Especialistas criticam congelamento da política de faixas de ônibus na cidade de São Paulo

Faixas também trazem benefícios de redução de emissões de poluição, diz estudo do IEMA

Presidente da NTU, Otávio Cunha, diz que deve haver continuidade administrativa. Já presidente da ANTP, Ailton Brasiliense, afirma que há relação entre tarifas e velocidade dos ônibus. Atual gestão não implantou novos espaços para usuários do transporte coletivo

ADAMO BAZANI

Atualmente, a cidade de São Paulo possui pouco mais de 500 quilômetros de faixas para o transporte público.

Os espaços que deveriam ser exclusivos para os usuários de ônibus, passaram também a receber táxis com passageiros em setembro de 2014.

Mesmo com a interferência destes veículos, o ganho de velocidade dos ônibus, que se traduz em menos tempo de viagem e maior eficiência dos coletivos, ainda continuou sendo interessante.

Entre os anos de 2013 e 2016, na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, a cidade recebeu em torno de 400 quilômetros de faixas para ônibus. Até então, eram 90 quilômetros.

Entretanto, sob a gestão de João Doria, ainda não foram implantadas novas faixas.

Na visão de especialistas e agentes do setor de transportes, a descontinuidade é um erro.

O presidente da NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, Otávio Cunha, disse que a quantidade de 500 quilômetros de faixas de ônibus ainda é pequena para a realidade da cidade de São Paulo, que tem 17 mil quilômetros de vias oficias, quase 15 mil ônibus no sistema municipal que, contando com as integrações, transportam nove milhões de pessoas por dia.

“São Paulo é uma cidade de dimensões incríveis. Aqui todas as coisas são muito grandes. Quatrocentos quilômetros de faixas seletivas para São Paulo é muito pouco. Para se ter uma ideia, cem quilômetros de faixas em Fortaleza foi o suficiente para resolver o problema, mas em São Paulo, não. As faixas seletivas implantadas em São Paulo, em alguns corredores foram descontinuadas. Então há trechos onde o ônibus anda muito bem e trechos em que ele convive com o trânsito, com os outros carros, os outros tipos de veículos motorizados. Então era preciso que continuasse essa política. Muita das vezes o que atrapalha o município é a descontinuidade administrativa. Um prefeito é de um partido, vem um de outro partido, e aí quer começar tudo de novo, refazer tudo. Uma boa política seria trabalhar o planejamento e algumas ações que fossem implementadas nessa área do planejamento do transporte público tivessem continuidade” – disse Otávio em entrevista na última semana durante divulgação de uma pesquisa da NTU em parceria com a CNT – Confederação Nacional do Transporte que revelou que entre os maiores problemas apontados por passageiros de ônibus em 35 cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes, o que inclui São Paulo, estão o valor das tarifas, pouco conforto e elevados tempos de viagem.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2017/08/30/tarifa-e-o-principal-problema-do-transporte-coletivo-revela-pesquisa-nacional/

Para o presidente da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, Ailton Brasiliense, que esteve no Congresso da NTU e na Feria de Mobilidade Urbana, Transpublico, todos estes fatores também estão relacionados à falta de prioridade aos coletivos no espaço urbano.

“O ônibus precisa ser rápido, pontual e confortável. Caso contrário, o transporte público sempre estará em desvantagem em relação ao individual. O fato de o ônibus ficar parado no trânsito impacta diretamente nos custos dos sistemas. As viagens são mais demoradas e como um ônibus não consegue cumprir seu trajeto no tempo ideal, para respeitar os intervalos condizentes com a demanda, é necessário colocar outro ônibus, e mais outro, mais outro, para transportar o mesmo número de pessoas” – explica.

Além de aumentar a velocidade operacional dos ônibus, as faixas seletivas também podem ajudar o meio ambiente.

Um estudo do IEMA – Instituto de Energia e Meio Ambiente – feito nas ruas de São Paulo no período entre os meses de setembro do ano de 2012, quando a cidade tinha apenas 90 quilômetros de faixas e 2014, comparou vias antes e depois de receberem os espaços para os ônibus.

O IEMA observou que em média a velocidade dos ônibus aumentou 14% e que, nas faixas, eles poluem menos e gastam menos combustível. Logo, as faixas diminuem o tempo de viagem e melhoram a qualidade do ar da cidade.

O resultado final da análise mostrou ganhos de velocidade de até 22,1% (a depender da faixa) e reduções no consumo de combustível e emissão de poluentes.

A análise do consumo de combustível e emissão de poluentes permitiu observar uma redução na taxa de consumo de diesel de 5,10% em decorrência da variação das velocidades entre os anos de 2012 e 2014. O mesmo resultado foi obtido para a emissão de poluentes locais e gases de efeito estufa, onde as taxas de emissão de óxidos de nitrogênio, material particulado e gases responsáveis pelo efeito estufa foram reduzidas em 7,33%, 6,07% e 5,06% respectivamente, indicando vantagens ambientais quanto à adoção de faixas exclusivas.

O IEMA observou que durante os anos do estudo houve uma mudança na composição da frota de ônibus municipais em termos de tamanho e fase tecnológica, passando das normas com base na tecnologia Euro III para Euro V, cujas restrições às emissões são mais rigorosas. Após a análise, o Instituto constatou que as alterações na composição da frota tiveram um impacto menor que a adoção das faixas. Houve também um sensível aumento no porte dos veículos.

Tudo isso resultou em um aumento de 0,45% no consumo de combustível por quilômetro, mas em contrapartida apresentou uma redução em 4,42% de emissão de material particulado por quilômetro.

Atualmente, 62% da frota paulistana de ônibus representam veículos de tecnologia Euro III. Também aumentou a quantidade de veículos articulados e superarticulados.

Relembre o estudo:

https://diariodotransporte.com.br/2017/07/26/estudo-conclui-que-faixas-exclusivas-de-onibus-combinam-baixo-investimento-com-altos-ganhos-ambientais-e-sociais/

Em resposta à reportagem do Diário do Transporte, a SPTrans, responsável pelo gerenciamento dos serviços de ônibus na cidade de São Paulo, diz que a atual gestão vai priorizar os corredores de ônibus, à esquerda do tráfego de veículos

A SPTrans informa que esta gestão está viabilizando recursos para construção de corredores exclusivos e para a recuperação do pavimento dos corredores. Atualmente, são 129,6 km de corredores de ônibus na capital.

Com relação às faixas exclusivas à direita, a cidade conta hoje com 519 km. Durante o mês de junho, a velocidade média dos ônibus nas faixas exclusivas foi de 20,2 km/h no pico manhã e 18,7 km/h no horário da tarde.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

2 comentários em Especialistas criticam congelamento da política de faixas de ônibus na cidade de São Paulo

  1. Com estas medidas ficou claro que a politica de transporte do nobre prefeito são para quem utiliza automóveis e não para quem anda de ônibus, até na sua campanha quando ele falava quase como uma piada do rapidão, pergunta aonde o rapidão vai ser rapidão sem faixa exclusiva, alias cade o rapidão?, ele e o famoso Gerson olha para um lado mais chuta pro outro, a insatisfação popular em relação a este governo so não e maior e amplamente informada, porque ele tem o apoio dos empresários e dos meios de comunicação, queria ver agora os videntes de meia pataca dizendo que ele seria o melhor prefeito que SP já teve, kakakaka, devem ter se confundido, em vez de melhor seria o pior ele me lembra o PITA, menos ônibus, menos linhas, o menos dele para a população e o mais dos empresarios, mais lucros, mais lucro e mais lucro, povo que vota em candidato de patrão merece o chicotão.

  2. Élio J. B. Camargo // 12 de setembro de 2017 às 13:59 // Responder

    Não se trata apenas de congelamento. Precisa evoluir de patamar e conseguir dar vias realmente livres para o transporte coletivo, como solução para a mobilidade urbana. A faixa preferencial à direita foi e é um quebra galhos, com constantes interferências com os carros (entrada e saída destes), gargalos, veículos de serviço, quebrados, etc.
    Deve-se levar as faixas realmente exclusivas (e sem táxis!) para a esquerda em todas as avenidas. Não precisamos dos caros e demorados corredores, agora. Temos urgência e do mesmo modo que foram feito os 500 Km. basta tinta e pontos para melhorar e muito a velocidade dos ônibus.
    Outras medidas certamente ajudarão ,mas ir para a esquerda é primordial para melhorar nossa mobilidade.

2 Trackbacks / Pingbacks

  1. Doria transfere mais R$ 80 milhões para cobrir rombo financeiro do sistema de transportes – Diário do Transporte
  2. Doria remaneja mais R$ 59,4 milhões para subsidiar tarifas de ônibus – Diário do Transporte

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: