Fortaleza prepara tarifa zero nos fins de semana em 2027 e mudança no pagamento das empresas de ônibus por quilômetro rodado
Publicado em: 7 de novembro de 2026
Programa Vai de Graça deve abranger ônibus, transporte complementar, metrô e VLT; contratos atuais do transporte municipal vencem em 2027, e Prefeitura e Governo do Ceará ainda discutem custos, operação e financiamento da gratuidade
ADAMO BAZANI
A Prefeitura de Fortaleza (CE) e o Governo do Ceará preparam para 2027 a implantação da tarifa zero no transporte público aos fins de semana, em uma mudança que também deverá alcançar o modelo de financiamento das empresas de ônibus da capital. A proposta, denominada Vai de Graça, foi anunciada pelo governador Elmano de Freitas e pelo prefeito Evandro Leitão, que estabeleceu como meta iniciar a gratuidade no primeiro trimestre do próximo ano. O programa deverá contemplar ônibus municipais, transporte complementar por vans e topics, metrô e Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).
Além de permitir que os passageiros utilizem os transportes sem pagar passagem aos sábados e domingos, a administração municipal estuda modificar a forma de remuneração das concessionárias. Em vez de depender principalmente da arrecadação tarifária, as empresas poderão passar a receber pelo serviço efetivamente prestado, considerando os quilômetros percorridos pelos veículos. A mudança está sendo discutida no momento em que a atual concessão municipal, firmada em 2012, aproxima-se do encerramento de seu prazo contratual, em 2027. Entretanto, o novo sistema de pagamento ainda não está formalizado, e os governos estadual e municipal precisam definir os custos, as regras operacionais e a participação de cada ente no financiamento.
A gratuidade também foi anunciada com a possibilidade de contemplar feriados, mas a regulamentação definitiva do programa ainda deverá esclarecer essa abrangência. Os compromissos públicos mais específicos apresentados pelo governador e pelo prefeito mencionam principalmente sábados e domingos.
O anúncio do Vai de Graça ocorreu no fim de setembro de 2026, durante a campanha eleitoral estadual. Posteriormente, Elmano reafirmou o compromisso e informou que uma equipe conjunta do Governo do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza trabalharia na elaboração do projeto.
Em outubro, Evandro Leitão declarou que a expectativa era iniciar a operação no primeiro trimestre de 2027.
A proposta deverá beneficiar moradores de Fortaleza e também pessoas que estejam de passagem pela capital, sem a exigência de comprovação de residência.
O modelo anunciado prevê acesso sem pagamento de passagem, embora os procedimentos de embarque, a necessidade de identificação dos passageiros e a contabilização das viagens ainda dependam de detalhamento.
Empresas poderão receber por quilômetro rodado, independentemente da arrecadação nas catracas
A mudança mais significativa para a estrutura financeira do sistema é a possibilidade de desvincular a remuneração das operadoras da quantidade de passageiros pagantes.
Atualmente, as empresas que operam o transporte municipal recebem recursos provenientes das tarifas e de subsídios públicos destinados a complementar os custos do serviço.
Com a queda na demanda de passageiros observada ao longo dos últimos anos, especialmente depois da pandemia de Covid-19, a arrecadação tarifária deixou de ser suficiente para financiar a operação.
O presidente da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), George Dantas, já reconheceu publicamente que o modelo contratual de 2012 foi estruturado em um cenário diferente do atual, quando o transporte coletivo ainda apresentava crescimento de demanda e não enfrentava a mesma concorrência dos serviços de transporte individual por aplicativos.
A proposta de remuneração por quilômetro rodado procura alterar essa relação.
Nesse formato, o poder público define as linhas, os horários, as frequências e a quantidade de viagens necessárias para atender à população. As empresas recebem pela prestação dos serviços, conforme os critérios estabelecidos contratualmente.
Isso significa que uma linha considerada socialmente necessária pode continuar operando mesmo que transporte poucos passageiros pagantes.
O sistema também permite separar duas decisões que tradicionalmente acabam misturadas: quanto custa efetivamente prestar o serviço e quanto o passageiro deverá pagar para utilizá-lo.
A passagem poderá ser gratuita em determinados dias sem que a remuneração da concessionária dependa diretamente da arrecadação nesses períodos.
Entretanto, o pagamento por quilômetro não dispensa fiscalização. Será necessário estabelecer controles sobre a quilometragem efetivamente realizada, cumprimento das viagens, regularidade dos intervalos, conservação dos veículos e qualidade do atendimento.
Também deverá ser definida a composição dos custos de cada quilômetro, incluindo combustível ou energia, mão de obra, manutenção, depreciação e remuneração dos investimentos.
Apenas pagar pela distância percorrida, sem indicadores de desempenho, não garante automaticamente maior qualidade para os passageiros.
Contratos de 2012 chegam ao fim em 2027 e abrem discussão sobre o futuro do sistema
O calendário da tarifa zero coincide com outro momento importante para o transporte coletivo de Fortaleza.
A concessão municipal atualmente em vigor foi contratada em maio de 2012, com prazo de 15 anos e possibilidade de prorrogação por igual período.
Na licitação realizada naquela época, o sistema foi dividido em cinco áreas operacionais, atendidas pelos consórcios Leste, Antônio Bezerra, Expresso 05, Parangaba e Messejana.
Entre as empresas integrantes dessas estruturas estavam Viação Urbana, Auto Viação Fortaleza, Vega, Santa Cecília, Santa Maria, Aliança, Auto Viação São José, Terra Luz, Cearense, Siará Grande, Fretecar, Dragão do Mar, Maraponga e Rota Expressa.
A existência de empresas participantes de mais de um consórcio também demonstra a importância de avaliar a estrutura empresarial e contratual do sistema antes de estabelecer um novo modelo de remuneração.
As regras do contrato original consideravam a arrecadação das passagens e os subsídios legalmente instituídos.
A passagem inteira custava R$ 2,00 quando a concessão foi firmada.
Em janeiro de 2026, a tarifa inteira passou de R$ 4,50 para R$ 5,40, enquanto a tarifa estudantil foi mantida em R$ 1,50.
A eventual substituição da atual metodologia de remuneração poderá exigir alterações contratuais ou a definição de novas regras para o próximo período de concessão.
O encerramento do prazo original, porém, não significa automaticamente que uma nova licitação já esteja aberta ou que todos os contratos serão substituídos. A administração deverá definir o encaminhamento jurídico e administrativo adequado.
Prefeitura destina R$ 18 milhões mensais em subsídios e discute participação do Estado
Outro desafio é a definição dos recursos necessários para financiar a gratuidade.
Em 2026, o subsídio mensal informado pela Etufor para o transporte coletivo municipal, incluindo empresas de ônibus e cooperativas do transporte alternativo, chegou a aproximadamente R$ 18 milhões.
No início do ano, o valor era de R$ 16,5 milhões por mês, mas houve ampliação dos repasses para custear benefícios tarifários, principalmente a expansão da gratuidade estudantil.
O montante mensal de R$ 18 milhões corresponde a um ritmo anualizado de R$ 216 milhões, caso seja mantido durante 12 meses, mas não representa necessariamente o valor total efetivamente desembolsado ao longo de 2026.
Também não significa que esse dinheiro será suficiente para custear o Vai de Graça.
A gratuidade universal aos fins de semana poderá provocar aumento na quantidade de viagens e exigir mais ônibus em circulação, dependendo da resposta da população.
Nesse caso, o custo adicional não se limita à receita que deixará de ser arrecadada nas catracas. Também poderá incluir mais quilômetros percorridos, combustíveis, energia, manutenção e trabalhadores necessários para ampliar a operação.
O Governo do Ceará já participa indiretamente do financiamento do transporte municipal por meio de medidas tributárias, como benefícios relacionados ao diesel e ao IPVA dos veículos.
Com o Vai de Graça, a expectativa é que a participação estadual seja ampliada, mas os valores e a divisão das responsabilidades entre Governo e Prefeitura ainda não foram definitivamente apresentados.
O presidente da Etufor, George Dantas, declarou em outubro que a administração municipal não trabalhava com expectativa de novo reajuste da passagem em 2027.
Isso, entretanto, não elimina a necessidade de financiamento adicional, caso a diferença entre a receita tarifária e o custo operacional continue aumentando.
Região Metropolitana de Fortaleza já utiliza pagamento por quilômetro rodado
Embora represente uma mudança para os ônibus municipais de Fortaleza, a remuneração por quilômetro não é inteiramente nova no Ceará.
O Governo do Estado implantou esse modelo no transporte coletivo metropolitano após a licitação realizada em 2024.
Segundo informações oficiais divulgadas pela Agência Reguladora do Estado do Ceará (Arce), as empresas contratadas para operar o transporte intermunicipal da Região Metropolitana de Fortaleza passaram a ser remuneradas pela quilometragem percorrida.
O novo formato foi apresentado pelo governo estadual como uma maneira de permitir maior previsibilidade financeira, fiscalização da operação e implantação de políticas tarifárias sem transferir integralmente o risco de arrecadação para os operadores.
A reorganização também esteve relacionada a exigências de climatização dos ônibus e à manutenção dos valores das passagens metropolitanas.
A experiência oferece uma referência administrativa para Fortaleza, mas existem diferenças entre os sistemas.
O transporte metropolitano é de responsabilidade do Governo do Ceará, enquanto o sistema municipal da capital é gerenciado pela Etufor.
As estruturas contratuais, receitas, tarifas, responsabilidades e características operacionais não são necessariamente iguais.
Por isso, a utilização de um modelo semelhante na capital dependerá de estudos específicos e de regras próprias.
Frota envelhecida e necessidade de reforço na operação são desafios
A preparação da tarifa zero também ocorre em um contexto de dificuldades para a renovação da frota.
O diretor-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus), Dimas Barreira, informou que a idade média dos ônibus urbanos de Fortaleza chegou a aproximadamente nove anos.
O número representa uma diferença expressiva em relação ao padrão histórico de três anos e meio a quatro anos mencionado pelo representante empresarial.
A Prefeitura iniciou em 2026 um programa de renovação que prevê a incorporação de 120 ônibus novos até o fim do ano.
Os veículos anunciados são equipados com ar-condicionado, recursos de acessibilidade, entradas USB, câmeras internas e motorização com padrão ambiental Euro VI.
Na apresentação do programa de renovação, a administração municipal também destacou a meta de ampliar a climatização de toda a frota.
A gratuidade aos fins de semana poderá tornar ainda mais importante o planejamento da oferta.
Atualmente, a programação dos sábados e domingos costuma ser diferente daquela realizada nos dias úteis, acompanhando uma demanda historicamente menor em muitas linhas.
Se a ausência de cobrança estimular deslocamentos adicionais para lazer, comércio, visitas familiares e outras atividades, será necessário avaliar quais regiões precisam de reforços.
A experiência de outras cidades com tarifa zero, como Caucaia e Maracanaú, também poderá contribuir para essa análise.
Entretanto, os resultados obtidos em municípios onde a gratuidade ocorre de maneira mais abrangente não podem ser automaticamente transferidos para uma capital que pretende adotá-la inicialmente apenas em determinados dias da semana.
Gratuidade nas eleições mostrou aumento expressivo da procura pelos ônibus
Fortaleza já possui experiências recentes de gratuidade que podem auxiliar na avaliação do comportamento dos passageiros.
Nas eleições gerais de 2026, a Prefeitura autorizou o transporte gratuito durante o período de votação e ampliou a quantidade de ônibus disponíveis.
No primeiro turno, em 4 de outubro, a Etufor registrou mais de 191 mil passageiros transportados, cerca de 66 mil acima do volume observado em domingos comuns.
O resultado representou um crescimento aproximado de 53% em relação à referência de 125 mil passageiros utilizada na comparação.
Para o segundo turno, em 25 de outubro, a Prefeitura anunciou a disponibilização de 378 ônibus extras e 20 veículos reservas para atender aos deslocamentos.
Esses resultados demonstram que a redução do custo da passagem pode alterar significativamente a procura pelo transporte coletivo.
É necessário considerar, porém, que os dias de eleição possuem características específicas, como deslocamentos obrigatórios para votação e horários diferenciados de operação.
Por isso, os números não permitem projetar diretamente a quantidade de viagens que será realizada aos fins de semana após a implantação do Vai de Graça.
Estudantes já têm duas passagens gratuitas todos os dias
O Vai de Graça também deverá ampliar uma política de gratuidade já existente em Fortaleza.
Desde 1º de julho de 2026, estudantes que possuem carteira emitida pela Etufor passaram a ter direito a duas passagens gratuitas diariamente, inclusive durante férias escolares, fins de semana e feriados.
A medida integra o Passe Livre Todo Dia, programa municipal desenvolvido com participação do Governo do Ceará.
Na implantação do benefício, a Prefeitura informou que aproximadamente 300 mil estudantes poderiam ser contemplados e anunciou investimento anual adicional de R$ 8,5 milhões para a ampliação da gratuidade.
A diferença é que o Vai de Graça pretende estender o benefício a todos os passageiros nos dias abrangidos pelo programa, sem restringi-lo à condição estudantil.
Com isso, trabalhadores, idosos, visitantes e demais usuários poderão realizar deslocamentos sem pagar passagem nos períodos contemplados, observadas as regras que ainda serão definidas.
O que ainda precisa ser definido
Apesar dos anúncios realizados pelas administrações estadual e municipal, pontos importantes continuam sem definição pública conclusiva.
Entre eles estão a data exata de início da gratuidade, a inclusão formal dos feriados, o custo anual do programa, a participação financeira do Governo do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza, as regras de utilização e a eventual necessidade de adaptações no sistema de bilhetagem.
No caso dos ônibus municipais, ainda será necessário estabelecer se a remuneração por quilômetro rodado será implementada junto com a tarifa zero ou em outra etapa da reorganização contratual.
As empresas também aguardam o aprofundamento das discussões técnicas sobre dimensionamento de frota, itinerários, horários e frequências.
A experiência de Fortaleza poderá contribuir para o debate nacional sobre o financiamento do transporte coletivo, justamente por reunir três questões diferentes: a gratuidade para os passageiros, a remuneração dos operadores pela oferta efetiva do serviço e a necessidade de recursos públicos estáveis para assegurar a operação.
A separação entre tarifa paga pelo passageiro e remuneração das empresas pode permitir maior flexibilidade às políticas de transporte, mas também amplia a responsabilidade dos gestores públicos pelo planejamento, pela fiscalização e pela transparência dos custos.
O avanço do Vai de Graça dependerá, portanto, não apenas da liberação das catracas, mas da capacidade de assegurar uma oferta adequada de ônibus, metrô, VLT e transporte complementar sem comprometer a continuidade dos serviços.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


