OPINIÃO – SEMANA DA MOBILIDADE: Vamos ao que interessa!

Enquanto o cidadão for um “mero detalhe” nas cidades, com pessoas espremidas entre os carros e o transporte público não tiver prioridade de fato, tudo o que “celebrar” mobilidade não passará de hipocrisia. Foto: Adamo Bazani (Diário do Transporte)/Clique para ampliar

Transporte de qualidade tem custo e exige coragem nas decisões. Entretanto, é possível começar a garantir o pleno direito de ir e vir dos cidadãos com ações simples e baratas

ADAMO BAZANI

Mais um ano e mais uma semana da mobilidade, que culmina no sábado, 22 de setembro, Dia Mundial Sem Carro.

A data foi criada na França, em 1997, para discutir a necessidade de diminuir a dependência do automóvel, afinal, o transporte individual é o grande causador do trânsito e da poluição nas médias e grandes cidades. No Brasil, a data começou a ser celebrada timidamente em 2001.

As discussões são importantes, mas são necessárias ações de fato, que vão muito além das efemérides, eventos e divulgações de pesquisas com números bombásticos muito comuns nesta semana.

Organizar e gerenciar o ir e vir de milhões de pessoas todos os dias não é uma tarefa fácil, mas todo mundo sabe o que deve ser feito.

Não é segredo. As pessoas, de uma maneira geral, não vão deixar o carro em casa pelo amor à causa da mobilidade e meio ambiente.

É necessário oferecer qualidade de deslocamento e isso não começa no transporte público e, sim, na infraestrutura.

Antes de os ônibus, trens e metrô serem bons; são as cidades que devem ter qualidade.

O que adianta ter ônibus e composições metroferroviárias de última geração se as pessoas têm dificuldades de chegar até estes veículos porque as calçadas são lastimáveis, as ruas esburacadas e a iluminação é péssima?

E para corrigir estes problemas não são necessários recursos tão altos e engenharia de outro mundo. Todo mundo sabe consertar uma calçada.

Prioridades de gestão! É o mínimo que se espera.

Por exemplo, quais cidades têm planos de calçadas sérios?

Mas vamos ao transporte público. É inegável que, como um todo, os sistemas de ônibus, trens e metrô precisam melhorar no País.

A situação, porém, vai além da responsabilidade do operador de transporte, que precisa sim fazer a sua parte, inegavelmente.

A questão é: quais são as condições dadas para operação do transporte público?

Se um ônibus que transporta de uma só vez de 30 a 220 pessoas (dependendo do porte) receber no espaço urbano o mesmo tratamento que um carro que transporta no máximo cinco pessoas, nunca o transporte coletivo terá a qualidade necessária, por melhor que seja o veículo.
Também é ilusão pensar que as tarifas podem baixar de valor, se tornando mais acessíveis para todos os cidadãos, se os sistemas de ônibus são improdutivos, com a necessidade de mais coletivos para transportar menos gente numa mesma linha porque os veículos estão presos em congestionamentos.

Trens e metrôs que pagam as mesmas tarifas de energia que um cidadão que demora no chuveiro também são reflexos de que a mobilidade ainda não é prioridade no Brasil. Isso sem contar as linhas que muitas vezes param porque roubaram os cabos de alimentação elétrica.

Melhorar a infraestrutura do transporte público e tornar as tarifas mais baixas realmente são ações que requerem investimentos.

E mais uma vez, é necessário fazer escolhas, priorizar.

Como dinheiro não nasce em árvore, é importante achar fontes de recursos. Não dá mais para continuar jogando nas costas unicamente de quem paga as passagens.

E a maneira mais justa é que o transporte individual, que ocupa mais espaço e gera mais custos nas cidades, financie o transporte coletivo e sua expansão.

No Brasil, umas das propostas há anos em discussão no Congresso é a Cide Verde ou Cide Municipal, que incidiria sobre o álcool e gasolina dos carros e motos.

Estudos mostram que R$ 0,10 de aumento no preço do combustível representam R$ 0,30 de redução na tarifa do transporte coletivo.

Falar em aumento de combustíveis nesta altura do campeonato pode parecer um contrassenso, mas na verdade, a redução das tarifas de transportes coletivos consegue diminuir os índices inflacionários. Isso sem contar que o país economizaria muito dinheiro em saúde pública (pela redução da poluição e dos acidentes), com o aumento da produtividade e sem a necessidade de ampliar no improviso as caras infraestruturas para o transporte individual. Não dá mais para construir avenidas para tantos carros.

Estudos com base nos dados de deslocamento apurados pela Pesquisa Nacional por Domicílio (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o Brasil perde mais de R$ 267 bilhões por ano com congestionamentos.

Em resumo, investir em cidades e transporte público de qualidade é ter retorno certo. É um investimento que se paga facilmente.

Mudar a configuração das cidades e regiões metropolitanas é outro caminho necessário. Os planos diretores devem aproximar o emprego das casas das pessoas para que os deslocamentos sejam menores. A situação das cidades vizinhas das capitais é pior ainda.

Não dá mais para continuar com o quadro que admite a existência de cidades que não passam de dormitórios.

As relações de trabalho precisam mudar também. Não é necessário todo mundo entrar e sair no mesmo horário. O teletrabalho, com o chamado home-office, também deve ser estimulado para diminuir as necessidades de deslocamentos.

Se o que todo mundo já sabe não for feito, teremos anos e anos com Semanas e mais Semanas da Mobilidade pela frente falando dos mesmos problemas e pregando as mesmas soluções.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

1 comentário em OPINIÃO – SEMANA DA MOBILIDADE: Vamos ao que interessa!

  1. Parte do que você diz é o que vem sendo repetido há anos – como você mesmo coloca no parágrafo final. Mas me permita discordar de algumas coisas:

    – A questão das calçadas é mais complexa do que pensa. “Todo mundo sabe consertar uma calçada”, mas o ponto é que nem todas as calçadas vão poder ficar iguais.

    Em bairros que nasceram sem planejamento, é quase impossível implantar um padrão de calçamento. Fora áreas íngremes, cuja calçadas servem de acesso para os veículos dos moradores.

    “Ah, mas não deveria ter carro”. E se a pessoa for de idade ou precisar de um carro para sua locomoção devido suas limitações?

    Noto que a discussão das calçadas virou um ativismo burro: ignora que existem N padrões de topografia, acesso e ocupação. Imagina-se que “a implantação de calçadas deve seguir padrões como se fosse vias planas.

    Na verdade, ignoramos que vias públicas de trânsito DEVERIAM sempre ter prioridade para pedestres e não motorizados. Em locais periféricos, é mais que comum ver pessoas andando nas beiras das vias devido a falta de calçamento, e mais notório ainda que NÃO EXISTE ESPAÇO PARA EXPANSÃO DO MESMO. Se tirar parte do leito viário, dificulta-se manobras de ônibus.

    A discussão sobre calçamento deve ir de encontro as necessidades e práticas locais. Se não há calçamento, que ao menos analise se as atitudes de tráfego são condizentes e seguras para os pedestres.

    – Para priorizar o transporte público, a gente tem que parar de apontar dedos e fazer nós, como cidadãos, entender onde começa NOSSA responsabilidade e se realmente QUEREMOS isso e assumiremos nossos riscos dependendo de nossas escolhas.

    Para uma cultura firmada na ideia do automóvel, por mais que se pense em formas de mudar as cidades, o ponto sempre será nós, como indivíduos, para a escolha de nossa ação perante o meio.

    Resido em uma cidade onde o atual prefeito, então em época de campanha, prometera revisar os contratos da empresa local que já domina há 20 / 30 anos o transporte público.

    Há dois anos, nada visto e apenas os vereadores disseram que não analisaram porque “o contrato favorece a empresa”.

    Oras, se o contrato favorece a empresa, então o contrato está errado e deveria ser completamente revisto. O contrato tem que favorecer empresa, cidadão e prefeitura, não só um lado.

    O pior é que a cidade não quer mudar, prefere ficar no trânsito. :\

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