CURIOSIDADE HISTÓRICA: Por que os ônibus antigos tinham janelas inclinadas e quando elas desapareceram? Mudanças de estilo, normas e até problemas de vedação ajudam a contar essa história – ESPECIAL
Publicado em: 27 de setembro de 2026
Monoblocos Mercedes-Benz O-355 e O-362, CMA da Cometa e antigos Nielson Diplomata marcaram época com vidros em ângulo; a partir do fim dos anos 1970, indústria adotou janelas maiores e linhas mais retas
ADAMO BAZANI
Quem observa fotografias de ônibus brasileiros das décadas de 1960 e 1970 percebe uma característica que praticamente desapareceu dos veículos atuais: as janelas laterais inclinadas.
Mercedes-Benz O-355 e O-362, antigos ônibus produzidos pela CMA para a Viação Cometa e as primeiras gerações do Nielson Diplomata são alguns dos exemplos mais conhecidos. Os montantes entre as janelas formavam ângulos acentuados, criando vidros em formato de paralelogramo e uma aparência imediatamente associada aos rodoviários daquele período.
A mudança para as janelas retas começou principalmente na segunda metade dos anos 1970 e se consolidou no começo dos anos 1980. Não houve uma causa única. A transformação combinou evolução do desenho, mudanças estruturais, fabricação mais racional, vidros maiores e novas exigências de segurança.
E há um detalhe pouco lembrado: justamente nesse período de transição houve registros de problemas de entrada de água e ar em novos desenhos de janelas.
Janela inclinada era principalmente uma característica de desenho

Nos ônibus antigos, os montantes inclinados faziam parte da linguagem visual das carrocerias.
O objetivo era transmitir leveza e movimento ao veículo.
No Nielson Diplomata, isso é particularmente claro.
A carroceria já nasceu com colunas inclinadas e, na reformulação de 1970, a Nielson acentuou ainda mais esse recurso. Os para-brisas e as janelas laterais ficaram fortemente inclinados, enquanto as colunas mais estreitas reforçavam a aparência de leveza do ônibus.
Uma publicação da época recuperada pela Revista AutoBus descreve o Diplomata 70 justamente pelo desenho arrojado, marcado pelas janelas inclinadas, teto em dois níveis e preocupação com a aparência aerodinâmica.
Assim, a inclinação dos vidros laterais estava muito mais relacionada ao estilo e à construção da carroceria do que a uma necessidade aerodinâmica específica.
A frente e o para-brisa de um veículo podem exercer influência importante sobre o arrasto aerodinâmico. Já o ângulo dos montantes entre as janelas ao longo da lateral produz efeito muito menor.
O formato chegou a virar identidade de algumas marcas

Em determinados fabricantes, as janelas passaram a funcionar quase como uma assinatura.
O Diplomata foi um exemplo.
As colunas inclinadas, o teto em dois níveis e o revestimento lateral ajudavam a tornar o ônibus imediatamente identificável. Fontes históricas descrevem as janelas inclinadas como uma das características que marcaram a identidade da Nielson.
Algo semelhante ocorria com os monoblocos Mercedes-Benz e com os veículos desenvolvidos pela CMA para a Cometa.
Numa época em que havia menor padronização visual e os fabricantes trabalhavam com muitas soluções próprias de carroceria, a própria geometria das janelas podia ser parte importante do desenho do ônibus.
Então por que desapareceram?
A indústria começou a caminhar na direção oposta no fim dos anos 1970.
As carrocerias passaram a ter linhas mais retas, janelas maiores e estruturas mais modulares.
No próprio Diplomata, em 1976 as janelas inclinadas ainda permaneciam, mas registros históricos da Nielson já descrevem o recurso como uma moda que estava caindo em desuso.
Em 1981, a Nielson abandonou as colunas inclinadas na nova geração do Diplomata e adotou janelas verticais.
A Mercedes-Benz fez movimento semelhante.
O O-364, lançado em 1978 para substituir gradualmente modelos como O-355 e O-362, já combinava superfícies arredondadas com um desenho consideravelmente mais reto e janelas maiores.
Era uma mudança de conceito.
Novas normas obrigaram fabricantes a rever as janelas
Foi justamente nessa transição que surgiu uma informação histórica interessante.
Uma reportagem da revista Transporte Moderno, publicada em agosto de 1979, registrou problemas de entrada de água e ar pelas janelas das primeiras unidades do Mercedes-Benz O-364.
Segundo uma fonte ligada à Mercedes-Benz ouvida pela publicação naquele momento, o problema estava relacionado a uma reformulação das normas de segurança do DNER.
O projeto do ônibus havia sido desenvolvido de acordo com regras anteriores, mas teve de ser alterado para atender às novas determinações antes de chegar ao mercado.
A mudança atingia diretamente as janelas.
Segundo a reportagem, pelas regras anteriores uma janela de 73 centímetros de altura teria apenas 28 centímetros de área móvel.
Com a nova norma, a relação foi praticamente invertida: a parte móvel passou a representar 60% da altura da janela, aproximadamente 44 centímetros.
O DNER também eliminou a chamada “bandeira”, uma parte fixa existente na estrutura da janela.
A adaptação feita em curto prazo teria provocado problemas de vedação nas primeiras unidades, com entrada de água e ar.
Entrada de água não explica sozinha o fim das janelas inclinadas
Esse episódio ajuda a entender a evolução das janelas dos ônibus, mas é diferente de dizer que a indústria abandonou os vidros inclinados porque eles davam infiltração.
As fontes históricas consultadas não sustentam essa relação direta.
O caso documentado do O-364 ocorreu justamente num veículo de nova geração e está associado à alteração das dimensões e da área móvel exigidas pelas normas.
Na prática, a evolução do setor caminhava para outra solução: janelas maiores, menos divisões, estruturas mais simples e desenho mais retilíneo.
Isso também facilitava a vedação.
Quanto mais complexa é a geometria de uma esquadria, maior é o número de pontos que precisam ser adequadamente unidos, vedados e ajustados. Mas seria exagerado transformar esse aspecto construtivo na explicação principal para o desaparecimento das janelas inclinadas.
O O-364 simboliza bem a mudança

O Mercedes-Benz O-364 é um bom marco histórico porque surgiu em 1978 exatamente durante essa transformação.
Seus antecessores O-355 e O-362 tinham a aparência característica da geração anterior.
O O-364 trouxe janelas maiores e desenho mais reto, apesar de ainda conservar superfícies arredondadas típicas dos monoblocos Mercedes-Benz.
A Mercedes produziu o O-355 entre 1972 e 1979 e o O-362 entre 1971 e 1978. O O-364 entrou em produção em 1978, mostrando que houve inclusive um pequeno período de sobreposição entre as duas gerações.
Ou seja, é possível observar praticamente ano a ano a mudança de linguagem dos ônibus brasileiros.
Segurança também passou a interferir mais no desenho
A transformação ocorreu simultaneamente ao aumento das exigências técnicas para ônibus.
O fim dos anos 1970 foi um período de revisão de normas relacionadas à segurança, dimensões de janelas, saídas de emergência e construção dos veículos.
A reportagem de 1979 sobre o O-364 mostra claramente como uma mudança regulatória podia obrigar o fabricante a alterar um projeto já praticamente pronto.
As janelas deixavam, portanto, de ser apenas um elemento de estilo.
Tinham de atender cada vez mais a requisitos objetivos de abertura, evacuação e segurança dos passageiros.
As saídas de emergência laterais, por exemplo, já existiam nos ônibus brasileiros desde o fim dos anos 1950 e foram recebendo normas e identificações cada vez mais específicas.
Vidros maiores também mudaram a aparência dos ônibus
Há outro fator fácil de perceber comparando as gerações.
Os ônibus antigos apresentavam uma sequência de janelas relativamente pequenas, cada uma delimitada claramente por uma coluna da carroceria.
Isso permitia brincar visualmente com a inclinação de cada módulo.
Nos ônibus posteriores, a tendência foi aumentar a área envidraçada.
Com menos montantes e vidros maiores, tornou-se mais lógico utilizar formas retangulares ou quase retangulares.
A própria Mercedes destacava no O-364 a utilização de “amplas janelas” e novos sistemas de ventilação, incluindo vidros corrediços na parte superior.
Posteriormente, a disseminação do ar-condicionado permitiria reduzir ainda mais a necessidade de grandes áreas móveis.
O vidro colado praticamente encerrou essa linguagem
Décadas depois, outro avanço alterou completamente a aparência dos ônibus: os vidros colados diretamente à estrutura.
Nos rodoviários atuais, muitas vezes as divisões estruturais ficam escondidas atrás de uma grande faixa escura formada pelo vidro e pelas máscaras externas.
Visualmente, parece existir uma superfície envidraçada quase contínua.
É uma solução completamente diferente da utilizada nos O-355, O-362, CMA e Diplomata, nos quais cada coluna fazia parte claramente do desenho externo.
Uma mudança que aconteceu em poucos anos
A transição pode ser resumida aproximadamente assim:
| Período | Característica predominante |
|---|---|
| Anos 1950 e 1960 | Janelas menores e frequentemente inclinadas |
| Início dos anos 1970 | Auge das colunas inclinadas nos rodoviários |
| 1976-1978 | Estilo começa a perder espaço; surgem projetos mais retos |
| 1978 | Mercedes-Benz lança O-364 com desenho mais moderno e janelas maiores |
| 1979 | Mudanças de normas das janelas já provocam adaptações construtivas |
| Início dos anos 1980 | Colunas verticais tornam-se predominantes |
| 1981 | Nielson Diplomata abandona definitivamente as colunas inclinadas |
| Décadas seguintes | Vidros maiores, ar-condicionado e posteriormente vidros colados consolidam novo padrão |
Uma característica que hoje imediatamente denuncia a idade do ônibus

É por isso que uma fotografia lateral permite muitas vezes reconhecer rapidamente um ônibus dos anos 1960 ou 1970.
As janelas inclinadas se tornaram um dos símbolos visuais daquela geração.
Nos O-355 e O-362, nos CMA da Cometa e nos antigos Diplomata, as colunas eram parte da personalidade do veículo.
A partir do fim dos anos 1970, as exigências mudaram.
Design, segurança, fabricação, tamanho das janelas e sistemas de vedação passaram por evolução simultânea.
E um detalhe curioso dessa transição ficou registrado justamente em 1979: ao adaptar rapidamente as janelas do então novo O-364 às normas do DNER, a Mercedes-Benz enfrentou entrada de água e ar nas primeiras unidades.
Mais do que uma simples mudança estética, portanto, o desaparecimento das tradicionais janelas inclinadas ajuda a contar um momento em que o ônibus brasileiro passou de uma construção fortemente marcada pelo desenho artesanal das carrocerias para projetos cada vez mais industrializados, normatizados e modulares.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
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Parabéns pela matéria!
Um detalhe pouco ou nada comentado na indústria, e que eu sempre tive a curiosidade de saber os seus porquês!
Interessante lembrar que, mesmo assim, as janelas inclinadas ainda sobreviveram quase até a virada do milênio, quando a extinta CMA produzia os seus últimos Flexas Azul.
Quanto aos vidros colados que hoje dominam os rodoviários (e uma boa parte dos urbanos), eu me pergunto se sua real praticidade vai além da sua estética mais sofisticada.
Ainda acho que os vidros fixados com borrachões sejam mais confiáveis, além de mais fáceis de se inspecionar e de se manter.
Lendo e aprendendo! No alto dos meus setenta anos, nunca havia reparado que os vidros inclinados revelariam a idade dos ônibus.
Boa tarde a todos!
Parabéns pela matéria! Muito legal saber sobre essa mudança nas janelas e o real intuito disso.
Adamo, sugiro uma reportagem sobre um tema que acho bastante curioso e acredito ser pouco comentado no meio dos transportes, que é sobre o padrão das janelas dos veículos urbanos. Algumas versões, possuem a parte inferior inteiriça, outras, possuem ambas as partes com abertura… No passado, tínhamos as “janelas invertidas”, com a parte superior inteiriça.
E aquelas janelas, cujas eu as apelidei de emborrachadas? Seriam as urbanas dos anos 80 e 90, porém, algumas com uma borracha e pintura mais saliente em volta e no meio delas, tanto na parte interna, quanto externa do veículo.
Um exemplo disso, é se compararmos, por exemplo, as janelas de um CAIO Vitória da Trans Bus e um CAIO Vitória da Auto Viação ABC, de São Bernardo do Campo, onde as janelas da TB possuem um friso cromado (padrão da maioria dos veículos da CAIO) e as janelas da ABC, já possuem esse “emborrachamento” e frisos pretos, mais salientes, digamos assim.
Já repararam nisso? Hehe.
Um abraço!
Atenciosamente,
GERSON CARVALHO