Escassez de motoristas e mecânicos ameaça transporte rodoviário e desafia empresas a atrair novos profissionais

Painel realizado durante o ClickBus Academy debateu o apagão de mão de obra no setor; no transporte interestadual de passageiros, 84% apontam carência de motoristas, enquanto formação, qualificação e atração de jovens aparecem entre os caminhos para enfrentar o problema

ALEXANDRE PELEGI

A falta de motoristas profissionais e mecânicos deixou de ser apenas uma dificuldade de contratação das empresas para se transformar em um problema estrutural do transporte rodoviário brasileiro.

O tema foi debatido em painel realizado durante o **ClickBus Academy**, evento promovido pela ClickBus, com a participação de **Maria Adriana Resplandes Moreira, analista de Projetos Educacionais do SEST SENAT, e Maysa Gil Costa, diretora-executiva do Instituto Jelson da Costa Antunes (IJCA)**. A moderação foi de **Debora Kauffman, diretora de Gente e Gestão da ClickBus**.

O debate abordou o tamanho da escassez de profissionais, seus impactos sobre as operações e a segurança e os caminhos para atrair, formar e reter novos trabalhadores no transporte.

Dados apresentados por Maria Adriana mostram que a escassez de mão de obra qualificada já aparece como a **terceira maior ameaça ao setor transportador**, dentro de levantamento da CNT (Confederação Nacional do Transporte) que identificou 29 riscos para a atividade.

O problema ganha dimensão ainda maior quando o recorte é feito especificamente sobre o transporte de passageiros.

No transporte rodoviário urbano, **mais de 63% dos empresários apontaram os mecânicos como a atividade com maior carência de profissionais**, enquanto os motoristas aparecem em segundo lugar, citados por mais de 53%.

No transporte rodoviário interestadual de passageiros, a situação dos condutores é ainda mais crítica: **84% dos entrevistados indicaram os motoristas como a principal categoria profissional em falta**. Os mecânicos de manutenção aparecem na sequência.

Segundo Maria Adriana, o diagnóstico evidencia três problemas simultâneos: faltam profissionais, faltam trabalhadores qualificados e existe uma barreira adicional para quem pretende ingressar no setor — a exigência de experiência anterior.

“Não é apenas uma dor pontual, uma dificuldade de uma empresa ou outra de contratar”, afirmou.

As próprias empresas apontam a qualificação e a experiência entre as maiores dificuldades encontradas no recrutamento.

No transporte urbano de passageiros, a principal dificuldade relatada é encontrar profissionais capacitados e com treinamento direcionado ao setor. Logo depois aparece a falta de experiência.

No segmento interestadual, a ordem se inverte, mas os dois problemas permanecem no topo: pouca experiência profissional e falta de qualificação adequada.

Falta de profissionais também pressiona segurança operacional

O apagão de mão de obra não interfere apenas no preenchimento das escalas.

Quando uma empresa mantém vagas abertas e não consegue contratar, explicou Maria Adriana, a pressão operacional acaba recaindo sobre os trabalhadores que permanecem na atividade.

Isso reduz a flexibilidade das escalas e pode aumentar a sobrecarga das equipes, com reflexos sobre a segurança.

O problema se torna especialmente sensível entre os motoristas profissionais. A atividade, segundo a analista do SEST SENAT, exige atualmente competências que vão muito além de simplesmente conduzir um ônibus.

O profissional precisa operar veículos com tecnologias embarcadas cada vez mais sofisticadas, tomar decisões rapidamente, antecipar riscos, conhecer as características do equipamento e manter atenção permanente às condições das rodovias.

“Ele está carregando vidas”, destacou Maria Adriana.

Por isso, segundo ela, a capacitação precisa acompanhar toda a carreira do motorista.

“Não é só dizer: ‘vai lá e dirige com segurança’. São competências que precisam ser desenvolvidas, aprimoradas e atualizadas ao longo da carreira.”

SEST SENAT aposta em atração, formação e retenção

Para enfrentar a escassez, o SEST SENAT estruturou sua estratégia em cinco frentes: atração, formação, conexão com o mercado de trabalho, cuidado com o trabalhador e valorização profissional.

Uma das iniciativas é o programa Mais Motoristas, que subsidia integralmente a mudança de categoria da Carteira Nacional de Habilitação para interessados em ingressar profissionalmente no transporte.

Desde 2023, segundo os dados apresentados no ClickBus Academy, mais de 16 mil habilitações nas categorias C, D e E já foram entregues.

Um novo edital recebeu aproximadamente 130 mil inscrições.

O desafio agora é conseguir atender essa demanda. Entre os gargalos está a quantidade limitada de centros de formação preparados para realizar mudanças de categoria.

Maria Adriana afirmou que a intenção é atender os 130 mil inscritos, embora tenha ressaltado que isso não será possível no curto prazo por causa das limitações estruturais existentes.

A expectativa apresentada durante o painel é ampliar a capacidade de atendimento em 2027.

Formação tenta romper barreira da falta de experiência

Depois da habilitação, entra outra etapa considerada fundamental: preparar efetivamente o novo motorista para trabalhar profissionalmente.

A Escola de Motoristas Profissionais do SEST SENAT oferece formação teórica e prática, envolvendo competências técnicas e comportamentais.

A estratégia procura atacar justamente uma das principais contradições reveladas pelas pesquisas: as empresas precisam contratar, mas trabalhadores recém-formados encontram dificuldades porque não possuem experiência anterior.

Segundo Maria Adriana, algumas empresas e embarcadores já passaram a aceitar a formação da Escola de Motoristas Profissionais como alternativa à exigência de determinado período de experiência.

“Tem muita vaga e não tem profissional. Como podemos atuar? Nós vamos habilitar e treinar esse profissional para que ele possa entrar no mercado de trabalho”, explicou.

Outra ferramenta é o Emprega Transporte, plataforma destinada a conectar profissionais interessados em trabalhar no setor às empresas com vagas abertas.

O SEST SENAT também mantém formação direcionada a mecânicos e profissionais de manutenção, outra área em que a escassez aparece de forma significativa nas pesquisas.

Empresas precisam abrir portas para quem está começando

Apesar do esforço de formação, Maria Adriana chamou a atenção para a necessidade de mudança também do lado das empresas.

Segundo ela, exigir experiência de trabalhadores recém-qualificados pode acabar criando uma barreira justamente no momento em que o transporte enfrenta dificuldades para preencher suas vagas.

“É preciso que as empresas se abram a isso. Ao contratar, ao ter vagas abertas, procurem os profissionais que foram formados. Tem muita gente que estamos injetando no mercado e que precisa dessa oportunidade.”

A formação técnica pode, portanto, funcionar como instrumento para romper um círculo que dificulta a renovação da mão de obra: as empresas precisam de trabalhadores experientes, enquanto novos profissionais não conseguem adquirir experiência porque encontram barreiras para obter a primeira oportunidade.

Jovens querem emprego formal e crescimento profissional

A discussão sobre renovação da mão de obra também passou pela necessidade de tornar o transporte mais atraente às novas gerações.

Maysa Gil Costa, diretora-executiva do Instituto Jelson da Costa Antunes (IJCA), apresentou a experiência da entidade na formação e inserção profissional de jovens.

Fundado em 2004 pelo empresário do setor de transportes Jelson da Costa Antunes, o IJCA é um investimento social familiar que atua na área de educação, com projetos voltados à ampliação das oportunidades para jovens.

Segundo os dados apresentados no painel, mais de 6 mil jovens foram inseridos em formações profissionais e estudantis ao longo da atuação da instituição.

Entre os participantes de uma das iniciativas educacionais do instituto, 80% ingressam no ensino superior. No mercado de trabalho, os índices apresentados apontam ingresso de 88% dos homens e 78% das mulheres.

Maysa destacou que compreender o que os jovens procuram é fundamental para tornar as carreiras profissionais mais atraentes.

Entre os jovens atendidos pelo instituto, 52% estão em busca do primeiro emprego formal. Os principais desejos identificados incluem **crescimento profissional e pessoal, independência financeira e contratação pelo regime CLT**.

A diretora-executiva chamou a atenção para a necessidade de investigar as expectativas dessa geração antes de discutir simplesmente por que determinadas carreiras perderam atratividade.

Para Maysa, empresas e instituições precisam compreender os interesses dos jovens e, ao mesmo tempo, manter as formações conectadas às transformações do mercado.

A atualização dos currículos, a incorporação das inovações tecnológicas e a aproximação entre instituições formadoras e empresas estão entre os caminhos apontados para conectar as oportunidades existentes no transporte às expectativas dos jovens.

Retenção é tão importante quanto contratação

O debate no ClickBus Academy mostrou ainda que resolver a escassez não significa apenas colocar novos profissionais dentro das garagens.

É necessário também criar condições para que eles permaneçam na atividade.

Por isso, a estratégia apresentada pelo SEST SENAT inclui ações relacionadas à saúde física e mental, odontologia, nutrição, fisioterapia, esporte, lazer e cultura.

Outro eixo é a valorização profissional.

Uma das iniciativas é o Motorista Série A, programa que acompanha critérios relacionados à capacitação, saúde, comportamento profissional, infrações e desempenho na condução dos veículos.

Na edição anterior, mais de 8 mil motoristas se inscreveram

Para a próxima edição, as inscrições estão previstas entre **21 de setembro e 21 de outubro de 2026**. De acordo com as informações apresentadas no painel, a premiação desta edição será de três veículos.

A iniciativa procura acrescentar à discussão sobre contratação outro elemento considerado necessário para enfrentar a escassez: a valorização de quem já escolheu a profissão.

Desafio é aproximar vagas de quem procura oportunidade

O painel do ClickBus Academy, moderado por Debora Kauffman, mostrou que o enfrentamento do apagão de mão de obra passa por um ciclo que começa antes da contratação e continua depois dela: atrair pessoas para o transporte, qualificá-las, facilitar sua entrada no mercado, cuidar de suas condições de trabalho e criar mecanismos para que permaneçam e construam carreira no setor.

Os números também expõem um desafio importante.

Enquanto empresas relatam dificuldade crescente para encontrar motoristas e mecânicos, o programa Mais Motoristas recebeu cerca de **130 mil inscrições** de interessados na mudança de categoria da CNH.

Ao mesmo tempo, a experiência apresentada pelo IJCA mostra uma parcela de jovens procurando o primeiro emprego formal e manifestando interesse em estabilidade, independência financeira e crescimento profissional.

Há, portanto, vagas que precisam ser preenchidas e pessoas procurando oportunidades. Entre uma ponta e outra permanecem obstáculos como qualificação, experiência, acesso à formação e atratividade das carreiras.

O desafio do setor é aproximar esses dois mundos.

SOBRE O IJCA

O **Instituto Jelson da Costa Antunes (IJCA)** é um investimento social familiar fundado em 2004 pelo empresário do setor de transportes Jelson da Costa Antunes.

A organização atua na área de educação, desenvolvendo projetos para ampliar as oportunidades de jovens e contribuir para que tenham mais possibilidades de escolha na construção de seus percursos profissionais e pessoais.

A atuação parte do entendimento de que a desigualdade social precisa ser enfrentada por meio da ampliação das oportunidades educacionais, profissionais e de desenvolvimento da juventude.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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