ESPECIAL COP31 – Turquia produz mais de 12 mil ônibus por ano, reúne gigantes mundiais e avança nos elétricos: conheça a indústria do país, as diferenças com o Brasil e as oportunidades para a Eletra
Publicado em: 8 de novembro de 2026
País que receberá a conferência mundial do clima possui fabricantes tradicionais, grandes fábricas de monoblocos e forte presença exportadora; indústria brasileira tem mercado interno maior e experiência própria em chassis, carrocerias e tecnologias de eletrificação. Diário do Transporte fará cobertura presencial em Antalya, de 10 a 14 de novembro, a convite da Eletra Industrial
ADAMO BAZANI
A Turquia, país que sediará a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), entre 9 e 20 de novembro de 2026, em Antalya, é também um dos importantes centros mundiais de fabricação de ônibus. Em 2025, suas montadoras produziram 12.425 ônibus, segundo dados da associação da indústria automotiva turca, além de milhares de veículos menores destinados ao transporte de passageiros. O país reúne fabricantes de origem turca, como Otokar, Karsan e Bozankaya, empresas com participação internacional, como TEMSA e Anadolu Isuzu, e unidades industriais de grupos alemães, como Mercedes-Benz e MAN. O Brasil, por sua vez, produziu 28.191 chassis de ônibus e veículos integrais no mesmo período, demonstrando a dimensão de dois parques industriais que apresentam características bastante diferentes.
É nesse ambiente de indústria, tecnologia, negócios e discussão sobre o futuro da mobilidade que o Diário do Transporte realizará, de 10 a 14 de novembro, sua cobertura presencial da COP31, a convite da Eletra Industrial, fabricante genuinamente brasileira de ônibus elétricos. A participação permitirá acompanhar debates internacionais sobre sustentabilidade e apresentar ao público brasileiro experiências de outros países, ao mesmo tempo em que o Brasil leva à conferência soluções desenvolvidas para condições complexas de operação. Entre os destaques estão as tecnologias da Eletra, a experiência de uma fabricante que pertence a um grupo também operador de transportes e a atuação de lideranças como a diretora-presidente Milena Braga Romano e a diretora comercial Ieda Oliveira.

A presença da indústria nacional e de um veículo de comunicação especializado nesse debate tem uma importância que vai além da exposição de produtos.
Sustentabilidade envolve emissões, mas também financiamento, qualidade do serviço, acessibilidade, produtividade, formação profissional, durabilidade dos veículos e capacidade de atender passageiros de diferentes realidades econômicas e sociais.
E a Turquia oferece um cenário especialmente interessante para essa discussão.
Situada entre a Europa e a Ásia, com grandes centros urbanos, regiões industriais, cidades turísticas, áreas montanhosas e diferenças climáticas expressivas, a Turquia desenvolveu um parque industrial que produz ônibus para suas próprias cidades e para mercados externos.
A indústria instalada no país combina tradição nos veículos convencionais, desenvolvimento de modelos elétricos, aplicações autônomas, trólebus, ônibus movidos a hidrogênio e soluções para transporte urbano e rodoviário.
Há também uma diferença industrial importante em relação ao Brasil. Enquanto o mercado brasileiro consolidou o modelo de fabricantes de chassis e encarroçadoras independentes, na Turquia predomina, entre as grandes montadoras de ônibus, a fabricação de veículos completos, frequentemente com estruturas integrais ou monoblocos.
Para o Brasil, conhecer essa estrutura permite observar tanto potenciais concorrentes quanto possíveis parceiros tecnológicos e comerciais.
Turquia e Brasil: dois mercados de ônibus com características diferentes


A primeira curiosidade está na relação entre a quantidade de ônibus produzidos e o tamanho do mercado consumidor.
Em 2025, conforme dados da associação turca OSD, foram produzidos na Turquia 12.425 ônibus e aproximadamente 4.800 midibus, categoria intermediária entre os ônibus convencionais e os veículos menores.
A produção de minibuses chegou a 104.721 unidades. Entretanto, esse último segmento é formado predominantemente por veículos comerciais leves e derivados de vans. A Ford Otosan, por exemplo, respondeu por aproximadamente 104.473 unidades dessa classificação.
Por isso, somar todos esses veículos e apresentar o resultado como produção de ônibus urbanos ou rodoviários provocaria uma distorção importante.
No mesmo ano, o mercado interno turco registrou 1.843 ônibus e 2.830 midibus novos, totalizando 4.673 veículos dessas duas categorias.
O volume revela uma característica relevante: a indústria turca tem forte orientação exportadora, produzindo ônibus para um mercado internacional muito maior do que o número de unidades comercializadas internamente.
No Brasil, foram produzidos 28.191 chassis de ônibus e veículos integrais em 2025, de acordo com dados da Anfavea. Os emplacamentos somaram 23.954 unidades no levantamento da entidade.
É necessário considerar, entretanto, que as estatísticas brasileiras contabilizam predominantemente chassis e veículos integrais, enquanto a classificação turca de ônibus se refere à produção de veículos completos. Além disso, cada país possui critérios próprios para separar micro-ônibus, minibuses e midibus.
Assim, a comparação permite dimensionar os mercados, mas não estabelecer uma equivalência industrial exata entre todas as categorias.
O tamanho dos mercados em números
| Indicador de 2025 | Turquia | Brasil |
|---|---|---|
| Produção de ônibus | 12.425 veículos completos | 28.191 chassis e veículos integrais |
| Produção de midibus | 4.800 | Incluídos em diferentes classificações brasileiras |
| Produção de minibuses | 104.721, principalmente derivados de veículos leves | Metodologia diferente, sem equivalência direta |
| Mercado interno de ônibus | 1.843 | 23.954 emplacamentos de ônibus, no levantamento da Anfavea |
| Mercado interno de midibus | 2.830 |
Os números correspondem a categorias estatísticas diferentes e não devem ser interpretados como comparação direta de veículos equivalentes.
Outra informação ajuda a compreender a importância econômica desse setor.
Em 2025, as exportações turcas do conjunto formado por ônibus, midibus e minibuses atingiram aproximadamente US$ 3,33 bilhões, segundo dados da indústria exportadora do país. Esse valor engloba diferentes classes de veículos e não corresponde exclusivamente aos ônibus convencionais. Ainda assim, demonstra a relevância do transporte de passageiros para as vendas externas da indústria automotiva turca.Para as fabricantes, exportar não é uma atividade marginal. É uma parte importante do modelo de negócios.
A estrutura produtiva também impressiona.A capacidade anual de fabricação de ônibus das montadoras acompanhadas pela OSD era de 16.942 unidades em 2025, com utilização de aproximadamente 73,3%.Havia ainda capacidade instalada para 8.460 midibus.
O levantamento não inclui todas as empresas estabelecidas no país. Fabricantes como Bozankaya e BMC, por exemplo, não integram os dados de produção utilizados pela associação.Essa ressalva significa que os 12.425 ônibus representam a produção das montadoras abrangidas pela OSD, e não necessariamente a totalidade dos veículos fabricados em todas as instalações industriais turcas.
Monoblocos ou encarroçados? A diferença entre a indústria turca e a brasileira
Uma das características mais interessantes da fabricação de ônibus na Turquia está na maneira como os veículos são construídos.
Enquanto no Brasil predomina historicamente a fabricação separada de chassis e carrocerias, na Turquia é mais comum encontrar ônibus completos desenvolvidos e montados por uma mesma fabricante, muitos deles com estrutura integral ou monobloco.
Isso significa que empresas como Mercedes-Benz Türk, MAN Türkiye, Otokar, TEMSA e Karsan possuem instalações industriais preparadas para produzir o veículo completo, reunindo estrutura, carroceria, componentes mecânicos, sistemas eletrônicos e acabamento.
É necessário distinguir, entretanto, dois conceitos.
Um ônibus pode sair completo de uma única fábrica sem possuir necessariamente uma estrutura monobloco.
A designação monobloco se refere especificamente à construção estrutural do veículo, na qual carroceria e elementos de sustentação formam um conjunto integrado, sem depender de um chassi convencional independente.
Na Turquia, a Otokar oferece um exemplo bastante claro dessa tecnologia.Em sua fábrica de Sakarya, a empresa produz estruturas de ônibus de grande porte a partir da união de elementos inferiores, laterais e superiores, formando um conjunto integral.
O processo combina soldagem robotizada, fabricação de componentes e montagem estrutural.Uma reportagem técnica internacional publicada em maio de 2026 detalhou essa organização industrial, mostrando a preparação de compartimentos dos eixos, estruturas inferiores e laterais até a formação da carroceria integral.
A TEMSA também utiliza essa concepção em diferentes produtos. Modelos rodoviários como TS30 e TS35 possuem estrutura monobloco integral, conforme especificações técnicas divulgadas pela fabricante.Já a Karsan mantém em Bursa instalações próprias para fabricação das estruturas e carrocerias de veículos das famílias JEST, ATAK e ATA, que posteriormente seguem pelas etapas de pintura e montagem dos demais sistemas.
Mercedes-Benz Türk e MAN Türkiye também possuem linhas de produção de ônibus completos, com engenharia estrutural, montagem e integração de conjuntos.
A fabricação de veículos integrais está presente tanto em ônibus rodoviários quanto em modelos urbanos, inclusive elétricos.
No Brasil, chassis e carrocerias movimentam diferentes indústrias

O modelo brasileiro desenvolveu uma cadeia produtiva com características próprias.
Fabricantes de chassis, como Mercedes-Benz, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Scania, Volvo e Agrale, fornecem plataformas que podem receber carrocerias de empresas como Caio, Marcopolo, Mascarello, Busscar, Irizar e Comil.Essa divisão permite que empresas operadoras escolham diferentes combinações de chassis e carrocerias conforme as necessidades de cada sistema.
Um mesmo fabricante de chassis pode atender operadores que utilizam carrocerias de marcas distintas, enquanto uma encarroçadora pode produzir veículos montados sobre plataformas de diferentes fabricantes.A organização também cria oportunidades de especialização industrial e permite adaptações relacionadas ao comprimento, à capacidade, à acessibilidade e à aplicação dos ônibus.O Brasil já teve uma presença importante de monoblocos, especialmente com modelos Mercedes-Benz que marcaram diferentes gerações do transporte urbano e rodoviário.
Ao longo das décadas, entretanto, o sistema de chassis e carrocerias independentes consolidou sua predominância no mercado nacional.A própria indústria brasileira também desenvolveu experiências de veículos integrais, principalmente em aplicações rodoviárias e projetos específicos.A diferença não representa necessariamente uma superioridade técnica de um sistema sobre o outro.Cada arquitetura apresenta características próprias relacionadas à fabricação, ao peso, à manutenção, à flexibilidade de configuração, ao custo e à segurança estrutural.
A eletrificação torna essa diferença ainda mais interessante
Nos ônibus elétricos, a maneira como o veículo é construído pode ter consequências importantes.
A localização das baterias, a distribuição de peso entre os eixos, a resistência estrutural, o espaço interno e a disposição dos componentes elétricos precisam ser considerados desde as etapas de engenharia. Em ônibus integrais, o fabricante possui controle direto sobre o desenvolvimento e a montagem do conjunto.
No modelo de chassis e carrocerias independentes, a integração precisa considerar as especificações das diferentes empresas participantes.A arquitetura brasileira oferece possibilidades de adaptação e combinação de produtos, mas também exige coordenação técnica entre fabricantes de chassis, encarroçadoras e fornecedores dos sistemas elétricos.
É nesse ponto que a experiência da Eletra se torna particularmente relevante.
Eletra avança na fabricação própria de chassis elétricos e amplia possibilidades de parceria internacional

A fabricante brasileira desenvolveu uma especialização na integração de sistemas de propulsão elétrica a plataformas mecânicas, trabalhando em conjunto com fornecedores de componentes e encarroçadoras. Mais recentemente, passou a assumir a fabricação do chassi elétrico completo a partir de estruturas mecânicas fornecidas por parceiros industriais.
Na Lat.Bus 2026, a empresa apresentou sua nova geração de chassis inteligentes, com arquitetura eletroeletrônica própria.
Em novembro, o Diário do Transporte acompanhou em São Bernardo do Campo (SP) o novo processo industrial da Eletra, no qual as plataformas recebem os sistemas elétricos e eletrônicos antes de seguirem para o encarroçamento.A mudança reduziu de nove para quatro dias o tempo necessário à etapa de eletrificação dos articulados e de sete para três dias o dos ônibus convencionais analisados pela fabricante.
A redução corresponde a aproximadamente 55,6% no primeiro caso e 57,1% no segundo.
Esses períodos se referem à etapa de eletrificação e integração industrial, e não ao tempo total de fabricação do ônibus completo, que também depende da montagem da carroceria, dos acabamentos e dos testes.
Na ocasião, o diretor industrial Pedro Botejara explicou à reportagem como a reorganização das etapas permitiu reduzir movimentações e melhorar a produtividade.
A empresa também revelou estar com 232 chassis elétricos em produção pelo novo método para entregas até dezembro de 2026, sendo 122 articulados e 110 modelos padron.
A diretora-presidente Milena Braga Romano confirmou o programa de expansão da capacidade industrial, com investimentos superiores a R$ 270 milhões e a meta de alcançar até 2.800 ônibus elétricos por ano.
A estratégia envolve ampliação das instalações, desenvolvimento tecnológico e estudos para novos produtos, inclusive veículos destinados aos segmentos rodoviário e de fretamento.
Essa experiência permite que a indústria brasileira apresente uma alternativa ao modelo de fabricação integral predominante nas grandes montadoras turcas.
Para a Eletra, a cooperação internacional pode ocorrer tanto no fornecimento de sistemas elétricos e eletrônicos quanto na integração de tecnologias a veículos desenvolvidos por outras fabricantes.
Ao mesmo tempo, a experiência das empresas turcas com estruturas integrais oferece possibilidades de intercâmbio sobre engenharia, distribuição de peso, resistência estrutural, segurança e acomodação de baterias.
Mais do que uma disputa entre monoblocos e veículos encarroçados, o debate envolve diferentes formas de organizar a indústria e desenvolver soluções adequadas às necessidades dos operadores.
A Turquia demonstra a força de fabricantes especializadas na produção do ônibus completo. O Brasil apresenta uma cadeia industrial em que empresas de chassis, carrocerias e tecnologias de propulsão podem atuar de maneira complementar.
O raio X das fabricantes: quem produz os ônibus turcos
A Turquia possui um conjunto diversificado de fabricantes. Algumas são empresas nacionais independentes ou pertencentes a grupos locais. Outras têm acionistas estrangeiros ou são unidades industriais de marcas internacionais.
Entre as fabricantes participantes do levantamento da OSD, Mercedes-Benz Türk e MAN Türkiye responderam juntas por aproximadamente 68% dos ônibus produzidos em 2025.
Mas o cenário é mais amplo e inclui empresas particularmente ativas na eletrificação.
1. Otokar: de ônibus compactos e urbanos a articulados elétricos

A Otokar é uma das principais fabricantes turcas de veículos comerciais e especiais. Pertence ao grupo industrial Koç e possui instalações em Sakarya.
A empresa atua tanto no setor de ônibus quanto no de veículos de defesa, uma característica importante para compreender sua dimensão empresarial e capacidade de engenharia.
Em 2025, produziu aproximadamente 1.880 ônibus e 1.798 midibus, segundo a OSD.
A capacidade industrial de referência informada para o segmento de ônibus é de cerca de 3.000 unidades anuais.
O quadro de pessoal da companhia era de 3.659 trabalhadores ao encerramento de 2025, considerando suas diferentes atividades, e não exclusivamente a produção de ônibus.
Entre os principais modelos de transporte de passageiros aparecem os urbanos Kent, os compactos Centro, os modelos Sultan e Navigo, além de veículos para aplicações intermunicipais e rodoviárias, como Ulyso T e Territo.
A eletrificação ocupa espaço crescente nesse portfólio.
O e-Centro, com aproximadamente seis metros, é destinado a linhas de menor demanda, áreas centrais e serviços que exigem veículos compactos.
O e-Kent, oferecido em configurações urbanas convencionais e articuladas, destina-se ao transporte coletivo de maior capacidade.
Já o e-Territo amplia a aplicação da motorização elétrica para serviços suburbanos e intermunicipais, nos quais a operação envolve trajetos mais extensos e velocidades diferentes das encontradas nas linhas urbanas convencionais.
A Otokar utiliza processos industriais de fabricação de estruturas integrais e veículos completos.
Sua fábrica de Sakarya também passou a produzir, em setembro de 2026, ônibus urbanos Mercedes-Benz Conecto, resultado de uma cooperação industrial com a Daimler Buses e a Mercedes-Benz Türk.
O acordo demonstra como uma montadora turca pode fabricar produtos de outra marca para atender mercados externos, aproveitando sua estrutura industrial e capacidade de produção.
2. Karsan: ônibus elétricos pequenos, grandes e até autônomos

A Karsan é uma das fabricantes turcas que mais investiram na construção de uma identidade internacional associada à eletromobilidade.
Com sede industrial em Bursa, a empresa produz veículos de diferentes dimensões e desenvolve ônibus elétricos e sistemas de condução autônoma.
Em 2025, registrou produção de 272 ônibus, 261 midibus e 248 minibuses nas categorias da OSD.
Esses números representam as classificações utilizadas pela entidade e não o total de todas as atividades industriais da empresa.
A capacidade nominal informada para ônibus é de aproximadamente 1.890 unidades anuais. O parque industrial da Karsan possui estrutura flexível para diferentes veículos e aplicações.
O grupo informou média de 2.308 empregados em 2025.
Entre seus produtos mais conhecidos estão o e-JEST, micro-ônibus elétrico de aproximadamente seis metros, e o e-ATAK, de cerca de oito metros.
A família e-ATA atende aplicações de maior capacidade, com versões de aproximadamente 10, 12 e 18 metros.
Esses veículos são direcionados principalmente ao transporte coletivo urbano.
A Karsan também desenvolveu versões autônomas, com destaque para o Autonomous e-ATAK, voltado a operações com sistemas avançados de direção automatizada em ambientes e condições específicos.
Outra frente é o e-ATA Hydrogen, que utiliza célula de combustível alimentada por hidrogênio.
Trata-se de uma tecnologia elétrica de propulsão, mas diferente dos ônibus exclusivamente alimentados por baterias recarregadas na rede.
A fabricante possui instalações próprias para produção de estruturas e carrocerias, pintura e montagem, permitindo desenvolver o ônibus como um conjunto integrado.
A diversidade da Karsan evidencia como a transição energética envolve diferentes dimensões de veículos, sistemas de propulsão e tecnologias embarcadas.
3. TEMSA: fabricante de ônibus rodoviários, urbanos e elétricos

A TEMSA está entre as tradicionais fabricantes de ônibus da Turquia, com instalações industriais em Adana.
A companhia possui uma estrutura acionária que reúne o grupo turco Sabancı Holding e o grupo internacional PPF.
Seu parque industrial ocupa aproximadamente 510 mil metros quadrados, e o quadro de pessoal informado pela empresa é de cerca de 1.900 colaboradores, considerando suas operações.
A fabricante informa capacidade, em regime de um turno, para aproximadamente 2.000 ônibus, 2.000 midibus e 6.000 veículos comerciais leves por ano.
A OSD utiliza referência de capacidade de aproximadamente 2.500 ônibus anuais, diferença relacionada aos critérios de levantamento e operação industrial.
Em 2025, a TEMSA produziu cerca de 1.307 ônibus e 1.015 midibus.
A gama tradicional reúne modelos como Maraton, Safir e Prestij, destinados a serviços rodoviários, turismo, fretamento e transporte de menor capacidade.
No segmento urbano, a empresa desenvolveu a família Avenue.
A linha elétrica inclui o MD9 electriCITY, de aproximadamente 9,5 metros, indicado para operações urbanas, e o Avenue Electron, ônibus elétrico de aproximadamente 12 metros.
Outro produto importante é o LD SB E, desenvolvido para transporte intermunicipal, escolar e aplicações em trajetos mais longos.
A TEMSA também trabalha com desenvolvimento e integração de baterias, além da produção de veículos completos.
A estrutura monobloco está presente em diferentes produtos da fabricante, inclusive em veículos rodoviários como TS30 e TS35.
Para o Brasil, a experiência dessa empresa chama atenção pela tentativa de levar a eletrificação para além dos ônibus urbanos convencionais.
4. Anadolu Isuzu: parceria turco-japonesa e especialização em veículos médios

A Anadolu Isuzu representa uma combinação entre a indústria turca e a experiência japonesa da Isuzu.
A empresa possui instalações em Çayırova, na região de Kocaeli, e fabrica ônibus, midibus e caminhões.
Em 2025, produziu 481 ônibus e 1.726 midibus nas categorias acompanhadas pela OSD.
A capacidade nominal do segmento de ônibus é de aproximadamente 1.152 veículos anuais, além da estrutura dedicada aos midibus e demais veículos comerciais.
O quadro de pessoal divulgado para 2025 era de aproximadamente 2.968 trabalhadores, considerando o conjunto das atividades e operações empresariais da companhia.
Entre os modelos destinados ao transporte de passageiros estão Novo, NovoCiti Life, Grand Toro, Citiport e Kendo, que atendem desde serviços urbanos compactos até aplicações intermunicipais e de fretamento.
Na eletrificação, um dos produtos de destaque é o NovoCiti VOLT, ônibus elétrico de aproximadamente oito metros, desenvolvido para operações urbanas.
Outro modelo é o CitiVOLT, de aproximadamente 12 metros, destinado a aplicações de maior capacidade.
A Anadolu Isuzu mostra a importância de combinar veículos compactos, especialmente úteis em determinadas cidades, com ônibus de dimensões convencionais.
Também demonstra o papel das associações internacionais no desenvolvimento de produtos e na ampliação de mercados.
5. Bozankaya: ônibus elétricos, trólebus e veículos sobre trilhos

A Bozankaya ocupa uma posição particular na indústria turca.
A empresa desenvolve não apenas ônibus elétricos, mas também bondes modernos, sistemas de transporte sobre trilhos, trólebus e veículos de grande capacidade.
Com produção na região de Ankara, possui uma estrutura industrial voltada a diferentes modalidades de transporte coletivo.
As referências institucionais e empresariais disponíveis situam seu quadro de pessoal na faixa de 1.400 colaboradores, incluindo profissionais especializados em pesquisa e desenvolvimento. Esse número é uma referência de dimensão, e não um indicador de emprego exclusivo na produção de ônibus em 2025.
Entre os ônibus elétricos divulgados pela fabricante estão versões de aproximadamente 10, 12 e 18 metros, além de projetos de grande capacidade que chegam à faixa dos 25 metros.
Esses veículos se destinam a aplicações urbanas, com diferentes capacidades de transporte conforme a configuração.
A Bozankaya também trabalha com trólebus, cuja alimentação elétrica pode utilizar uma infraestrutura de rede aérea.
É uma diferença relevante: ônibus elétricos a bateria, trólebus e veículos com recarga em movimento pertencem ao universo da eletromobilidade, mas possuem arquiteturas operacionais e necessidades de infraestrutura distintas.
A fabricante não apresenta, nas fontes consultadas, um indicador de capacidade anual exclusiva de ônibus que possa ser comparado diretamente às capacidades das montadoras da OSD.
Para a Eletra, que possui experiência brasileira em diferentes sistemas de tração e também em tecnologias de alimentação elétrica, a atuação da Bozankaya representa um possível campo de intercâmbio técnico, especialmente na integração entre veículos, redes de energia e sistemas de transporte de maior capacidade.
6. BMC: fabricante de ônibus e veículos comerciais com presença histórica

A BMC é uma empresa de origem turca, fundada na década de 1960, que produz ônibus, caminhões e veículos para outras aplicações.
Sua estrutura industrial e tecnológica inclui atividades em diferentes regiões do país.
A fabricante apresenta referências de mais de 3.500 trabalhadores em suas operações, número que abrange atividades além dos ônibus.
Há informações institucionais sobre capacidade industrial de aproximadamente 12.500 veículos por ano, mas o indicador se refere ao conjunto de produtos da empresa e não deve ser apresentado como capacidade exclusiva de fabricação de ônibus.
Na linha de transporte coletivo, estão modelos como o Procity, voltado ao transporte urbano convencional, e o Neocity, de menor dimensão.
A fabricante trabalha com diferentes motorizações, incluindo diesel, gás natural e eletricidade.
Entre os produtos e projetos elétricos divulgados estão o Neocity Electric, na faixa de 8,5 metros, e o Procity Electric, de aproximadamente 12 metros.
A disponibilidade comercial e o estágio de produção desses modelos devem ser considerados conforme o mercado e a versão.
O conjunto de produtos mostra que a BMC participa da transição energética sem abandonar sua atuação nos veículos convencionais e em outras formas de propulsão.
7. Güleryüz: uma indústria menor, mas com participação no transporte urbano

A Güleryüz é uma fabricante de origem turca instalada na região de Bursa.
Entre os produtos mais conhecidos estão ônibus urbanos da família Cobra, além de veículos destinados ao transporte intermunicipal e a aplicações específicas, como modelos de dois andares para turismo e passeios.
O site institucional da empresa apresenta referências a aproximadamente 250 empregados e capacidade para 600 ônibus anuais.
Esses números devem ser interpretados como referências divulgadas pela fabricante, pois não foi possível estabelecer uma data-base recente que permita compará-los diretamente aos balanços de 2025 das grandes montadoras.
A Güleryüz também desenvolve iniciativas relacionadas à mobilidade elétrica, mas a documentação consultada não permite apontar, com o mesmo nível de confirmação das demais empresas, uma família atual de ônibus elétricos produzidos em série.
Sua presença é importante para mostrar que o setor turco não se limita às montadoras de maior escala.
8. Mercedes-Benz Türk: uma fabricante alemã com produção profundamente estabelecida na Turquia

A Mercedes-Benz Türk é uma das maiores fabricantes de ônibus instaladas no país.
Embora pertença a um grupo de origem alemã, possui longa história industrial na Turquia e uma produção destinada a diferentes mercados internacionais.
A fábrica de Hoşdere, em Istambul, é uma das principais instalações de ônibus da marca.
Em 2025, produziu aproximadamente 4.460 ônibus, segundo dados da OSD, volume próximo da capacidade nominal anual de referência de 4.500 unidades.
A operação turca possui milhares de empregados no conjunto de suas atividades, incluindo operações relacionadas a caminhões, engenharia e outras estruturas.
Entre os produtos tradicionalmente ligados à produção turca estão ônibus rodoviários como Tourismo e Travego, além de diferentes veículos destinados aos mercados internacionais.
A indústria turca participa também da produção de modelos da marca Setra e da cadeia de suprimentos de ônibus do grupo.
Em setembro de 2026, a produção de ônibus urbanos Conecto passou a envolver uma cooperação industrial com a Otokar.
A nova produção em Sakarya utiliza componentes principais fornecidos pela Daimler Buses, demonstrando a integração entre fabricantes instaladas no país.
A Mercedes-Benz possui uma família global de ônibus elétricos, com destaque para o eCitaro.
Entretanto, a existência desse modelo no catálogo internacional da marca não significa que sua fabricação ocorra necessariamente na Turquia.
A unidade industrial turca também avança em investimentos e preparação tecnológica relacionados à eletrificação.
O exemplo da Mercedes-Benz Türk revela uma característica fundamental da indústria local: empresas internacionais utilizam a Turquia como importante base de produção, engenharia e exportação.
9. MAN Türkiye: ônibus rodoviários, urbanos e produção de elétricos

A MAN, outra empresa de origem alemã, mantém uma de suas principais estruturas industriais de ônibus na região de Ankara.
A MAN Türkiye produziu aproximadamente 4.025 ônibus em 2025, conforme o levantamento da OSD.
A capacidade nominal anual apresentada pela entidade é de cerca de 3.900 unidades.
Como esses indicadores dependem de turnos, calendários e condições operacionais, a produção efetiva pode superar uma capacidade de referência.
O quadro de pessoal da operação turca é de aproximadamente 4.400 trabalhadores, incluindo atividades industriais e de desenvolvimento.
Entre os modelos associados à produção e às famílias comerciais do grupo estão MAN Lion’s Coach, Lion’s Intercity e diferentes ônibus NEOPLAN, como Tourliner, Skyliner e Cityliner.
A novidade importante para a eletrificação é a produção de ônibus urbanos da família MAN Lion’s City E em Ankara, iniciada em 2026.
A gama elétrica da MAN possui diferentes comprimentos e configurações, destinados a linhas urbanas e sistemas de maior demanda.
O ingresso desses veículos na estrutura produtiva turca amplia a participação do país na fabricação de ônibus elétricos de marcas internacionais.
A empresa também possui um centro de desenvolvimento de produtos em Ankara, com estrutura de engenharia, laboratórios e pista de testes.
Isso demonstra que a indústria instalada na Turquia não se restringe à montagem de veículos.
Também participa do desenvolvimento de soluções e de tecnologias aplicadas aos ônibus destinados a diferentes países.
Quais são os ônibus elétricos encontrados no portfólio da indústria instalada na Turquia?
A diversidade de modelos permite observar que a eletromobilidade turca não está concentrada em uma única categoria de veículo.
| Fabricante | Modelos ou famílias elétricas | Principal aplicação |
|---|---|---|
| Otokar | e-Centro, e-Kent, e-Kent articulado, e-Territo | Urbano compacto, convencional, articulado e intermunicipal |
| Karsan | e-JEST, e-ATAK, e-ATA e versões autônomas | Micro-ônibus, midibus e ônibus urbanos |
| TEMSA | MD9 electriCITY, Avenue Electron, LD SB E | Urbano, serviços de menor porte e intermunicipal |
| Anadolu Isuzu | NovoCiti VOLT, CitiVOLT | Urbano compacto e convencional |
| Bozankaya | Ônibus elétricos de 10, 12 e 18 metros e projetos de maior capacidade | Urbano e sistemas de alta capacidade |
| BMC | Neocity Electric, Procity Electric | Urbano compacto e convencional |
| HABAŞ | ComfortCity-e | Urbano convencional |
| AKIA | Ultra LF12EV | Urbano convencional |
| MAN Türkiye | Família Lion’s City E | Urbano elétrico, com produção turca iniciada em 2026 |
O quadro reúne modelos apresentados comercialmente, linhas industriais e desenvolvimentos anunciados até novembro de 2026.
A fase de comercialização, a disponibilidade e o local exato de produção podem variar conforme o modelo.
Há ainda tecnologias que merecem atenção específica.
A HABAŞ, grupo industrial turco também presente na fabricação de veículos, apresentou o ComfortCity-e, ônibus elétrico de aproximadamente 12 metros, e o ComfortCity-H2, equipado com célula de combustível alimentada por hidrogênio.
A AKIA também participa do mercado de ônibus urbanos e foi associada, em 2026, ao fornecimento de 50 ônibus elétricos de aproximadamente 12 metros para Istambul, com entregas previstas a partir de 2027.
Esses movimentos indicam uma ampliação do número de empresas interessadas no transporte coletivo de emissão local zero.
É importante distinguir veículos que já possuem produção comercial consolidada, modelos recém-lançados e projetos em desenvolvimento.
A apresentação de um ônibus em uma exposição internacional não significa, necessariamente, que ele já esteja circulando em grandes frotas.
O papel das marcas estrangeiras: Alemanha, Japão, Itália e China
A indústria turca se desenvolveu a partir de relações internacionais que envolvem investimentos, tecnologia, fabricação local e exportação.
Mercedes-Benz e MAN são exemplos particularmente expressivos, pois transformaram instalações turcas em unidades industriais relevantes para suas operações mundiais.
A Anadolu Isuzu combina participação turca e japonesa.
A TEMSA, por sua vez, reúne capital turco e internacional.
Outra marca presente no mercado é a italiana Iveco Bus, que atua no fornecimento de veículos para diferentes aplicações.
Em 2026, a empresa anunciou fornecimentos de ônibus articulados Streetway para a Turquia, além de manter presença em segmentos como o rodoviário e o intermunicipal.
Há também uma cadeia de transformação de veículos comerciais leves, incluindo chassis Iveco Daily adaptados por empresas locais para transporte de passageiros.
Isso demonstra como a participação de uma marca estrangeira pode ocorrer de diversas maneiras: importação, montagem, fabricação completa, transformação de chassis ou associação com fornecedores locais.
A presença internacional também é observada na cadeia de componentes.
Motores, transmissões, baterias, sistemas eletrônicos, equipamentos de segurança e tecnologias de recarga podem envolver empresas de diferentes países, mesmo quando o ônibus completo é produzido na Turquia.
Essa característica aproxima a indústria turca de uma realidade presente em todo o setor automotivo: a fabricação de um veículo depende de uma rede internacional de fornecedores.
E as fabricantes chinesas?
A China ocupa uma posição importante na indústria mundial de ônibus elétricos, com empresas como BYD, Yutong, King Long e Higer atuando em mercados internacionais.
Na Turquia, entretanto, é necessário diferenciar três situações: a presença comercial de fabricantes de ônibus completos, a participação de fornecedores chineses de componentes e os investimentos de empresas chinesas em outros segmentos automotivos.
Na Busworld Türkiye 2026, realizada em Istambul, houve participação de fornecedores internacionais de componentes e tecnologias, incluindo empresas chinesas ligadas a câmeras, eletrônica embarcada, sistemas de monitoramento e equipamentos para veículos.
Entre os nomes presentes nos registros do evento estão companhias como Stonkam e outros fornecedores de equipamentos eletrônicos.
Isso não equivale a afirmar que essas empresas produzam ônibus completos na Turquia.
A BYD, conhecida internacionalmente por veículos elétricos, também anunciou investimentos na indústria automotiva turca, especialmente no segmento de automóveis.
Esse projeto não pode ser confundido com a existência de uma fábrica turca de ônibus elétricos da BYD.
A presença chinesa deve ser analisada também pelo fornecimento de baterias, componentes eletrônicos e tecnologias que fazem parte da cadeia global de eletromobilidade.
O avanço dessa indústria representa, para fabricantes de diferentes países, novas possibilidades de aquisição de componentes, cooperação e competição comercial.
A relevância das empresas chinesas nesse mercado é um dado econômico e industrial, e não uma característica que deva ser tratada com desdém ou como ameaça por definição.
Em um setor que depende de tecnologia, escala industrial e investimentos, a disputa comercial pode coexistir com relações de fornecimento e desenvolvimento conjunto.
A eletrificação na Turquia vai além das exposições: cidades começam a ampliar encomendas

A transição energética também alcança os sistemas de transporte público turcos.
Istambul, maior centro urbano do país, possui uma rede de transporte coletivo que combina ônibus, transporte sobre trilhos, serviços marítimos e diferentes modalidades rodoviárias.
Em 2026, a autoridade de transportes IETT promoveu processo de aquisição de ônibus elétricos, com contratação de 50 veículos de aproximadamente 12 metros e entregas projetadas para 2027.
Em outras cidades, como Gaziantep, projetos de mobilidade sustentável e renovação de frota envolvem recursos internacionais, melhorias de infraestrutura e alternativas de transporte de menor emissão.
Essas iniciativas ainda precisam ser avaliadas dentro do conjunto da frota existente e do ritmo de substituição dos veículos convencionais.
Mas revelam que a eletromobilidade está deixando de ser apenas uma demonstração tecnológica para integrar decisões de investimento e operação.
Para uma fabricante brasileira interessada em atuar no país, isso significa acompanhar licitações, exigências técnicas, modelos de financiamento e necessidades de infraestrutura.
Em um dos procedimentos de aquisição de ônibus elétricos de Istambul, por exemplo, foi prevista vantagem de avaliação de 15% para ofertas enquadradas nas condições de produção doméstica.
O dispositivo é específico daquele procedimento e não representa, por si só, uma regra geral para todo o mercado turco.
Mesmo assim, ajuda a mostrar que a participação de empresas estrangeiras pode depender de estratégias que envolvam conteúdo local, cooperação com fabricantes instalados no país e atendimento às condições de contratação.
O que a indústria turca pode ensinar à Eletra?

A experiência turca permite observar diferentes caminhos de crescimento industrial.
Um deles é a capacidade de desenvolver produtos para exportação.
As empresas instaladas na Turquia aprenderam a atender operadores de países distintos, com exigências de homologação, padrões de conforto, configurações veiculares e condições comerciais variadas.
O país possui ainda fábricas que trabalham com grandes volumes e cadeias internacionais de fornecimento.
Outro aprendizado envolve a diversificação.
A mesma estrutura industrial pode reunir ônibus rodoviários, urbanos convencionais, modelos compactos, articulados, sistemas elétricos e veículos de diferentes aplicações.
Fabricantes como Karsan e Otokar mostram a importância de desenvolver produtos para necessidades que vão além dos corredores urbanos tradicionais.
A TEMSA oferece exemplos de eletrificação em aplicações intermunicipais e outras modalidades de transporte.
Já a Bozankaya evidencia o potencial de integração entre ônibus elétricos, trólebus e transporte sobre trilhos.
Essas experiências podem contribuir para discussões técnicas envolvendo autonomia, escolha de baterias, padronização, produção em escala, manutenção e adaptação de veículos a diferentes países.
A forte presença de ônibus integrais e monoblocos também oferece possibilidades de intercâmbio industrial.
A Eletra pode observar processos de construção estrutural, instalação de componentes e integração entre carroceria e sistemas de tração.
Em contrapartida, a organização brasileira de chassis e encarroçadoras permite trabalhar com maior diversidade de combinações industriais e adaptar veículos a diferentes necessidades dos operadores.
O desafio é entender quais soluções fazem sentido para a operação brasileira, considerando custos, infraestrutura, topografia, clima e características dos sistemas de transporte.
O que a Eletra pode ensinar à indústria turca?

A fabricante brasileira também possui experiências relevantes para apresentar.
A Eletra nasceu em um grupo empresarial com mais de 125 anos de história nos transportes e que também possui experiência na operação de ônibus.
Essa origem permite uma aproximação particular entre o desenvolvimento tecnológico e a rotina do transporte coletivo.
Um ônibus precisa atender às condições dos passageiros e dos trabalhadores, mas também aos desafios enfrentados diariamente pelas empresas operadoras.
Consumo de energia, disponibilidade da frota, manutenção, percurso das linhas, aclives, declives, temperatura, quantidade de passageiros e capacidade de recarga não são questões isoladas.
Elas se relacionam diretamente com a qualidade do serviço e o custo de operação.
A Eletra possui experiência na integração de sistemas de tração elétrica, na combinação de componentes e no desenvolvimento de soluções adaptadas a diferentes aplicações.
Um dos exemplos recentes são os chamados chassis inteligentes, apresentados durante a Lat.Bus 2026, em cobertura realizada pelo Diário do Transporte.
A proposta envolve o uso de tecnologia embarcada e estratégias de gerenciamento da tração elétrica para adaptar o desempenho e o consumo de energia às condições de operação dos veículos.
Inclui a consideração de fatores como características dos trajetos, esforço exigido do conjunto de tração, velocidade e carga transportada.
Trata-se de um campo no qual a eletrificação deixa de ser apenas a substituição do motor a diesel por outro elétrico.
A eficiência passa a depender da integração entre componentes, software, operação e infraestrutura.
A empresa também possui experiência em tecnologias de recarga em movimento, conhecidas pela sigla IMC.
Nessas aplicações, os veículos podem receber energia da rede aérea e continuar circulando com baterias em trechos sem alimentação externa.
Essa flexibilidade pode oferecer alternativas para sistemas que já possuem parte da infraestrutura elétrica instalada ou que pretendem ampliar gradualmente sua rede de transportes de emissão local zero.
A diversidade brasileira como laboratório de soluções
O Brasil oferece condições particularmente variadas para o desenvolvimento de ônibus.
Há sistemas de grande capacidade em regiões metropolitanas, redes convencionais com linhas longas, cidades de relevo acidentado, localidades de altas temperaturas e regiões que enfrentam frio intenso.
Também existem diferenças significativas de renda, capacidade de investimento e condições de infraestrutura.
Uma solução adequada a uma linha plana e curta pode não apresentar o mesmo desempenho em um percurso com subidas, lotação elevada e longos períodos de operação.
A experiência da Eletra em adaptar tecnologias a realidades diferentes é, portanto, um aspecto que pode despertar interesse em outros mercados.
Na Turquia, essa discussão encontra situações igualmente variadas.
Istambul possui condições metropolitanas complexas e elevada demanda de transporte.
Antalya apresenta características de cidade turística e clima mediterrâneo.
Regiões do interior da Anatólia enfrentam condições continentais, enquanto outras localidades registram inverno rigoroso, neve e diferenças expressivas de temperatura.
A adaptação de baterias, sistemas de climatização, gerenciamento térmico e estratégias de recarga pode se tornar uma área de troca de conhecimentos entre os fabricantes.
Os exemplos de São Paulo, São José dos Campos e Belém na COP31
A experiência brasileira que a Eletra levará à conferência não se resume aos ônibus em si.
Os casos de São Paulo (SP), São José dos Campos (SP) e Belém (PA) representam alternativas de implantação e financiamento que possuem características distintas.
Na capital paulista, a eletrificação avança dentro de um sistema de transporte coletivo de grande porte, com operadores privados, participação do poder público e mecanismos específicos de financiamento.
A cidade reúne experiências com veículos convencionais, superarticulados e diferentes configurações operacionais.
Em São José dos Campos, o programa de implantação de 400 ônibus elétricos conta com estrutura de financiamento que envolve recursos do BNDES e um modelo de disponibilização dos veículos para operação, permitindo discutir a separação entre a aquisição dos bens e a prestação do serviço.
O financiamento aprovado pelo banco alcança aproximadamente R$ 879,4 milhões dentro de um programa de investimentos mais amplo.
O projeto também envolve infraestrutura de recarga, elemento essencial para a implantação de uma frota elétrica em grande escala.
Belém, que sediou a COP30 em 2025, também representa uma experiência relevante.
O clima quente e úmido da região amazônica, as características da mobilidade local e as necessidades de infraestrutura permitem discutir como a eletromobilidade pode ser implantada em condições ambientais e urbanas diferentes das encontradas em centros industriais mais tradicionais.
Esses exemplos mostram que a eletrificação não deve ser analisada exclusivamente a partir do preço de compra do ônibus.
É preciso considerar o custo total de operação, a disponibilidade dos veículos, a infraestrutura energética, a durabilidade dos componentes e a capacidade de financiamento.
Também é fundamental observar a realidade dos passageiros, que precisam de transportes confiáveis, acessíveis e regulares.
Liderança feminina e indústria: Milena Braga Romano e Ieda Oliveira levam outra dimensão ao debate

A presença da Eletra na COP31 também chama atenção por sua estrutura de liderança.
Milena Braga Romano ocupa a presidência da fabricante brasileira, enquanto Ieda Oliveira atua na direção comercial.
Em um setor industrial historicamente marcado pela predominância masculina em funções técnicas e executivas, a atuação das duas profissionais amplia a visibilidade de mulheres em posições estratégicas relacionadas à tecnologia e à mobilidade.
A relevância dessa participação vai além da representatividade.
A presidência de uma fabricante de ônibus elétricos envolve decisões de investimentos, desenvolvimento tecnológico, planejamento industrial e relacionamento com operadores e governos.
A área comercial, por sua vez, precisa compreender as necessidades dos clientes, as alternativas de financiamento e as particularidades de cada projeto.
Na eletromobilidade, essas funções se conectam diretamente à viabilidade dos empreendimentos.
Um veículo tecnologicamente avançado precisa ser economicamente acessível, operacionalmente adequado e acompanhado das condições necessárias para seu funcionamento.
A presença de Milena e Ieda nesse debate internacional também oferece a oportunidade de apresentar uma experiência brasileira em que indústria, engenharia, operação e comercialização estão integradas.
Onde estão as oportunidades da Turquia para a indústria brasileira de ônibus elétricos?
O mercado turco apresenta oportunidades, mas elas precisam ser analisadas considerando as características da indústria local.
A produção é relevante, a concorrência é estruturada e há empresas com décadas de experiência exportadora.
Isso significa que a simples intenção de vender um ônibus brasileiro na Turquia não é suficiente para garantir espaço comercial.
As possibilidades incluem diferentes modalidades de cooperação.
Desenvolvimento conjunto e transferência de conhecimentos
Fabricantes brasileiras e turcas podem identificar interesses comuns em eletrônica de potência, gerenciamento de energia, integração de sistemas e adaptação de veículos.
A Eletra possui experiência com soluções flexíveis de tração elétrica e integração de diferentes componentes.
Fabricantes turcas, por sua vez, contam com estruturas de produção de carrocerias completas, redes internacionais e experiência em mercados europeus.
Uma cooperação desse tipo poderia envolver engenharia, fornecimento de sistemas e desenvolvimento de veículos para aplicações específicas.
As arquiteturas industriais distintas também oferecem possibilidades interessantes.
O conhecimento brasileiro em integração de chassis elétricos pode ser combinado a experiências turcas de fabricação de estruturas integrais, desde que existam compatibilidade técnica e condições comerciais.
Trata-se de oportunidades potenciais, e não de negociações ou acordos anunciados entre a Eletra e as fabricantes citadas.
Componentes e tecnologias brasileiras
A internacionalização de uma fabricante não precisa ocorrer apenas por meio da exportação do ônibus completo.
Sistemas de tração, controle eletrônico, gerenciamento energético, softwares e outros componentes podem representar alternativas comerciais.
Esse caminho dependeria da compatibilidade técnica, das condições de certificação, da estrutura de fornecimento e da competitividade dos produtos.
A integração de sistemas desenvolvida no Brasil pode ser uma competência relevante nesse tipo de relação.
Projetos específicos de transporte
Outra possibilidade seria a participação em projetos que exigem soluções particulares.
Há operações turísticas, linhas urbanas de menor demanda, serviços com grandes variações de lotação e trajetos que impõem exigências específicas de autonomia e desempenho.
A experiência brasileira com veículos de diferentes portes e configurações pode contribuir para a análise dessas aplicações.
Entretanto, cada projeto exige estudo técnico e econômico próprio.
Financiamento e estruturação dos investimentos
Um campo especialmente relevante é o desenvolvimento de modelos de financiamento.
A compra de ônibus elétricos representa apenas uma parte dos investimentos necessários para transformar um sistema.
Garagens, carregadores, conexão com a rede elétrica, adequação das instalações, treinamento, manutenção e gestão energética também exigem recursos.
A Eletra vem apresentando experiências brasileiras que envolvem diferentes modelos de implantação e estruturação financeira.
Essas soluções podem contribuir para os debates internacionais, inclusive quando não resultam diretamente na venda de veículos.
Acesso a mercados internacionais
A Turquia possui conexões industriais e comerciais com a Europa e outras regiões.
Parcerias com fabricantes locais podem, em determinadas condições, contribuir para ampliar o conhecimento sobre exigências técnicas, cadeias de fornecedores e canais comerciais.
Isso não significa acesso automático aos mercados europeus.
Homologações, normas técnicas, regras de origem, exigências contratuais e legislação comercial precisam ser atendidas conforme cada país e produto.
Para uma indústria brasileira interessada em crescer internacionalmente, compreender essas exigências faz parte do processo.
Uma questão fundamental: a infraestrutura precisa avançar junto com os ônibus
O debate sobre a eletromobilidade frequentemente destaca a autonomia, a potência e a quantidade de veículos adquiridos.
Mas há um aspecto decisivo para a operação: a infraestrutura.
Uma frota elétrica depende do fornecimento de energia na potência necessária, de equipamentos de recarga adequados, de sistemas de gerenciamento e de instalações capazes de atender os horários operacionais.
Isso exige planejamento conjunto entre operadores, fabricantes de veículos, distribuidoras de energia, fornecedores de carregadores, instituições financeiras e poder público.
A dificuldade se torna ainda maior quando são implantados muitos ônibus em curto intervalo de tempo.
O projeto precisa considerar a demanda de energia, as condições da rede, os horários de recarga e os riscos de indisponibilidade.
Nesse cenário, empresas que dominam a integração entre veículo e operação podem oferecer contribuições importantes.
Também existe espaço para desenvolver modelos de negócio envolvendo fornecedores de energia, prestadores de serviços de recarga e empresas responsáveis pelo gerenciamento da infraestrutura.
O investimento em ônibus e o investimento nos equipamentos necessários ao funcionamento da frota precisam fazer parte de uma mesma estratégia.
É uma discussão que interessa tanto ao Brasil quanto à Turquia.
Uma curiosidade turca: os minibuses têm importância industrial muito maior do que os números de ônibus convencionais sugerem

Há uma característica da mobilidade turca que merece atenção especial.
O país possui tradição de utilização de veículos menores no transporte de passageiros, incluindo minibuses e modalidades de transporte compartilhado, como os chamados dolmuş.
Esses serviços fazem parte da história da mobilidade urbana e regional.
O sistema utiliza veículos de menor capacidade em diferentes tipos de deslocamento.
É uma realidade que ajuda a explicar a relevância industrial dos minibuses, embora a produção dessa categoria também atenda outros usos comerciais e mercados de exportação.
Os números de 2025 deixam clara essa diferença.
Enquanto a fabricação de ônibus convencionais ficou em 12.425 unidades, a produção de minibuses ultrapassou 104 mil.
A maior parte desse volume veio de veículos leves, principalmente associados à produção da Ford Otosan.
A distinção é importante para quem acompanha estatísticas internacionais do setor.
Um mercado que produz grande quantidade de minibuses não necessariamente possui o mesmo número de ônibus urbanos de grande capacidade.
Também não significa que todos esses veículos sejam destinados ao transporte coletivo regular.
Essa diversidade industrial, contudo, abre espaço para discussões sobre a eletrificação de diferentes categorias.
Cidades que utilizam veículos menores precisam de soluções energéticas, financeiras e operacionais distintas das exigidas por grandes corredores de ônibus articulados.
A experiência de fabricantes turcas como Karsan e Anadolu Isuzu demonstra a existência de produtos especialmente desenvolvidos para esse segmento.
A indústria brasileira pode aprender e também ensinar
A presença da Eletra na COP31 ocorre em um momento no qual a indústria brasileira procura ampliar sua participação na transição energética.
O país possui fabricantes tradicionais de chassis e carrocerias, fornecedores de componentes, empresas de tecnologia e operadores com experiências desenvolvidas ao longo de décadas.
Também enfrenta dificuldades relacionadas ao financiamento, à infraestrutura, ao custo dos veículos e à velocidade de implantação dos projetos.
A experiência turca demonstra a importância de construir uma indústria capaz de exportar, adaptar produtos e estabelecer parcerias internacionais.
A experiência brasileira, por sua vez, permite contribuir com conhecimentos sobre operação em grandes sistemas urbanos, integração de tecnologias e desenvolvimento de soluções para realidades econômicas e climáticas diversas.
O contraste entre a fabricação de ônibus completos na Turquia e a tradição brasileira de chassis e encarroçadoras independentes torna esse intercâmbio ainda mais interessante.
São modelos industriais que desenvolveram competências próprias e podem encontrar pontos de complementaridade.
A Eletra representa uma dessas possibilidades ao combinar experiência em operação de transportes, integração de tecnologias elétricas, desenvolvimento de sistemas eletrônicos e ampliação da fabricação nacional de chassis.
Nesse intercâmbio, não se trata de determinar qual país possui a melhor tecnologia ou o melhor modelo de negócios.
A eletrificação de ônibus apresenta necessidades diferentes conforme o sistema de transporte.
Uma grande metrópole, uma cidade turística, um município de menor porte e um serviço intermunicipal podem exigir soluções completamente distintas.
Por isso, fabricantes que compreendem a operação e conseguem adaptar seus produtos podem contribuir de maneira relevante para a transição energética.
A COP31 cria um ambiente propício para que essas experiências sejam apresentadas e debatidas.
Diário do Transporte na COP31: cobertura especializada para compreender os transportes do futuro
A participação do Diário do Transporte na conferência, a convite da Eletra Industrial, representa a oportunidade de acompanhar presencialmente discussões internacionais que terão consequências para o transporte público brasileiro.
Entre 10 e 14 de novembro, em Antalya, a cobertura buscará relacionar os debates sobre mudanças climáticas aos desafios concretos enfrentados por passageiros, operadores, fabricantes, trabalhadores e gestores públicos.
A atenção estará voltada não apenas aos lançamentos tecnológicos, mas também aos resultados operacionais, às condições econômicas, aos modelos de financiamento e à infraestrutura necessária para transformar os projetos em serviços de transporte.
A indústria turca oferece um ponto de partida especialmente interessante.
De um lado, há fábricas que produzem milhares de ônibus destinados ao mercado internacional. De outro, fabricantes que desenvolvem veículos compactos, articulados, elétricos, autônomos e movidos por diferentes fontes de energia.
Há também duas experiências industriais que merecem ser observadas: a produção integrada de ônibus completos, bastante presente entre as montadoras turcas, e o modelo brasileiro de chassis, carrocerias e sistemas de propulsão desenvolvidos por empresas especializadas.
O Brasil chega a esse encontro com suas próprias experiências e com uma indústria que tem conhecimento acumulado na operação de transportes em condições muito diversas.
A Eletra levará à COP31 exemplos de soluções brasileiras, com destaque para os projetos de São Paulo, São José dos Campos e Belém.
A presença da fabricante e do jornal especializado permite ampliar a circulação de informações, apresentar experiências nacionais e acompanhar as novidades que poderão influenciar os transportes brasileiros nos próximos anos.
A sustentabilidade depende da redução dos impactos ambientais, mas também de sistemas viáveis, seguros, acessíveis e capazes de transportar pessoas com qualidade.
É nessa combinação de tecnologia, indústria e serviço público que estará uma das principais discussões sobre o futuro da mobilidade.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


