Entidades do setor de trilhos contestam opção pelo BRT no lugar do VLT no Mato Grosso

VLT de Cuiabá

Presidente da Abifer, Vicente Abate, rebate apresentação de Mauro Mendes e diz que decisão do governador foi unilateral

ALEXANDRE PELEGI

Dizendo manifestar a posição de várias entidades representativas da engenharia e do setor de trilhos do país, o diretor do SIMEFRE (Sindicato Interestadual de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários) e presidente da ABIFER (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária), expressou ao Diário do Transporte a indignação diante dos argumentos utilizados pelo Governador do Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), para justificar a opção por um BRT (Bus Rapid Transit) em lugar do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) entre Cuiabá e Várzea Grande.

Além das duas entidades, Abate disse representar ainda a Aeamesp (Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô), Alaf (Associação Latino-Americana de Ferrovias), ANPTrilhos (Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos) e Instituto de Engenharia.

Abate começa contando que as entidades pediram uma audiência ao Governador do MT no dia 13 de outubro deste ano. “Pedimos e cobramos três vezes, e não obtivemos resposta”, ele conta (veja cópia da carta no fim da matéria).

O objetivo do encontro seria apresentar ao Governador a posição de especialistas do setor sobre as possibilidades de retomada do VLT de Cuiabá.

Foram dois meses sem resposta ao nosso pedido de audiência, o que nos leva a deduzir que ele tenha tomado essa decisão sem falar com a sociedade, sem falar com especialistas”, conclui Vicente Abate.

Ele critica principalmente o relatório apresentado na coletiva desta segunda-feira, utilizado para justificar a descontinuidade do VLT e a opção pelo BRT.

É um relatório vergonhoso. Se eu tivesse escrito algo daquela natureza, eu teria vergonha de apresentar em público”, afirma.

Vicente Abate afirma que a maioria das comparações feitas no relatório apontam “com erros grosseiros” o que, segundo o Governo do MT, seriam as vantagens da opção do BRT sobre o VLT.

O relatório feito pela Semob por um Grupo de Trabalho constituído para esse fim há cerca de um ano era favorável ao VLT. Hoje já não sei afirmar, as coisas mudam de maneira brusca”, diz Abate.

Ele se refere a uma Portaria do então Secretário Nacional de Mobilidade e Serviços Urbanos (Semob), Jean Pejo, publicada em 12 julho de 2019, criando um Grupo de Trabalho (GT) para estudar e analisar alternativas de solução à reestruturação do VLT de Cuiabá e Várzea Grande.

O GT foi composto por representantes da Semob, do Governo do Estado do Mato Grosso e da Caixa Econômica Federal.

Abate informa que o relatório foi concluído, mas seu resultado não foi divulgado na época.

O presidente da Abifer dá alguns exemplos do que ele chama de “absurdos” no relatório apresentado.

Ele fala [o governador] que o custo da conclusão da obra do BRT é de R$ 430 milhões com a aquisição dos 54 ônibus elétricos. E o custo do VLT ele fala em R$ 763 milhões. Eu não vou questionar o custo do VLT, mas sim o do BRT: ele precisa multiplicar este valor por três, porque o ônibus elétrico tem vida útil de 10 anos, enquanto a vida útil do VLT é de 30 anos”, ele afirma.

Outro ponto que Abate estranhou no relatório é quanto ao tempo estimado para publicação do edital para licitar as obras. Enquanto para o BRT foi apontado que o edital estaria pronto em maio de 2021, para o VLT seria junho de 2022. “Baseado em que?”, questiona o presidente da Abifer.

Quanto ao tempo de implantação o Governador afirmou que são 24 meses para o BRT e o dobro do tempo para o VLT”, diz Abate. ´

Isso dá a nítida impressão de algo dirigido”, ele diz.

Quanto ao número de veículos, o presidente da Abifer diz que o Governador cometeu uma inverdade na apresentação. “Ele diz que são 54 veículos incluindo quatro reservas no caso do BRT. No caso do VLT ele fala em 29. Na verdade são 40 trens com sete módulos cada que já estão lá, e isso dá inclusive reflexo na quantidade de pessoas transportadas”, diz Abate.

Ele diz que essa diferença implica em mudanças no item de passageiros transportados. “O Governador fala que o número de passageiros transportados no BRT é 155 mil, e no VLT 118 mil… Não dá para entender”, ele lamenta.

O presidente da Abifer vai nessa toada apontando ponto a ponto as comparações entre os modais feita na coletiva de ontem, mostrando que em todos os itens o BRT sempre surge como a melhor opção, sem qualquer fundamentação técnica, segundo ele.

“Só tem quatro itens no final do relatório em que os dois modais têm a mesma performance: o ruído baixo, terminais climatizados, climatização dos veículos e acessibilidade.

Ele conclui classificando o processo de escolha como “um acinte”.

Vicente Abate diz que as entidades que nominou, e que não foram atendidas em audiência pelo Governador, vão se manifestar publicamente contra a decisão.

FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO MATO GROSSO MANIFESTA APOIO AO BRT

O Portal do Governo do Mato Grosso traz hoje a manifestação do presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt), Gustavo Oliveira, elogiando o Governo de Mato Grosso na de substituir a execução das obras do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) pela implantação do Ônibus de Trânsito Rápido (BRT).

“Quero declarar meu total apoio à decisão da troca do VLT pelo BRT. O Governo do Estado acertou fortemente em fazer uma nova proposta mais moderna, mais adequada e que vai trazer maior conforto ao usuário do transporte coletivo, sem que isso traga custos maiores à sociedade”, afirmou.

O presidente da Fiemt afirma que o estudo técnico que orientou a decisão foi elaborado pelo Governo de Mato Grosso e pelo Grupo Técnico criado na Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana. Ou seja, a nova versão do relatório do GT, se é que houve uma primeira versão oficial, concluiu pelo BRT como a melhor opção, segundo a versão do presidente da Fiemt.



Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Faz assim sr. Abifer, o senhor financia de seu bolso então, o VLT, (sem dinheiro do governo local) que desde a Copa já custou olho da cara e não ficou pronto. O governador tem certa razão, pois não se tem uma certeza que esse VLT ficaria pronto em 2022, sem que haja um aumento excomunal (ou seria propina?), de novo……

  2. Antonio palacio disse:

    O governo diz em algum lugar, o que ira fazer com os 44 trens, com as vsrias subestacoes e outros equipamentos

  3. MOABI SILVA disse:

    Acho triste isso trocar um meio de transporte melhor por outro pior, mais aposto que tem o velho lobby das empresas de ônibus por trás disso, em fim enquanto alguns ganhas enquanto a maioria perde.
    Será que vai ser mesmo ônibus elétrico? Na época da construção do fura-fila atual expresso Tiradentes era pra ter trolebus e ate chegaram a construir a rede de alimentação elétrica, no final acabou sendo ônibus a diesel ajudando a poluir mais.

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