Nova greve da Transwolff tem ameaça para esta quarta (21) e faz SPTrans acionar preventivamente a Guarda Civil para garagens
Publicado em: 20 de outubro de 2026
ADAMO BAZANI
Colaboraram Yuri Sena e Vinícius de Oliveira
Moradores da zona Sul da capital paulista mais uma vez podem, nesta quarta-feira, 21 de outubro de 2026, ser afetados por uma paralisação dos serviços dos lotes D10 e D11, correspondentes às linhas originalmente concedidas à Transwolff.
Circulam em redes sociais e entre funcionários que integravam o quadro da companhia ameaças de nova greve, depois de descontos na folha de pagamento e alegados desligamentos de trabalhadores que cruzaram os braços na segunda-feira (19).
Na ocasião, as linhas afetadas foram as que integram o lote D10, dos ônibus com a cor azul-clara. O lote D11, da cor vinho, funcionou.
Diante da ameaça de nova greve, por meio de nota, a SPTrans (São Paulo Transporte), empresa da prefeitura que gerencia o sistema municipal de ônibus e desde 9 de abril de 2024 é responsável por uma intervenção na Transwolff, que acabou tendo o contrato rompido, informou que já acionou preventivamente a GCM (Guarda Civil Metropolitana) para garantir, nesta quarta-feira (21), a saída dos ônibus das garagens e permitir a operação dos serviços.
A administração municipal estima que uma nova paralisação dos dois lotes possa prejudicar aproximadamente 500 mil passageiros. A SPTrans afirma que a interrupção das atividades sem comunicação oficial com antecedência mínima de 72 horas contraria a legislação federal que regulamenta as greves em serviços essenciais.
A prefeitura confirmou ainda que três trabalhadores foram desligados após a paralisação de segunda-feira, sob a alegação de que tiveram responsabilidade pela interrupção irregular dos serviços.
A situação amplia as tensões trabalhistas e operacionais em torno das antigas linhas da Transwolff, empresa que foi alvo de uma investigação do Ministério Público de São Paulo sobre suspeitas de envolvimento de dirigentes e pessoas ligadas à companhia com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
O caso já resultou em intervenção municipal, rompimento de contratos, tentativa frustrada de substituição da operadora e uma série de investigações policiais. Entretanto, as suspeitas contra antigos dirigentes e terceiros não representam responsabilização automática dos funcionários que prestam os serviços de transporte.
Nota da prefeitura na íntegra
A Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e a SPTrans repudiam a ameaça de nova paralisação nos lotes D10 e D11 do transporte público, prevista para esta quarta-feira (21), que pode prejudicar cerca de 500 mil passageiros. Para garantir a circulação dos ônibus, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) dará apoio às garagens, assegurando a entrada e a saída dos veículos e permitindo que os trabalhadores cumpram suas jornadas. Os funcionários que aderirem à paralisação terão o dia descontado do salário. A SMT e a SPTrans destacam que a interrupção de um serviço essencial sem comunicação prévia oficial, com antecedência mínima de 72 horas, contraria a Lei Federal nº 7.783/1989, conhecida como Lei de Greve.
Na segunda-feira (19), três funcionários da Transwolff foram desligados após serem identificados como responsáveis pela interrupção irregular do serviço. Em relação aos pagamentos dos colaboradores da Transwolff, os valores referentes ao INSS e ao FGTS estão sendo depositados integralmente em juízo, à espera de deliberação da Justiça. Todas as obrigações estão sendo rigorosamente cumpridas pela SPTrans e os documentos comprobatórios foram apresentados aos empregados ontem (19). A Prefeitura destaca que a Transwolff não opera na cidade desde dezembro de 2025 e que um processo de alteração da identificação dos ônibus começou nesta terça-feira (20). A mudança já estava prevista e não altera o vínculo dos trabalhadores com a operação do sistema.
O que ocorreu na segunda-feira e por que os trabalhadores pararam
A paralisação de segunda-feira, 19 de outubro, começou nas primeiras horas da manhã, atingindo a garagem de Parelheiros e comprometendo o atendimento de parte importante da zona Sul da cidade de São Paulo.
Os trabalhadores alegaram falta de comprovação da regularidade dos recolhimentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e das contribuições ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), além de cobrarem esclarecimentos sobre obrigações trabalhistas e benefícios após o encerramento dos contratos da Transwolff com a prefeitura.
A principal divergência está na maneira como os recolhimentos vêm sendo realizados. Segundo a SPTrans, os valores são depositados integralmente em juízo, dependendo de deliberação da Justiça para sua destinação.
Para os trabalhadores, entretanto, a situação provoca dúvidas sobre a efetiva regularização das obrigações e o acesso aos valores devidos, sobretudo diante das mudanças na estrutura jurídica e administrativa da operação.
Os depósitos judiciais e a disponibilização dos recursos nas contas vinculadas dos empregados são situações diferentes. A regularidade do procedimento depende também das determinações judiciais aplicáveis, razão pela qual a apresentação dos comprovantes passou a ser um dos pontos centrais da negociação.
A paralisação atingiu o lote D10, responsável por linhas operadas com ônibus identificados pela pintura azul-clara, enquanto o lote D11, com veículos na cor vinho, manteve as atividades.
Segundo balanço divulgado durante o movimento, cerca de 267 mil passageiros foram afetados, com comprometimento de aproximadamente 67 linhas. A prefeitura acionou o Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência (Paese) para atender 37 linhas, buscando reduzir os efeitos da interrupção.
A medida emergencial, entretanto, não significa a substituição integral de toda a frota normalmente empregada no atendimento.
O movimento foi encerrado no início da tarde, depois de reunião entre representantes dos trabalhadores, do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo e da SPTrans.
A circulação começou a ser retomada gradualmente.
A prefeitura sustentou que salários e benefícios estavam em dia e que os recolhimentos questionados seguiam o procedimento judicial determinado para a operação.
Já os trabalhadores mantiveram questionamentos sobre a situação dos depósitos e a segurança de seus direitos trabalhistas.
O novo conflito ganhou força após a confirmação dos três desligamentos e da previsão de desconto dos dias não trabalhados, que passaram a integrar as razões apresentadas por participantes das mobilizações para uma possível nova paralisação.
A Lei de Greve estabelece regras específicas para serviços essenciais, entre eles o transporte coletivo, incluindo comunicação antecipada e manutenção das atividades indispensáveis ao atendimento da população.
Isso não elimina o direito constitucional de greve, mas submete seu exercício a condições específicas. A avaliação da legalidade de uma paralisação e de eventuais consequências trabalhistas também pode ser submetida à Justiça.
No caso das linhas da antiga Transwolff, a situação tem uma particularidade: os trabalhadores permanecem vinculados a uma estrutura operacional que passou a ser administrada diretamente pelo poder público após o rompimento dos contratos com a antiga concessionária.
Assim, além das reivindicações trabalhistas, os conflitos envolvem a continuidade dos serviços, a manutenção dos empregos e a definição do futuro operador.
Operação Fim da Linha, intervenção e rompimento dos contratos da Transwolff
A situação atual dos trabalhadores e das linhas de ônibus da zona Sul tem origem direta nos desdobramentos da Operação Fim da Linha, deflagrada em 9 de abril de 2024 pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, com participação de órgãos policiais e da Receita Federal.
A investigação teve como alvos a Transwolff, que operava na zona Sul, e a UPBus, responsável por linhas da zona Leste da capital.
Segundo o Ministério Público, as apurações identificaram indícios de que integrantes das estruturas empresariais das concessionárias teriam participado de mecanismos de lavagem de dinheiro provenientes de atividades criminosas do PCC.
Entre os investigados da Transwolff estavam Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, Robson Flares Lopes Pontes e Joelson Santos da Silva.
A investigação procurou identificar a origem dos recursos utilizados pelas empresas, a participação de pessoas que poderiam exercer influência sobre os negócios sem aparecer formalmente nos contratos sociais e eventuais movimentações financeiras destinadas a ocultar dinheiro de origem ilícita.
A suspeita central não era a de que todos os profissionais das empresas estivessem envolvidos com a organização criminosa, mas de que determinadas estruturas administrativas, financeiras e societárias poderiam estar sendo utilizadas por integrantes da facção.
No mesmo dia da operação, o prefeito Ricardo Nunes determinou a intervenção da SPTrans nas duas concessionárias.
O objetivo declarado pela prefeitura foi manter as linhas em funcionamento, preservar o atendimento à população e assegurar os empregos enquanto as autoridades investigavam as suspeitas.
A intervenção colocou a administração operacional das empresas sob acompanhamento direto do município.
A Transwolff tinha uma das maiores frotas do sistema paulistano, com aproximadamente 1,2 mil ônibus, e transportava centenas de milhares de passageiros diariamente.
A estrutura operacional também apresentava uma particularidade herdada de sua origem como cooperativa de transportadores autônomos.
Parte expressiva dos veículos pertencia a antigos cooperados da Cooperpam, enquanto outra parcela da operação estava vinculada a trabalhadores contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Essa composição passou a representar um dos maiores obstáculos para a substituição da concessionária, porque a transferência de contratos não dependia apenas da escolha de uma nova empresa.
Era necessário solucionar questões relacionadas à propriedade dos ônibus, à disponibilidade dos veículos, às garagens, às obrigações financeiras e à continuidade dos vínculos de trabalho.
Em 28 de fevereiro de 2025, a Prefeitura de São Paulo anunciou que a Transwolff e a UPBus seriam substituídas por outras operadoras.
No caso da Transwolff, a empresa escolhida foi a Sancetur, ligada à família Chedid, com atuação em diferentes municípios paulistas.
A transição deveria começar em 15 de março daquele ano, mas não avançou conforme o cronograma inicialmente divulgado.
Em julho de 2025, a prefeitura instituiu um grupo de trabalho para avaliar a transferência dos direitos contratuais, em meio às dificuldades administrativas e operacionais.
Ao longo do processo, surgiram conflitos e resistências envolvendo os diferentes grupos que integravam a estrutura da antiga operadora.
O Diário do Transporte mostrou, em reportagem exclusiva publicada em dezembro de 2025, que a Transwolff reunia diferentes núcleos de interesses dentro de uma mesma estrutura empresarial.
Entre eles estavam antigos dirigentes, proprietários de ônibus remanescentes da Cooperpam e empregados contratados diretamente.
Os levantamentos também identificaram divergências entre esses grupos sobre o futuro dos contratos e dos veículos.
A existência dessas diferenças é relevante porque a continuidade das linhas dependia não somente de uma decisão administrativa da prefeitura, mas também da disponibilidade dos ônibus e de pessoas habilitadas para manter a operação.
Em 4 de dezembro de 2025, a prefeitura anunciou a caducidade dos contratos da Transwolff, formalizada por decreto publicado no dia seguinte.
A medida representou o encerramento da relação contratual entre a empresa e o município, com a continuidade da operação sob responsabilidade da SPTrans.
A Transwolff contestou a decisão judicialmente, incluindo questionamentos sobre o rompimento dos contratos e valores que alegava ter a receber da administração municipal. Em dezembro, a discussão chegou a resultar em decisão judicial suspendendo o rompimento, acrescentando uma disputa jurídica ao processo de substituição da operadora.
Apesar dos questionamentos, a prefeitura manteve o entendimento de que a antiga concessionária não poderia continuar à frente dos serviços e prosseguiu com as providências para assegurar a operação.
Onda de ataques atingiu mais de 1,5 mil ônibus em 2025 e Polícia Civil investigou relação com a transferência dos contratos
O processo de substituição da Transwolff também foi acompanhado de uma das maiores ondas de ataques a ônibus já registradas no Estado de São Paulo.
Entre junho e agosto de 2025, mais de 1,5 mil coletivos foram atingidos por ações de vandalismo, especialmente na capital e em municípios da Região Metropolitana.
Em muitos casos, os veículos tiveram vidros quebrados por pedras e outros objetos arremessados durante a circulação, colocando em risco motoristas, cobradores e passageiros.
Houve registros de pessoas feridas.
Os episódios se tornaram especialmente preocupantes pela repetição dos ataques, pela distribuição geográfica e pela dificuldade inicial de identificar os responsáveis e esclarecer se existia coordenação entre os casos.
Uma das principais linhas de investigação da Polícia Civil passou a considerar a possibilidade de ligação entre parte dos ataques e a transferência dos contratos da Transwolff para a Sancetur.
O Diário do Transporte acompanhou a sequência dos acontecimentos e mostrou que a escalada dos ataques começou em 12 de junho de 2025, data que coincidiu com uma decisão administrativa relacionada ao processo de transferência contratual.
Levantamentos obtidos pela reportagem mostraram que a média anterior de depredações era de até cinco registros diários, mas saltou para aproximadamente 40 episódios naquele dia.
O crescimento foi expressivo nas semanas seguintes.
Em 13 de julho de 2025, por exemplo, foram registrados 47 ataques em apenas 24 horas, um dos maiores números diários daquela sequência.
Em 31 de julho, o acumulado já havia alcançado 587 ocorrências somente na capital paulista, conforme informações fornecidas pela SPTrans ao Diário do Transporte.
A Polícia Civil investigou diferentes possibilidades de motivação, incluindo interesses contrários à transferência dos contratos e a eventual participação de grupos organizados.
A apuração resultou em detenções e diligências. Entre os investigados havia pessoas suspeitas de participação na organização ou execução das depredações.
Em dezembro de 2025, a Secretaria da Segurança Pública informou ao Diário do Transporte que o inquérito sobre a onda de ataques ainda estava em andamento e que pelo menos 20 pessoas haviam sido detidas no decorrer das investigações.
A própria Polícia Civil tratava a possível relação com a transferência da Transwolff como uma hipótese investigativa, e não como conclusão definitiva aplicável a todos os episódios.
Essa distinção é importante porque, embora a coincidência de datas e os interesses econômicos envolvidos tenham fundamentado uma das frentes de apuração, a autoria e a motivação dos ataques dependem das provas reunidas em cada investigação.
A onda de violência também expôs a vulnerabilidade dos passageiros e dos trabalhadores diante de disputas que envolvem empresas responsáveis por serviços essenciais.
Além dos danos materiais aos ônibus, as depredações provocaram interrupções, atrasos e riscos diretos à integridade das pessoas transportadas.
Sancetur desistiu de assumir as linhas em janeiro de 2026
A tentativa de substituir a Transwolff pela Sancetur teve um novo desdobramento em janeiro de 2026.
Em 26 de janeiro, a Prefeitura de São Paulo anunciou a assinatura de um contrato emergencial para que a Sancetur assumisse 133 linhas e aproximadamente 1,1 mil ônibus da antiga concessionária.
O planejamento previa a continuidade dos serviços, manutenção dos empregos e preservação dos compromissos com fornecedores.
A operação assistida deveria começar em 1º de fevereiro.
Entretanto, apenas dois dias depois, em 28 de janeiro de 2026, o Diário do Transporte revelou em primeira mão que a Sancetur havia desistido de assumir integralmente os serviços.
A empresa encaminhou um ofício à prefeitura alegando impossibilidade de executar plenamente o contrato emergencial dos lotes D10 e D11.
O município confirmou oficialmente a comunicação e informou que prosseguiria com as medidas para uma nova licitação.
A desistência evidenciou as dificuldades de substituir uma operadora cuja estrutura tinha origem em uma cooperativa e apresentava relações comerciais, patrimoniais e trabalhistas distintas das encontradas em empresas convencionais de ônibus.
Havia questões envolvendo a propriedade dos veículos, os contratos de utilização da frota e os interesses de diferentes grupos de antigos cooperados.
A saída da Sancetur também abriu espaço para reivindicações de proprietários de ônibus ligados à antiga Cooperpam, que passaram a defender alternativas para continuar participando da operação.
A administração municipal, por sua vez, manteve diretamente a responsabilidade pelos serviços.
Dessa forma, a estrutura que atende às linhas dos lotes D10 e D11 chegou a outubro de 2026 sem que tivesse sido concluída a transferência definitiva para uma nova concessionária.
É nesse contexto que surgem os novos conflitos trabalhistas, agora relacionados à comprovação dos recolhimentos de FGTS e INSS, à manutenção de empregos e às consequências da paralisação de segunda-feira.
O anúncio da prefeitura de que começou nesta terça-feira (20) a retirada da identificação da Transwolff dos veículos representa mais uma etapa da mudança administrativa.
Segundo a SPTrans, essa alteração visual já estava prevista e não modifica os vínculos dos trabalhadores com a operação.
Milton Leite é transferido para Guarulhos nesta terça-feira (20) e investigação aponta suspeita de que seria dono de fato da Transwolff
Outro desdobramento das investigações sobre o transporte coletivo ocorreu nesta terça-feira, 20 de outubro de 2026.
O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil) foi transferido da Cadeia Pública de Mogi das Cruzes para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Guarulhos.
A transferência ocorreu após uma operação do Ministério Público e da Corregedoria da Polícia Civil para investigar suspeitas de regalias concedidas ao ex-parlamentar durante o período em que esteve preso em Mogi das Cruzes.
Milton Leite está preso desde 18 de setembro de 2026, em decorrência da Operação Vectura Corrupta, que investiga a possível infiltração do PCC no sistema de ônibus da capital paulista.
Conforme decisão judicial analisada pelo Diário do Transporte, declarações de policiais militares apontam a suspeita de que o ex-presidente da Câmara seria o proprietário de fato da Transwolff, mesmo sem aparecer formalmente como sócio da companhia.
A investigação também examina possíveis relações entre empresários de ônibus, agentes públicos, dirigentes de empresas e integrantes do crime organizado.
Milton Leite nega ser dono da Transwolff e rejeita qualquer envolvimento com o PCC.
A relevância do ex-vereador para o setor não se limita às investigações atuais.
Milton Leite construiu uma trajetória política marcada pela proximidade com o transporte coletivo paulistano, especialmente desde a época da regulamentação das cooperativas de perueiros e de sua transformação em empresas de ônibus.
Ao longo de seus mandatos, exerceu influência política sobre discussões relacionadas à organização das linhas, aos contratos de concessão e à estrutura do transporte municipal.
Também foi presidente da Câmara Municipal de São Paulo, cargo que ampliou sua atuação nas articulações políticas da capital.
A Operação Vectura Corrupta procura esclarecer se essa influência política teria sido utilizada para favorecer interesses de pessoas ou empresas ligadas ao crime organizado.
Entre os elementos investigados estão mensagens atribuídas a suspeitos de participação na facção e depoimentos que mencionam o ex-parlamentar em articulações relacionadas às empresas de ônibus.
As apurações também alcançaram outros nomes com atuação no setor, como o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira e o empresário Paulo Sirqueira Korek Farias, ligado à A2 Transportes.
Em setembro, a Polícia Civil chegou a solicitar medidas de afastamento de 43 pessoas ligadas à administração de nove operadoras, além de intervenções em concessionárias. O Ministério Público considerou prematura, naquele momento, a adoção de parte dessas providências.
A amplitude das investigações demonstra que a apuração ultrapassou os fatos inicialmente atribuídos à Transwolff e à UPBus.
Também passaram a ser examinadas suspeitas sobre mecanismos de influência administrativa e política que poderiam beneficiar organizações criminosas.
Em 15 de outubro, a Justiça prorrogou por mais 30 dias a prisão temporária de Milton Leite.
No dia seguinte, o Ministério Público e a Corregedoria da Polícia Civil realizaram a Operação Custódia (In)Fiel para investigar possíveis irregularidades durante sua permanência na unidade de Mogi das Cruzes.
Foram levantadas suspeitas sobre visitas em condições irregulares, entrada de objetos proibidos e eventual concessão de tratamento privilegiado.
Durante as diligências, os investigadores apreenderam aproximadamente R$ 155 mil e US$ 10 mil com um carcereiro suspeito de favorecer o ex-parlamentar.
Também foram encontrados dois aparelhos celulares na cela ocupada pelo político, conforme informações divulgadas sobre a operação.
No sábado, 17 de outubro, como noticiou o Diário do Transporte, a Secretaria da Segurança Pública confirmou o afastamento de três delegados, um investigador e um carcereiro.
A transferência de Milton Leite para Guarulhos ocorreu na manhã desta terça-feira, por volta das 9h.
A defesa do ex-vereador nega que ele tenha recebido benefícios indevidos na cadeia e afirma que não existem provas que sustentem as acusações de participação no crime organizado.
Também contesta a suspeita de que Milton Leite seja proprietário oculto da Transwolff.
As investigações sobre sua eventual participação em empresas de ônibus e sobre possíveis irregularidades durante a prisão são procedimentos distintos.
Até o momento, as suspeitas não representam condenação criminal definitiva.
Cronologia: mais de três décadas de conflitos, investigações e operações contra o crime organizado no transporte de São Paulo
A presença de organizações criminosas em atividades ligadas ao transporte coletivo não começou com a Operação Fim da Linha, em 2024.
As suspeitas têm antecedentes no período de expansão do transporte clandestino por vans, kombis, micro-ônibus e ônibus, especialmente na periferia da capital paulista.
O crescimento dessas operações ocorreu em um contexto de deficiências do sistema regular, com bairros sem cobertura adequada, longos intervalos e demanda por alternativas de deslocamento.
Esse ambiente favoreceu o surgimento de transportadores autônomos e, posteriormente, de cooperativas.
A atividade informal, porém, também passou a ser marcada por disputas por pontos, linhas e passageiros, além de episódios de violência e investigações sobre participação de grupos criminosos.
O histórico mostra uma mudança nas características das suspeitas ao longo dos anos: de disputas territoriais ligadas ao transporte clandestino para possíveis mecanismos de lavagem de dinheiro e influência sobre empresas formalmente constituídas e contratadas pelo poder público.
Final dos anos 1980 e início dos anos 1990 – Expansão do transporte clandestino
A capital paulista registra crescimento das operações de perueiros, especialmente nas periferias.
As vans e kombis passam a disputar passageiros com as empresas de ônibus regulares.
Além da insuficiência de atendimento em determinados bairros, o período é marcado por conflitos relacionados ao controle de itinerários e pontos de embarque.
É nesse ambiente que surgem algumas das estruturas de transporte alternativo que posteriormente dariam origem a cooperativas e empresas de ônibus.
Década de 1990 – Disputas por linhas e presença de grupos criminosos
O transporte informal se expande e passam a surgir investigações policiais sobre episódios de violência, ameaças e disputas pelo controle de determinadas áreas.
A atuação de grupos criminosos no setor começa a integrar o histórico de preocupações das autoridades.
Entretanto, a existência de transporte clandestino ou informal não significa, por si só, ligação com organizações criminosas.
Milhares de trabalhadores ingressaram nesse mercado como alternativa de renda diante das dificuldades econômicas e da demanda por transporte.
2003 – Regulamentação do transporte alternativo e fortalecimento das cooperativas
A reorganização do transporte coletivo municipal, durante a administração da prefeita Marta Suplicy, incorpora parte dos antigos transportadores autônomos ao sistema regulamentado.
O transporte alternativo passa a integrar uma estrutura organizada por áreas e cooperativas.
A medida busca dar maior controle público a um segmento que havia crescido à margem das concessões tradicionais.
Ao mesmo tempo, a regulamentação transforma antigas organizações informais em estruturas com acesso a contratos e receitas provenientes do transporte público.
2006 – Investigação envolvendo dirigente da Cooperpam
Em junho de 2006, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora e então presidente da Cooperpam, foi preso sob suspeita de envolvimento com financiamento de fuga de presos.
O episódio tornou-se um dos antecedentes importantes das investigações posteriores sobre pessoas ligadas à estrutura que daria origem à Transwolff.
Pacheco voltaria a figurar entre os investigados da Operação Fim da Linha, em abril de 2024.
A ocorrência de investigações em momentos diferentes, entretanto, exige a análise individual das acusações e dos respectivos resultados judiciais.
Década de 2010 – Cooperativas passam a ser transformadas em empresas
A Prefeitura de São Paulo amplia as exigências de formalização das organizações que haviam ingressado no sistema por meio do transporte alternativo.
A partir de 2014, o processo de transformação das cooperativas em empresas ganha importância na preparação de novos modelos de contratação.
Parte das antigas estruturas passa a operar sob formato empresarial, mas mantém características herdadas das cooperativas, como a existência de diferentes proprietários de veículos e relações comerciais específicas.
Essa particularidade ajuda a explicar dificuldades encontradas anos depois na tentativa de substituição da Transwolff.
4 de março de 2020 – Assassinato de dirigente da Transunião
O presidente da Transunião, Adauto Soares Jorge, é assassinado na zona Leste da capital.
O crime passa a integrar o histórico de investigações sobre possíveis disputas de poder e influência criminosa no setor.
As apurações consideraram suspeitas de envolvimento de integrantes do crime organizado na execução ou determinação do assassinato.
A Transunião voltaria a ser alvo de uma investigação de grande repercussão em 2026.
9 de abril de 2024 – Operação Fim da Linha
O Ministério Público, com participação de órgãos policiais e da Receita Federal, deflagra operação contra suspeitas de lavagem de dinheiro do PCC envolvendo pessoas ligadas à Transwolff e à UPBus.
São realizadas prisões, buscas e apreensões.
A Prefeitura de São Paulo decreta intervenção nas duas concessionárias para preservar os serviços.
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, conhecido por sua atuação em investigações contra o PCC, participa das apurações que examinam o avanço da facção sobre atividades econômicas regulares.
2024 – Investigação identifica novas frentes de suspeita
Após a Operação Fim da Linha, as autoridades aprofundam as apurações sobre a estrutura financeira e administrativa das empresas de ônibus.
O Ministério Público informa a existência de diferentes frentes de investigação relacionadas à possível presença do crime organizado no transporte.
Em reportagem especial publicada em abril de 2024, o Diário do Transporte recupera o histórico das cooperativas e mostra como as deficiências de mobilidade dos anos 1990 contribuíram para a formação do mercado de transporte alternativo posteriormente regulamentado.
28 de fevereiro de 2025 – Prefeitura anuncia substituição de empresas investigadas
O prefeito Ricardo Nunes anuncia que a Transwolff será substituída pela Sancetur e a UPBus pela Alfa Rodobus.
A transição deveria começar em março daquele ano.
O processo, entretanto, enfrenta dificuldades administrativas e operacionais.
12 de junho de 2025 – Começa a onda de ataques a ônibus
A capital paulista registra um aumento expressivo das depredações de ônibus, com aproximadamente 40 ocorrências no primeiro dia da escalada.
A Polícia Civil passa a investigar se existe relação entre parte da violência e a transferência dos contratos de empresas de ônibus investigadas.
Junho a agosto de 2025 – Mais de 1,5 mil ônibus atacados
A onda de vandalismo atinge a capital, a Grande São Paulo e outros municípios paulistas.
Passageiros e trabalhadores ficam feridos, e veículos são retirados de circulação para reparos.
As investigações incluem a hipótese de ações destinadas a pressionar o poder público ou interferir na reorganização das empresas de transporte.
4 e 5 de dezembro de 2025 – Rompimento dos contratos da Transwolff
A prefeitura anuncia e formaliza a caducidade dos contratos da empresa.
A decisão ocorre após meses de dificuldades para concluir a transferência da operação.
A Transwolff questiona judicialmente o rompimento.
A SPTrans permanece responsável pela continuidade dos serviços.
26 de janeiro de 2026 – Contrato emergencial com a Sancetur
A prefeitura anuncia a assinatura de contrato emergencial para a Sancetur assumir os dois lotes anteriormente operados pela Transwolff.
O acordo prevê atendimento de 133 linhas, com aproximadamente 1,1 mil ônibus e manutenção dos empregos.
28 de janeiro de 2026 – Sancetur comunica desistência
O Diário do Transporte revela em primeira mão que a Sancetur encaminhou ofício à prefeitura afirmando não ter condições de assumir integralmente os serviços.
A gestão municipal confirma a desistência e mantém a operação sob sua responsabilidade.
25 de junho de 2026 – Operação Última Parada
O Ministério Público e a Polícia Civil deflagram uma nova operação, desta vez com foco na Transunião, operadora da zona Leste da cidade.
Entre os presos estão o vereador Senival Moura (PT), então presidente da Comissão de Transportes da Câmara Municipal, e pessoas apontadas como dirigentes ou gestores ocultos da empresa.
Um dos investigados é Jair Ramos de Freitas, conhecido como Cachorrão.
Segundo o Ministério Público, as suspeitas envolvem lavagem de dinheiro, fraudes em contratos e licitações e possível participação de integrantes do PCC na estrutura da operadora.
A Justiça determina medidas de bloqueio e sequestro de bens, abrangendo valores de aproximadamente R$ 194 milhões, além de veículos, imóveis e embarcações.
A Prefeitura de São Paulo decreta intervenção na Transunião, com duração inicial de seis meses, e nomeia Ângelo Fêde para a administração da empresa.
Durante a apresentação da operação, o promotor Lincoln Gakiya alerta para o risco de infiltração do crime organizado em atividades econômicas formais, incluindo o transporte público.
Julho de 2026 – Prisões da Operação Última Parada são prorrogadas
A Justiça determina a prorrogação por mais 30 dias das prisões temporárias de investigados da operação realizada em junho, incluindo o vereador Senival Moura.
As investigações continuam sobre o possível funcionamento de uma estrutura de comando e influência não declarada na Transunião.
17 de setembro de 2026 – Operação Vectura Corrupta
Uma nova operação aprofunda as investigações sobre a possível infiltração do PCC em empresas de ônibus, contratos públicos e estruturas políticas e administrativas.
A Justiça determina prisões e medidas de investigação envolvendo empresários e agentes públicos.
Entre os alvos estão Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal, e Paulo Sirqueira Korek Farias, ligado à A2 Transportes.
O ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira também aparece entre os investigados.
O Diário do Transporte examina documentos judiciais que apontam a suspeita de Milton Leite ser o proprietário de fato da Transwolff.
A investigação alcança um conjunto de empresas e pessoas mais amplo do que aquele identificado inicialmente na Operação Fim da Linha.
18 de setembro de 2026 – Milton Leite se entrega à Polícia Civil
O ex-presidente da Câmara Municipal se apresenta às autoridades após ter prisão temporária decretada.
Sua defesa nega as acusações e contesta qualquer ligação com o PCC ou participação societária oculta na Transwolff.
15 de outubro de 2026 – Justiça prorroga prisão de Milton Leite
O Tribunal de Justiça determina a continuidade da prisão temporária por mais 30 dias.
A investigação permanece em andamento, sem condenação definitiva.
16 de outubro de 2026 – Operação Custódia (In)Fiel
O Ministério Público e a Corregedoria da Polícia Civil investigam suspeitas de concessão de privilégios a Milton Leite na Cadeia Pública de Mogi das Cruzes.
A operação inclui buscas e apuração da atuação de servidores públicos.
17 de outubro de 2026 – Policiais são afastados
A Secretaria da Segurança Pública confirma o afastamento de três delegados, um investigador e um carcereiro.
As suspeitas envolvem possíveis irregularidades no tratamento concedido ao ex-presidente da Câmara Municipal durante o período de prisão.
19 de outubro de 2026 – Paralisação dos antigos trabalhadores da Transwolff
Funcionários que atuam no lote D10 cruzam os braços na zona Sul da capital, cobrando esclarecimentos sobre FGTS, INSS e obrigações trabalhistas.
A paralisação prejudica aproximadamente 267 mil passageiros e mobiliza o Paese.
Após negociação, os serviços começam a ser retomados.
A prefeitura confirma posteriormente o desligamento de três trabalhadores e informa que os depósitos questionados são realizados judicialmente.
20 de outubro de 2026 – Milton Leite é transferido e aumenta ameaça de nova greve
O ex-presidente da Câmara Municipal é transferido para o CDP de Guarulhos.
No mesmo dia, a SPTrans informa que acionará preventivamente a Guarda Civil Metropolitana para garantir a circulação dos ônibus dos lotes D10 e D11 na quarta-feira (21).
A prefeitura também inicia o processo de alteração da identificação visual dos veículos que ainda ostentam a marca Transwolff.
Continuidade dos serviços e direitos trabalhistas são os principais desafios
A sucessão de investigações e mudanças administrativas coloca a Prefeitura de São Paulo diante de dois desafios que precisam ser enfrentados simultaneamente.
O primeiro é assegurar que empresas contratadas para prestar serviços públicos estejam livres de interferências de organizações criminosas, com mecanismos de fiscalização capazes de identificar irregularidades financeiras, societárias e administrativas.
O segundo é garantir que as medidas adotadas contra empresas e dirigentes investigados não provoquem a interrupção dos transportes nem prejudiquem os direitos de trabalhadores e passageiros que não têm relação com as suspeitas.
No caso da Transwolff, a intervenção começou em abril de 2024 e, mais de dois anos depois, os lotes D10 e D11 ainda apresentam consequências operacionais e trabalhistas da reorganização.
A tentativa frustrada de transferência para a Sancetur, a estrutura de propriedade dos veículos e os questionamentos sobre obrigações trabalhistas mostram a complexidade do processo.
Para os passageiros, os efeitos são imediatos sempre que uma paralisação impede a saída dos ônibus das garagens.
Para os trabalhadores, as preocupações envolvem a preservação do emprego, a regularidade dos recolhimentos previdenciários e do FGTS e a garantia de recebimento dos direitos previstos na legislação.
Já para o poder público, permanece a obrigação de assegurar a continuidade de um serviço essencial, independentemente das investigações criminais e das disputas empresariais.
A possível paralisação desta quarta-feira (21) representa, portanto, mais um episódio de uma crise que deixou de ser exclusivamente policial ou contratual e passou a afetar também a rotina dos empregados e de centenas de milhares de passageiros da zona Sul da capital.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


