação das linhas.

A STM (Secretaria dos Transportes Metropolitanos) multou em mais R$ 3,6 milhões a ViaMobilidade pelos problemas registrados nas linhas 8 e 9. Já são agora duas multas que somam R$ 7,9 milhões.

As operações da ViaMobilidade nas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda da rede de trens metropolitanos ainda são alvos de muitas queixas dos passageiros.

Completados 100 dias, a concessão ainda reúne problemas como falhas em trens e equipamentos,  escadas rolantes e bloqueios das estações (catracas), atrasos e, principalmente, falta de informações rápidas e transparentes sobre as condições operacionais em tempo real.

Não é de hoje que o Diário do Transporte e outros órgãos de imprensa, especializados em transportes ou de cobertura geral, destacam falhas e ocorrências que afetam as operações, com as redes sociais lotadas de reclamações, mas que, nestes momentos, os canais oficiais da operadora dizem que a situação é normal, não sendo verdade.

Diário do Transporte também revelou com exclusividade um problema sério envolvendo a concessão: a ViaMobilidade começou a operar as linhas 8 e 9 com 65% da frota de trens com revisão vencida. E muito vencida. Por exemplo, os rodeiros, conjunto de rodas dos trens que devem ser revisados a cada 1,2 milhão de quilômetros, estavam com até dois milhões de quilômetros sem revisão. Essa frota foi recebida da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). As culpas da estatal, da concessionária e da STM (Secretaria dos Transportes Metropolitanos – responsável por acompanhar a concessão) são apuradas pelo Ministério Público que pode sugerir à Justiça penalizações contra os envolvidos.

Entre estes trens com revisão vencida está aquele que bateu contra uma plataforma na estação Júlio Prestes da linha 8, em 10 de março de 2022. No mesmo dia, um funcionário morreu eletrocutado ao mexer em equipamentos da linha 9.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2022/05/05/viamobilidade-iniciou-operacoes-das-linhas-8-e-9-com-65-da-frota-de-trens-com-revisao-vencida-apontam-documentos/

Apesar dos problemas, a ViaMobilidade diz que investimentos estão sendo feitos e divulgou uma relação de ações, que vão desde reparos básicos de rotina, até aperfeiçoamento de treinamentos.

Inclusive, as capacitações dos funcionários também foram tema de reportagens do Diário do Transporte e de outros veículos de comunicação.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas Ferroviárias da Zona Sorocabana, José Claudinei Messias, no início das operações, enquanto que, na CPTM, o tempo de treinamento para que um maquinista possa atuar é entre oito e dez meses com acompanhamento de um monitor; na ViaMobilidade, a capacitação de maquinistas durava aproximadamente quatro meses.

De acordo com Messias, houve um acordo com a concessionária para reciclagem destes operadores “pouco treinados”.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2022/04/20/ferroviarios-e-viamobilidade-entram-em-acordo-sobre-treinamento-de-funcionarios-das-linhas-8-e-9-diz-sindicato/

Diário do Transporte pediu um posicionamento da ViaMobilidade, da CPTM e da STM (Secretaria dos Transportes Metropolitanos) sobre a documentação entregue ao MP (Ministério Público de São Paulo).

A ViaMobilidade Linhas 8 e 9 disse que não comenta processos jurídicos em andamento.

A CPTM diz que responderá todos os questionamentos ao Ministério Público.

Veja os detalhes das principais respostas da ViaMobilidade ao MP.

Segundo a ViaMobilidade, a CPTM limitou o acesso da concessionária a testes, equipamentos e instalações. A concessionária destacou que o tempo de transição não permitiu verificar e mapear todos os pontos de melhoria nas linhas.

Nesse contexto, considerando que as informações sobre a real condição das Linhas eram baseadas naquelas até então disponibilizadas e acessadas pela Concessionária nos termos e condições estabelecidos no procedimento de licitação que antecedeu a concessão, o período de transição da CPTM para o início da concessão à ViaMobilidade foi fundamental para que fosse percebida a existência de inconformidades e que fossem tomadas providências pela Concessionária para a assunção das linhas. No entanto, tal ocorreu de maneira limitada ante às limitações operacionais e físicas de acesso aos equipamentos e instalações, bem como a limitação da abrangência dos testes nos sistemas tendo em vista o tempo de transição frente a extensão das linhas , onde não é possível verificar e mapear todos os pontos de melhoria na linha.

A Via Mobilidade fala também em problemas “ocultos” que não foram descobertos na transição e nem avisados. Muitas destas situações de precariedade, de operação e até de segurança, não puderam ser identificadas por esta restrição de acesso.

Alguns dos problemas foram detectados previamente à entrega da infraestrutura à ViaMobilidade, já que, como dito, o acesso era restrito até o momento do início da operação integral pela Concessionária, mas somente durante a operação efetiva é que todas as necessidades, por menor que sejam, vêm à tona e os vícios e problemas ocultos são verificados. (…). Existem diversos problemas relevantes, tanto do ponto de vista operacional,como da segurança, verificados por ocasião da realização das manutenções preventiva e corretiva dos ativos, e que não poderiam ter sido identificas , dadas, entre outras razões, as limitações operacionais e físicas de acesso aos equipamentos e instalações, bem como a limitação da abrangência dos testes nos sistemas a fim de atestar o funcionamento e suas condições.

A concessionária ainda diz que somente depois que pegou as linhas 8 e 9 que conseguiu de fato ver a gravidade e a dimensão dos problemas.

E somente após a assunção integral dos serviços, o que só ocorreu ao final de janeiro de 2022, a Concessionária passou a realizar melhor e integral acompanhamento das condições do sistema para fins de saneamento de incompatibilidades, pelo que foi possível observar que a infraestrutura foi entregue em condições de manutenção bastante desfavoráveis

A ViaMobilidade ainda acusou existir obras inacabadas e pendências contratuais por parte do Estado, quando assumiu a concessão, e que até mesmo manutenções preventivas que deveriam ter sido feitas pela CPTM não eram realizadas pela estatal.

O início da operação comercial das linhas 8 – Diamante e 9 – Esmeralda pela Concessionária ViaMobilidade ocorreu dentro de um contexto de pendências contratuais da CPTM, pela existência, até os dias atuais, de obras inacabadas que deveriam ter sido executadas, na sua integralidade, por terceiros contratados pela CPTM. Esse contexto de precariedade da infraestrutura entregue à ViaMobilidade, cumulada com pendências da CPTM na conclusão de atividades/obras preventivas ou corretivas por terceiras contratadas, foi determinante, por exemplo, para os eventos que chegaram ao conhecimento desse Parquet mediante matérias jornalísticas, relacionados a desaceleração da operação ou mesmo interrupção parcial de alguns trechos em virtude de necessárias e urgentes intervenções pela Concessionária

A concessionária ainda alega que muitas das manutenções corretivas e preventivas deveriam ter sido concluídas pela CPTM antes de entregar as linhas, que havia pendências contratuais com empresas terceirizadas e que os incidentes noticiados na mídia de má prestação de serviço pela concessionária derivaram de razões de ordem técnica preexistentes

Assim, é preciso que seja levado em consideração que o início da concessão das linhas 8 e 9 pela ViaMobilidade (i) é muito recente; (ii) foi entregue pela CPTM com estrutura carente de reparos corretivos e preventivos; (iii) está inserida em um contexto de pendências contratuais da empresas terceirizadas pela CPTM com obras e serviços de manutenção que deveriam ter sido encerradas antes da assunção pela Concessionária da operação das linhas, além do que (iii) os incidentes noticiados na mídia de suposta má prestação de serviço pela Concessionária derivaram de razões de ordem técnica preexistentes e, portanto, alheias à conduta da ViaMobilidade.

Outro ponto destacado foi o alto número de furtos de cabos e equipamentos e mais uma vez culpou a CPTM

Não bastasse isso, a Concessionária ainda tem convivido com diversas ocorrências de furto de cabos ao longo das linhas 8 e 9, que têm afetado a operação comercial em razão do tempo necessário ao seu restabelecimento, e que são decorrentes da vulnerabilidade na segregação das linhas em algumas regiões. Tais problemas, a despeito dos esforços significativos da Concessionária para identificá-los e corrigi-los de forma rápida e eficiente, têm afetado a operação e, claramente, são decorrentes da falta de manutenção preventiva e corretiva durante todo período de operação pela sua antecessora.

 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Compartilhe a reportagem nas redes sociais:
Comentários

Comentários

  1. laurindo junqueira disse:

    Desculpas e mais desculpas … Todos sabíamos das dificuldades estruturais das linhas operadas pela CPTM, apesar da imensa melhora que elas tiveram nos últimos 20 anos …

  2. Laercio de Jesus Silva disse:

    Além dos problemas relatados na reportagem, fica claro para alguns usuários que os trens com condições melhores de operações foram retirados da frota, nota que só ficou os trens que foram reformados a décadas

  3. Tavares disse:

    Devolve as linhas pra CPTM, enfia a viola no saco e vaza!

  4. Luiz André da Paixão disse:

    Sou usuário do sistema ferroviário há mais de 30 anos, ainda uso do Grajaú até estação Morumbi, nunca passei tanto nervoso com a nova operadora da linha 9 esmeralda, eles desligam as escadas para reduzir o fluxo de pessoas na estação Grajaú, as plataformas, sempre super lotadas e sujas,eles colocam grades de retenção de fluxo para desviar os usuários para outro lado, alguns trens não funciona o ar-condicionado, os operadores de plataforma não ajudam ninguém, idosos são obrigados a subir as escadas de alvenaria, alguns passam mal na subida das escadas, os elevadores não funcionam, eu nunca presenciei essas ocorrência na época da CPTM.

  5. Pittorino disse:

    Vamos imaginar que a via mobilidade preferiu não arrumar problemas durante a fase de transição. Vamos lá , assim que ela assume a operação ele tinha o dever de colocar a situação pro público, falar que pegou trem sem manutenção, que a CPTM deixou coisas em aberto, esperaram o inferno acontecer pra expor.

  6. Artur disse:

    Participei da entrega das ERs para a ccr observei que eles não tinham profissionais capacitados para receber o mesmo e em alguns momentos estavam com pressa para ir embora.

  7. Roberto disse:

    É incrível o que se faz para ficar bem.na foto!!
    Enfim, se algo não dá problema e se transfere a outrem e em 1 mês temos 12 problemas…
    Espera acho que o problema é quem assumiu e não sabe fazer o que tem que ser feito.
    A verdade é que apesar de o corpo de manutenção e operação da CPTM ser extremamente limitado(em equipamentos) e enxuto em número, eles possuem a expertise do negócio, coisa que o caminhão de dinheiro da CCR/via mobilidade não possuem.
    E é claro que eles tiveram acesso a tudo, não tenham dúvidas, só querem explicar o inexplicável.

  8. Andy Letto disse:

    É verdade o depoimento da via mobilidade, esse fato presenciei, via a integração dos funcionários da ccr, quando estava de transição CPTM e ccr, os funcionários da empresa CPTM estavam com muita raiva e arrogância para ensinar e mostrar as coisas, pois vi os novos funcionários da ccr perguntando e os da CPTM dizendo que não era do departamento deles. Ou seja, os funcionários por estarem perdendo o posto para outra empresa, ficaram com raiva e fizeram de tudo para não mostrar tudo aos da ccr, então quando a empresa enfim tomou posse, veio a impressa julgar e fazer comentários na base do que aconteceu e não sabe exatamente oque ocorreu, mas é simples, uma empresa falida deixou tudo uma merda e a outra pagou o Pato, mas a ccr é gigante e vai arrumar essa bagunça, basta ela querer.
    Claro que não podemos generaliza, nem todos da CPTM foram maus, assim como todos da ccr estão preocupados em melhorar a qualidade do atendimento.

  9. Lego disse:

    Essa Andy Metrô tentou dizer que não é mais um funcionário puxa da CCR mas não conseguiu. Assumir que não tem capacidade pra fazer algo é o melhor remédio, a CCR achou que estava adquirindo outra linha igual a amarela que pegou tudo novinho e agora não sabe comandar nem 1/3 da CPTM. Já que assumiu agora assume a própria incompetência e para de ficar dando desculpas.

  10. Flavio Livino de Oliveira disse:

    Desculpe, não gosto de ser grosseiro, mas isso é o senso comum!
    Os funcionários da CPTM não perderam seus postos, foram transferidos.
    E outros tantos se desligaram da CPTM para fazer parte do quadro da própria CCR.
    Eles tiveram um tempo e transição e acharam que já sabiam tudo, pois a grande maioria são oriundos da linha 5 lilás e 4 amarela e acharam que por isso já sabiam de tudo.
    Aliás, a mesma coisa aconteceu na linhas 5 liilás, onde achavam que já sabiam de tudo e tiveram que chamar equipes do metrô para ajudar sanar problemas rotineiros da linha pois não sabiam o que fazer quando começaram acontecer.
    Não venha com discurso meia boca, não sou leigo no assunto.
    Acompanhei e acompanho de perto a transição, e já que subiu o tom vou subir também.
    Falta de capacidade técnica e arrogância pelo que vi partiram de funcionários com você, que utilizam palavras como merda, para definir uma empresa que tem mais de vinte anos de experiência e não 20 minutos como você!!!

  11. Manoel Alves Mendes de Souza disse:

    Sei q depois q foi privatizada as linhas 8e9 ficou pior os trens mais cheios a limpeza ruim acho q a viamobilidade deveria entregar pq os seus serviços nesta duas linhas são pessimos. Prega muito respeito aos clientes mais balela

Deixe uma resposta