Itapemirim: História de 59 anos fruto do empreendedorismo

Itapemirim

Viação Itapemirim completa 59 anos, fruto do empreendedorismo de seu fundador, Camilo Cola, que começou um império, de um velho caminhão adquirido com o tino de negócios durante a Segunda Guerra Mundial. Um dos destaques da história da Itapemirim foi a fabricação própria de carrocerias.

Itapemirim: 59 anos
Uma das principais empresas de transportes do País chega a quase seis décadas graças ao empreendedorismo de Camilo Cola, que tinha visão além de seu tempo

REVISTA DA ABRATI (O TEXTO FOI EXTRAÍDO DE UMA PUBLICAÇÃO ANTIGA. JÁ É CONHECIDO DE ALGUNS, MAS DE OUTROS NÃO. COMO É BEM FEITO, DECIDIMOS REPRODUZI-LO, COM OS CRÉDITOS)

O caminhão foi comprado em 1946. Camilo Cola havia voltado ao Brasil no ano anterior, depois de ter participado da Segunda Guerra Mundial, lutando na Itália como integrante da Força Expedicionária Brasileira. Boa parte do dinheiro da compra tinha sido obtida em território italiano, com muita economia e senso de oportunidade. Como combatente, Camilo Cola recebia um maço de cigarros todo dia. Como não era fumante, começou a vendê-lo aos companheiros. Depois, passou a comprar os maços de outros soldados e se tornou uma espécie de fornecedor do produto, sempre pagando e recebendo em dólares.
A compra do Ford Hercules foi facilitada porque o governo decidiu premiar os ex-pracinhas que tinham participado da guerra, dando a eles prioridade na aquisição desse tipo de veículo. Camilo Cola aproveitou a chance, trocou os dólares pelo veículo novinho e começou a transportar cargas e passageiros. Ao mesmo tempo, procurou outros ex-pracinhas e estimulou-os a comprar e colocar à venda, por seu intermédio, os caminhões a que tinham direito. Conseguiu ganhar mais um bom dinheiro com essas operações.
Em fins de 1948, usou o lucro obtido para associar-se a um comerciante local na criação da Empresa de Transporte Autos -ETA. Ela tinha um único ônibus, e se dedicou ao transporte de passageiros entre Castelo e Cachoeiro do Itapemirim.
O ônibus solitário foi multiplicado por três no ano seguinte e em 1950 a frota já era de dez veículos. Mais um ano e a ETA partia para a fusão com outras duas empresas de ônibus, surgindo então, em 4 de julho de 1953, a Viação Itapemirim Ltda. Tinha frota de 16 ônibus. A manutenção e os reparos eram feitos exclusivamente na oficina mecânica da empresa, que funcionava num barracão alugado. Camilo Cola relata: “Não havia indústria automobilística brasileira na época e tampouco serviços de assistência técnica para os veículos importados. O mercado de peças de reposição era escasso e concentrado nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.”
Não demorou para que o estilo ousado e empreendedor de Camilo Cola se manifestasse, delineando o comportamento gerencial que exercitaria até os dias de hoje. Para garantir a expansão dos negócios, estendeu as linhas da empresa a todo o norte do Espírito Santo. As condições de operação eram extremamente difíceis e exigiam muita coragem, como relembra Camilo Cola: “As estradas eram muito precárias e, por isso, as outras transportadoras não se aventuravam. Então a Itapemirim requeria as linhas e lá íamos nós, levando como equipamento normal, além de marretas, espátulas, material de remendo e pneus sobressalentes, também enxadas, foices e facões, pois aqui e ali era preciso raspar o atoleiro e, muitas vezes, abrir picadas no mato para contornar o barro e o lamaçal.”
Foi com a mesma disposição que a empresa conquistou suas primeiras linhas interestaduais: Cachoeiro do Itapemirim – Campos, Cachoeiro do Itapemirim – Niterói e Vitória-Rio de Janeiro. A seguir, voltou suas atenções para o sul da Bahia e, logo, assumiu também as ligações Rio de Janeiro-Salvador e Rio de Janeiro – Brasília.
O desenho da Viação Itapemirim como empresa de envergadura nacional começou a ser traçado principalmente na década de 60, quando, por meio de aquisições e licitações, obteve a titularidade de linhas importantes como Brasília – Belo Horizonte e Belo Horizonte – Vitória. Em 1963, a frota já chegava a 100 veículos, isso numa época em que as estradas, em sua maioria, continuavam sendo de terra, e não havia ônibus adequados para operar linhas de longa distância. Essas foram, provavelmente, algumas das grandes diferenças que marcaram a atuação dos pioneiros do transporte rodoviário de passageiros no Brasil.
A operação simultânea de linhas intermunicipais e interestaduais ainda foi mantida por algum tempo, mas Camilo Cola percebeu que para não travar o crescimento da Itapemirim teria de liberar a empresa do segmento intermunicipal. Assim, no início da década de 70, vendeu todas as linhas do norte capixaba e foi de novo às compras. Adquiriu duas linhas de Pernambuco para o Rio de Janeiro, além de outras ligações entre capitais nordestinas e o sul do país. Em concorrência pública, conseguiu a São Luís – Rio de Janeiro e, mais tarde, a Belém – Rio de Janeiro. Finalmente, passou a operar também a linha Salvador – Rio de Janeiro.
Com isso, a companhia adquiriu, definitivamente, cara nacional. E foi nessa condição que, em 1973, depois de negociações que duraram mais de meio ano, conseguiu incorporar uma das grandes empresas do país, a Nossa Senhora da Penha. De um momento para o outro, a frota aumentou em cerca de 500 ônibus e as operações foram estendidas a praticamente todo o sul brasileiro. De quebra, também foi alcançado o Uruguai, por meio da linha Bagé (Rs)-Melo.
Em 1980, adquiriu a Única, empresa que fazia a ligação Rio de Janeiro – São Paulo, tornando-se, então, a Itapemirim, a maior empresa de transporte rodoviário de passageiros do país e da América Latina, além de uma das maiores do mundo.
Na década de 80, Camilo Cola foi eleito presidente da Confederação Nacional do Transporte – CNT -exatamente quando se vivia o período da Assembléia Constituinte. A participação do setor de transporte nas discussões em torno de uma nova Constituição, exigência dos empresários do setor, foi competentemente coordenada por Camilo Cola. O intenso trabalho desenvolvido junto aos constituintes produziu resultados importantes em termos de dispositivos constitucionais relacionados ao setor, na Constituição de 1988, e abriram caminho para a criação do Sistema sest-senat. A gestão de Camilo Cola foi marcada ainda pelos entendimentos que evitaram uma equivocada desregulamentação do setor de transporte rodoviário de passageiros e pela construção da sede própria da CNT em Brasília.
Sob a direção de seu criador, a Itapemirim sempre pautou seus serviços pelo pioneirismo, inclusive no que se relacionava aos ônibus utilizados em suas linhas. Inicialmente, não havia tanta possibilidade de escolher entre veículos nem de padronizar a frota. Os transportadores de passageiros tinham de se contentar com os chassis de caminhão disponíveis no momento, e que eram de marcas como Chevrolet, Ford, Ford francês, Aclo inglês, White norte-americano, GMC. Mas, em 1957, a Itapemirim conseguiu incorporar um expressivo contingente de ônibus Alfa-Romeo. Dois anos depois, deu um salto mais ousado e substituiu toda a frota por carros Mercedes-Benz. A vantagem é que eles eram entregues já encarroçados, encurtando-se em meses o intervalo entre a compra do chassi e o recebimento do ônibus pronto.
A partir de 1960, sempre por inspiração de Camilo Cola, a empresa deu início a uma política de valorização crescente aos chamados itens de conforto. Criou, por exemplo, o ônibus Rodonave, de tipo leito, equipado com ar-condicionado e sanitário químico. Outra importante inovação ocorreria em 1977 com o lançamento do ônibus executivo, de 32 lugares, com poltronas mais espaçosas, ar-condicionado e todo o conforto que a tecnologia da época permitia incorporar.
Mudança de largo alcance, com significativos ganhos de segurança e conforto, ocorreu a partir do fim dos anos 70, quando a Itapemirim passou a adotar a plataforma Mercedes-Benz de tipo monobloco.
Um dos grandes marcos da história da empresa deu-se em 1981. Praticando a política de produzir suas próprias carroçarias em Cachoeiro do Itapemirim, sob a marca Tecnobus, a companhia criou um produto absolutamente diferenciado, o Superbus. O veículo representou a consolidação de todo know-how acumulado durante muito tempo. Mais do que isso, abriu caminho para o lançamento, no ano seguinte, do modelo Tribus, com três eixos, que incorporava as mais recentes conquistas da engenharia automobilística, entre elas a suspensão a ar e o tratamento acústico que reduziu significativamente os níveis de ruído interno. Ou seja: aumentou o conforto dos passageiros. A proposto era tão boa que possibilitou o posterior desenvolvimento de mais duas versões sucessivas, os Tribus II e III.
Passados quase 60 anos desde que começou a atuar na área de transporte, Camilo Cola constata, com satisfação, que o setor avançou muito, estando hoje à altura dos melhores do mundo. O desenvolvimento tecnológico alcançado pelas empresas e a evolução dos nossos ônibus são pontos de destaque.
Sua tristeza é verificar as mazelas vigentes que prejudicam o sistema: estradas em péssimo estado, rodoviárias abaixo da crítica, falta de fiscalização que propicia a proliferação do transporte clandestino, com aumento dos acidentes fatais e comprometimento da imagem do transporte rodoviário regular de passageiros, que paga impostos e contribui para a manutenção de milhares de empregos, conforme acentua Camilo Cola.
Os Pioneiros, Revista ABRATI/ Dezembro 2003

6 comentários em Itapemirim: História de 59 anos fruto do empreendedorismo

  1. Sérgio - Santo André // 6 de julho de 2012 às 19:15 // Responder

    Realmente é uma empresa que representou um grande avanço na área de transportes de passageiros no Brasil. Muitas das “criatividades” criadas nas oficinas da Itapemirim, foram aprimoradas pela Mercedes Benz e espalhadas nas demais empresas de ônibus. Como o senhor Camilo Colla disse, o que atrapalha são os desmandos governamentais, com estradas, se é que podem se chamar assim, em péssimo estado de conservação, mesmo com a absurda arrecadação de impostos e multas. Outro fator que está minguando o transporte de passageiros de longa distância são as empresas aéreas com suas tarifas mais baratas que o ônibus. Analisando todos estes fatos, qual será o futuro de uma empresa como a Itapemirim ???? E, também, o que será da empresa pós Camilo Colla ???? Se pelo menos a metade da vontade de desbravar novos caminhos do senhor Camilo Colla, não estiver correndo nas veias dos herdeiros do conglomerado, teremos mais uma Cometa, Penha, São Geraldo, Expresso
    Brasileiro…

  2. reportagem muito interessante, tomara que a itaperimim sempre mantenha a pontualidade e que consiga novas rotas!

  3. É Penha foi … Cometa carros bons Oque ouve?, São Geraldo Empresa que foram boas Sera que ja e ra itapemirim

  4. jonatas vieira dias // 8 de Fevereiro de 2014 às 16:46 // Responder

    itapemirim, compra a rota pra rondonia, porq moro em vv es e vou pra rondonia direto. fica dica muito obrigado

  5. O ÚNICO ERRO DO COMENDADOR CAMILO COLA ,FOI SE METER NA POLÍTICA,DEIXANDO A EMPRESA PRÁTICAMENTE NAS MÃOS DO INCOMPETENTE CAMILO COLA ,SEU FILHO ADOTIVO ,SEM QUE ANTES TRANSFORMASSE A EMPRESA EM CAPITAL ABERTO,COM, ADMINISTRAÇÃO DE RESULTADO,PULVERIZANDO DE FORMA ADEQUADA SUAS AÇÕES PARA QUE NINGUEM DETIVESSE SÓZINHO ,MAIS DE 49% OU 50% DAS AÇÕES,PORQUE ASSIM SENDO SE A ADMINISTRAÇÃO NÃO ESTIVESSE CORRESPONDENDO,OS ACIONISTAS PUDESSEM ELEGER NOVASDIRETORIA COM 50%MAIS UM VOTO.

1 Trackback / Pingback

  1. Quando as “naves” da Itapemirim eram estrelas de TV | BLOG PONTO DE ÔNIBUS

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: