HISTÓRIA: Quantas memórias cabem em um Caio Gabriela?

Caio Gabriela LPO-1113 e Apache Vip II OF-1721 na Praça Elis Regina, em Santo André. Foto: Jessica Marques

Modelo de ônibus marcou época e hoje desperta lembranças por onde passa

JESSICA MARQUES

O Caio Gabriela é um ônibus que fez muito sucesso na época em que era fabricado. Empresas de transporte público eram adeptas do modelo nas décadas de 1970 e 1980. Frotas inteiras eram compostas por veículos com a famosa carroceria.

Atualmente, o Caio Gabriela é uma relíquia para muitos que veem fotos ou têm a sorte de encontrar um exemplar nas ruas. O ônibus agora é um ponto de partida para abrir uma caixinha de memórias na mente de muitas pessoas.

Foi exatamente o que aconteceu com o serralheiro Rogério Soria, 44 anos, quando decidiu pesquisar pela primeira vez na internet o nome de seu modelo de ônibus preferido.

“Morei no Paraná e depois mudei para a Vila Suíça, em Santo André, onde andava nos ônibus da Viação Humaitá. Com aproximadamente dez anos de idade, lembro que estava dentro de um deles em frente ao Terminal Santo André e um homem tirou uma foto. Eu estava no banco atrás do motorista, meu braço estava na janela do ônibus”, contou Soria.

humaita-8.jpg

Na janela, é possível ver Rogério Soria, aos dez anos, com o braço para fora.

“De curioso coloquei na busca da internet ‘ônibus Caio Gabriela Viação Humaitá’. A primeira foto que abriu foi essa, com meu braço na janela. Na hora estalou na cabeça e eu lembrei. Fui ver essa foto com 35 anos”, lembrou.

A partir de então, Soria percebeu que estava na hora de realizar um de seus maiores sonhos, o de ter um Caio Gabriela para chamar de seu. Segundo o serralheiro, foram mais de dez anos sem ver um modelo desses pessoalmente.

Certa vez, saindo da igreja, Soria encontrou um Caio Gabriela na rua e descobriu que era da esposa de um amigo. Nesse momento, após “quase enfartar”, foram seis meses de negociação, até que ele conseguiu trocar um Opala e dois Fuscas, que estava reformando em casa, pelo ônibus.

Em agosto de 2015, Soria finalmente conseguiu ficar com o Caio Gabriela, 1980, chassi LPO-1113 Mercedes-Benz. Desde então, muitas histórias e memórias apareceram.

LONGA TRAJETÓRIA

Desde 1980 até ir parar na frente da casa de Soria, no Parque Capuava, em Santo André, o Caio Gabriela percorreu uma longa trajetória.

Com a ajuda de Regis Carvalho, um busólogo entendedor de Caio Gabriela, Soria conseguiu levantar o histórico do ônibus por meio da placa.

Inicialmente, o Caio Gabriela operou na Viação Eroles, que encerrou as atividades em 2009. A informação obtida por Carvalho e Soria foi que a empresa comprou o ônibus zero quilômetro.

94d1f73b-54f2-464f-bba1-abb59abc635e.jpg


Caio Gabriela rodou como o carro 383 da Viação Eroles durante quase vinte anos. Foto: Arquivo pessoal.

Na época da Viação Eroles, a pintura era toda amarela, até o teto, e as linhas operadas eram municipais. Desta forma, o Caio Gabriela de Soria ficou por muito tempo rodando apenas em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.

Após rodar como o carro 383 durante quase 20 anos, a Eroles vendeu o ônibus para a Peles Polo Norte (fabricante de roupas), em 1998. Ambas as empresas ficavam localizadas em Mogi.

01e614bd08abd730e021856d22f3a2dc.jpg


Caio Gabriela com a pintura da Eroles na época em que operava para a Peles Polo Norte. Foto: Aparecido Engmann / Ônibus Brasil.

Depois da Peles Polo Norte, o Caio Gabriela LPO-1113 foi para Ferraz de Vasconcelos, também na Região Metropolitana de São Paulo, para rodar como ônibus escolar.

“O pai da minha amiga fez transporte escolar com esse ônibus alguns anos em Ferraz de Vasconcelos e, posteriormente, quando ele perdeu a licitação pela idade do ônibus, ele agregou à frota para trabalho no Rodoanel. Há três anos, foi quando o ônibus parou de trabalhar”, contou Soria.

Escolar


À direita, Caio Gabriela na época em que atuava como ônibus escolar em Ferraz de Vasconcelos. Foto: Henrique Cavalcante / Ônibus Brasil

Nas obras do Rodoanel, o ônibus foi responsável pelo transporte de funcionários de 2013 até 2015, sem perder a pintura característica de escolar.

“Esse ônibus por dentro era cheio de barro. A gente precisou fazer várias lavagens para tirar o excesso de barro. Aqueles foram os últimos anos de trabalho do ônibus. Agora só está servindo para passeio e deleite”, disse Soria.

Escolar2


Ônibus não perdeu a pintura de escolar mesmo após transportar funcionários do Rodoanel. Foto: Bruno Gomes / Ônibus Brasil

Agora, onde o Caio Gabriela passa, chama a atenção e desperta memórias.

“Quando cheguei em um evento de carros antigos em Ribeirão Pires, vi um casal falando ‘meu Deus, um Caio Gabriela’. É um ônibus que marcou uma época. O ônibus fica em frente à minha casa e sempre vejo alguém parando para tirar foto, para me perguntar sobre ele”, disse Rogério Soria.

O ônibus fica estacionado próximo à Praça Elis Regina, no Parque Capuava, em Santo André. O local é ponto final de quase dez linhas de ônibus.

No local, o veículo é sucesso entre os motoristas, que estão até mesmo adotando alguns itens da decoração e resgatando memórias quando o Gabriela 1980 passa por lá.

IMG_20180901_164438277_BURST003


Caio Gabriela LPO-1113 e Apache Vip II OF-1721 na Praça Elis Regina, em Santo André. Foto: Jessica Marques

PEÇAS ORIGINAIS

Por ter tido apenas quatro donos, o Caio Gabriela está com muitas peças originais, tanto na parte mecânica quanto na carroceria.

Na Peles Polo Norte, foi feita a reforma dos bancos, que hoje têm tecido com padrão Marcopolo. A original da Eroles é verde, segundo Soria, mas a empresa colocou tapeçaria azul. Entretanto, a estrutura dos assentos permanece original.

O assoalho não foi modificado e o motor também é original.

“O que ele não tem de padrão original é o sistema de freio a ar, porque é um item obrigatório para escolar, assim como cinto de segurança em todos os bancos e o travamento da porta traseira, que eu destravei. A porta dianteira está no pistão pneumático e a traseira, está manual”, contou o proprietário do veículo.

Confira abaixo imagens do interior do Caio Gabriela e detalhes das peças:

Este slideshow necessita de JavaScript.

“Também fizeram um sistema de freio a ar na traseira, como item de segurança. O original é com cabo de aço. No pedal é varão e no freio de mão era um cabo de aço, agora o ar pneumático é que trava as rodas”, completou Soria.

O proprietário contou ainda que o ônibus só precisou de uma manutenção até hoje: trocar um pneu furado. Fora isso, o veículo nunca deu trabalho e ainda oferece um ótimo desempenho, por não consumir muito combustível, pelo porte que possui.

SOBREVIVÊNCIA

IMG_20180901_164248123.jpg


Caio Gabriela na Praça Elis Regina. Foto: Jessica Marques.

Para Soria, foi por muita sorte que o Caio Gabriela que hoje é dele sobreviveu nos últimos anos.

“Antigamente, se encarroçava ônibus em chassi de caminhão (LP-1113). Alguns tinham a roda avançada, o eixo dianteiro avançado, que é normal de caminhão, e o eixo era mais embaixo do motor. Esse aqui é bem no câmbio, bem recuado”, lembrou.

Por ser encarroçado em caminhão, a porta do ônibus ficava atrás do eixo dianteiro e o motorista tinha dois banquinhos ao seu lado. O serralheiro contou que, na infância, era briga para sentar nos assentos da frente e ficar “na cara do para-brisa” olhando para a rua.

“Quando o ônibus envelhecia, eles desmanchavam o ônibus, que é de alumínio, e colocavam uma cabine e carroceria. Existe muito caminhão rodando que era ônibus. O LPO não pode ser convertido, então, esse ônibus sobreviveu por esse motivo. Porque ele foi vendido, o preço ficou irrisório e, como não poderia se transformar em caminhão, ele foi sendo usado”, afirmou Soria.

CAIO GABRIELA É ASTRO DE CINEMA

Por ter mais de 15 anos de idade, o Caio Gabriela de Soria não pode mais transportar passageiros profissionalmente. Nem por isso o modelo histórico se aposentou. Atualmente, o veículo é astro de cinema.

Um dos produtores do filme Nada a Perder, que conta a história do bispo Edir Macedo, estava procurando um ônibus que caracterizava ser do fim da década de 1970.

“Indiquei um amigo que fez todas as filmagens, porque eu não tinha possibilidade para dirigir o ônibus. Teria que ficar três meses gravando. Participei de uma cena em que houve uma colisão com um fusquinha. Eram dez segundos e ficamos quase 48 horas gravando, mas não foi no meu Gabriela a colisão”, contou Soria.

Santapaula01122017_002


Caio Gabriela de Soria ao lado de outro modelo que participou do filme Nada a Perder.

25009476_1758985487486525_5695677399627202560_n


Ônibus de Regis Carvalho, que apareceu no filme Nada a Perder, de Edir Macedo

Após a participação no filme, que foi gravado no Rio de Janeiro, o Caio Gabriela recebeu nova pintura e hoje permanece com as características que foram exibidas no longa-metragem.

Por esse motivo, o veículo tem a identificação do Rio de Janeiro na carroceria, mesmo sem ter rodado no transporte público do estado. Os dizeres são da antiga CTC – RJ (Companhia de Transportes Coletivos do Estado do Rio de Janeiro).

Este slideshow necessita de JavaScript.

O ônibus também apareceu em uma propaganda da NET, bem no fim do vídeo. Posteriormente, foi indicado para a filmagem em um comercial da Vivo, com Gabriel Jesus.

Confira o comercial da NET com participação do Caio Gabriela:

Veja o vídeo gravado para o período da Copa do Mundo, neste ano:

“Foram feitas cinco filmagens e em cada semana que o Brasil fosse passando na classificação da Copa do Mundo, ia rodar um trecho em que o ônibus aparece. Foram três passagens, porque o Brasil foi eliminado na terceira rodada”, contou Soria.

No momento, o Caio Gabriela está disponível para participar de outros filmes. Enquanto isso, o histórico veículo continua tendo papel principal no coração daqueles que relembram momentos especiais só de olhar para o ônibus.

Veja o Caio Gabriela em ação:

Leia também: HISTÓRIA: CAIO Gabriela – Um simpático divisor de águas

Jessica Marques para o Diário do Transporte

2 comentários em HISTÓRIA: Quantas memórias cabem em um Caio Gabriela?

  1. Muito interessante. Este Eroles de prefixo 383 realmente foi fabricado em 1980. Uma correção é que a fábrica da extinta Peles Polo Norte ficava em Suzano, onde este veículo ficava estacionado, próximo ao ginásio Paulo Portela. Nos anos 1990 era possível encontrá-lo estacionado numa rua próxima ao ginásio. Apenas faltou uma foto do painel frontal que mostrasse o prefixo do veículo, que era pintado próximo à porta dianteira. Parabéns pela reportagem.

  2. Eu faço réplicas de ônibus e caminhões em Madeira, estou fazendo um Caio Gabriela 1980, dá Eroles, número 373. Estou na fase final de construção.

1 Trackback / Pingback

  1. Vamos passear de Gabriela? – Diário do Transporte

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: