Funcionários da SPTrans, empresários de ônibus e políticos faziam elos à serviço do PCC no transporte público da cidade de São Paulo, sustentam Polícia e MP

Da esquerda para a direita: dono da A2, Paulo Korek; ex-presidente da Câmara, Milton Leite; ex-presidente da SPTrans, Levi Oliveira; e viatura da SPTrans com ônibus elétrico ao fundo

Polícia afirma haver indícios de vínculos de integrantes da gestora com Paulo Korek, da A2, e cita tratativas sobre empresas do sistema; Gaeco considera substancial o acervo probatório do núcleo principal e também relaciona Milton Leite. Caso ainda está em investigação, não há condenação e defesas negam irregularidades

ADAMO BAZANI

Documentos da investigação que deu origem à Operação Vectura Corrupta apontam para uma frente que vai além das suspeitas sobre empresários e operadores de ônibus: Polícia Civil e Ministério Público investigam a possível participação de funcionários da própria SPTrans, empresa municipal responsável pelo gerenciamento do transporte coletivo de São Paulo, em articulações que teriam beneficiado interesses de Paulo Korek, da A2 Transportes, e de pessoas apontadas como integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital). O nome mais importante nessa frente é o de Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, preso na quinta-feira, 17 de setembro de 2026.

A investigação sustenta que diálogos extraídos de celulares apreendidos indicariam contatos entre pessoas apontadas como integrantes ou intermediários da facção, empresários de ônibus, agentes públicos e figuras políticas. Em uma das passagens mais fortes, a Polícia Civil afirma que funcionários da SPTrans teriam vínculos com Korek e levanta a hipótese de tráfico de influência e outros crimes contra a administração pública. Em outra sequência, investigadores dizem que Levi teria participado de contatos e reuniões relacionados a interesses de empresas de ônibus. Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal que se entregou à polícia nesta sexta-feira (18), também aparece nas conversas como pessoa que deveria ser envolvida em determinadas decisões. Tudo isso, entretanto, ainda está em fase de investigação: não há condenação contra os citados e a existência dos diálogos, referências e indícios não significa, por si só, que os crimes tenham sido definitivamente comprovados.

POLÍCIA ESCREVE QUE FUNCIONÁRIOS DA SPTRANS TERIAM VÍNCULOS COM PAULO KOREK

Um dos trechos mais relevantes da representação da Polícia Civil trata diretamente da SPTrans.

Depois de analisar um áudio enviado em 30 de julho de 2024, os investigadores registraram que, na interpretação policial do material, ficaria evidenciada uma proximidade entre funcionários da empresa pública e Paulo Sirqueira Korek Farias.

A Polícia Civil vai além e registra que trabalha com a hipótese da ocorrência de tráfico de influência e de outros crimes contra a administração pública dentro da SPTrans.

A conclusão policial deriva principalmente de conversas atribuídas a José Daniel Satilite, apontado na investigação como integrante da estrutura criminosa e pessoa utilizada como intermediário no setor de transportes.

Segundo o documento, Satilite afirmaria que Korek tinha conhecimento amplo do que ocorria no transporte público e que decisões precisariam passar por seu aval.

O Gaeco reproduziu esse ponto da investigação em sua manifestação judicial. O documento do Ministério Público registra expressamente que, segundo os elementos apresentados pela Polícia Civil, funcionários da SPTrans teriam vínculos considerados suspeitos com Korek e que existiria hipótese de tráfico de influência e outros delitos contra a administração pública.

É importante observar uma diferença: nesse trecho, os documentos falam genericamente em “funcionários da SPTrans”, mas não individualizam outros empregados além de Levi dos Santos Oliveira nas passagens examinadas pelo Diário do Transporte.

Portanto, não é possível afirmar que haja neste momento um grupo determinado de servidores da SPTrans comprovadamente participante do esquema.

Há uma suspeita investigativa mais ampla e, dentro dela, um ex-presidente nominalmente identificado.

LEVI OLIVEIRA É O NOME DA SPTRANS MAIS DIRETAMENTE CITADO

Levi dos Santos Oliveira é tratado de maneira muito mais específica.

Ele presidiu a SPTrans em dois períodos. Assumiu inicialmente em 2020, durante a gestão do então prefeito Bruno Covas, deixou o cargo para comandar a Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito e voltou à presidência da companhia em 2022, permanecendo até fevereiro de 2025. Levi foi preso temporariamente na quinta-feira (17) durante a Operação Vectura Corrupta.

Segundo o Gaeco, embora Levi não apareça como interlocutor direto de José Daniel Satilite no material principal analisado, os dois teriam mantido encontros periódicos.

A manifestação do Ministério Público afirma que, segundo o que foi detectado, esses encontros tinham como finalidade tratar de interesses do PCC relacionados a empresas de transportes, especialmente após a deflagração da Operação Fim da Linha.

Essa é uma conclusão acusatória do Ministério Público nesta fase cautelar, e não uma sentença.

A defesa de Levi informou após a prisão que ainda não tinha acesso integral aos fundamentos da medida e destacou que o ex-presidente da SPTrans não possui antecedentes e construiu carreira de décadas no serviço público. Disse ainda que adotaria as providências jurídicas cabíveis após conhecer todos os elementos da investigação.

“JÁ TEMOS A RESPOSTA DO LEVI”, DIZ DIÁLOGO ANALISADO PELA INVESTIGAÇÃO

Outra sequência considerada relevante pelas autoridades envolve a situação da UPBus, empresa que já havia sido atingida pela Operação Fim da Linha.

Em conversa entre José Daniel Satilite e o advogado Cícero José dos Santos Filho, aparece uma discussão sobre uma eventual mudança de empresa.

Segundo a manifestação do Gaeco, Satilite teria dito que, antes de concretizar uma possível troca, seria necessário iniciar uma conversa com “Levi da São Paulo Transportes”.

A investigação identificou essa referência como sendo Levi dos Santos Oliveira, então presidente da SPTrans.

Em seguida, Satilite afirma que já havia obtido um retorno: “já temos a resposta do Levi”.

A Polícia Civil reproduz a mesma sequência em sua representação e identifica Levi como presidente da SPTrans no período das conversas.

O conteúdo não demonstra sozinho qual teria sido a resposta, se alguma providência administrativa foi efetivamente tomada por causa desses contatos ou se houve vantagem ilícita.

É exatamente essa conexão que os investigadores tentam esclarecer.

INVESTIGAÇÃO DIZ QUE SATILITE RELATOU CONVERSA DIRETA COM LEVI

O material avança para outra conversa.

José Daniel e Cícero discutiam Ubiratan Antônio da Cunha, chamado de “Bira”, que esteve ligado à UPBus, e Silvio Luiz Ferreira, chamado de “Cebola”.

Segundo a transcrição analisada pelo Gaeco, Satilite teria relatado que Levi perguntou se ele havia conversado com Bira. Satilite teria respondido que não precisava negociar com Bira, mas com quem identificava como o verdadeiro responsável pelos interesses em discussão.

Ao avaliar esse trecho, a Polícia Civil escreveu que, pela leitura das conversas, Levi teria conhecimento das tratativas que os investigadores relacionam ao crime organizado.

A Polícia Civil é ainda mais explícita na representação ao afirmar que, “pelas análises da fala de José Daniel”, o ex-presidente da SPTrans teria ciência das tratativas investigadas.

Mais uma vez, trata-se da interpretação dos investigadores sobre o conteúdo apreendido. Levi tem direito ao contraditório e à defesa, e não existe decisão definitiva declarando que ele efetivamente tenha atuado para beneficiar o PCC.

HÁ REFERÊNCIA A REUNIÃO COM LEVI E A UM ENCONTRO NA GARAGEM DA MOVEBUS

Os documentos também mencionam uma tentativa de marcar reunião com Levi.

A investigação afirma que Cícero pediu que fosse agendado um encontro com “Levi da SPTrans” e perguntou qual era sua função na empresa. A resposta identificava o interlocutor como dirigente da gestora.

Logo depois, a Polícia Civil relata ter encontrado nas conversas uma imagem de uma convocação atribuída a Levi para uma reunião na garagem da MoveBus, em 3 de outubro de 2024.

A existência de uma reunião da presidência da SPTrans numa garagem de operadora não constitui, isoladamente, irregularidade. A gestora mantém naturalmente contatos com concessionárias e operadores.

O que levou o encontro a ganhar relevância criminal para os investigadores foi o contexto das conversas nas quais ele apareceu e a presença, segundo a polícia, de pessoas ligadas à estrutura investigada.

É essa relação entre um ato que poderia ser administrativo e o contexto das mensagens apreendidas que a investigação pretende esclarecer.

MILTON LEITE E LEVI APARECEM NO MESMO NÚCLEO DE CONVERSAS

O ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite surge justamente nesse mesmo conjunto de diálogos.

Segundo o documento do Gaeco, José Daniel Satilite afirmou a Cícero que seria necessário “envolver o Milton Leite” para solucionar a situação da UPBus.

A conversa segue com a afirmação de que, antes de uma eventual troca de empresas, precisariam procurar Levi na SPTrans. Posteriormente aparece a referência à “resposta do Levi”.

Isso fez com que Polícia Civil e Ministério Público passassem a analisar conjuntamente uma possível articulação entre empresários, representantes ou integrantes da facção, agentes do poder público e figuras políticas.

A Polícia Civil chegou a registrar, ao contextualizar essa parte da investigação, Milton Leite, servidores públicos e Levi Oliveira no mesmo cenário investigativo e observou que os grandes casos recentes relacionados à suspeita de infiltração do crime organizado no transporte paulistano ocorreram durante o período em que Levi estava à frente da SPTrans e Milton presidia a Câmara.

Essa coincidência temporal, sozinha, evidentemente não constitui prova de crime. Ela é apresentada pela própria Polícia Civil como contexto para as demais evidências que busca reunir.

POLÍCIA E MP ASSOCIAM MILTON LEITE À OPERAÇÃO DE EMPRESAS, MAS ELE NEGA

O Gaeco registra que Milton Leite é mencionado diversas vezes e afirma que, segundo a investigação, ele apareceria como responsável por decisões envolvendo algumas empresas que os investigadores consideram controladas ou influenciadas pelo PCC.

O documento também reproduz a informação de que policiais militares, em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, apontaram Milton como suposto “dono de fato” da Transwolff.

Milton Leite nega as acusações.

Ele afirma não ter qualquer relação com o PCC, nega ser proprietário da Transwolff e sustenta que sua atuação no setor de ônibus sempre ocorreu no campo institucional. A Transwolff também afirma que Milton nunca integrou seu quadro societário, sua administração ou deu ordens na empresa.

Nesta sexta-feira (18), depois de ter sua prisão temporária decretada e não ter sido localizado durante a operação na quinta-feira, Milton Leite se apresentou à Polícia Civil em Mogi das Cruzes e foi preso em cumprimento à ordem judicial.

A2, PAULO KOREK E O ELO COM O NÚCLEO INVESTIGADO

A A2 Transportes ocupa posição central em outra parte dos documentos.

O Gaeco afirma que Paulo Sirqueira Korek Farias foi identificado pela investigação como empresário e gestor ligado à Translíder e à A2 e reproduz a conclusão policial segundo a qual ele atuaria como “testa de ferro” da organização criminosa e administraria interesses do crime organizado no setor de transportes.

Também é citado Júlio Salvador Filho, diretor da A2, que, segundo a investigação, participaria com Korek das decisões sobre pagamentos feitos a José Daniel Satilite e Claudionor Aparecido Sabino Tomaz.

Os dois são tratados pelos investigadores como pessoas usadas formalmente na Translíder, enquanto a investigação tenta demonstrar quem efetivamente exerceria o controle econômico e administrativo da empresa.

A A2 e Paulo Korek negam envolvimento com o PCC ou lavagem de dinheiro. Sustentam que os recursos da companhia decorrem dos contratos e pagamentos oficiais pela prestação do serviço de ônibus e afirmam colaborar com as investigações.

GAECO FALA EM “ROBUSTOS INDÍCIOS” DO ESQUEMA NO TRANSPORTE

Os documentos deixam claro que Polícia Civil e Ministério Público não tratam o material apenas como uma coleção de denúncias anônimas.

Em uma das passagens, o Gaeco usa expressamente a expressão “robustos indícios do esquema criminoso envolvendo empresas de transporte público” ao analisar conversas de José Daniel relacionadas à A2, empresas de ônibus e ao que seria a participação da organização criminosa.

Mais adiante, ao defender a prisão temporária dos 16 investigados, o Ministério Público afirma que a apuração encontrou “fundadas razões” de autoria ou participação e que as informações estariam sustentadas por diálogos, dados recolhidos na investigação e pelo laudo de análise do material apreendido.

O Gaeco também registra que a investigação aponta forte infiltração do crime organizado em contratos com o poder público.

Ao analisar as buscas, o próprio Ministério Público classifica como “substancial” o acervo probatório reunido em relação ao chamado núcleo principal, destacando que uma parte relevante das informações veio da extração de dados do celular de José Daniel Satilite.

Foi com base nesse conjunto que o Gaeco apoiou as prisões temporárias, buscas e apreensões e medidas patrimoniais pedidas pela Polícia Civil.

“ROBUSTOS INDÍCIOS” NÃO SIGNIFICAM CRIME COMPROVADO

Há uma distinção jurídica e jornalística fundamental.

Quando Polícia Civil e Ministério Público falam em fortes ou robustos indícios, acervo probatório substancial e fundadas razões, estão avaliando o material necessário para uma fase investigativa e para justificar medidas cautelares.

Isso não corresponde a uma sentença condenatória.

Nem Levi Oliveira, Milton Leite, Paulo Korek, dirigentes da A2 ou eventuais funcionários da SPTrans podem ser apresentados neste momento como autores definitivamente comprovados dos crimes investigados.

Essa diferença aparece, inclusive, na própria manifestação do Gaeco.

Embora tenha apoiado as prisões temporárias e as buscas contra o núcleo considerado central, o Ministério Público foi contra, naquele momento, o pedido da Polícia Civil para retirar simultaneamente 43 gestores de nove empresas de ônibus.

O Gaeco afirmou que, para esse grupo mais amplo, ainda não havia individualização suficiente da natureza e extensão da participação de cada pessoa e que uma medida dessa dimensão deveria ser sustentada por elementos mais robustos de cada agente.

Ou seja: o próprio Ministério Público separa a robustez que atribui ao núcleo principal da investigação da situação de dezenas de outras pessoas alcançadas pela apuração.

POLÍCIA INVESTIGA UMA REDE QUE IRIA DO PCC ÀS GARAGENS E AO PODER PÚBLICO

É essa diferenciação que permite compreender a dimensão da Operação Vectura Corrupta.

A tese investigativa não é apenas que integrantes do PCC teriam colocado dinheiro ilícito em empresas de ônibus.

Segundo os documentos, Polícia Civil e Ministério Público apuram uma possível cadeia formada por integrantes da facção, pessoas utilizadas como “laranjas”, empresários, operadores de ônibus, advogados, intermediários políticos e agentes públicos capazes de influenciar decisões sobre contratos, licitações e empresas do sistema.

A própria Polícia Civil afirma que a análise dos aparelhos apreendidos revelou uma situação que, na avaliação dos investigadores, comprometeria a atuação estatal por indicar possível infiltração do crime organizado na administração pública, especialmente no transporte.

É neste ponto que a presença da SPTrans na investigação ganha dimensão especial.

A companhia não é uma operadora privada entre as empresas investigadas. É justamente a empresa municipal encarregada de gerenciar, fiscalizar e organizar o sistema no qual essas concessionárias prestam serviço.

Por isso, uma eventual comprovação de que integrantes da própria gestora atuaram para favorecer interesses de empresários ou do crime organizado teria alcance institucional diferente das suspeitas envolvendo apenas operadores particulares.

Até agora, porém, isso permanece como objeto de investigação.

Levi está preso temporariamente, Milton Leite se apresentou e também teve cumprida a prisão temporária, e as autoridades seguem reunindo elementos a partir dos materiais apreendidos na operação. A prisão temporária tem natureza cautelar e não representa condenação.

O Diário do Transporte seguirá acompanhando as defesas, eventuais novos nomes da SPTrans que possam ser individualizados, os resultados da perícia dos equipamentos apreendidos e as decisões judiciais que definirão se as suspeitas levantadas por Polícia Civil e Ministério Público se sustentam no decorrer do processo.

EXCLUSIVO: Polícia pediu afastamento de 43 gestores de nove empresas de ônibus e intervenção da SPTrans, mas Gaeco foi contra naquele momento

Medida alcançaria A2, Alfa Rodobus, Allianz, Transcap – não opera mais com esse nome, Imperial, MoveBus, Norte Buss, Pêssego e Spencer; Ministério Público apontou falta de individualização das condutas e risco de descontinuidade do transporte

ADAMO BAZANI

A Polícia Civil pediu à Justiça o afastamento de 43 pessoas ligadas à gestão de nove empresas do sistema municipal de ônibus de São Paulo e a intervenção da SPTrans nas concessionárias, com a possibilidade de redistribuição das linhas para outras operadoras. A medida atingiria A2 Transportes, Alfa Rodobus, Allianz, Auto Viação Transcap, atualmente não opera com este nome, Imperial, MoveBus, Norte Buss, Pêssego e Spencer.

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), entretanto, manifestou-se contra o afastamento coletivo naquele momento. Apesar de considerar que existiam elementos para prosseguir com prisões, buscas e investigação patrimonial, o Ministério Público afirmou que ainda não era possível individualizar a atuação e os poderes administrativos de cada um dos 43 nomes e alertou que a saída simultânea de dezenas de gestores poderia provocar descontinuidade no transporte público.

Os documentos, analisados pelo Diário do Transporte, integram a investigação que deu origem à Operação Vectura Corrupta, deflagrada nesta quinta-feira, 17 de setembro de 2026, para apurar a suposta infiltração do PCC em empresas de ônibus, licitações, contratos públicos e estruturas políticas e administrativas.

Polícia queria afastamento de gestores, bloqueio de pagamentos e proibição de acesso às garagens

A representação foi apresentada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, vinculada ao Demacro, em 4 de agosto de 2026.

A Polícia Civil pediu que os 43 nomes fossem impedidos de exercer funções gerenciais e administrativas, votar em assembleias, acessar sedes e garagens, receber remunerações e retirar lucros, dividendos ou juros sobre capital próprio.

O objetivo declarado era preservar o caixa das concessionárias e impedir que os investigados continuassem se beneficiando economicamente de atividades que, segundo a apuração, estariam relacionadas à organização criminosa.

Caso os afastamentos fossem autorizados, a polícia defendia que a Prefeitura de São Paulo, por meio da SPTrans, interviesse nas concessionárias para evitar interrupção das linhas.

A representação também sugeria que a administração municipal pudesse transferir temporariamente a operação para outras empresas e que o Tribunal de Contas do Município e a Controladoria-Geral do Município fossem chamados para acompanhar as intervenções.

Nove empresas e 43 nomes foram incluídos no pedido de afastamento

A medida cautelar solicitada pela Polícia Civil relacioava as seguintes empresas e pessoas:

Empresa Pessoas que a polícia pretendia afastar
A2 Transportes QUATRO PESSOAS
Alfa Rodobus TREZE PESSOAS
Allianz Transportes SEIS PESSOAS
Auto Viação Transcap- não opera mais com esse nome DUAS PESSOAS
Imperial Transportes Urbanos QUATRO PESSOAS
MoveBus/Transpeople Soluções em Mobilidade Urbana QUATRO PESSOAS
Norte Buss Transportes SEIS PESSOAS
Pêssego Transportes  QUATRO PESSOAS
Spencer Transporte Rodoviário DUAS PESSOAS

A inclusão dos nomes na representação policial não significa que todos tenham sido denunciados, condenados ou que exista comprovação definitiva de vínculo com o PCC. A própria discussão posterior do Gaeco foi justamente sobre a necessidade de individualizar as condutas antes de aplicar uma medida contínua e restritiva de direitos . O DIÁRIO DO TRANSPORTE TEVE ACESSO A TODOS OS NOMES, MAS COMO NÃO HOUVE A INDIVIDUALIZAÇÃO DA CONDUTA, POR LINHA EDITORIAL, NÃO FARÁ A CITAÇÃO

Polícia defendia intervenção para impedir risco ao transporte

Na representação, a Polícia Civil sustentou que o afastamento dos gestores deveria ser acompanhado de intervenção pública para manter as linhas em funcionamento.

O documento afirma:

“Uma vez deferido o afastamento cautelar dos representados, a fim de evitar que continuem se beneficiando economicamente das atividades ilícitas praticadas por meio das empresas, é impositivo que o Município de São Paulo, por intermédio da SPTRANS, proceda à intervenção no concessionário, nos termos da legislação vigente, com o intuito de assegurar a manutenção do transporte público nessas localidades, evitando-se prejuízo à população usuária do serviço.”

A polícia também argumentou que a permanência dos investigados no controle das empresas poderia comprometer o funcionamento das operadoras e, consequentemente, a prestação do serviço.

Apesar da afirmação policial, o afastamento coletivo dos gestores e a intervenção simultânea nas nove empresas não foram determinados pela Justiça.

Gaeco reconheceu gravidade, mas pediu que afastamentos fossem negados

Em manifestação protocolada em 7 de agosto de 2026, o Gaeco concordou com a maior parte da representação policial, incluindo os pedidos relacionados ao núcleo considerado principal da investigação, prisões temporárias, buscas e apuração patrimonial.

O Ministério Público, contudo, posicionou-se contra o afastamento preventivo dos 43 nomes ligados às empresas de ônibus.

Segundo o Gaeco, as provas reunidas indicavam a utilização de pessoas jurídicas para ocultação de responsáveis, movimentação de recursos e prestação de serviços públicos de transporte. Mesmo assim, faltavam elementos para definir a participação concreta de cada pessoa indicada na administração das operadoras.

O documento afirma que não era possível determinar, naquele momento, “a natureza e a extensão da participação, a existência ou não de poderes de administração de cada um destes representados ou mesmo a coincidência temporal da titularidade das quotas com o período dos fatos apurados”.

O Gaeco também considerou o impacto que uma medida ampla poderia causar aos passageiros:

“Não se ignora, ademais, que as sociedades envolvidas operam serviço público essencial de transporte coletivo de passageiros, sob delegação de diversos Municípios. O afastamento simultâneo de dezenas de integrantes dos respectivos quadros diretivos pode projetar um risco de descontinuidade do serviço, com repercussão direta sobre a população usuária.”

Por isso, o Ministério Público pediu o indeferimento dos afastamentos naquela etapa, sem impedir que a medida fosse novamente analisada depois do cumprimento das buscas e da obtenção de provas individualizadas.

Indeferimento naquele momento não encerrou possibilidade de novas medidas

A manifestação do Gaeco não significou o arquivamento das suspeitas nem uma declaração de inocência das empresas ou das pessoas relacionadas.

O Ministério Público considerou que havia elementos para buscas, apreensões e aprofundamento da investigação, mas avaliou que uma medida continuada, como impedir dezenas de pessoas de administrar empresas, exigia provas específicas contra cada alvo.

Na conclusão, o Gaeco concordou com a representação policial “exceto no que toca à imposição da medida cautelar de afastamento dos quadros diretivos”.

O órgão ainda registrou que o pedido poderia ser reapresentado depois da análise dos celulares, documentos, contratos, registros financeiros e demais materiais apreendidos.

Mensagens analisadas citam 12 empresas, mas pedido de afastamento alcançou nove

Os documentos apresentam duas relações diferentes de empresas.

A investigação transcreve mensagens que relacionariam 12 operadoras do sistema de ônibus da capital:

  1. Viação Transcap – não opera mais com esse nome
  2. Alfa Rodobus;
  3. Transwolff;
  4. A2 Transportes;
  5. Imperial Transportes;
  6. MoveBus;
  7. Pêssego Transportes;
  8. Allianz Transportes;
  9. Transunião;
  10. Qualibus, posteriormente UPBus;
  11. Norte Buss;
  12. Spencer.

Essa lista teria sido enviada por José Daniel Satilite, apontado pelos investigadores como integrante do PCC e intermediário entre empresários, advogados, pessoas ligadas ao meio político e integrantes da facção.

Segundo a Polícia Civil, um interlocutor teria confirmado que a relação estava correta. A partir dessas conversas, os investigadores afirmaram que as 12 empresas estariam sob influência ou controle da organização criminosa.

Essa é uma conclusão formulada pela investigação com base nos diálogos analisados. Não se trata de decisão judicial que reconheça o controle criminoso das 12 operadoras.

Já o pedido concreto de afastamento de gestores atingiu nove empresas. Transwolff, Transunião e Qualibus/UPBus não aparecem nesse grupo específico porque já haviam sido objeto de outras operações, intervenções, substituições operacionais ou processos administrativos.

Empresas relacionadas atendem milhões de passageiros

A manifestação do Gaeco afirma que as empresas citadas pertencem ao subsistema local de distribuição, responsável principalmente pelas linhas alimentadoras que ligam bairros mais afastados a terminais, corredores e estações.

Segundo uma estimativa apresentada nos autos, o conjunto transportaria entre 2,8 milhões e 3,5 milhões de passageiros por dia e operaria entre 550 e 700 linhas municipais.

Os números são estimativas produzidas durante a investigação. Indicadores oficiais mais recentes da SPTrans, citados anteriormente pelo Diário do Transporte, mostram que o subsistema local reúne 6.029 ônibus e 511 das 1.331 linhas da cidade.

A dimensão explica a preocupação do Ministério Público com os efeitos que o afastamento simultâneo de dezenas de gestores poderia causar à operação e aos passageiros.

A2 aparece em negociações de ônibus e supostos pagamentos

A A2 Transportes ocupa uma posição relevante nos documentos. Paulo Sirqueira Korek Farias é apontado pela investigação como gestor da A2 e da Translíder, empresa que atuou no transporte municipal de Cubatão.

A investigação menciona a negociação de 63 ônibus da Translíder por R$ 1,26 milhão. Segundo os documentos, parte do dinheiro teria sido depositada em uma conta da A2.

Uma planilha mencionada nos autos indicaria o pagamento de R$ 825.880 entre novembro de 2019 e janeiro de 2020. Em outro episódio, os investigadores identificaram um comprovante de R$ 100 mil destinado à conta da A2.

A Polícia Civil sustenta que José Daniel Satilite e Claudionor Aparecido Sabino Tomaz apareciam formalmente ligados à Translíder, mas seriam pessoas interpostas, ou “laranjas”, de Paulo Korek.

Júlio Salvador Filho, diretor da A2, também é citado. De acordo com a investigação, ele participaria, com Korek, das decisões sobre a liberação de pagamentos relacionados à Translíder.

Essas afirmações são teses da Polícia Civil e do Ministério Público e ainda dependem de defesa, contraditório e julgamento.

Prefeitura de São Paulo deu prazo de 24 horas para A2 afastar dois dirigentes

Depois da deflagração da Operação Vectura Corrupta, o prefeito Ricardo Nunes anunciou que a Prefeitura de São Paulo notificaria a A2 para afastar Paulo Korek e Júlio Salvador em 24 horas.

Segundo Nunes, se os dois não forem retirados da direção, a administração municipal fará uma intervenção preventiva na concessionária. Caso sejam afastados, a empresa poderá continuar operando.

A providência administrativa anunciada pela prefeitura é diferente do pedido policial de agosto. A representação pretendia afastar 43 pessoas de nove empresas por ordem judicial. O Gaeco posicionou-se contra essa medida coletiva naquele estágio.

O ultimato anunciado por Ricardo Nunes concentra-se na A2 e decorre da competência administrativa da Prefeitura de São Paulo e da SPTrans sobre o contrato municipal.

Prisões foram ampliadas posteriormente pelo Tribunal de Justiça

A Polícia Civil pediu inicialmente a prisão temporária de 16 investigados. O Gaeco concordou com a medida.

Na primeira instância, entretanto, foram autorizadas apenas três prisões, contra André Cassali, Claudionor Aparecido Sabino Tomaz e José Daniel Satilite, além de buscas relacionadas aos três.

O Ministério Público recorreu. Em 4 de setembro de 2026, o desembargador Sérgio Ribas, da 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, autorizou a prisão temporária de mais 13 investigados:

  • Carla de Paula Muller;
  • Cícero José dos Santos Filho;
  • Danilo Marco Morgado Silva;
  • Edivânia Arruda Botelho Alves;
  • Edson Antonio de Souza;
  • Eduardo Medeiros;
  • José Ronaldo Alves de Sales;
  • Júlio Salvador Filho;
  • Levi dos Santos Oliveira;
  • Milton Leite da Silva;
  • Milton Mello Milreu;
  • Paulo Sirqueira Korek Farias;
  • Sergio Luiz Gevaerd de Oliveira.

Com as duas decisões, a operação passou a ter 16 mandados de prisão temporária. Também foram autorizadas buscas e acesso a dados de equipamentos eletrônicos.

O bloqueio patrimonial foi negado naquele momento porque o Tribunal considerou insuficiente a individualização da possível origem ilícita de cada bem e de sua relação direta com os fatos investigados.

Documentos detalham suspeitas contra Levi Oliveira e Milton Leite

O ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira é citado como uma pessoa que teria mantido encontros com José Daniel Satilite para tratar de interesses relacionados às empresas de transporte.

A investigação menciona conversas sobre a situação da antiga UPBus e uma eventual troca no comando da empresa. Também aparece uma convocação atribuída a Levi para uma reunião na garagem da MoveBus em outubro de 2024.

Os documentos não demonstram, nesse trecho, qual decisão administrativa concreta teria sido adotada por Levi em decorrência das supostas conversas.

Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, é citado como suposto responsável pela operação de algumas empresas que, de acordo com a investigação, estariam sob controle da facção.

A apuração reproduz ainda declarações de policiais militares apresentadas em procedimento da Justiça Militar, segundo as quais Milton Leite “seria o dono de fato” da Transwolff.

A propriedade formal, o eventual poder de decisão e a consistência desses relatos ainda deverão ser comprovados judicialmente.

Investigação começou com apreensão de drogas e chegou ao setor de ônibus

O inquérito teve origem em uma ocorrência registrada em junho de 2023, em Itaquaquecetuba, onde foram apreendidos aproximadamente 28 quilos de maconha e oito quilos de cocaína.

A análise posterior de celulares apreendidos levou os investigadores a identificar pessoas apontadas como integrantes do PCC, suspeitas de lavagem de dinheiro, tráfico, negociação de armas, influência política e utilização de empresas regulares para movimentar recursos.

A partir desses aparelhos, a apuração avançou sobre empresas de transporte, contratos públicos, licitações municipais e relações com agentes políticos e administrativos.

A Polícia Civil afirma ter identificado diálogos relacionados a operações de ônibus em São Paulo, Cubatão, São Vicente, Itanhaém e Leme, além de negociações envolvendo a refinaria Fanal e outros empreendimentos.

Empresas e pessoas citadas têm direito à defesa

As conclusões apresentadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público integram uma investigação em andamento. O material contém pedidos cautelares, análises de mensagens e interpretações dos investigadores, mas não representa condenação definitiva das empresas ou pessoas mencionadas.

O próprio Gaeco considerou que não havia, naquele momento, elementos suficientes para individualizar a atuação de cada um dos 43 nomes incluídos no pedido de afastamento administrativo.

Todos os investigados têm direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa. O espaço permanece aberto para manifestações das empresas, dos investigados e de seus representantes.

O Diário do Transporte continuará acompanhando eventuais decisões sobre a A2, novas medidas relacionadas às demais concessionárias e os efeitos da investigação sobre a operação do transporte coletivo de São Paulo.

CONTRATOS ORIGINAIS ULTRAPASSAM R$ 22 BILHÕES COM TODO O SUBSISTEMA LOCAL:

Os contratos originais de concessão assinados em 2019 para os lotes D1 a D13 do Grupo Local de Distribuição do sistema municipal de ônibus da cidade de São Paulo. Juntos, apresentavam valor contratual estimado de R$ 22,22 bilhões e prazo de 20 anos, com possibilidade de prorrogação por até um ano.

Esses valores não representam pagamentos antecipados às empresas. Correspondem ao valor presente da remuneração estimada para todo o período contratual, calculado originalmente com taxa de desconto de 9,85% ao ano.

Contratos originais de 2019

Lote Contrato Concessionária original Valor estimado original
D1 039/2019 Consórcio Transnoroeste R$ 2.953.516.246
D2 040/2019 Consórcio Transnoroeste R$ 1.726.523.554
D3 041/2019 Transunião Transportes R$ 1.902.155.061
D4 042/2019 UpBus Qualidade em Transportes R$ 540.874.628
D5 043/2019 Pêssego Transportes R$ 1.964.597.759
D6 044/2019 Allibus Transportes R$ 2.177.462.147
D7 045/2019 Transunião Transportes R$ 574.992.920
D8 046/2019 MoveBuss Soluções em Mobilidade Urbana R$ 1.994.240.208
D9 047/2019 A2 Transportes R$ 1.858.841.310
D10 048/2019 Transwolff Transportes e Turismo R$ 2.630.545.954
D11 049/2019 Transwolff Transportes e Turismo R$ 2.281.747.206
D12 050/2019 Auto Viação Transcap R$ 1.026.519.847
D13 051/2019 Alfa Rodobus Administração e Participação R$ 586.750.192
Total 13 contratos Dez concessionárias originais R$ 22.218.767.032

Embora sejam 13 contratos, havia dez concessionárias titulares diferentes, porque três operadoras concentravam mais de um lote:

  • Consórcio Transnoroeste: D1 e D2;
  • Transunião: D3 e D7;
  • Transwolff: D10 e D11.

O Consórcio Transnoroeste era formado originalmente pela Norte Buss Transportes e pela Spencer Transportes.

Maiores contratos na configuração original

Os cinco maiores valores estimados eram:

  1. D1 – Consórcio Transnoroeste: R$ 2,95 bilhões;
  2. D10 – Transwolff: R$ 2,63 bilhões;
  3. D11 – Transwolff: R$ 2,28 bilhões;
  4. D6 – Allibus: R$ 2,18 bilhões;
  5. D8 – MoveBuss: R$ 1,99 bilhão.

Somados, os dois contratos originalmente assinados com a Transwolff representavam aproximadamente R$ 4,91 bilhões.

Os contratos D1 e D2 do Consórcio Transnoroeste somavam R$ 4,68 bilhões. Já os lotes D3 e D7 da Transunião totalizavam aproximadamente R$ 2,48 bilhões.

A2 e Transwolff aparecem diretamente no contexto da investigação

O contrato do lote D9 foi originalmente assinado com a A2 Transportes, representada no documento por Paulo Sirqueira Korek Farias. O valor contratual estimado era de R$ 1,86 bilhão.

Na ordem judicial relacionada à investigação sobre a suposta infiltração do PCC no setor de ônibus, Paulo Korek é apontado pela polícia e pelo Ministério Público como empresário ligado à administração de interesses do grupo criminoso no transporte. Trata-se de uma alegação investigativa, ainda sem condenação definitiva.

Os contratos dos lotes D10 e D11 foram assinados originalmente com a Transwolff, representada por Luiz Carlos Efigênio Pacheco. Os valores estimados eram, respectivamente, de R$ 2,63 bilhões e R$ 2,28 bilhões.

A decisão judicial menciona alegações de que Milton Leite seria proprietário de fato da Transwolff e estaria relacionado à operação de empresas investigadas. A ordem não declara comprovada essa relação; utiliza os elementos para fundamentar medidas cautelares, como prisão temporária, buscas e análise de equipamentos eletrônicos.

O que as empresas receberam em concessão

Os contratos delegaram às operadoras a prestação e exploração dos serviços locais de distribuição de passageiros nos respectivos lotes.

Na organização criada pela licitação municipal, as linhas locais de distribuição foram concebidas principalmente para deslocamentos dentro das regiões e para a alimentação de corredores, terminais e ligações estruturais do sistema.

A concessão abrangia, entre outras atividades:

  • operação da frota;
  • execução das viagens programadas;
  • serviços complementares definidos pelo município;
  • disponibilização de motoristas e demais trabalhadores;
  • manutenção e limpeza dos ônibus;
  • abastecimento;
  • conservação de garagens e instalações;
  • cumprimento de horários e itinerários;
  • atendimento aos passageiros;
  • utilização dos sistemas de bilhetagem e monitoramento;
  • fornecimento de informações operacionais à prefeitura e à SPTrans;
  • cumprimento de padrões de acessibilidade, segurança e qualidade;
  • renovação e adequação da frota;
  • implantação dos investimentos previstos nos documentos da licitação.

Os contratos vedavam a transferência livre da operação e submetiam mudanças societárias, subconcessões e alterações relevantes ao controle do poder concedente.

Remuneração não dependia somente da passagem

Os documentos estruturaram a remuneração das concessionárias com base na prestação dos serviços e nas regras econômicas definidas pela Prefeitura de São Paulo e pela SPTrans.

O dinheiro arrecadado dos passageiros integra o financiamento do sistema, mas não é repassado automaticamente à empresa responsável pelo ônibus utilizado. A remuneração contratual considera a produção operacional, os custos reconhecidos, os indicadores de qualidade e as regras estabelecidas pelo município.

Por isso, a tarifa pública cobrada do passageiro e a remuneração contratual da empresa são conceitos diferentes. Quando a arrecadação tarifária não cobre o custo reconhecido do sistema, a prefeitura pode realizar aportes orçamentários.

Reajustes, revisões e reequilíbrio

Os contratos originais previam:

  • reajuste periódico da remuneração;
  • revisão quadrienal;
  • recomposição do equilíbrio econômico-financeiro;
  • alterações por termos aditivos;
  • aplicação de indicadores de desempenho;
  • penalidades por descumprimento;
  • possibilidade de intervenção;
  • extinção ou transferência da concessão nas hipóteses legais.

Esses mecanismos explicam por que os valores e as condições de 2019 não podem ser usados isoladamente para retratar a situação atual.

Reajustes de custos, mudanças na frota, pandemia, alterações na quilometragem, eletrificação, novas obrigações, revisões econômicas, substituições societárias e intervenções municipais podem ter modificado significativamente os contratos.

Prazo original

Todos os 13 contratos estabeleceram prazo de 20 anos, com possibilidade de prorrogação por até um ano, desde que houvesse interesse público devidamente justificado pela Prefeitura de São Paulo.

O prazo não significa garantia de permanência da concessionária por todo o período. O município pode aplicar sanções, intervir, declarar caducidade ou extinguir a concessão se forem comprovados descumprimentos contratuais.

EMPRESAS INVESTGADAS (CITADAS NO INQUÉRITO) FIGURAM ENTRE AS PIORES NO IQT – Índice da Qualidade do Transporte – DA SPTRANS

O Índice de Qualidade do Transporte, o IQT, médio do sistema municipal de ônibus de São Paulo ficou em 77,43 pontos entre janeiro e abril de 2026, resultado enquadrado como “bom” pela escala da SPTrans. Apesar da classificação, houve piora ao longo do período: o índice caiu de 79,66 em janeiro para 76,32 em abril.

O pior resultado mensal foi registrado em março, com 75,91 pontos, faixa considerada “regular”. Abril apresentou pequena recuperação de 0,41 ponto, mas permaneceu 3,34 pontos abaixo de janeiro.

Evolução do sistema

Período IQT do sistema Variação mensal
Janeiro 79,66
Fevereiro 77,86 -1,80
Março 75,91 -1,95
Abril 76,32 +0,41
Média de janeiro a abril 77,43

A média do sistema é ponderada pela quantidade de passageiros transportados. Por isso, não corresponde à média aritmética simples das 40 operações relacionadas.

Dos 40 registros de empresas por lote:

  • 25 ficaram na faixa “bom”, o equivalente a 62,5%;
  • 14 ficaram na faixa “regular”, ou 35%;
  • uma ficou na faixa “ruim”, equivalente a 2,5%;
  • nenhuma alcançou a faixa “ótimo”, que exige índice acima de 93 pontos.

Maio e junho aparecem nas planilhas, mas ainda estão sem resultados. Portanto, a média indicada como pertencente ao ciclo de janeiro a junho considera, neste momento, somente janeiro, fevereiro, março e abril. A própria SPTrans informa que os dados estão sujeitos a revisão até o fechamento do ciclo.

Ranking geral da cidade: das piores para as melhores

A classificação considera cada empresa dentro do respectivo lote. Uma mesma operadora aparece mais de uma vez quando atua em contratos diferentes.

Posição Grupo Lote Empresa/registro IQT médio Avaliação
40ª Distribuição D9 A2 58,11 Ruim
39ª Distribuição D2 Spencer 63,95 Regular
38ª Distribuição D2 Norte Buss 66,87 Regular
37ª Distribuição D4 Alfa Rodobus 67,76 Regular
36ª Distribuição D7 Transunião 68,94 Regular
35ª Distribuição D3 Transunião 69,78 Regular
34ª Articulação Regional AR2 Sambaíba 70,21 Regular
33ª Distribuição D1 Spencer 72,09 Regular
32ª Distribuição D10 SPTrans 73,24 Regular
31ª Estrutural E8 Transppass 73,34 Regular
30ª Articulação Regional AR9 Transppass 73,67 Regular
29ª Distribuição D11 SPTrans 73,95 Regular
28ª Estrutural E7 Metrópole 73,98 Regular
27ª Estrutural E2 Sambaíba 75,27 Regular
26ª Distribuição D5 Pêssego 75,29 Regular
25ª Estrutural E3 Metrópole 76,50 Bom
24ª Distribuição D8 Movebuss 76,75 Bom
23ª Articulação Regional AR3 Metrópole 76,93 Bom
22ª Distribuição D1 Registro identificado como “D1” 78,01 Bom
21ª Estrutural E6 Grajaú 78,10 Bom
20ª Articulação Regional AR5 Via Sudeste 78,28 Bom
19ª Estrutural E5 Mobibrasil 78,66 Bom
18ª Estrutural E4 Via Sudeste 79,64 Bom
17ª Articulação Regional AR4 Express 79,92 Bom
16ª Distribuição D12 Auto Bless 80,89 Bom
15ª Distribuição D1 Norte Buss 81,87 Bom
14ª Estrutural E8 Campo Belo 83,05 Bom
13ª Articulação Regional AR8 Gato Preto 83,24 Bom
12ª Articulação Regional AR0 Ambiental 83,47 Bom
11ª Articulação Regional AR9 Campo Belo 83,97 Bom
10ª Articulação Regional AR1 Gato Preto 84,12 Bom
Estrutural E9 Gatusa 84,20 Bom
Articulação Regional AR7 KBPX 84,33 Bom
Distribuição D6 Allibus 85,32 Bom
Articulação Regional AR6 Mobibrasil 85,39 Bom
Estrutural E1 Gato Preto 85,49 Bom
Estrutural E1 Santa Brígida 85,89 Bom
Articulação Regional AR7 Nova Paineira 86,04 Bom
Distribuição D13 Alfa Rodobus 86,39 Bom
Articulação Regional AR1 Santa Brígida 89,77 Bom

A A2, responsável pelo lote D9, foi a única operação classificada como “ruim”, com 58,11 pontos. O resultado ficou 19,32 pontos abaixo da média do sistema.

Na outra ponta, a Santa Brígida, no lote AR1, obteve o melhor resultado da cidade, com 89,77 pontos. Mesmo a líder, entretanto, não alcançou a faixa “ótimo”.

Ranking dos grupos de operação

Posição Grupo IQT médio Avaliação
Distribuição 75,10 Regular
Estrutural 79,00 Bom
Articulação Regional 79,19 Bom

Articulação Regional e Estrutural ficaram praticamente empatados, separados por apenas 0,19 ponto. O grupo Distribuição ficou 4,09 pontos abaixo da Articulação Regional e foi o único classificado como “regular”.

Distribuição piorou em todos os meses

Grupo Janeiro Fevereiro Março Abril Média
Distribuição 77,31 76,04 73,67 73,33 75,10
Estrutural 80,90 79,04 77,93 78,12 79,00
Articulação Regional 81,85 79,26 76,84 78,81 79,19

O grupo Distribuição caiu continuamente: 77,31 pontos em janeiro, 76,04 em fevereiro, 73,67 em março e 73,33 em abril. Foi, portanto, o único grupo que não apresentou recuperação no último mês analisado.

A Articulação Regional teve a maior recuperação entre março e abril, avançando 1,97 ponto. O Estrutural subiu apenas 0,18 ponto.

Distribuição: da pior para a melhor

Posição no grupo Lote Empresa/registro IQT Avaliação
16ª D9 A2 58,11 Ruim
15ª D2 Spencer 63,95 Regular
14ª D2 Norte Buss 66,87 Regular
13ª D4 Alfa Rodobus 67,76 Regular
12ª D7 Transunião 68,94 Regular
11ª D3 Transunião 69,78 Regular
10ª D1 Spencer 72,09 Regular
D10 SPTrans 73,24 Regular
D11 SPTrans 73,95 Regular
D5 Pêssego 75,29 Regular
D8 Movebuss 76,75 Bom
D1 Registro “D1” 78,01 Bom
D12 Auto Bless 80,89 Bom
D1 Norte Buss 81,87 Bom
D6 Allibus 85,32 Bom
D13 Alfa Rodobus 86,39 Bom

O grupo concentra os resultados mais baixos: nele estão a única avaliação “ruim” e nove das 14 avaliações “regulares” de toda a cidade.

As maiores diferenças da mesma operadora também aparecem na Distribuição. A Alfa Rodobus obteve 67,76 no D4 e 86,39 no D13, diferença de 18,63 pontos. A Norte Buss marcou 66,87 no D2 e 81,87 no D1, distância de 15 pontos. Isso mostra que o desempenho deve ser analisado por lote, garagem e contrato.

Os lotes D10 e D11 aparecem na base oficial sob o nome SPTrans, com índices de 73,24 e 73,95, respectivamente. Os dois ficaram na faixa “regular”.

Estrutural: da pior para a melhor

Posição no grupo Lote Empresa IQT Avaliação
11ª E8 Transppass 73,34 Regular
10ª E7 Metrópole 73,98 Regular
E2 Sambaíba 75,27 Regular
E3 Metrópole 76,50 Bom
E6 Grajaú 78,10 Bom
E5 Mobibrasil 78,66 Bom
E4 Via Sudeste 79,64 Bom
E8 Campo Belo 83,05 Bom
E9 Gatusa 84,20 Bom
E1 Gato Preto 85,49 Bom
E1 Santa Brígida 85,89 Bom

O Estrutural teve três operações classificadas como “regular” e oito como “bom”. Santa Brígida e Gato Preto, ambas no E1, ficaram separadas por apenas 0,40 ponto.

A Metrópole apresentou 76,50 pontos no E3, mas apenas 73,98 no E7. A diferença de 2,52 pontos fez com que uma operação fosse classificada como “bom” e a outra como “regular”.

Articulação Regional: da pior para a melhor

Posição no grupo Lote Empresa IQT Avaliação
13ª AR2 Sambaíba 70,21 Regular
12ª AR9 Transppass 73,67 Regular
11ª AR3 Metrópole 76,93 Bom
10ª AR5 Via Sudeste 78,28 Bom
AR4 Express 79,92 Bom
AR8 Gato Preto 83,24 Bom
AR0 Ambiental 83,47 Bom
AR9 Campo Belo 83,97 Bom
AR1 Gato Preto 84,12 Bom
AR7 KBPX 84,33 Bom
AR6 Mobibrasil 85,39 Bom
AR7 Nova Paineira 86,04 Bom
AR1 Santa Brígida 89,77 Bom

A Articulação Regional apresentou o melhor resultado entre os três grupos. Apenas Sambaíba, no AR2, e Transppass, no AR9, ficaram na faixa “regular”. As outras 11 operações foram classificadas como “bom”.

Empresas que mais melhoraram entre janeiro e abril

Empresa Lote Janeiro Abril Variação
KBPX AR7 79,08 89,23 +10,15
Ambiental AR0 81,47 89,27 +7,80
Gato Preto AR1 87,89 93,54 +5,65
Mobibrasil AR6 83,87 87,13 +3,26
Grajaú E6 75,68 77,61 +1,93

A Gato Preto no AR1 alcançou 93,54 pontos em abril, entrando naquele mês na faixa “ótimo”. Entretanto, a média dos quatro meses ficou em 84,12 porque a operação havia registrado apenas 70,83 em fevereiro.

Maiores quedas entre janeiro e abril

Empresa Lote Janeiro Abril Variação
Gato Preto E1 93,42 80,42 -13,00
Santa Brígida AR1 96,67 83,75 -12,92
Auto Bless D12 86,35 73,44 -12,91
Spencer D1 77,22 66,44 -10,78
Allibus D6 89,98 80,59 -9,39
Nova Paineira AR7 91,21 82,27 -8,94

O resultado da Santa Brígida no AR1 merece atenção: apesar de liderar a média da cidade, a empresa caiu de 96,67 em janeiro para 83,75 em abril. A posição no ranking acumulado é sustentada, portanto, pelos índices elevados do começo do período.

A Auto Bless caiu 12,91 pontos e terminou abril com 73,44, na faixa “regular”, embora a média de janeiro a abril ainda apareça como “bom”.

Principais conclusões

  • A qualidade média do sistema piorou 3,34 pontos entre janeiro e abril.
  • A recuperação registrada em abril foi pequena e não ocorreu no grupo Distribuição.
  • A Distribuição concentra dez avaliações abaixo da faixa “bom”.
  • A A2, no D9, foi a única operação classificada como “ruim”.
  • Nenhuma operação alcançou média suficiente para a classificação “ótimo”.
  • Santa Brígida no AR1 lidera o acumulado, mas apresenta trajetória de queda.
  • KBPX e Ambiental registraram as maiores evoluções entre janeiro e abril.
  • Empresas que atuam em mais de um lote apresentam diferenças expressivas de qualidade, especialmente Alfa Rodobus, Norte Buss, Spencer e Mobibrasil.
  • O ranking deve ser tratado como parcial, pois maio e junho ainda não foram preenchidos e os resultados permanecem sujeitos a revisão.

Nota da Prefeitura de São Paulo (SP) e do prefeito Ricardo Nunes

“O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, determinou, nesta quinta-feira (17), a criação de um grupo de trabalho formado pela Procuradoria-Geral do Município (PGM), Controladoria-Geral do Município (CGM), SPTrans e Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) para analisar todos os elementos da Operação Vectura Corrupta, deflagrada hoje. Após reunião nesta manhã, o grupo decidiu pelo afastamento imediato, em até 24 horas, dos integrantes da diretoria da empresa A2 Transportes citados na Operação por suposto envolvimento com sócios da empresa Translider. Ela será notificada da determinação sob pena de sofrer intervenção do Município.

Importante destacar que, embora o inquérito policial investigue 12 empresas, 7 de transporte foram citadas na decisão judicial da Operação Vectura Corrupta, das quais 6 não operam na cidade. A A2 Transportes é a única citada em operação na capital paulista. A Transwolff, que consta na decisão, não opera mais na cidade desde dezembro de 2025. Em 2024, a Prefeitura realizou a intervenção na Transwolff e, por iniciativa própria, também na UPBus, mesmo sem solicitação da Justiça. Na ocasião, a CGM instaurou processos contra as duas empresas, a Prefeitura encerrou os contratos e, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil nas investigações.

A administração municipal está analisando rigorosamente os contratos, documentos e eventuais vínculos da empresa com os fatos investigados na Operação Vectura Corrupta. Caso sejam constatadas irregularidades, serão adotadas imediatamente todas as medidas administrativas e judiciais necessárias para proteger o interesse público e assegurar a continuidade do serviço à população.

A Prefeitura reitera que não compactua com qualquer irregularidade e seguirá colaborando integralmente com as autoridades competentes. O serviço de transporte público municipal segue normalmente nesta quinta-feira.”

Nota da Transwolff

“A defesa da Transwolff esclarece que Milton Leite nunca teve qualquer participação societária na Transwolff, nunca participou da gestão ou “deu ordens” na empresa e se reputa que tal afirmação está completamente equivocada e dissociada da realidade.

O empresário Luiz Carlos Efigenio Pacheco nunca havia sido denunciado em nenhuma outra situação em sua vida até as indevidas imputações da “Operação Fim de Linha”, que estão sendo combatidas na Justiça, com a defesa alegando sua total inocência.

O processo administrativo de intervenção ilegal e arbitrário na Transwolff está sendo questionado na Justiça.

Ressalta-se que o decreto de intervenção da Prefeitura se apoia exclusivamente em questões financeiras, comuns a todas as empresas do setor e plenamente sanáveis, não havendo qualquer fundamento criminal, diferentemente do que havia sido inicialmente aventado na intervenção.”

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Assine

Assine para receber as notícias do Diário do Transporte direto em seu e-mail.

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Informe Publicitário
Comentários

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo