Baldy e Avelleda defendem socorro emergencial ao transporte coletivo

Publicado em: 12 de maio de 2020

Da esquerda para a direita, em sentido horário: Renato Lobo, Sergio Avelleda, Alexandre Baldy e Adamo Bazani

Pandemia veio demonstrar que o transporte coletivo é essencial ao mesmo tempo que requer urgentemente formas perenes de financiamento público

ALEXANDRE PELEGI

A live transmitida na segunda-feira, 11 de maio de 2020, pelo Diário do Transporte em parceria com o Via Trolebus, que reuniu o secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, Alexandre Baldy e o diretor de mobilidade urbana do WRI, Sergio Avelleda, veio jogar luz sobre questões que seguramente dominam o debate sobre o transporte público e a mobilidade urbana desde já, e que persistirão até o término dessa fase mais aguda da pandemia.

Questões como que tipo de cidade e de hábitos teremos no futuro próximo foram seguramente as que dominaram o encontro virtual, que contou com as apresentações de Adamo Bazani, pelo Diário do Transporte, e Renato Lobo pelo Via Trolebus. Mas dentre elas o que preocupa é, antes de que tipo de transporte coletivo teremos, é se teremos transporte coletivo para garantir a locomoção das pessoas de menor renda nos próximos meses.

O sistema sobreviverá nas atuais condições?

O secretário Alexandre Baldy tocou na ferida: a forma como planejamos nossas cidades jogou os mais pobres para as regiões mais periféricas, ao mesmo tempo em que concentrou as oportunidades de emprego na região central. Isso provocou uma política de mobilidade que Sergio Avelleda denominou de “enxuga gelo”: qualquer solução que os governos locais e estaduais desenvolvem para aumentar a oferta de transporte, se não se altera ao mesmo tempo a oferta de oportunidades de emprego e o desenho urbano, esta é rapidamente engolida.

“A pandemia só veio agudizar uma situação que já era difícil, de perda constante de demanda do setor de transporte coletivo, especialmente de ônibus

Sergio Avelleda

Com isso, lembrou Baldy, os custos urbanos ficam elevados, pois com maiores distâncias, os custos de mobilidade aumentam exponencialmente.

Baldy citou como exemplo a Linha 3-Vermelha do Metrô de SP, que toda manhã traz um Uruguai inteiro da Zona Leste para o centro de São Paulo, e o devolve no fim do dia para o mesmo destino. “Não é possível lidar com uma situação assim, não só pela questão do emprego, mas também pela própria questão dos horários de trabalho e troca de turnos. Todos precisam sair e estar na mesma região ao mesmo tempo”, afirmou o secretário, lembrando que este escalonamento de horários, apesar de difícil, terá de ser repensado com a sociedade e os poderes locais da Região Metropolitana.

Mas a grande questão levantada por Sérgio Avelleda foi sobre a situação atual do transporte, no que foi acompanhado por Baldy. “A pandemia só veio agudizar uma situação que já era difícil, de perda constante de demanda do setor de transporte coletivo, especialmente de ônibus”, disse Avelleda.

Com a Covid-19, e as medidas restritivas que se fizeram necessárias, houve uma perda de receita brutal. Ao mesmo tempo em que perderam receita, os meios de transporte precisaram continuar ativos, pois sem eles como os trabalhadores dos setores essenciais poderiam chegar ao trabalho, e realizar suas atividades neste momento crítico?

Além disso, a quantidade de ônibus, como lembrou Baldy, teve que ser dimensionada ainda, mesmo com a redução total da frota, para evitar aglomerações, o que aprofundou o desequilíbrio entre a receita recebida e os custos para manutenção do sistema.

Não podemos permitir que este patrimônio publico seja destruído

Alexandre Baldy

 

Avelleda citou que não é possível um sistema de transporte, que é um serviço essencial à sociedade, seja para sua economia, seja para a saúde das pessoas, sobreviver apenas com a receita da tarifa. Ou seja, ao invés da sociedade pagar por um serviço que a ela serve, apenas pagam por ele os que utilizam o serviço, o que é injusto socialmente. Afinal de contas, se o a cidade não sobrevive sem transporte, por que não contribuir para sua sobrevivência, em níveis de qualidade e confiabilidade que atendam à maiora?

Essa conta não fecha nunca”, disse Avelleda, o que demonstra porque a pandemia veio desnudar o grave defeito do modelo de transporte que estabelecemos no país.

Baldy lembrou que é preciso, mais do que nunca, discutir formas de apoio ao transporte coletivo, sob o grave risco de, muito em breve, termos todo o sistema desarticulado por quebras e falências. “Não podemos permitir que este patrimônio publico seja destruído” afirmou, lembrando que ele serve essencialmente à sociedade.

Avelleda fez questão de lembrar que a sociedade desconhece o subsídio que é dado ao transporte individual. “Nós sabemos quanto é dado de subsídio em São Paulo ao transporte municipal gerenciado pela SPTrans, como o subsídio ao sistema metroferroviário dado pela CPTM e pelo Metrô. Mas não discutimos o quanto o poder público subsidia o transporte individual, seja em investimentos pesados de infraestrutura – ruas, avenidas, viadutos –, seja em toda a cadeia produtiva ligada à indústria automobilística, sem contar na oferta generosa de crédito para a compra de veículos”.

Baldy pontuou lembrando que esta é uma situação que vigora no país desde a Era Vargas…

Avelleda e Baldy defenderam que é preciso criar novas e duradouras fontes de financiamento para o transporte coletivo, principalmente em cidades que afastam os pobres do emprego e dos principais serviços. Mas antes, e desde já, é preciso garantir a sobrevivência do sistema, “não dando dinheiro a empresários, claro, mas comprando antecipadamente créditos de viagem que serão distribuídos às pessoas que mais precisam”, citou Avelleda, lembrando da proposta que ora tramita em Brasília, organizada por entidades vinculadas ao setor do transporte urbano e capitaneada pela Frente Nacional de Prefeitos.

Pela proposta, organizada pelo Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Públicos de Mobilidade Urbana, a ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos e a NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), e sob o nome de Transporte Social, a ideia é que o Governo Federal destine R$ 2,5 bilhões por mês para aquisição dos créditos eletrônicos de passagens, enquanto perdurar a crise do COVID-19.

Relembre: NTU, Fórum de Secretários e ANTP propõem ao Governo Federal compra imediata de passes de ônibus na ordem de R$ 2,5 bilhões/mês

A matéria é hoje objeto de duas propostas em Brasília: uma como emenda à MP 936, feita na Câmara Federal, e outra como Projeto de Lei, proposta pelo Senado Federal.

Relembre: Projeto de Lei no Senado reforça pedido de criação do Programa Emergencial de ajuda ao transporte público e Congresso Nacional discutirá emenda que cria o Programa Emergencial Transporte Social do Governo Federal

Garantir que haja transporte será vital para as cidades recuperarem sua economia, citaram ambos. Talvez não tenhamos a mesma demanda após a pandemia, o que é mais um motivo para reformatar o sistema; mas será fundamental impedir que essas pessoas acorram para os automóveis, tornando a cidade ainda pior do que era antes.

Avelleda lembrou propostas de Londres e Paris, que sabendo que a questão da mobilidade será diferente, estão investindo em formas resilientes de mobilidade, ampliando os espaços de calçadas, para garantir o distanciamento e permitir caminhadas de qualidade, e em ciclovias, reduzindo o espaço de ruas para o transporte individual motorizado.

Relembre: Londres lança plano para compensar queda de passageiros no metrô e nos ônibus após lockdown ampliando espaço de ruas e calçadas para pedestres e ciclistas

Assista na íntegra:

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

  1. Paulo Gil disse:

    Amigos, bom dia.

    Preliminarmente vamos registrar que o buzão de sampa vem capenga há muitas décadas e que o COVID-19, nada tem a ver com isto.

    Sejamos pragmáticos:

    1) “A pandemia só veio agudizar uma situação que já era difícil, de perda constante de demanda do setor de transporte coletivo, especialmente de ônibus”
    Sergio Avelleda

    Por que até hoje não apresentaram nem um piloto de uma linha de buzão sequer que funcione?

    Enquanto o buzão NÃO funcionar em Sampa a demanda só vai cair; isto é PREVISIVELLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

    Cadê o buzão em rede a lá Paulo Gil, com micro buzinho ligeirinho?

    Contratem um Phd em matemática para ele fazer linhas de buzoes RETAS.

    cadê as novas linhas e a reforma com o último contrato de concessão assinado.

    Nada muda, tuda a lá CMTC 20/20 e o carro bota.

    2) “Não podemos permitir que este patrimônio publico seja destruído”
    Alexandre Baldy

    Já foi destruído e BEM destruído, quando deixaram a CMTC ficar o caos e depois fecharam a CMTC.

    E o recapeamento das pistas de buzão que estão fazendo e é de pésima qualidade (basta ver Av. Corifeu de Azevedo Marques entre a Av, Vital Brasil até a praça Elis Regina)

    3) Quanto a questão financeira do buzão de Sampa é simples:

    Quanto o buzão de Sampa precisa de dinheiro/ano ?

    Façam esta conta e dividam pelo número de habitantes da graEnde Sampa por exemplo e pronto. cada um paga um pouco mesmo que não ande de buzão.

    O que não pode acontecer e ficar com essa ladainha e ciumera todo dia que a indústria automobilística o transporte individual.

    Paguem essa conta e façam o buzão funiconar.

    Apesar que o brasileiro já paga muitos impostos, taxas e tarifa e não tem renda para pagar mais nem um centavo de impostos.

    Eu sou pelo fim do desperdício do dinheiro público.

    Por que não cuidam desse desperdício diário e dos AERO TRENS DE SAMPA (AERO-BOMBA E AERO-SONA SUL).

    Então é isso, deixo uma questão para reflexão que eu já postei aqui no DT e na live ontem.

    SERÁ QUE AINDA VALE A PENA CONCEDER O BUZÃO DE SAMPA?

    Lembrando que quando o bicho pega as empresas rescindem o contrato ou sublimam, como já aconteceu várias vezes.

    Planejar Sampa inteligente é utopia, nem se consegue (ou não querem) urbanizar favelas.

    Para encerrar, só façam uma coisa.

    FAÇAM O BUZÃO DE SAMPA FUNCIONAR , o resto é perfumaria e política JURÁSSICA.

    NADA MUDA NO BARSILei.

    SAÚDE A TODOS!

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

  2. José Faria disse:

    O Planejamento precisa ser Urbanístico, isto é, deve tratar de todos os aspectos urbanísticos, tais como, moradia, trabalho, transporte, lazer, etc.!!!…

  3. and disse:

    muito bonito o discurso, mas vamos lembrar que ambos, um no passado e outro no presente, sao as autoridades responsaveis por parte de fazer isso acontecer. apenas debater os problemas fica facil, tem que colocar em prática

    sobre os onibus, eles já vem perdendo passageiros pro uber, pra moto, bicicleta, etc.

    já passou da hora do sistema de onibus, metrô e CPTM ser um só. hoje, o onibus municipal concorre com metrô, CPTM, e EMTU. na cidade de SP, ninguem pega onibus intermunicipal dentro da propria cidade, primeiro por ser mais caro, segundo por nao aceita BU, terceiro por nao ter integraçao com trilhos. se todo o sistema fosse integrado, o cidadao poderia trafegar entre os varios modais, com maior agilidade e segurança, e com certeza o uso de automoveis seria diminuído. hoje tem muita gente q vai de metrô ou trem , e na estação chama o uber para continuar o caminho. porque vai gastar quase o mesmo que gastaria com onibus, sem contar no conforto.

    outra coisa, o sistema fica ainda mais caro com essas concessoes. voces sabem tanto quanto eu que o transporte publico só funciona graças ao poder publico, entao cabe ao proprio poder publico fazer a operaçao do serviço. nao digo que em 100% do serviço, mas trilhos, BRT e principais corredores sim.

    no restante, tenho a concordar com eles. SP precisa de uma politica nao só de transporte, mas tambem de levar emprego, educaçao, saude, lazer, desenvolvimento para os bairros mais distantes. levar apenas o metrô até itaquera não significa melhora da qualidade de vida daqueles moradores, significa apenas que eles terão um transporte mais eficiente para leva-los a bairros onde poderão trabalhar, estudar, cuidar da saude, lazer, etc.

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