Obras do Corredor Itapecerica são novamente prorrogadas e conclusão fica para fevereiro de 2027. Promessa era para 2024

Intervenções entre os terminais João Dias e Capelinha deveriam ter terminado em 2024; consórcio afirma que serviços dependentes da Enel e de operadoras de telecomunicações interferem em 74% do cronograma

ADAMO BAZANI

A Prefeitura de São Paulo prorrogou por mais oito meses as obras de requalificação do Corredor Itapecerica, na zona sul da capital paulista. Com a decisão, publicada no Diário Oficial desta sexta-feira, 18 de setembro de 2026, a nova previsão de conclusão passou de 17 de junho de 2026 para 17 de fevereiro de 2027.

Documentos oficiais consultados pelo Diário do Transporte mostram que a extensão do prazo foi provocada principalmente pela demora no enterramento e no remanejamento de redes de energia elétrica e telecomunicações. Segundo o consórcio responsável pela obra, essas interferências atingem 74% do cronograma contratado. A concessionária de energia começou a atuar no trecho final somente em abril de 2026, enquanto as operadoras de telecomunicações ainda não tinham iniciado os serviços necessários para liberar todas as frentes de trabalho.

A intervenção compreende a reforma do corredor de ônibus e a requalificação das plataformas e paradas existentes entre os terminais João Dias e Capelinha. O prazo original era de dez meses, com término previsto para outubro de 2024, mas já havia sido ampliado duas vezes antes da nova prorrogação.

O terceiro aditamento modifica o prazo, mas não aumenta o valor do contrato neste momento. O consórcio, entretanto, informou que poderá pedir futuramente o reequilíbrio econômico-financeiro para cobrir custos indiretos e despesas adicionais decorrentes do prolongamento das obras.

Atraso no enterramento das redes impede liberação das frentes de trabalho

A justificativa mais detalhada aparece em uma carta enviada pelo Consórcio TS–Corredor Itapecerica à Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, a Siurb, em 27 de abril de 2026.

O documento informa que o andamento das obras depende da retirada e do remanejamento das redes da Enel e das operadoras de telecomunicações. Esses serviços precisam ser executados antes de diversas intervenções previstas no corredor, como pavimentação, reconstrução de calçadas, drenagem e adequação das paradas de ônibus.

Segundo o consórcio, as atividades relacionadas às redes de energia e telecomunicações afetam 74% do cronograma da obra. A empresa contratada argumenta que não consegue seguir a sequência prevista enquanto as áreas não são liberadas pelas concessionárias.

A carta registra que a concessionária de energia elétrica iniciou as intervenções no trecho final do corredor somente em 15 de abril de 2026. Na data do pedido de prorrogação, 27 de abril, as operadoras de telecomunicações ainda não tinham começado seus trabalhos.

Embora a concessionária de energia já estivesse atuando, o consórcio afirmou que o ritmo dos serviços permanecia incerto. A situação das empresas de telecomunicações foi considerada ainda mais crítica porque não havia cronogramas vinculantes que permitissem prever quando as demais frentes seriam liberadas.

A falta de acesso às áreas teria reduzido a produtividade e obrigado a contratada a manter engenheiros, equipes técnicas, instalações e toda a estrutura de administração local por um período muito superior ao previsto inicialmente.

O consórcio classificou a prorrogação de oito meses como uma estimativa técnica preliminar, baseada na expectativa de que as interferências sejam solucionadas a tempo. Também advertiu que poderão ser necessários novos adiamentos caso as operadoras de telecomunicações não iniciem os trabalhos ou o serviço da concessionária de energia avance em ritmo inferior ao esperado.

Fiscalização da SPObras confirmou impacto provocado pelas concessionárias

A Gerência de Obras de Viário da SPObras acolheu a justificativa apresentada pela contratada. Em manifestação elaborada em maio de 2026, a fiscalização declarou que as concessionárias envolvidas no enterramento das redes aéreas não estavam cumprindo o cronograma originalmente estabelecido.

Segundo a área responsável pelo acompanhamento da obra, os serviços de enterramento das redes interferem diretamente no desenvolvimento do contrato do Corredor Itapecerica. A fiscalização considerou justificada, por esse motivo, a ampliação solicitada pelo consórcio.

Há uma diferença importante de atribuição entre os documentos. A manifestação da SPObras menciona genericamente as concessionárias responsáveis pelas redes aéreas. Já a carta da contratada identifica expressamente a Enel e as operadoras de telecomunicações.

O percentual de 74% de interferência no cronograma e a projeção de que a obra passe de dez para aproximadamente 40 meses também foram apresentados pelo consórcio. Esses números integram a justificativa aceita pela administração municipal, mas não aparecem como cálculos independentes elaborados pela fiscalização.

Entrada tardia da Enel já havia sido registrada oficialmente em 2024

Os problemas com o remanejamento das redes não surgiram em 2026. Uma manifestação oficial da fiscalização, produzida em setembro de 2024, já apontava a entrada tardia da Enel como uma das causas do primeiro atraso.

Naquele documento, a SPObras informou que a concessionária era responsável pela escavação das valas destinadas ao enterramento da rede aérea em toda a extensão do corredor. Essas atividades foram classificadas como predecessoras, o que significa que precisavam ser concluídas antes do avanço de parte significativa das obras contratadas.

A fiscalização também apontou naquela ocasião a necessidade de reprogramar e reorganizar os serviços com base nos projetos executivos de pavimentação, drenagem, iluminação pública e desvios de tráfego.

Assim, a nova extensão não decorre de um fato isolado. Os documentos mostram uma sequência de atrasos associados às interferências subterrâneas, à entrada tardia da concessionária de energia e, mais recentemente, à falta de início dos serviços pelas operadoras de telecomunicações.

Obra acumula três prorrogações e conclusão foi adiada por 28 meses

O contrato para a execução das obras foi assinado em 4 de dezembro de 2023. O planejamento original previa dez meses de serviços e estabelecia 18 de outubro de 2024 como referência para o término.

O primeiro aditamento foi assinado em 29 de outubro de 2024 e acrescentou oito meses ao prazo, levando a conclusão para 18 de junho de 2025.

Em 29 de maio de 2025, um segundo aditamento ampliou o cronograma por mais 12 meses, estabelecendo 17 de junho de 2026 como a nova data.

A terceira prorrogação acrescenta outros oito meses, transferindo o término para 17 de fevereiro de 2027. Em comparação com a primeira previsão, o prazo foi ampliado em aproximadamente 28 meses.

Considerando a assinatura do contrato em dezembro de 2023 e a nova data de fevereiro de 2027, o período total se aproxima de 39 meses. É com base nessa evolução que o consórcio afirma que um planejamento inicialmente calculado para dez meses passou a se aproximar de 40 meses.

Alterações anteriores também ampliaram serviços necessários no corredor

Além das interferências provocadas pelas redes de energia e telecomunicações, documentos de aditamentos anteriores registraram a necessidade de adequar quantitativos e serviços aos projetos executivos desenvolvidos durante a obra.

Entre as intervenções mencionadas estão o aumento de placas de pavimento rígido, adequações de base e sub-base, demolições, reconstrução de calçadas depois do enterramento das redes e revisões nas estruturas das paradas de ônibus.

Também foram identificadas necessidades relacionadas à drenagem, à iluminação pública e aos desvios temporários de tráfego. Essas alterações ajudaram a reorganizar o planejamento da intervenção, mas a justificativa específica para a nova prorrogação de oito meses está concentrada no atraso das concessionárias responsáveis pelo remanejamento das redes.

Novo aditamento não libera recursos adicionais, mas consórcio poderá fazer cobrança futura

O ato publicado nesta sexta-feira autoriza apenas a prorrogação do prazo. A documentação técnica mostra que chegou a ser discutida também uma adequação da cláusula de reajuste, mas a diretoria responsável determinou que o processo prosseguisse somente com a ampliação do período contratual.

Dessa forma, o terceiro aditamento não prevê aumento imediato do valor da obra nem autoriza, neste momento, pagamento adicional relacionado à extensão do cronograma.

O consórcio, contudo, declarou expressamente que não está renunciando ao direito de pedir posteriormente um reequilíbrio econômico-financeiro. Uma eventual solicitação deverá ser apresentada em procedimento próprio, acompanhada de demonstrações contábeis dos custos indiretos e das despesas com a manutenção da administração local por mais tempo.

A contratada sustenta que os atrasos foram provocados por terceiros e estão fora de sua capacidade de decisão. Também afirma que cabe à Prefeitura de São Paulo articular as providências com concessionárias de serviços públicos e empresas de telecomunicações quando as interferências impedem o fluxo regular das obras.

O eventual reequilíbrio ainda não foi concedido. Caso seja apresentado, o pedido terá de passar por análise técnica e jurídica antes de qualquer reconhecimento de valores adicionais.

Corredor liga os terminais João Dias e Capelinha na zona sul de São Paulo

O contrato tem como objeto a requalificação das plataformas e paradas de embarque e a reforma do Corredor Itapecerica no trecho entre os terminais João Dias e Capelinha.

As obras envolvem estruturas utilizadas diariamente pelos passageiros de ônibus e intervenções no sistema viário. Por esse motivo, a retirada das redes aéreas e a liberação das áreas pelas concessionárias são etapas necessárias para a execução de serviços no pavimento, nas calçadas, nas paradas e em outros elementos do corredor.

A nova data de 17 de fevereiro de 2027 representa uma previsão contratual. A própria documentação apresentada pelo consórcio condiciona o cumprimento do cronograma à conclusão das intervenções da Enel e das operadoras de telecomunicações.

Se os serviços de terceiros não avançarem dentro do período estimado, a obra poderá enfrentar novas reprogramações. Até o momento, entretanto, a Prefeitura de São Paulo mantém fevereiro de 2027 como prazo para a conclusão das intervenções.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    Mais uma vez o “bode-expiatorio” ENEL…sei não.
    Sabemos que existe sim esse tipo de atraso. Mas desse jeito e a esse ponto???
    Conheço bem essa região, e acompanho desde o começo a bagunça que a Estrada de Itapecerica virou com essa…”obra”!
    Há vários precedentes desta e de outras gestões, que levantam suspeitas sobre esse atraso extrapolado.
    Sinceramente isso tem mais cara de “quebra tudo e deixa parado”, pra então vender como “obra sendo feita” e entregue lá no final do mandato e período eleitoral
    Filme velho e repetido…

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