OPINIÃO: Para virar o jogo

Ônibus em Niterói. Prefeito acusado de reter verbas para gratuidades. Foto: Jeonã Garcia Pires/Clique para Ampliar

RENATO SIQUEIRA

Que o setor de transporte é marginalizado e malvisto pela população isso não é novidade. A precariedade na prestação de serviço, o custo alto das tarifas, as relações mal resolvidas com o poder público são alguns dos temperos que faz com que o usuário do transporte público, principalmente, o operado por ônibus seja alvo de inúmeras e ácidas críticas por parte de seu usuário frequente.

No mês de dezembro, o país assistiu a mais um desdobramento da Lava Jato, no Rio de Janeiro envolvendo entes públicos e o setor de transporte.  A operação Alameda botou atrás das grades o então Prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, acusado de cobrar e receber propina no valor de 10 milhões de reais dos empresários de ônibus da cidade. A prisão teve como base a delação de Marcelo Traça, ex-presidente do SETRERJ, sindicato que reúne as empresas do Leste Fluminense.

O curioso nesse fato é que, os empresários país a fora, clamam pela restituição de valores referentes às viagens gratuitas concedidas a idosos, estudantes e portadores de deficiência. Poucos são os municípios que pagam às empresas por esse serviço. Os recursos geralmente são oriundos do orçamento das secretarias de assistência social, educação e do idoso. A grande maioria não faz o repasse da verba. Niterói está na seleta galeria das cidades que cumprem essa normativa conforme previsto no Fundo Municipal de Transporte, ou seja, o dinheiro pago pelas viagens deveria ser reinvestido no próprio setor. Só que não.

De acordo com as investigações, o então prefeito Rodrigo Neves cobrava 20% do arrecadado em forma de propina. Motivo suficiente para colocá-lo na cadeia. Estima-se que, durante os últimos quatro anos, o valor repassado às empresas ultrapasse 50 milhões de reais e que o político tenha retido algo em torno de 11 milhões.

Uma das lutas do empresariado é para que fontes de receitas extra tarifárias sejam determinadas pelo poder público como forma de compensação aos valores não arrecadados com as gratuidades, logo que somente as tarifas, segundo a NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos – não são suficientes para o custeio da operação, que hoje, se aproxima de 60 bilhões de reais anuais.

No caso da cidade de Niterói, com mais de 50 milhões arrecadados em quatro anos, sendo 20% desse volume subtraído pelo prefeito, o restante deveria estar empregado no sistema, mas o que se vê não é bem isso. O corredor Transoceânico ainda não está em operação, a renovação de frota acontece de forma bastante lenta, principalmente, em algumas empresas do consórcio TRANSNIT, não existe investimento em sistemas de informações para o usuário, ou seja, a população está no direito de cobrar melhorias.

Mesmo com este cenário adverso, o momento é oportuno para que o setor de transporte público operado por ônibus, seus empresários e representantes revejam a relação com as administrações públicas, pois a prática da caixinha onde existir, pode estar com os dias contados. Apesar de mais de três mil municípios brasileiros possuírem sistema de transporte regular, mecanismos de investigação voltam seus olhares para diversos segmentos econômicos, para que sistemas de corrupção possam ser desbaratados. Os exemplos do Rio de Janeiro e Niterói podem servir para a virada do jogo com a melhoria da relação entre as empresas de ônibus, seus empresários e a sociedade civil. Será?

 

Renato Siqueira é jornalista com 11 anos de atuação no setor de transportes

1 comentário em OPINIÃO: Para virar o jogo

  1. 1- sobre criticas da precariedade muitos não imaginam como era nos anos 60 inicio dos anos 70, ali sim, literalmente era precário de má qualidade. Por outro lado era menos passageiros a transportar. O tempo passou, aumentou consideravelmente a população das grandes cidades, como nossa capital. Os coletivos de hoje melhoraram muito.Antigamente víamos 1 ou 2 coletivos estacionados nas ruas por defeitos mecânicos. 2- hoje a corrupção cria tentáculos exorbitantes, em que certos empresários, na ânsia de se locupletarem, desviam até as contribuições previdenciárias de seus empregados, avolumando prejuizos, e o déficit da previdencia. Triste ouvir estas criticas de pessoas que nem sequer viram o estudaram o passado dos transportes. (Todo santo dia vejo os comentários da CPTM, a qual ajudei a criar. 89% são de criticas e reclamações)

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