Mobilidade Urbana não pode ser mercadoria e nem banalizada

Jaime Lerner Adamo Bazani

O arquiteto e urbanista Jaime Lerner, considerado o criador do primeiro sistema de corredores de ônibus de trânsito rápido do mundo, o BRT de Curitiba, ao lado do jornalista Adamo Bazani. Debate sobre mobilidade e saúde procurou trazer dados e abordagens novas e adequadas ao tema e também derrubar mitos. O engenheiro Paulo Sérgio Custódio, que desenvolveu diversos sistemas de transportes para vários países, o médico especialista em poluição atmosférica, Paulo Saldiva, e o presidente da ABVE – Associação Brasileira do Veículo Elétrico, Pietro Eber, participaram do debate. Imagem: Antônio Moreira/Canal do Ônibus.

Mobilidade Urbana não pode ser mercadoria
Especialistas defendem aprimoramento dos deslocamentos por superfície e dizem que não basta escolher modais de transportes e sim oferecer serviços adequados à população
ADAMO BAZANI – CBN
Especialistas de reconhecimento internacional em transportes e saúde pública alertaram para um grande perigo atual quando o assunto é o ir e vir das pessoas e a reorganização das cidades: a banalização e a mercantilização do termo mobilidade urbana.
Durante a nona edição do “Salão Latino Americano de Veículos Elétricos, Componentes e Novas Tecnologias”, foi realizado o “Primeiro Encontro sobre Mobilidade Urbana – Possibilidades, Desafios e Polêmicas”. No evento, os especialistas não pouparam críticas a posturas de governantes, à corrida para se vender apenas produtos e não soluções de transportes, apontaram mitos sobre o setor e falaram sobre a situação de estagnação que as cidades brasileiras ainda vivem, apesar dos discursos e propagandas governamentais.
“Me preocupa muito a abordagem que tem sido dada em relação à mobilidade. Primeiro, mobilidade é muito mais que combater os congestionamentos. Hoje empresas e governos querem vender modais como quem vende uma geladeira. A população não precisa comprar um modal e sim, precisa receber um serviço. E para isso, pode-se aprimorar os atuais serviços e atender às expectativas dos cidadãos, sem necessidade de grandes dispêndios de recursos” – disse o engenheiro Paulo Sérgio Custódio. Com 40 anos de experiência internacional em planejamento e desenhos de sistemas de transportes públicos urbanos, incluindo metrô, trens e ônibus, Paulo Sérgio Custódio foi diretor de planejamento de sistemas de BRT (corredores de trânsito rápido de ônibus) para a Colômbia, Bolívia e Tanzânia, além de ser consultor para implantação de BRT no México, Indonésia, África do Sul, Paraguai e Argentina.
Com sua experiência, Paulo Sérgio Custódio não tem dúvidas em afirmar que a solução para uma cidade passa por um melhor uso do espaço urbano e não pela criação de novos modais.
“Se equilibrarmos mais o uso do solo, com um crescimento inteligente, pelo qual as pessoas possam ter perto de onde residem seus locais de trabalho, estudo e consumo, podemos reduzir em 30% a necessidade de infraestrutura. Hoje se gasta muito dinheiro em infraestrutura para deslocamentos que poderiam ser reduzidos. Por exemplo, se 2% da população da cidade de São Paulo se locomovessem de bicicleta, seria o equivalente a atendermos uma demanda com uma nova linha de metrô, mas para isso, é necessário que as bicicletas tenham espaços para circulação e estacionamento”
Custódio defendeu o ônibus como solução para a realidade no Brasil.
“Há um mito em achar que o metrô é a solução para tudo, sendo que não é e até mesmo quem defende o metrô sabe disso. Só existe uma só solução que atende a necessidade urgente das pessoas que é qualificar o transporte de superfície. E o ônibus, que é o que temos de melhor. Se bem planejado e estruturado, nunca o ônibus vai ser saturado” – disse o especialista.
Ele defende sim a expansão dos modais metroferroviários, mas diz que é ilusão achar que alcançar a mesma quantidade de quilômetros de metrô de cidades de países desenvolvidos vai criar grandes mudanças na vida das pessoas no Brasil.
“Fala-se que o Brasil pode se igualar a Nova Iorque se caso tiver a mesma quantidade de metrô de lá. Ora, o México tem praticamente a mesma malha e nem por isso é igual a Nova Iorque, muito mais que modais, as pessoas precisam se atendidas de acordo com suas realidades e necessidades. É irresponsável fazer comparações entre cidades sem respeitar suas diferenças e até mesmo suas situações econômicas” – explicou.
Ele disse que modais não bastam e criticou o fato de as autoridades políticas apenas se basearem em obras para falarem que vão resolver os problemas de deslocamento dos cidadãos e deu um exemplo.
“Esse trem suspenso, o monotrilho, que vão fazer entre o São Bernardo do Campo e São Paulo. Isso não é e nunca será uma solução para os moradores destas duas regiões. É deixada de lado uma série de fatores neste caso, desde o meio ambiente até os hábitos como as pessoas se locomovem. Não basta mudar o sistema de transportes, temos de desenvolver cada cidade” – criticou
O arquiteto e urbanista, Jaime Lerner, que implantou o primeiro sistema de corredores de ônibus rápidos do mundo, em Curitiba, a partir de 1974, fez duras críticas às formas de gestão e como a mobilidade é tratada pelo poder público. Ele também criticou a burocracia para o desenvolvimento de soluções de mobilidade.
“As coisas no Brasil demoram para acontecer e o grande problema é a falta de decisão. O número de intermediários que são colocados, o número de barreiras que são colocadas, o número de xerifes, tudo isso é terrível” – disse.
Jaime Lerner, que hoje trabalha no desenvolvimento de um carro elétrico que leva uma só pessoa, mas que o uso é público, para pequenos deslocamentos, também aponta para o falso dilema pneu X metrô.
“Nós vivemos num falso dilema, ou carro ou metrô. A resposta não é nem o carro e nem o metrô. O futuro está na melhoria dos deslocamentos de superfície. Se a superfície operar bem, o metrô vai operar bem. Se tivermos ônibus e táxis ágeis, claro que o metrô vai ser melhor. Em São Paulo, 84% dos deslocamentos estão na superfície. Então, por que não melhorá-los? O segredo para um bom atendimento à população è a freqüência Dops meios de transporte. Hoje é perfeitamente possível fazer com que o intervalo entre ônibus em corredores seja em torno de 20 segundos entre um veículo e outro contando com as diversas opções de linhas que param em todos os pontos, semi-expressas e expressas.” – disse
Jaime Lerner defendeu a integração dos modais e deu exemplo próprio de como o País demorou para entender essa necessidade.
“Em 1983, fui convidado para o Projeto Rio 2000. Naquele ano, propus a integração do metrô com o ônibus. Tanto o Metrô como as empresas de ônibus rejeitaram na época. Agora, às vésperas das Olimpíadas de 2016,me chamaram para ajudar a aperfeiçoar esta integração, justamente com as mesmas empresas de ônibus e com o mesmo metrô” – relata Jaime Lerner.
O arquiteto disse que corredores de ônibus bem planejados podem sim ter a mesma eficiência e capacidade do metrô. Muito mais que no modal de transporte, o segredo está na gestão e operação corretas. E não há uma fórmula. Depende da realidade de cada cidade, de cada população, que deve também atender a realidade de toda uma região, envolvendo mais de um município.
TRANSPORTE É A VACINA CONTRA A POLUIÇÃO:
A poluição gerada pelo excessivo número de carros traz proporcionalmente um risco maior para ocasionar problemas cardíacos que até mesmo o uso de entorpecentes.
O dado revelador foi trazido pelo professor do Instituto de Poluição Atmosférica da USP – Universidade de São Paulo, o médico Paulo Saldiva.
Ele levou em conta o número de pessoas que usam entorpecentes e os efeitos da droga no organismo.
É claro que individualmente, quem usa droga tem mais risco de desenvolver doenças e até mesmo chegar à morte. Mas em termos de saúde pública, a poluição, principalmente a emitida pelos automóveis, faz mais vítimas. Isso porque não há escolha, todos são expostos à poluição.
Mas o Saldiva vai além e diz que os problemas do excesso de veículos não geram apenas impactos na saúde relacionados à poluição do ar.
Ele destaca o sedentarismo, a obesidade, o estresse e até mesmo a poluição sonora que degradam a vida nas cidades.
“Poluição sonora não é apenas o barulho que ouvimos, mas o que não ouvimos também. Há sons muito comuns nas cidades, por causa de carros e de todas as atividades, que não percebemos, mas que são captados pelo nosso organismo e que nos causa estresse e até problemas no sistema imunológico e neurológico” – disse Saldiva.
Saldiva afirmou também que só na Capital Paulista, a poluição mata por ano cerca de três vezes mais que os acidentes de trânsito.
São 4 mil 655 mortes por ano por causa de problemas gerados ou agravados pela poluição atmosférica contra 1 mil 522 mortes no trânsito na cidade de São Paulo.
E uma das soluções que pode compatibilizar a necessidade de oferecer mobilidade e ao mesmo tempo combater a poluição é o transporte coletivo sustentável.
Já existem várias alternativas disponíveis, como os combustíveis alternativos ao petróleo e a tração elétrica.
Além do metrô e do trem, que na maior parte das vezes já são elétricos, os ônibus agora contam com soluções de tração a eletricidade mais modernas e mais baratas que há uma década.
Os ônibus elétricos híbridos devem ser tendência nas cidades, embora que é nítida a necessidade de mais incentivos. Os trólebus estão cada vez mais modernos e hoje, com o sistema de marcha autônoma, que consiste em baterias de armazenamento, estes veículos podem circular por alguns quilômetros sem depender da rede aérea, com a vantagem de ser ainda 100% não poluentes nas operações.
Participou do debate também o presidente da ABVE – Associação Brasileira do Veículo Elétrico e diretor do INEE – Instituto Nacional de Eficiência Energética, Pietro Erber.
“A eletricidade para mover veículos sobre pneus não é nenhuma novidade no mundo e é tão antiga ou mais que o sistema de combustão de derivados do Petróleo. Alguns países, no entanto, pararam na questão. O Brasil está muito abaixo do ideal ainda, mas precisamos destacar avanços. Hoje temos tecnologia 100% nacional para a produção de ônibus elétrico e elétrico híbrido. Há a necessidade de a questão ainda ter mais prioridade, mas vejo o futuro da tração elétrica para veículos no Brasil com otimismo real” – disse Pietro, que é mestre em engenharia.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.

7 comentários em Mobilidade Urbana não pode ser mercadoria e nem banalizada

  1. Amigos, bom dia.

    Hoje estou de alma lavada.

    Foi um prazer inenarrável ler e saber que ainda tem profissionais brasileiros competentíssimos.

    Depois destas sábias palavras, só me resta destacá-las no meio comentário.

    Quando a gente comenta aqui, a fiscalizadora nem dá atenção.

    Bem, agora quem falou são duas sumidades no assunto Buzão, portanto dêem atenção agora, já.

    FAÇAM !

    CONFIRAM ABAIXO A SABEDORIA E A EXATIDÃO dos sábios ensinamentos.

    PAULO SERGIO CUSTÓDIO

    “A população não precisa comprar um modal e sim, precisa receber um serviço. E para isso, pode-se aprimorar os atuais serviços e atender às expectativas dos cidadãos, sem necessidade de grandes dispêndios de recursos” – disse o engenheiro Paulo Sérgio Custódio.”

    “é necessário que as bicicletas tenham espaços para circulação e estacionamento”

    “Esse trem suspenso, o monotrilho, que vão fazer entre o São Bernardo do Campo e São Paulo. Isso não é e nunca será uma solução para os moradores destas duas regiões”

    JAIME LERNER

    “As coisas no Brasil demoram para acontecer e o grande problema é a falta de decisão. O número de intermediários que são colocados, o número de barreiras que são colocadas, o número de xerifes, tudo isso é terrível”

    ” O segredo para um bom atendimento à população è a freqüência Dops meios de transporte.”

    ” Muito mais que no modal de transporte, o segredo está na gestão e operação corretas. E não há uma fórmula. Depende da realidade de cada cidade, de cada população, que deve também atender a realidade de toda uma região, envolvendo mais de um município.”

    Me dou por satisfeito, pois a receita correta já nos foi dada.

    Agora, se não fazem o que tem de ser feito é simplesmente porque não querem.

    E um detalhe, para fazer o certo nem precisa de ter cérebro.

    Cérebro tem é quem diz o que tem de se fazer, correta e coerentemente a exemplo dos Srs. Custódio e Jaime.

    PARABÉNS!

    Fiscalizadora APRENDEU ?

    PRECISA REPETIR ?

    Att,

    Paulo Gil

  2. Dorival Nunes Bezerra // 14 de setembro de 2013 às 15:51 // Responder

    Como sempre, Adamo, matéria e análises muito interessantes, principalmente no que se refere à mercantilização (que se dá em outros setores públicos também não apenas no transporte). Concordo plenamente que um melhor gerenciamento colaboraria, e muito, para a solução de boa parte dos problemas do transporte. No entanto, por mais que estes especialistas digam e tenham como provar isto, além de toda burocracia governamental, há que se enfrentar outro problema social: o comportamento da pessoas que prezam cada vez mais o individualismo se aproveitando das mazelas burocráticas para se ausentar da culpa em algumas situações. Um exemplo: as pessoas alegam que só andam de carro, porque não há um transporte de qualidade. Infelizmente, eu não acredito que se houvesse o tal transporte haveria diminuição na quantidade de carros na rua. Prova disso é que boa parte delas usam o carro para um deslocamento de 1 ou 2 quadras. O sistema capitalista (falido já em si mesmo, embora muitos relutem em admitir) gera nas pessoas a valorização do “eu”. Enquanto esta mentalidade e esta postura imperarem, quase nada se poderá fazer para uma mudança significativa em qualquer setor. Mas esta é uma outra discussão, para um outro ponto, em outra circunstância. Parabéns pela matéria.

    • Concordo Dorival principalmente quanto a melhora na qualidade do transporte não estimular as pessoas a deixarem seu carro em casa. Isto é um problema cultural. Grande parte das pessoas que possuem carro, sequer sabe quais linhas de ônibus atendem sua região ou a região do seu local de trabalho. Infelizmente, por mais que as prestações do carro estejam atrasadas, que esteja tirando a comida da boca dos filhos para tentar manter o IPVA e licenciamento em dia, o fato de chegar no trabalho de carro, evita que se ouça o triste (porém estimulado pelo governo federal) comentário do tipo: “Nossa, esse coitado bem trabalhar de ônibus”.

      Falta muito pra que o SISTEMA de transporte público no Brasil tenha subsídios financeiros, culturais, comportamentais e de governança pública aprimorados.

  3. Adamo foi dele segundo li, a frase, quer em SP. não se investia em corredor, por que para o PSDB, obra tem que ser cara senão não serve, por isso estamos atrasados 20 anos, enquanto tivermos um governador obras futuras (leia-se Geraldo Alkimim obras futuras), porque suas obras vão sempre a passos de tartaruga, porque assim ficam mais caras, e ele vive de campanhas de obras que não entrega, ou obras eternamente futuras.

  4. Ewerton Santos Lourenço (PNE Guarulhos) // 16 de setembro de 2013 às 14:18 // Responder

    Que tal postamos vários cartazes nas Divisas do Municipio escrito a seguinte mensagem: “Sejam Bem Vindos a Cidade de Papel” Pois não é só Estado de SP que funciona assim AQUI NO BRASIL

  5. Ótimo texto, imagine o debate ao vivo!

    Perfeito o foco no serviço a ser recebido e não no modal. E o ponto que cidades são diferentes, cada uma precisando de soluções específicas.

    Bate forte esperança que os administradores públicos começam a aceitar a indispensável integração de modais.

    O único senão a Lerner é que configurações de ônibus, quero crer, não são adequadas a alta capacidade. OK, num mundo ideal São Paulo, Rio de Janeiro, Nova Iorque e Paris não deveriam existir. Da forma que estão assentadas, precisam de redes de metrô e em boa parte subterrâneas sim.

    Quanto ao monotrilho do ABC, apostaria com (contra!) eles. Se conseguirem INTEGRÁ-LO a aquela zona que é a distribuição das linhas de ônibus por lá, requalificando e redistribuindo as linhas, ele tem tudo para ser um sucesso. A própria CPTM lá é nitidamente jogada fora/desperdiçada por pura e simples falta de integração com ônibus.

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