ENTREVISTA: Passageiros do Metrô e da CPTM devem ter programação das partidas no celular pelo aplicativo CittaMobi

Trem da CPTM. Objetivo é numa mesma plataforma disponibilizar dados dos sistemas de ônibus da Grande São Paulo e de trilhos. Foto: Adamo Bazani (Diário do Transporte)/Clique para Ampliar

Empresa de tecnologia já dialoga com operadoras dos sistemas de trilhos. Empresária Niege Chaves quer chegar a 10 milhões de usuários do CittaMobi no Brasil e tem projetos de expansão para também atuar fora do País

ADAMO BAZANI

Na maior parte das vezes, a mesma pessoa que está no ônibus, é a que anda a pé, vai para o trem, segue viagem no metrô e ainda pega outros ônibus.

Assim, o ideal seria que essa pessoa fosse tratada da mesma forma nos vários momentos de seus deslocamentos, mas não é isso que acontece.

Com exceção das integrações pelo Bilhete Único, ônibus municipais da SPTrans e os sistemas da CPTM e do Metrô pouco se “conversam”. O quadro é pior ainda entre ônibus do sistema EMTU e os municipais das 38 cidades da Grande São Paulo, com exceção da capital.

Mas a tecnologia com investimentos privados pode ajudar a mudar este quadro.

A empresa de tecnologia CittaMobi, do grupo da MobiBrasil, diz que têm avançado os diálogos com o Metrô e a CPTM para que, a exemplo do que já ocorre com os ônibus, os passageiros dos trilhos tenham na palma da mão, pelo celular, a programação de partidas, previsão de tempo de espera, alertas sobre problemas já com as alternativas de rotas, entre outros serviços.

A empresária Niege Chaves conversou com o Diário do Transporte e disse que o intuito é que o aplicativo congregue numa mesma plataforma tecnológica; horários, previsões e dados dos sistemas de ônibus e de trilhos, além das opções de descolamento não motorizados.

“A gente já está tendo acesso ao Metrô de São Paulo, que tem seus dados abertos, e vamos disponibilizar isso. Também trabalhamos junto à CPTM para conseguir a programação das partidas e o monitoramento dos trens. Vamos começar a construir este modelo em São Paulo. A cidade vai ser nosso modelo-base” – contou Niege.

Ainda não foi definido um prazo para que os dados de Metrô e CPTM estejam disponíveis no aplicativo.

Segundo a empresária, com todas as informações numa só plataforma, o cidadão pode evitar longas esperas ou, ao menos, se programar melhor.

“O passageiro quando está no trem precisa saber que horas o ônibus vai passar na porta da estação e o oposto é necessário. A pessoa que está no ônibus precisa saber quais são as partidas do trem” – complementou.

A fala da empresária vai ao encontro do que o secretário de transportes metropolitanos, Alexandre Baldy, e o presidente da CPTM, Pedro Moro, disseram na semana passada a portais de mobilidade, entre eles, o Diário do Transporte.

De acordo com Baldy e Moro, estão entre os objetivos para a mobilidade da gestão estadual, fazer com que ônibus e trens “conversem” melhor e que os passageiros da rede de trilhos tenham aplicativos com previsões de horários em tempo real, como é com os ônibus.

“Muitas vezes, coisas simples fazem toda a diferença na vida das pessoas, como compatibilizar as partidas dos ônibus municipais com as chegadas dos trens”, disse o presidente da CPTM, na ocasião.

Um dos exemplos são partidas dos últimos ônibus municipais no fim da noite e madrugada que só devem ser feitas depois que os passageiros desembarcaram dos trens, para ninguém ficar “na mão”.

“São assuntos que devemos discutir com as prefeituras e empresas de ônibus. É questão de comunicação, entendimento”, disse Pedro Moro, no encontro.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/01/23/governo-do-estado-de-sp-vai-se-reunir-com-39-prefeitos-para-debater-licitacao-da-emtu/

Para Niege Chaves, que antes mesmo de ter a CittaMobi, já operavaa ônibus em diversas cidades, o setor de transportes coletivos hoje enfrenta vários tipos de concorrência e, uma das formas de reverter este quadro, é melhorar o atendimento. A informação rápida e transparente para o passageiro, segundo a empresária, é um dos pilares para esta melhoria.

O setor de transportes urbanos precisa fidelizar o seu cliente e se relacionar com ele. É possível saber quem é o usuário diário, sobre o passageiro que sempre usava e nunca mais de repente deixou de usar o ônibus. Dá para informar para o passageiro, mudança de horários, mudança de itinerários, chegada de ônibus novos. É uma forma de dar a tão pedida pela sociedade, transparência à operação dos transportes.

Recentemente, a empresa Cittati, que era ligada à CittaMobi, foi vendida para a gigante canadense Volaris Group, que no Brasil também comprou a Empresa 1, de ramos como bilhetagem eletrônica e biometria facial para os setores de transporte público e saúde.

A CittaMobi continua com o Grupo MobiBrasil.

Relembre matérias do Diário do Transporte:

https://diariodotransporte.com.br/2019/01/23/cittati-passa-a-fazer-parte-da-canadense-volaris-group/

e

https://diariodotransporte.com.br/2018/12/24/volaris-group-anuncia-aquisicao-da-empresa-1/

Expandir a atuação para as cidades com dados abertos de transportes, inclusive fora do País, e ampliar dos atuais 6 milhões de usuários da ferramenta tecnológica para 10 milhões até o final o ano estão nos planos da CittaMobi nesta nova fase.

OUÇA E LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA: 

– A CittaMobi passa a ser uma empresa ou será uma marca dentro de uma empresa?

A CittaMobi é uma empresa, uma startup, e nós vamos continuar trabalhando fortemente nela  para criar formas de aperfeiçoar a relação entre as empresas que prestam serviço de mobilidade, o cliente – passageiro – do transporte coletivo e o órgão gestor. Vamos continuar trabalhando com informações, com dados, com plataformas que interliguem as partes interessadas na mobilidade.

A gente tem um projeto de expansão para dados abertos, inclusive para fora do Brasil.

– Como vai ser este projeto?

Na verdade, no mundo, a maior parte dos dados de transporte é de forma aberta. Os aplicativos têm acesso aos dados, que são disponibilizados e usados para planejamento de transportes. Nós já estamos tendo acesso aos bancos de informações de mais cidades que já têm os dados abertos, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre. A gente já usa os de Natal, São Paulo – Capital e EMTU (região metropolitana de São Paulo). Até o meio do ano, vamos inserir estas outras cidades que têm dados abertos no Brasil mais o Metrô [de São Paulo], todos os pontos de bicicletários e vamos integrar as informações de todos estes modais. Tudo para o passageiro ter uma facilidade maior de poder escolher suas viagens, as melhores opções dependendo dos horários, do tempo indicado para fazer o percurso e do preço também.

– Hoje o CittaMobi é mais limitado aos dados dos transportes sobre pneus. O objetivo então é oferecer uma intermobilidade com os dados?

Exatamente. A ideia é ampliar esta visão para outros modais também. A gente já está tendo acesso ao Metrô de São Paulo, que tem seus dados abertos e vamos disponibilizar. Também trabalhamos junto à CPTM para conseguir a programação das partidas e o monitoramento dos trens. Vamos começar a construir este modelo em São Paulo. A cidade vai ser nosso modelo-base

– Na semana passada, o Diário do Transporte, com outros portais de mobilidade, esteve com o secretário de Transportes Metropolitanos da gestão Doria, Alexandre Baldy, que falou que os passageiros do Metrô e da CPTM precisam ter acesso aos dados de previsões de horários por celular, como já ocorre com os ônibus em muitas cidades. Estes dados serviram para as pessoas planejarem suas viagens. Baldy também criticou a falta de comunicação entre os sistemas de trilhos e os de ônibus.  Esse é mesmo o caminho?

Exatamente. Já foi feita esta discussão por este motivo. Porque o passageiro quando está no trem precisa saber que horas o ônibus vai passar na porta da estação e o oposto é necessário. A pessoa que está no ônibus precisa saber quais são as partidas do trem.

– Além das questões básicas do transporte público, como ausência de corredores de ônibus, mais redes de metrô e formas de financiamento de tarifa, em relação à informação hoje, qual é a principal carência na sua visão?

Existem dois pontos. Tem a informação para o passageiro, o que usa todos os dias, e que além dos horários, precisa ser informado de mudanças de itinerário na linha dele, quadro de partidas, chegada de ônibus novos, até para que ele se programe e saiba que as empresas estão trabalhando. Nas pesquisas que fazemos e recebemos, a falta de informação para o passageiro é uma das principais queixas de quem usa o transporte público. Outro ponto é pegar estas informações geradas pela tecnologia e pelos passageiros e transformá-las em soluções. Estas informações, bem estruturadas, podem contribuir para melhorar o transporte, inclusive para ampliar as formas de pagamento de tarifa com menores custos.  Hoje a gente tem cartão para distribuir, tem cobrador e todo custo envolvido.

Também há uma questão de facilitar o acesso aos transportes. Hoje, em muitos casos, quem não tem o cartão de transporte não pode usar ou não consegue usar o ônibus com facilidade. Nem sempre há um local para ele comprar o bilhete ou o cartão perto do ponto.

Bilhetagem não pode ser uma barreira de acesso ao transporte. Estamos discutindo com cartões de crédito para receber tarifas, entre outras alternativas. A CittaMobi está empenhada para ajudar a construir novos modelos.

– Ainda sobre este assunto, há projetos nos cartões de crédito e débito para pagamento de tarifa, débito por celular, QR Code, entre outros. Mas a gente vê várias tentativas, mas que não saem dos testes. Tem um exemplo aqui, outro ali que dá certo, mas não de maneira geral. Por quê? Qual o impeditivo para este avanço?

Eu acredito que a dificuldade grande é oferecer isso em escala. Uma coisa é fazer teste em alguns ônibus, outra é oferecer o serviço numa frota. Mas se fomos ver, já evoluímos muito. Há pouco tempo, o vale-transporte era de papel, que se trocava na esquina por outras coisas. Então, muita coisa já foi evoluindo, mas entramos numa fase de transformação de novo. Há um novo ciclo de mobilidade sendo construído com tecnologia, meios de pagamento, informação etelemetria (acompanhamento em tempo real do desempenho dos motoristas e veículos). No futuro, teremos ônibus autônomos. É necessário ver o que está acontecendo no mundo e trazer para cá e adaptar à nossa realidade. Temos de olhar para fora e ver o que pode ajudar a trazer melhorias no transporte público aqui.

 – Hoje, o CittaMobi está presente em quantos sistema de transportes aproximadamente?

O CittaMobi hoje tem seis milhões de pessoas que baixaram o aplicativo e 1,5 milhão que usam todos os dias para obter informação do ônibus ou de rota. Nosso projeto é até o final do ano ter dez milhões de usuários na plataforma. A gente está presente em cerca de cem cidades no Brasil hoje.

-Com essa negociação da venda da Cittati para o grupo Volaris, como ficam os atuais contratos? São contratos com as empresas de ônibus ou com as prefeituras?

Todos os contratos são com a iniciativa privada e continuam usando a tecnologia Cittati e o aplicativo CittaMobi. Agora vamos acelerar para colocar mais inovações no mercado.

– E para as empresas de ônibus quais são as vantagens de ter serviços como os que a CittaMobi oferece?

Eu tenho falado isso bastante. Recentemente os sistemas de mais 10 a 15 cidades aderiram à plataforma CittaMobi. O setor de transportes urbanos precisa fidelizar o seu cliente e se relacionar com ele. É possível saber quem é o usuário diário, sobre o passageiro que sempre usava e nunca mais de repente deixou de usar o ônibus. Dá para informar para o passageiro, mudança de horários, mudança de itinerários, chegada de ônibus novos. É uma forma de dar a tão pedida pela sociedade, transparência à operação dos transportes. Os serviços do CittaMobi são 24 horas por dia, todos os dias do ano.  Os passageiros estão “pulverizados” na rua e pelo APP, o empresário está 24 horas ao lado dele para mandar e receber notícia. A gente tem evoluído também para o sistema colaborativo. Quem está dentro do ônibus, pode falar em que condições se encontra e pode ter a resposta na hora. O CittaMobi é uma plataforma de relacionamento de quem usa transporte coletivo, fazer esta conexão entre usuário, empresa e órgão gestor. Fora isso, pelo aplicativo, é possível prestar outros serviços ao passageiro, como pesquisa de avaliação, vender bilhete. Em Sorocaba [interior de São Paulo], já é assim, pelo CittaMobi, o usuário compra a passagem, recebe o QR Code no celular e passa normalmente. São coisas que vão facilitando a vida de quem usa transporte coletivo.

– Atualmente a concorrência que uma empresa de ônibus enfrenta é maior que há dez, 15 anos. Hoje tem formas de financiamento baratas de carros e motos, tem os transportes por aplicativos como Uber, e outras alternativas. Informação e relacionamento das empresas de ônibus para com os passageiros, colabora com as viações nesta concorrência?

Também acho. Ajudar o passageiro a programar sua viagem é fundamental. Estar mais perto deste cliente, pegar uma sugestão direto do próprio usuário sobre um horário crítico que todo mundo reclama e chama mais atenção. Criar uma relação mais próxima com usuário. Futuramente, é possível criar alguma espécie de bonificação para os que colaboram mais, para quem mais usar, quem mais compra ganha bônus, alguma vantagem para quem usa no domingo, entre outras. Relacionamento só fortalece o negócio da gente. Acho que são pontos importantes que vão contribuir para o transporte e a plataforma CittaMobi ajuda bastante neste movimento.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Glauber disse:

    Engraçado que o aplicativo é do grupo Mobibrasil mas não é possível localizar os ônibus (linha EMTU) da própria empresa pelo aplicativo dela.
    Uso a linha 006 e nunca aparecem ônibus pelo aplicativo. Outro dia entrei no ônibus e o aplicativo dizia (dentro dele) que não havia ônibus operando na linha!

  2. Ademir disse:

    Bom dia.
    Para esse App funcionar, primeiro os trens também precisam funcionar!
    Vamos cuidar deles primeiro. Frequento a linha RUBI e é triste de ver o estado de conservação de linhas , trens e plataformas.
    O nosso governador Doria prometeu cuidados e investimos.
    Vamos cobra lo!

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