Funcionários da SPTrans, empresários de ônibus e políticos faziam elos à serviço do PCC no transporte público da cidade de São Paulo, sustentam Polícia e MP
Publicado em: 19 de setembro de 2026
Polícia afirma haver indícios de vínculos de integrantes da gestora com Paulo Korek, da A2, e cita tratativas sobre empresas do sistema; Gaeco considera substancial o acervo probatório do núcleo principal e também relaciona Milton Leite. Caso ainda está em investigação, não há condenação e defesas negam irregularidades
ADAMO BAZANI
Documentos da investigação que deu origem à Operação Vectura Corrupta apontam para uma frente que vai além das suspeitas sobre empresários e operadores de ônibus: Polícia Civil e Ministério Público investigam a possível participação de funcionários da própria SPTrans, empresa municipal responsável pelo gerenciamento do transporte coletivo de São Paulo, em articulações que teriam beneficiado interesses de Paulo Korek, da A2 Transportes, e de pessoas apontadas como integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital). O nome mais importante nessa frente é o de Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, preso na quinta-feira, 17 de setembro de 2026.
A investigação sustenta que diálogos extraídos de celulares apreendidos indicariam contatos entre pessoas apontadas como integrantes ou intermediários da facção, empresários de ônibus, agentes públicos e figuras políticas. Em uma das passagens mais fortes, a Polícia Civil afirma que funcionários da SPTrans teriam vínculos com Korek e levanta a hipótese de tráfico de influência e outros crimes contra a administração pública. Em outra sequência, investigadores dizem que Levi teria participado de contatos e reuniões relacionados a interesses de empresas de ônibus. Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal que se entregou à polícia nesta sexta-feira (18), também aparece nas conversas como pessoa que deveria ser envolvida em determinadas decisões. Tudo isso, entretanto, ainda está em fase de investigação: não há condenação contra os citados e a existência dos diálogos, referências e indícios não significa, por si só, que os crimes tenham sido definitivamente comprovados.
POLÍCIA ESCREVE QUE FUNCIONÁRIOS DA SPTRANS TERIAM VÍNCULOS COM PAULO KOREK
Um dos trechos mais relevantes da representação da Polícia Civil trata diretamente da SPTrans.
Depois de analisar um áudio enviado em 30 de julho de 2024, os investigadores registraram que, na interpretação policial do material, ficaria evidenciada uma proximidade entre funcionários da empresa pública e Paulo Sirqueira Korek Farias.
A Polícia Civil vai além e registra que trabalha com a hipótese da ocorrência de tráfico de influência e de outros crimes contra a administração pública dentro da SPTrans.
A conclusão policial deriva principalmente de conversas atribuídas a José Daniel Satilite, apontado na investigação como integrante da estrutura criminosa e pessoa utilizada como intermediário no setor de transportes.
Segundo o documento, Satilite afirmaria que Korek tinha conhecimento amplo do que ocorria no transporte público e que decisões precisariam passar por seu aval.
O Gaeco reproduziu esse ponto da investigação em sua manifestação judicial. O documento do Ministério Público registra expressamente que, segundo os elementos apresentados pela Polícia Civil, funcionários da SPTrans teriam vínculos considerados suspeitos com Korek e que existiria hipótese de tráfico de influência e outros delitos contra a administração pública.
É importante observar uma diferença: nesse trecho, os documentos falam genericamente em “funcionários da SPTrans”, mas não individualizam outros empregados além de Levi dos Santos Oliveira nas passagens examinadas pelo Diário do Transporte.
Portanto, não é possível afirmar que haja neste momento um grupo determinado de servidores da SPTrans comprovadamente participante do esquema.
Há uma suspeita investigativa mais ampla e, dentro dela, um ex-presidente nominalmente identificado.
LEVI OLIVEIRA É O NOME DA SPTRANS MAIS DIRETAMENTE CITADO
Levi dos Santos Oliveira é tratado de maneira muito mais específica.
Ele presidiu a SPTrans em dois períodos. Assumiu inicialmente em 2020, durante a gestão do então prefeito Bruno Covas, deixou o cargo para comandar a Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito e voltou à presidência da companhia em 2022, permanecendo até fevereiro de 2025. Levi foi preso temporariamente na quinta-feira (17) durante a Operação Vectura Corrupta.
Segundo o Gaeco, embora Levi não apareça como interlocutor direto de José Daniel Satilite no material principal analisado, os dois teriam mantido encontros periódicos.
A manifestação do Ministério Público afirma que, segundo o que foi detectado, esses encontros tinham como finalidade tratar de interesses do PCC relacionados a empresas de transportes, especialmente após a deflagração da Operação Fim da Linha.
Essa é uma conclusão acusatória do Ministério Público nesta fase cautelar, e não uma sentença.
A defesa de Levi informou após a prisão que ainda não tinha acesso integral aos fundamentos da medida e destacou que o ex-presidente da SPTrans não possui antecedentes e construiu carreira de décadas no serviço público. Disse ainda que adotaria as providências jurídicas cabíveis após conhecer todos os elementos da investigação.
“JÁ TEMOS A RESPOSTA DO LEVI”, DIZ DIÁLOGO ANALISADO PELA INVESTIGAÇÃO
Outra sequência considerada relevante pelas autoridades envolve a situação da UPBus, empresa que já havia sido atingida pela Operação Fim da Linha.
Em conversa entre José Daniel Satilite e o advogado Cícero José dos Santos Filho, aparece uma discussão sobre uma eventual mudança de empresa.
Segundo a manifestação do Gaeco, Satilite teria dito que, antes de concretizar uma possível troca, seria necessário iniciar uma conversa com “Levi da São Paulo Transportes”.
A investigação identificou essa referência como sendo Levi dos Santos Oliveira, então presidente da SPTrans.
Em seguida, Satilite afirma que já havia obtido um retorno: “já temos a resposta do Levi”.
A Polícia Civil reproduz a mesma sequência em sua representação e identifica Levi como presidente da SPTrans no período das conversas.
O conteúdo não demonstra sozinho qual teria sido a resposta, se alguma providência administrativa foi efetivamente tomada por causa desses contatos ou se houve vantagem ilícita.
É exatamente essa conexão que os investigadores tentam esclarecer.
INVESTIGAÇÃO DIZ QUE SATILITE RELATOU CONVERSA DIRETA COM LEVI
O material avança para outra conversa.
José Daniel e Cícero discutiam Ubiratan Antônio da Cunha, chamado de “Bira”, que esteve ligado à UPBus, e Silvio Luiz Ferreira, chamado de “Cebola”.
Segundo a transcrição analisada pelo Gaeco, Satilite teria relatado que Levi perguntou se ele havia conversado com Bira. Satilite teria respondido que não precisava negociar com Bira, mas com quem identificava como o verdadeiro responsável pelos interesses em discussão.
Ao avaliar esse trecho, a Polícia Civil escreveu que, pela leitura das conversas, Levi teria conhecimento das tratativas que os investigadores relacionam ao crime organizado.
A Polícia Civil é ainda mais explícita na representação ao afirmar que, “pelas análises da fala de José Daniel”, o ex-presidente da SPTrans teria ciência das tratativas investigadas.
Mais uma vez, trata-se da interpretação dos investigadores sobre o conteúdo apreendido. Levi tem direito ao contraditório e à defesa, e não existe decisão definitiva declarando que ele efetivamente tenha atuado para beneficiar o PCC.
HÁ REFERÊNCIA A REUNIÃO COM LEVI E A UM ENCONTRO NA GARAGEM DA MOVEBUS
Os documentos também mencionam uma tentativa de marcar reunião com Levi.
A investigação afirma que Cícero pediu que fosse agendado um encontro com “Levi da SPTrans” e perguntou qual era sua função na empresa. A resposta identificava o interlocutor como dirigente da gestora.
Logo depois, a Polícia Civil relata ter encontrado nas conversas uma imagem de uma convocação atribuída a Levi para uma reunião na garagem da MoveBus, em 3 de outubro de 2024.
A existência de uma reunião da presidência da SPTrans numa garagem de operadora não constitui, isoladamente, irregularidade. A gestora mantém naturalmente contatos com concessionárias e operadores.
O que levou o encontro a ganhar relevância criminal para os investigadores foi o contexto das conversas nas quais ele apareceu e a presença, segundo a polícia, de pessoas ligadas à estrutura investigada.
É essa relação entre um ato que poderia ser administrativo e o contexto das mensagens apreendidas que a investigação pretende esclarecer.
MILTON LEITE E LEVI APARECEM NO MESMO NÚCLEO DE CONVERSAS
O ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite surge justamente nesse mesmo conjunto de diálogos.
Segundo o documento do Gaeco, José Daniel Satilite afirmou a Cícero que seria necessário “envolver o Milton Leite” para solucionar a situação da UPBus.
A conversa segue com a afirmação de que, antes de uma eventual troca de empresas, precisariam procurar Levi na SPTrans. Posteriormente aparece a referência à “resposta do Levi”.
Isso fez com que Polícia Civil e Ministério Público passassem a analisar conjuntamente uma possível articulação entre empresários, representantes ou integrantes da facção, agentes do poder público e figuras políticas.
A Polícia Civil chegou a registrar, ao contextualizar essa parte da investigação, Milton Leite, servidores públicos e Levi Oliveira no mesmo cenário investigativo e observou que os grandes casos recentes relacionados à suspeita de infiltração do crime organizado no transporte paulistano ocorreram durante o período em que Levi estava à frente da SPTrans e Milton presidia a Câmara.
Essa coincidência temporal, sozinha, evidentemente não constitui prova de crime. Ela é apresentada pela própria Polícia Civil como contexto para as demais evidências que busca reunir.
POLÍCIA E MP ASSOCIAM MILTON LEITE À OPERAÇÃO DE EMPRESAS, MAS ELE NEGA
O Gaeco registra que Milton Leite é mencionado diversas vezes e afirma que, segundo a investigação, ele apareceria como responsável por decisões envolvendo algumas empresas que os investigadores consideram controladas ou influenciadas pelo PCC.
O documento também reproduz a informação de que policiais militares, em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, apontaram Milton como suposto “dono de fato” da Transwolff.
Milton Leite nega as acusações.
Ele afirma não ter qualquer relação com o PCC, nega ser proprietário da Transwolff e sustenta que sua atuação no setor de ônibus sempre ocorreu no campo institucional. A Transwolff também afirma que Milton nunca integrou seu quadro societário, sua administração ou deu ordens na empresa.
Nesta sexta-feira (18), depois de ter sua prisão temporária decretada e não ter sido localizado durante a operação na quinta-feira, Milton Leite se apresentou à Polícia Civil em Mogi das Cruzes e foi preso em cumprimento à ordem judicial.
A2, PAULO KOREK E O ELO COM O NÚCLEO INVESTIGADO
A A2 Transportes ocupa posição central em outra parte dos documentos.
O Gaeco afirma que Paulo Sirqueira Korek Farias foi identificado pela investigação como empresário e gestor ligado à Translíder e à A2 e reproduz a conclusão policial segundo a qual ele atuaria como “testa de ferro” da organização criminosa e administraria interesses do crime organizado no setor de transportes.
Também é citado Júlio Salvador Filho, diretor da A2, que, segundo a investigação, participaria com Korek das decisões sobre pagamentos feitos a José Daniel Satilite e Claudionor Aparecido Sabino Tomaz.
Os dois são tratados pelos investigadores como pessoas usadas formalmente na Translíder, enquanto a investigação tenta demonstrar quem efetivamente exerceria o controle econômico e administrativo da empresa.
A A2 e Paulo Korek negam envolvimento com o PCC ou lavagem de dinheiro. Sustentam que os recursos da companhia decorrem dos contratos e pagamentos oficiais pela prestação do serviço de ônibus e afirmam colaborar com as investigações.
GAECO FALA EM “ROBUSTOS INDÍCIOS” DO ESQUEMA NO TRANSPORTE
Os documentos deixam claro que Polícia Civil e Ministério Público não tratam o material apenas como uma coleção de denúncias anônimas.
Em uma das passagens, o Gaeco usa expressamente a expressão “robustos indícios do esquema criminoso envolvendo empresas de transporte público” ao analisar conversas de José Daniel relacionadas à A2, empresas de ônibus e ao que seria a participação da organização criminosa.
Mais adiante, ao defender a prisão temporária dos 16 investigados, o Ministério Público afirma que a apuração encontrou “fundadas razões” de autoria ou participação e que as informações estariam sustentadas por diálogos, dados recolhidos na investigação e pelo laudo de análise do material apreendido.
O Gaeco também registra que a investigação aponta forte infiltração do crime organizado em contratos com o poder público.
Ao analisar as buscas, o próprio Ministério Público classifica como “substancial” o acervo probatório reunido em relação ao chamado núcleo principal, destacando que uma parte relevante das informações veio da extração de dados do celular de José Daniel Satilite.
Foi com base nesse conjunto que o Gaeco apoiou as prisões temporárias, buscas e apreensões e medidas patrimoniais pedidas pela Polícia Civil.
“ROBUSTOS INDÍCIOS” NÃO SIGNIFICAM CRIME COMPROVADO
Há uma distinção jurídica e jornalística fundamental.
Quando Polícia Civil e Ministério Público falam em fortes ou robustos indícios, acervo probatório substancial e fundadas razões, estão avaliando o material necessário para uma fase investigativa e para justificar medidas cautelares.
Isso não corresponde a uma sentença condenatória.
Nem Levi Oliveira, Milton Leite, Paulo Korek, dirigentes da A2 ou eventuais funcionários da SPTrans podem ser apresentados neste momento como autores definitivamente comprovados dos crimes investigados.
Essa diferença aparece, inclusive, na própria manifestação do Gaeco.
Embora tenha apoiado as prisões temporárias e as buscas contra o núcleo considerado central, o Ministério Público foi contra, naquele momento, o pedido da Polícia Civil para retirar simultaneamente 43 gestores de nove empresas de ônibus.
O Gaeco afirmou que, para esse grupo mais amplo, ainda não havia individualização suficiente da natureza e extensão da participação de cada pessoa e que uma medida dessa dimensão deveria ser sustentada por elementos mais robustos de cada agente.
Ou seja: o próprio Ministério Público separa a robustez que atribui ao núcleo principal da investigação da situação de dezenas de outras pessoas alcançadas pela apuração.
POLÍCIA INVESTIGA UMA REDE QUE IRIA DO PCC ÀS GARAGENS E AO PODER PÚBLICO
É essa diferenciação que permite compreender a dimensão da Operação Vectura Corrupta.
A tese investigativa não é apenas que integrantes do PCC teriam colocado dinheiro ilícito em empresas de ônibus.
Segundo os documentos, Polícia Civil e Ministério Público apuram uma possível cadeia formada por integrantes da facção, pessoas utilizadas como “laranjas”, empresários, operadores de ônibus, advogados, intermediários políticos e agentes públicos capazes de influenciar decisões sobre contratos, licitações e empresas do sistema.
A própria Polícia Civil afirma que a análise dos aparelhos apreendidos revelou uma situação que, na avaliação dos investigadores, comprometeria a atuação estatal por indicar possível infiltração do crime organizado na administração pública, especialmente no transporte.
É neste ponto que a presença da SPTrans na investigação ganha dimensão especial.
A companhia não é uma operadora privada entre as empresas investigadas. É justamente a empresa municipal encarregada de gerenciar, fiscalizar e organizar o sistema no qual essas concessionárias prestam serviço.
Por isso, uma eventual comprovação de que integrantes da própria gestora atuaram para favorecer interesses de empresários ou do crime organizado teria alcance institucional diferente das suspeitas envolvendo apenas operadores particulares.
Até agora, porém, isso permanece como objeto de investigação.
Levi está preso temporariamente, Milton Leite se apresentou e também teve cumprida a prisão temporária, e as autoridades seguem reunindo elementos a partir dos materiais apreendidos na operação. A prisão temporária tem natureza cautelar e não representa condenação.
O Diário do Transporte seguirá acompanhando as defesas, eventuais novos nomes da SPTrans que possam ser individualizados, os resultados da perícia dos equipamentos apreendidos e as decisões judiciais que definirão se as suspeitas levantadas por Polícia Civil e Ministério Público se sustentam no decorrer do processo.





