História

Monumento ao Cristo Redentor: uma parte da história dos transportes abandonada em Santo André

Mitra Diocesana informou que o local passará por reparos em breve. Foto: Adamo Bazani.

Estrutura foi tombada em 2010 e atualmente está cheia de lixo, pichada e cercada por muito mato

ADAMO BAZANI/JESSICA MARQUES

A Vila de Paranapiacaba, em Santo André, é patrimônio cultural e histórico que revela uma parte importante da história dos transportes no Brasil: a primeira ferrovia do Estado de São Paulo, inaugurada em 1867, ligando Santos a Jundiaí, passando pelo que hoje é a região do ABC Paulista, e que se tornou um grande indutor de desenvolvimento econômico e urbano na capital e Grande São Paulo.

Paranapiacaba não revela a história apenas da ferrovia, mas dos transportes por ônibus também. Prova é o serviço do exótico ônibus King Kong, que também pertencia a SPR – São Paulo Railway, concessionária da ferrovia, e ligava a região metropolitana ao litoral, como mostrou o Diário do Transporte.

HISTÓRIA: King Kong, o ônibus da SPR – São Paulo Railway

Assim, quando se fala em Paranapiacaba, se fala em transportes e quando se fala em transportes, não há como esquecer do motivador de tudo: o viajante.

Em 06 de maio de 1912, para reconhecer e abençoar os passageiros e profissionais de transportes, foi erguida uma capela no alto ao lado da antiga estação Campo Grande, que ficou conhecida como Monumento ao Divino Redentor ou Monumento ao Cristo Redentor.

A pequena capela, voltada para a ferrovia, mas que pode ser vista por quem passa de carro, ônibus, caminhão ou moto ao lado, proporcionava a realização de batizados, orações e até casamentos.

Um monumento de mais de 100 anos e com alto valor histórico em qualquer país com o menor grau de desenvolvimento estaria limpo, restaurado e com segurança. Mas não é o caso da Igreja.

Porta estava aberta e, dentro, bastante lixo.

No domingo, 07 de novembro de 2021, o Diário do Transporte esteve no local e encontrou cenas de abandono, falta de segurança e sujeira.

Não há mais ligação regular por trem de passageiros até Paranapiacaba (a não ser um trem turístico) e a estação Campo Grande também não recebe usuários do transporte coletivo; o local virou ponto logístico da empresa ferroviária de carga MRS.

Mas quem vai de carro ou ônibus consegue ver o monumento. Um pequeno caminho de terra e uma subida íngreme, mas que pode ser encarada sem grandes dificuldades, separam a rodovia da capela.

Mato até na imagem do Cristo

O mato em volta da edificação está alto e o cheiro é desagradável. A igreja está aberta, mas dentro, junto a algumas imagens de santos da religião católica, muito lixo.

Os vidros das pequenas janelas da igreja foram destruídos. A porta principal estava aberta e não havia qualquer sinal de segurança.

O mato não só estava alto nos arredores, mas também dentro da igreja e até no telhado e na imagem do Cristo, na parte superior do templo.

O imóvel chegou a ser restaurado algumas vezes, inclusive por moradores, mas sem segurança, volta a ser danificado.

A igreja também está pichada. A sensação era de insegurança.

No local, só há seguranças da MRS, mas todos com vistas ao pátio e à linha de trem operada pela concessionária.

OUTRO LADO

Em nota ao Diário do Transporte, a Prefeitura de Santo André informou que o Monumento ao Cristo Redentor é de responsabilidade da Mitra Diocesana de Santo André.

Por sua vez, a Mitra Diocesana informou que os reparos serão realizados em breve no local e que os trabalhos só não ocorreram devido à pandemia de covid-19.

Confira a nota, na íntegra:

O monumento Cristo Redentor, por se tratar de monumento religioso, foi cuidado pela Mitra Diocesana de Santo André em todos os seus aspectos, os de cunho religioso, bem como de sua manutenção, apesar de a mesma não possuir nenhum documento que lhe atribua a qualidade de proprietária da Capela São José da Boa Viagem.

Respondendo a sua indagação, podemos dizer com certeza que em meados do ano de 2020, ficou acertado entre Mitra Diocesana e um grupo de empresários a realização de intervenções de manutenções no templo e, por se tratar de um imóvel tombado, se fez necessário uma autorização do Comdephaapasa para a realização de intervenções de manutenção necessárias no Monumento.

Tudo isso se deu no auge da pandemia o que tornou as tratativas mais morosas, no entanto, diante da melhora do cenário pandêmico, os trabalhos no templo começarão em breve. Salientamos que esse mesmo grupo, realizou os reparos na Igreja Senhor Bom Jesus de Paranapiacaba, com a autorização do Condephaapasa e da Mitra Diocesana de Santo André, o que nos tranquiliza quanto a conclusão das intervenções, por se tratar de um grupo comprometido com a preservação da história de Santo André e dos seus templos religiosos necessitados de reparos que demandam um custo muito alto.

A Mitra Diocesana reforçou ainda que, apesar do estado atual do templo, que pode parecer abandonado, a intenção é de preservá-lo, por tudo o que ele representa.

Ainda em nota, a Mitra detalhou que a reforma “nunca foi deixada em segundo plano, mas, o local, a idade do imóvel com a consequente deterioração, o custo altíssimo para os reparos necessários, os quase dois anos de situação caótica, onde todos os serviços públicos e privados sofreram com redução de funcionários e limitação para determinados trabalhos, fizeram com que o projeto não fosse iniciado”.

TOMBAMENTO

Segundo a Prefeitura, o monumento é formado por uma capela em alvenaria, coberta com telhas de barro do tipo francesas e com a imagem de Jesus Cristo no topo de braços abertos e de frente para a linha férrea.

O idealizador da obra foi o padre Luiz Capra. Ele escreveu que gostaria de erguer o monumento na Estação de Campo Grande, “exposta aos olhares do imigrante que chega, do viajante que passa”.

A data de construção considerada no tombamento foi de 18 de abril de 1913. O bem é tombado como patrimônio cultural andreense pelo Comdephaapasa (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico-Urbanístico e Paisagístico de Santo André), inscrito no livro de tombo sob número 21, processo 35521/2010-7.

O tombamento ocorreu em 12/08/2010, de acordo com a Prefeitura.

Adamo Bazani e Jessica Marques, jornalistas especializados em transportes

Compartilhe a reportagem nas redes sociais:
Comentários

Comentários

  1. Ivan Saes disse:

    O que adianta tombar se não há recursos para manutenção. Por que nao se faz um.esforço pra que a iniciativa privada adote sua manutenção? A MRS seria uma candidata natural , já que possui a concessão da estrada de ferro. Certamente para ela seria muito fácil restaurar, manter e vigiar patrimônio tão importante.

  2. Valéria Ferreira de Sousa Felix disse:

    Concordo com tudo que o Ivan Saes disse. Só falta a MRS e a prefeitura de Santo André criar vergonha na cara. E ter mais respeito com a nossa história.

Deixe uma resposta