Senatran muda regras de certificação de veículos antigos: saiba como comprar e registrar ônibus históricos e conheça quem preserva a memória dos transportes no Brasil

Kaio Castro (in memorian), precursor de muitos eventos de história de mobildiade

Decisões federais reacendem a atenção sobre documentação, originalidade e segurança; museus, empresas, colecionadores e eventos como VVR, BBF e Exponi mantêm viva a história de veículos que marcaram gerações

ADAMO BAZANI

Preservar um ônibus antigo é conservar muito mais que uma carroceria, um motor ou a pintura de uma empresa que marcou época. Cada veículo carrega histórias de cidades, bairros, trabalhadores e passageiros, além de representar transformações na indústria e na mobilidade brasileira. Museus mantidos por empresas de transporte, como o Grupo ABC, e iniciativas de empresários e colecionadores, como os responsáveis pela Transportadora Tamboré, Turismo Santa Rita e por acervos particulares, mostram como veículos que poderiam terminar abandonados ou desmontados podem recuperar seu valor histórico. Mas quem pretende adquirir e restaurar um ônibus antigo precisa observar uma série de cuidados mecânicos, documentais e legais, especialmente quando deseja registrá-lo como veículo de coleção e colocá-lo novamente em circulação.

O assunto ganhou atualidade com decisões da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), publicadas no Diário Oficial da União de quarta-feira, 4 de novembro de 2026, que revogaram os credenciamentos de duas entidades responsáveis pela certificação de veículos antigos, entre elas a Federação Brasileira de Antigomobilismo, e autorizaram outras 11 entidades a emitir certificados de coleção. Os documentos emitidos regularmente antes dos descredenciamentos permanecem válidos. As mudanças chamam a atenção para uma questão fundamental: além de ter idade e importância histórica, um ônibus precisa atender às exigências de documentação, identificação, conservação e segurança para receber o reconhecimento oficial como veículo de coleção.

Grupo ABC: de jardineiras a ônibus modernos, um museu conta mais de um século de transportes

Um dos exemplos brasileiros de preservação da memória dos transportes está no ABC Paulista, onde a família Setti & Braga desenvolveu uma trajetória iniciada em 1910, acompanhando o crescimento urbano e industrial da região.

Em 20 de novembro de 2021, o Grupo ABC apresntou uma prévia do Museu dos Transportes do ABC, instalado na garagem da Viação ABC, em São Bernardo do Campo (SP), durante as comemorações dos 111 anos de atuação da família no setor.

O Diário do Transporte acompanhou a apresentação do acervo, que reúne veículos, fotografias, documentos e outros objetos relacionados ao desenvolvimento da mobilidade na Grande São Paulo.

A coleção permite observar a evolução dos transportes desde o tempo dos veículos de tração animal, como os tílburis, até diferentes gerações de ônibus urbanos.

Entre os exemplares apresentados estão jardineiras das primeiras décadas do século XX, algumas com estruturas de madeira, modelos Caio Jaraguá e Caio Bela Vista, monoblocos Mercedes-Benz O-362 e O-364, além de ônibus com carrocerias Caio Vitória e Caio Alpha.

Um dos destaques históricos é a reprodução de uma jardineira movida a gasogênio, tecnologia utilizada em períodos de dificuldade no abastecimento de combustíveis derivados de petróleo, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial.

A preservação desse tipo de veículo ajuda a compreender como as empresas de transporte precisavam adaptar equipamentos e operações às condições econômicas e tecnológicas de cada época.

O trabalho de recuperação exigiu pesquisas, busca de peças e reconstrução de componentes com base em registros históricos.

Na apresentação de 2021, o empresário João Antônio Setti Braga explicou ao Diário do Transporte que cada veículo representava uma história particular e que o processo de preservação havia envolvido buscas em diferentes regiões do Brasil.

Carlos Eduardo de Andrade, conhecido como Dudu, participou da localização de veículos destinados ao acervo. O trabalho envolveu viagens, contatos com colecionadores e identificação de exemplares que ainda poderiam ser recuperados.

Os restauradores Eduardo Lambiasi e Hernani Nascimento também participaram do processo, especialmente na recuperação de jardineiras antigas.

O museu ilustra uma dimensão importante do patrimônio do transporte: não se trata apenas de guardar modelos raros, mas também de recuperar registros da vida dos motoristas, cobradores, mecânicos, empresários e passageiros.

Tamboré: ônibus que poderiam virar sucata voltam a contar histórias

Em Barueri (SP), a Transportadora Turística Tamboré também se destacou pela recuperação de ônibus antigos.

A empresa atua no transporte de passageiros, especialmente em fretamento, turismo e deslocamentos corporativos, mas passou a desenvolver paralelamente trabalhos de preservação de veículos que fizeram parte de diferentes sistemas de transporte.

Um dos exemplos é um Caio Vitória, montado sobre chassi Mercedes-Benz OF-1620, ano 1995, recuperado depois de ter sido encontrado em um pátio com destino à sucata.

O veículo havia passado por empresas como Auto Viação Tabú, Expresso Paulistano, Transporte Coletivo São Judas e Via Sul.

A trajetória demonstra como um único ônibus pode representar diferentes fases da operação do transporte coletivo, com mudanças de proprietário, identidade visual e regiões atendidas.

Mais recentemente, em setembro de 2026, a Tamboré anunciou outro projeto de restauração: um Caio Amélia de 1986, sobre chassi Mercedes-Benz OF-1113, anteriormente utilizado pela Auto Viação Urubupungá, tradicional operadora de Osasco (SP).

O modelo representa uma geração de ônibus urbanos que marcou as décadas de 1980 e 1990, quando características como a configuração das portas, o desenho das janelas, os interiores e os conjuntos mecânicos eram diferentes dos encontrados nos veículos atuais.

A recuperação desses exemplares ajuda a mostrar como a operação do transporte público evoluiu ao longo do tempo.

Também revela uma dificuldade enfrentada por muitos colecionadores: localizar componentes que deixaram de ser produzidos há décadas.

Peças de acabamento, bancos, luminárias, comandos e elementos específicos das carrocerias podem exigir pesquisa, fabricação artesanal ou recuperação de componentes originais.

Turismo Santa Rita: ônibus GM e outras raridades preservadas

Outra iniciativa de preservação é a da Turismo Santa Rita, empresa de fretamento da capital paulista que mantém uma coleção de ônibus históricos.

Entre os exemplares estão veículos da General Motors (GM), fabricante que teve participação importante na história do transporte rodoviário e urbano.

Em dezembro de 2019, durante uma exposição de ônibus antigos realizada no Viaduto do Chá, no centro de São Paulo, o Diário do Transporte mostrou veículos do acervo da empresa.

Na ocasião, a Turismo Santa Rita mantinha cerca de dez ônibus antigos restaurados e conservados em sua garagem.

O proprietário, Jerônimo Ardito, contou que uma das maiores recompensas do trabalho de restauração era encontrar pessoas que reconheciam os veículos e recordavam viagens realizadas décadas antes.

A preservação, nesse caso, ultrapassa o interesse mecânico ou estético.

Para muitos passageiros, reencontrar um ônibus antigo significa lembrar de viagens de infância, deslocamentos para o trabalho, passeios familiares e momentos marcantes da própria vida.

Colecionadores particulares também salvam ônibus da destruição

A preservação dos transportes não depende apenas de grandes empresas ou museus.

Em diferentes regiões do Brasil, colecionadores particulares dedicam tempo, trabalho e recursos próprios à recuperação de ônibus antigos.

Alguns são motoristas, mecânicos ou empresários do setor. Outros se tornaram apaixonados pelos veículos simplesmente porque cresceram utilizando transporte coletivo.

Um exemplo é o colecionador Rogério Soria, de Santo André (SP), conhecido pela participação em encontros de ônibus antigos.

Ao longo dos anos, ele teve diferentes modelos históricos, incluindo uma jardineira Chevrolet com carroceria Caio Jaraguá de 1968, um micro-ônibus Caio Carolina III, um Caio Gabriela e outros exemplares.

Entre os trabalhos mais conhecidos está um Nielson Diplomata 330, sobre chassi Mercedes-Benz O-355, restaurado com a identidade visual da extinta Companhia São Geraldo de Viação.

O veículo representa uma época em que os ônibus rodoviários eram importantes para a integração entre as regiões brasileiras, especialmente nas viagens de longa distância.

Outro caso é o do colecionador Valter Francisco da Costa, que enfrentou a destruição de dois ônibus antigos em um incêndio registrado em Santo André, em julho de 2019.

Entre os veículos atingidos estava um monobloco Mercedes-Benz O-355, ano 1967. Depois do incêndio, o proprietário iniciou uma mobilização para tentar recuperar o exemplar.

A situação demonstra a vulnerabilidade dos acervos particulares e a necessidade de cuidados com instalações elétricas, armazenamento, prevenção de incêndios e proteção patrimonial.

Da VVR de Kaio Castro à BBF e Exponi: encontros de ônibus antigos mantêm viva a memória dos transportes

Além dos museus, garagens e coleções particulares, os encontros de ônibus antigos desempenham um papel fundamental na preservação da memória da mobilidade brasileira. Esses eventos permitem que veículos de diferentes épocas sejam conhecidos pelo público e, principalmente, aproximam pessoas que compartilham histórias ligadas ao transporte.

Um dos pioneiros desse movimento foi Antônio Kaio Castro, fundador e presidente do Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro e criador da exposição VVR — Viver, Ver e Rever.

Kaio morreu em 26 de abril de 2021, aos 68 anos, depois de enfrentar um câncer e contrair covid-19 durante o tratamento.

Com sua morte, a VVR deixou de ser realizada, mas o trabalho desenvolvido pelo memorialista ajudou a abrir caminho para outros encontros de preservação dos transportes no Brasil.

A ideia surgiu no início dos anos 2000, quando Kaio trabalhava na Expresso Redenção, empresa de fretamento com sede em Taubaté (SP).

Apaixonado por veículos antigos, percebeu que existiam inúmeros eventos dedicados a automóveis de coleção, mas poucos espaços para a apresentação de ônibus e caminhões históricos.

Começou então a procurar empresários que mantinham veículos antigos em suas garagens e colecionadores dispostos a participar de uma exposição pública.

A primeira VVR foi realizada em maio de 2004, na garagem da Expresso Redenção, em São Paulo, reunindo 11 veículos e aproximadamente 300 visitantes.

O evento cresceu e, a partir de 2007, passou a ocupar o Memorial da América Latina, na Barra Funda, zona oeste da capital paulista, reunindo dezenas de ônibus e caminhões restaurados.

A exposição passou a integrar o Calendário Turístico Oficial do Estado de São Paulo em 2011, reconhecimento da importância cultural e histórica da iniciativa.

Entre os veículos apresentados ao longo de suas edições estiveram jardineiras das primeiras décadas do século XX, monoblocos Mercedes-Benz, ônibus rodoviários de diferentes gerações, modelos urbanos da antiga CMTC e veículos que marcaram a história de empresas tradicionais.

A última edição da VVR ocorreu em dezembro de 2019, no Viaduto do Chá, no centro de São Paulo.

Na ocasião, a exposição reuniu modelos das décadas de 1940 a 1990, incluindo um trólebus ACF Brill de 1947, um Chevrolet 3800 da década de 1950 e ônibus rodoviários Nielson Diplomata.

Mais que uma exposição de máquinas, a VVR era um encontro de histórias humanas.

Em entrevista ao Diário do Transporte durante o evento de 2019, Kaio ressaltou que a principal emoção estava nas lembranças despertadas pelos veículos e nas conversas com colecionadores e antigos profissionais do transporte.

A atuação de Kaio também teve reflexos no reconhecimento institucional da preservação da memória dos ônibus.

A legislação paulista estabeleceu o dia 30 de novembro como Dia da Preservação da Memória dos Transportes em Ônibus e Caminhões, data relacionada à criação do Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro.

O trabalho iniciado por Kaio ajudou a fortalecer um movimento que encontrou continuidade em diferentes iniciativas pelo País, cada uma com sua própria história e organização.

Destaque também para a BusBrasil Fest (BBF), que reúne ônibus antigos e modernos em exposições abertas ao público.

Criada em 2001, a BBF também se tornou um dos principais encontros do gênero no Brasil, apresentando modelos preservados, veículos em operação e lançamentos de fabricantes.

A combinação permite que visitantes conheçam, em um mesmo espaço, a evolução das carrocerias, chassis, motores, sistemas de segurança, recursos de acessibilidade e tecnologias de propulsão.

Em 2024, a exposição realizou sua 20ª edição em Barueri (SP), com a participação de empresas, fabricantes e colecionadores.

A BBF também chegou a outras cidades, como Campinas (SP), ampliando o alcance das atividades dedicadas à história do ônibus.

Outro evento importante é a Exponi — Exposição de Ônibus Novos e Antigos, desenvolvida a partir de iniciativas de entusiastas da região Sul e que tem entre seus idealizadores Osvaldo Teodoro Born.

A exposição reúne modelos históricos e veículos atuais, permitindo comparar diferentes etapas da evolução tecnológica dos transportes.

Ao longo de sua trajetória, a Exponi teve edições no Paraná e em Santa Catarina.

Em novembro de 2025, retornou a Curitiba (PR) com uma edição especial dedicada aos 50 anos do sistema de transporte expresso da capital paranaense, implantado em 1974 e que posteriormente serviria de referência para sistemas BRT em diferentes países.

Realizada na garagem da Auto Viação Redentor, a Exponi-50 reuniu mais de 185 veículos, entre modelos antigos, ônibus em operação, veículos novos e outros exemplares relacionados à história do transporte.

Além dessas exposições, encontros regionais ajudam a ampliar o movimento de preservação.

Em Minas Gerais, eventos como a Caravana de Jardineiras, Ônibus e Caminhões reúnem veículos históricos e proprietários que se dedicam à recuperação de exemplares antigos.

No interior paulista, iniciativas como a Red Bus Fest promovem encontros de ônibus preservados em espaços turísticos, aproximando a memória dos transportes de atividades culturais e familiares.

A importância desses eventos está também no intercâmbio de conhecimentos.

É comum que um colecionador encontre outro que possui uma peça rara, uma fotografia de época, um catálogo de fabricante ou informações sobre a configuração original de determinado modelo.

Em alguns casos, o encontro permite identificar veículos que ainda podem ser recuperados e evitar que desapareçam definitivamente.

Essas iniciativas também oferecem às novas gerações a oportunidade de conhecer veículos que fizeram parte da vida cotidiana de seus pais e avós.

Assim, a história dos ônibus deixa de existir apenas em fotografias e documentos e volta a ganhar forma diante do público.

Ônibus antigos também ajudam a preservar a história da eletromobilidade

A memória do transporte coletivo não se limita aos veículos movidos a diesel ou gasolina.

Trólebus, ônibus elétricos experimentais e modelos híbridos também fazem parte da evolução tecnológica da mobilidade brasileira.

Um exemplo é o projeto de recuperação de um ônibus que nasceu como trólebus da antiga Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC), de São Paulo.

O veículo passou por transformações durante sua vida operacional e chegou a ser utilizado como ônibus híbrido elétrico.

Em janeiro de 2025, o Diário do Transporte mostrou uma iniciativa de preservação envolvendo a Associação Museu do Transporte, a Eletra e a Viação Talismã, de Rio Grande da Serra (SP).

O projeto demonstra como a conservação de veículos antigos também permite compreender experiências tecnológicas que ajudaram a construir soluções utilizadas atualmente.

Além dos veículos, a preservação envolve motores, equipamentos de tração, sistemas elétricos, documentos de engenharia, fotografias e registros operacionais.

O que verificar antes de comprar um ônibus antigo

A compra de um ônibus para restauração exige cuidados diferentes daqueles normalmente adotados na aquisição de um automóvel antigo.

O primeiro passo é verificar a documentação e a situação cadastral do veículo.

É fundamental conferir a identificação do chassi, os dados constantes nos registros de trânsito, a existência de restrições administrativas ou judiciais, débitos e a possibilidade efetiva de transferência de propriedade.

Um ônibus que permaneceu muitos anos parado pode apresentar problemas documentais que não são resolvidos apenas com a restauração mecânica.

Também é importante verificar se o veículo sofreu alterações de carroceria, motor, configuração de assentos ou outras características que precisem ser regularizadas.

No caso dos ônibus, a identificação do fabricante do chassi e da carroceria merece atenção especial. Em muitos modelos, esses componentes são de empresas diferentes e possuem históricos de fabricação e manutenção próprios.

É recomendável examinar a estrutura do chassi, pontos de corrosão, suspensão, sistema de freios, direção, transmissão, motor e instalações elétricas.

A carroceria também exige inspeção cuidadosa, principalmente em veículos com estruturas metálicas antigas ou componentes de madeira.

Dependendo do estado de conservação, o custo para recuperar um ônibus pode ultrapassar significativamente o valor pago pela sua aquisição.

Há ainda despesas com guincho ou transporte especializado, espaço para armazenamento, mão de obra, pintura, tapeçaria e obtenção de peças.

Antes da compra, é prudente consultar um profissional especializado e o órgão de trânsito responsável pelo registro, especialmente quando houver dúvidas sobre a identificação ou a situação documental.

Como registrar um ônibus como veículo de coleção

O reconhecimento oficial de um ônibus antigo como veículo de coleção segue a Resolução Contran nº 957, de 17 de maio de 2022.

A regulamentação considera veículos de coleção aqueles fabricados há mais de 30 anos, originais ou modificados de acordo com as regras aplicáveis, desde que possuam valor histórico próprio.

A idade, isoladamente, não garante o enquadramento.

Os veículos classificados como originais precisam atingir pelo menos 80 pontos, em uma avaliação de 100 pontos que considera características de fabricação e conservação.

Entre os elementos avaliados estão carroceria, mecânica, suspensão, aparência visual e equipamentos compatíveis com a época do veículo.

A avaliação deve ser realizada por entidade credenciada pela Senatran para emitir o Certificado de Veículo de Coleção (CVCOL).

No caso de veículos modificados, também é necessária a observância das regras específicas de alteração de características e a apresentação do Certificado de Segurança Veicular (CSV), emitido após inspeção por instituição técnica licenciada.

O CVCOL tem validade de 60 meses, podendo ser renovado por iguais períodos, desde que o veículo continue atendendo às exigências.

Outra particularidade é a transferência de propriedade.

Quando um veículo de coleção muda de dono, a regulamentação exige novo CVCOL em nome do comprador para a manutenção do licenciamento na espécie coleção.

Portanto, quem compra um ônibus que já possui certificado não deve presumir que poderá utilizar indefinidamente o documento emitido em nome do antigo proprietário.

Como funciona o procedimento em São Paulo

No Estado de São Paulo, o Detran-SP oferece um procedimento para alteração da espécie do veículo para coleção.

O proprietário deve solicitar inicialmente a autorização prévia, procurar uma entidade credenciada pela Senatran para avaliação e emissão do CVCOL e, posteriormente, apresentar a documentação necessária à atualização do registro.

Depois da certificação, o processo envolve a inclusão do certificado no cadastro e a alteração da espécie do veículo para coleção.

O Detran-SP informa que o serviço de alteração de espécie é gratuito, embora outras etapas, como certificação, vistorias, regularização de débitos e eventuais inspeções, possam gerar despesas.

Para veículos que passaram por modificações, podem ser exigidos procedimentos adicionais de segurança e regularização.

É importante distinguir a documentação de coleção da autorização para prestar serviços remunerados de transporte.

Um ônibus histórico devidamente licenciado como veículo de coleção não recebe, por esse motivo, autorização automática para realizar viagens comerciais, operar linhas regulares ou prestar fretamento remunerado.

Essas atividades estão sujeitas às exigências próprias dos órgãos responsáveis pelo transporte de passageiros.

Senatran muda credenciamentos, mas preserva certificados já emitidos

As decisões publicadas em 4 de novembro de 2026 trazem mudanças para entidades que realizam a certificação de veículos antigos.

A Senatran revogou o credenciamento da Federação Brasileira de Antigomobilismo e do Heavens Car Clube.

As determinações preservam expressamente os certificados regularmente emitidos durante o período em que as entidades estavam autorizadas.

Na mesma edição do Diário Oficial da União, a secretaria credenciou outras 11 entidades para realizar avaliações e emitir certificados de veículos de coleção.

Entre elas estão associações e clubes do Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e outras regiões.

A decisão reforça a importância de verificar a situação do credenciamento antes de contratar o serviço de avaliação.

O proprietário também deve observar a validade do certificado, as exigências de transferência e as condições de conservação e segurança do veículo.

A regulamentação determina que as vistorias para emissão do CVCOL sejam presenciais, não permitindo que a avaliação seja realizada exclusivamente por fotografias.

Preservar um ônibus é preservar a memória das cidades

Os ônibus são parte da história urbana e social do Brasil.

Durante décadas, foram responsáveis pela ligação de bairros, pelo transporte de trabalhadores às fábricas, pelo deslocamento de estudantes e pela integração entre municípios e regiões.

As transformações dos veículos também ajudam a compreender mudanças econômicas, ambientais e tecnológicas.

Os antigos modelos com motor dianteiro, as carrocerias de madeira, os monoblocos, os ônibus com suspensão pneumática, os veículos articulados e os diferentes projetos de tração elétrica representam etapas dessa evolução.

Mas a história não está apenas nas máquinas.

Está também nos profissionais que dirigiram e mantiveram esses veículos, nas empresas que ajudaram a abrir caminhos e nas pessoas que fizeram dos ônibus parte de suas rotinas.

A preservação de fotografias, documentos, itinerários, uniformes, bilhetes, letreiros e relatos de antigos trabalhadores complementa o trabalho realizado com os próprios veículos.

É por isso que iniciativas como o Museu dos Transportes do ABC, os projetos da Tamboré, o acervo da Turismo Santa Rita, os trabalhos de colecionadores particulares e eventos como VVR, BBF e Exponi possuem importância que ultrapassa o universo dos admiradores de ônibus.

Esses esforços ajudam a manter disponíveis para as próximas gerações objetos e histórias de uma atividade que participou diretamente da construção e do desenvolvimento das cidades brasileiras.

Recuperar um ônibus antigo pode exigir anos de pesquisa, investimento e trabalho. Mas, quando a preservação é realizada com responsabilidade técnica, documentação adequada e respeito às características históricas, o resultado é mais que um veículo restaurado: é uma parte da memória coletiva que continua existindo.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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