Dia Internacional da Mulher: profissionais que têm em comum a paixão por ônibus e a luta contra o preconceito

Iranilda Vicente (mecânica), Gilvânia da Silva (eletricista) e Elissangela Sanches (manobrista), da Concessionária BRT Sorocaba e o Consor. Foto: Divulgação.

Mulheres dos setores de transportes rodoviário e urbano combatem estereótipos e realizam diariamente sonho de trabalhar na área da mobilidade

JESSICA MARQUES

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta segunda-feira, 08 de março de 2021, o Diário do Transporte reúne a história de mulheres com muito em comum: profissionais apaixonadas por ônibus, que lutam diariamente contra o preconceito.

As mulheres dos setores de transportes rodoviário e urbano combatem estereótipos e realizam diariamente o grande sonho de trabalhar na área da mobilidade.

Confira abaixo algumas das histórias de mulheres que fazem a diferença no setor:

GRACE KELLY RODRIGUES – VIAÇÃO COMETA

É o caso da motorista de ônibus Grace Kelly, da Viação Cometa. Mesmo há sete anos dirigindo fretados, ela ainda escuta comentários preconceituosos de passageiros sobre o fato de ela ser uma mulher na profissão.

“Já escutei brincadeiras de passageiros quando entram no ônibus e veem que é uma mulher que vai dirigir – mas, ao final da viagem, muitos elogiam meu desempenho. Escolhi escutar somente o que vai agregar algo na minha vida, não posso deixar comentários negativos me abaterem. Afinal, eu consegui chegar onde queria e estou aqui hoje”, disse, com orgulho.

Grace decidiu decidiu aos 15 anos, durante uma viagem com a mãe, que seria motorista da Viação Cometa, pois ficava encantada com os ônibus. Chegou a se formar em um curso de cabelereira após estudar durante três anos e trabalhou na área por cerca de um ano e meio, até perceber que o sonho dela era de fato ser motorista de ônibus.

Segundo a motorista, a decisão foi tomada por amor. “Foi algo fora do comum, até parece coisa de outro mundo. O ônibus é meu escritório. Amo sentar no meu escritório e atravessar as estradas ao redor do país. Me passa uma paz e uma calma que não sinto em nenhum outro âmbito da minha vida. Nenhum problema me alcança quando estou dentro de um ônibus dirigindo”.

“Meu trabalho contribui para empoderar e dar coragem às mulheres, incentivando que façam o que querem sem medo de julgamento. Nós mulheres podemos tudo e o céu é nosso limite”, afirmou também Grace.

CRISTINA APRIGIO – VIAÇÃO 1001

Cristina Aprigio sempre sonhou em trabalhar na Viação 1001. Teve uma infância muito pobre e difícil, chegou a ser uma pessoa em situação de rua aos 14 anos, após perder os pais. Em seguida, conseguiu um emprego de babá em uma casa de família e retomou os estudos, chegando a se formar no curso de Eletrônica do Senai.

“Sempre sonhei em trabalhar na Auto Viação 1001, pois acreditava que entrar em uma empresa deste porte me faria importante. Quando era criança, via mulheres motoristas, de cobradoras e achava lindo”, contou Cristina.

Após todos os desafios, ainda nutria o desejo de fazer parte da 1001. Por isso, em 2010, se candidatou a uma vaga de auxiliar de limpeza dos ônibus, por uma empresa terceirizada, localizada no Rio de Janeiro.

Uma vez fazendo parte do dia a dia da 1001, ficava de olho nas vagas que iam surgindo. Foi assim que conseguiu seu primeiro emprego oficial dentro da empresa, fazendo a leitura e gestão de qualidade dos tacógrafos dos ônibus.

Teve que se candidatar duas vezes para a vaga, pois na primeira foi desacreditada por seus colegas, que acreditavam que uma mulher auxiliar de limpeza não teria a competência necessária para fazer o trabalho.

Era uma vaga administrativa e Cristina queria ficar perto dos ônibus, por isso decidiu fazer um curso de especialização em manutenção e reparo de tacógrafo, até que conseguiu uma vaga na área.

“O que mais gosto a respeito dos ônibus é o fato de que transportam felicidade ao juntar pessoas que estão distantes. Juntar famílias”, disse, sobre uma de suas maiores paixões na vida.

Após muita dedicação, em novembro de 2020, foi promovida a supervisora de Manutenção da 1001. Atualmente, Cristina é responsável pela manutenção e reparação de todas as partes de tecnologias embarcas de 600 ônibus.

“A parte preferida do meu trabalho é consertar os equipamentos. Amo eletrônica, o desafio de colocar um equipamento com defeito para funcionar. Também gosto do aprendizado que a empresa me proporciona a cada dia, aprendendo a executar tarefas que jamais imaginei ser capaz de fazer”, contou.

Cristina também vê no dia a dia a importância de ser uma mulher no cargo de supervisora, no setor de transportes. Para ela, o trabalho é essencial para dar visibilidade às mulheres que trabalham na área.

“Acho importante o trabalho da mulher na mobilidade, porque esta área sempre foi exclusiva aos homens, mas as mulheres têm mostrado que são capazes de executar qualquer tarefa – dirigir um ônibus, trocar um pneu, executar um serviço de elétrica ou mesmo mecânica, com a mesma qualidade que um homem faz. Mostra que as mulheres são capazes de fazer qualquer coisa que quiserem”, disse.

SARA MACHADO LOPES – TRANSWOLFF

A motorista de ônibus Sara Machado Lopes dirige na linha 7063-10 – Jd. Macedônia – Term. Campo Limpo, na capital paulista. A profissional trabalha na Transwolff há seis anos.

“Trabalhar nessa pandemia é ser muito corajosa e guerreira. No começo fiquei assustada, mas hoje lido bem a situação”, disse. “Ser motorista mulher é uma dádiva de Deus”, completou.

VANESSA RODRIGUES DA SILVA – ATENDE

Motorista do Atende+, também na capital paulista, Vanessa Rodrigues da Silva gosta de dirigir e ter contato com o público. Também trabalha na Transwolff, que presta o serviço de transporte gratuito de pessoas com deficiência.

A primeira viagem que fez foi no Heliópolis. Apesar de não considerar uma profissão fácil e quase ter desistido, Vanessa afirma que apesar de ser cansativo, permite que ela se redescubra a cada dia. “É uma conquista. A mulher está mostrando que é capaz”.

VANESSA REIS SANTOS – TRANSWOLFF

Formada em Administração, a motorista de ônibus Vanessa Reis Santos, que dirige há quatro anos na linha 7953-10 – Jd. Macedônia – Term. Campo Limpo afirma que escolheu a profissão de motorista de ônibus porque foi a primeira oportunidade que surgiu, mas acabou se encantando com o ofício.

“Pra mim ser motorista de ônibus é um orgulho. Tenha uma interatividade boa com os passageiros. Ganho vários presentes que amo, inclusive dos idosos”, disse.

“Você se sente como se fosse parte. É gostoso. Tenho prazer de dirigir ônibus. As passageiras sentem orgulho e se sentem representadas. Não me vejo em outra profissão”, afirmou também.

DIONI SOUZA SANTOS – ATENDE

A motorista do Serviço Atende+, também da cidade de São Paulo, Dioni Souza Santos, descobriu no serviço o amor pela profissão de motorista.

“Gosto de trabalhar como motorista. É minha paixão. Isso mostra que a mulher é capaz de fazer. Eu tenho direito, eu posso, eu vou. Mulher está conquistando um espaço exercendo uma função teoricamente que antigamente era exercida apenas por homem”, afirmou Dioni.

BERNARDINA PEREIRA “XUXA” – BRT SOROCABA

Bernardina Pereira (conhecida como Xuxa) é motorista há quatro anos. A profissional relata que trabalhou em algumas funções dentro da empresa até se tornar manobrista e, finalmente, chegar a realizar o sonho de trabalhar atrás do volante.

“No começo não tive dificuldades, o que tinha que fazer era administrar a preocupação, por que sempre estava alerta no cuidado com o passageiro e o trânsito. Mas, com a experiência vamos acostumando e hoje tudo é tranquilo. Me sinto realizada na minha profissão. É um trabalho que amo fazer, porque gosto muito de dirigir. Para as mulheres que querem ser motorista, lutem e tenham fé que vocês chegam lá”, relatou a motorista.

IRANILDA VICENTE – BRT SOROCABA

A mecânica Iranilda Vicente também realiza um sonho. Após muito estudo e especialização, atua no Consórcio Sorocaba, cuidando de cada parte essencial para manter os ônibus em funcionamento.

“Trabalho há 20 anos como mecânica e me orgulho muito disso. Sou especializada em parte pneumática (freio), é um serviço pesado, mas eu gosto e incentivaria outras mulheres que tem a vontade de se tornarem mecânicas. Eu consegui, elas também conseguem, é só se esforçar e aprender. O maior desafio que enfrentei foi no começo, porque os outros mecânicos da época eram machistas e achavam que mulher tinha que estar no fogão em casa. Mas, tive sorte e encontrei um colega muito parceiro que me ensinou. Aos poucos, fui aprendendo e com muita raça e mostrando serviço, ganhei o respeito da turma. Hoje, sou vista e respeitada porque provei do que sou capaz. Sou forte!”

ELISSANGELA SANCHES – BRT SOROCABA

A manobrista Elissangela Sanches atua há pouco tempo na função e tinha o ofício como um objetivo a ser alcançado. “Eu era lavadora de autos, fui promovida a manobrista há 7 meses e gosto do que faço. Estou contente na minha profissão de manobrista. É gratificante quando conseguimos alcançar o nosso objetivo”.

GILVÂNIA DA SILVA – BRT SOROCABA

A eletricista Gilvânia da Silva decidiu perseverar na profissão e hoje chegou ao posto pelo qual batalhou. “Há dois anos estou trabalhando como eletricista. Aos poucos tive a oportunidade de crescer na empresa. Na minha função, todos os dias estamos sempre aprendendo algo novo, gosto de aprender e isso é um incentivo para sempre ir melhorando. Para as mulheres que querem trabalhar como eletricista diria que corram atrás. No começo é difícil, mas se tiver paciência e se esforçar, consegue”.

EDNEIA MUNIZ – BRT SOROCABA

A pintora Edneia Muniz foi pioneira no setor dentro do BRT Sorocaba. “Tenho sete anos como pintora e amo a minha profissão. Este é um trabalho que faço e vejo o resultado. Isso é realizador. No setor de pintura, fui a primeira mulher a entrar e seria muito bom se mais mulheres estivessem na área da pintura”.

Jessica Marques para o Diário do Transporte

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