Envia By Bus aposta em bagageiros de ônibus para ampliar logística de encomendas no Brasil

Empresa integra transportadoras rodoviárias e tecnologia para aproveitar capacidade disponível nos ônibus; fundador Miguel Petribú diz que modelo pode oferecer prazos menores que o caminhão e custos inferiores aos do transporte aéreo

ALEXANDRE PELEGI

O bagageiro dos ônibus rodoviários pode assumir um papel cada vez mais relevante na logística brasileira, especialmente no transporte de encomendas para cidades do interior. Essa é a aposta da Envia By Bus, empresa fundada por Miguel Petribú que utiliza a malha regular do transporte de passageiros para conectar embarcadores a diferentes regiões do País.

Em entrevista ao Diário do Transporte durante a feira Logística do Futuro (dia 10/09/2026), Petribú explicou que o modelo procura aproveitar uma característica essencial do transporte regular de passageiros: o ônibus parte de acordo com uma programação preestabelecida, independentemente de estar com sua capacidade de passageiros ou de cargas totalmente ocupada.

Na prática, a proposta é transformar essa regularidade e capilaridade em um ativo logístico.

“O ônibus, além de ter o papel social de transportar passageiros, na parte de baixo é uma transportadora de carga”, afirmou Petribú.

Segundo ele, a Envia By Bus atua como integradora, conectando embarcadores a diferentes empresas rodoviárias e utilizando tecnologia para acompanhar a encomenda durante todo o percurso.

Ideia começou ainda na aviação

A origem do projeto remonta ao ano 2000, quando Petribú trabalhava na TAM Linhas Aéreas. A questão que se apresentava era simples: o avião chegava aos aeroportos, mas como levar as encomendas às milhares de cidades brasileiras que não possuem infraestrutura aeroportuária?

Foi nesse momento que surgiu a percepção de que a rede de ônibus poderia complementar o transporte aéreo na chamada transferência secundária.

Petribú acumulou posteriormente experiências em empresas como DHL, FedEx, TAM e Azul, além de companhias ligadas ao transporte rodoviário, como Pássaro Marron, Buslog e Itapemirim, ainda na época de Camilo Cola.

Há sete anos, decidiu transformar essa experiência em um negócio próprio.

Inicialmente, a demanda estava concentrada no B2B, com encomendas de empresas destinadas, por exemplo, a hospitais e outros estabelecimentos. O crescimento do comércio eletrônico ampliou significativamente esse mercado.

Com pacotes muitas vezes pequenos e leves, o e-commerce trouxe uma necessidade adicional: chegar rapidamente a um número cada vez maior de cidades.

Entre o caminhão e o avião

Na avaliação de Petribú, o ônibus ocupa uma faixa pouco explorada entre o transporte rodoviário convencional de cargas e o aéreo.

O caminhão pode oferecer custos competitivos, mas enfrenta jornadas, paradas e outras limitações operacionais. O avião é muito mais rápido entre aeroportos, porém apresenta custos superiores e depende da continuidade terrestre da entrega.

O ônibus regular, argumenta o empresário, oferece uma terceira possibilidade.

Como exemplo, Petribú cita uma encomenda entre São Paulo e Vilhena, em Rondônia. Segundo ele, uma operação convencional por caminhão poderia levar aproximadamente 15 dias, enquanto pelo sistema de ônibus o percurso poderia ser realizado em cerca de seis dias.

“A carga acaba tendo o benefício que o passageiro tem de viajar no menor tempo possível”, disse.

Em síntese, a proposta comercial é oferecer ao embarcador uma solução mais rápida e previsível que determinadas operações por caminhão e mais barata que o transporte aéreo, dependendo da origem, destino e características da encomenda.

A solução também é utilizada por outras transportadoras. Petribú afirma que aproximadamente metade dos clientes da Envia By Bus pertence ao próprio setor de transporte de cargas.

Nesses casos, a empresa pode funcionar como alternativa ao envio de um veículo dedicado para transportar uma única encomenda a longas distâncias.

Integração de diferentes empresas de ônibus

Um dos desafios está na fragmentação da malha rodoviária brasileira.

Uma empresa que necessita realizar entregas nacionais teria dificuldade para administrar individualmente dezenas de operadores de ônibus, cada um com seus sistemas, documentos, contatos e faturamento.

É nesse ponto que entra o papel de integradora da Envia By Bus.

“Um grande cliente que precisa de distribuição nacional necessita de várias empresas de ônibus. Ele não tem tempo para falar com 40 empresas, receber 40 faturas e administrar 40 WhatsApps. Precisa de um operador que cuide dessa integração”, explica o empresário.

Segundo Petribú, a empresa trabalha atualmente integrada aos sistemas de gestão utilizados pelas transportadoras e consegue emitir documentos e etiquetas remotamente, além de receber ocorrências de embarque e desembarque e informações de localização.

Tecnologia acompanha a carga

Petribú afirma que cerca de 10% dos funcionários da Envia By Bus trabalham na área de tecnologia.

Para ele, o transporte físico deixou de ser suficiente: o cliente exige saber onde está a encomenda e quando ela chegará.

A empresa integra seus sistemas aos TMS — Transportation Management Systems, plataformas utilizadas para gerenciar operações logísticas. Por meio dessas integrações são tratados documentos como o CT-e, Conhecimento de Transporte Eletrônico, e o MDF-e, Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais, além das ocorrências operacionais.

Dados do GPS dos ônibus também podem ser convertidos em notificações destinadas aos clientes.

Transporte físico sem tecnologia não satisfaz todo mundo. Os dois têm que andar juntos”, ressalta o executivo.

Uma peça de computador pode atravessar o País de ônibus

Petribú usa a manutenção de caixas eletrônicos como exemplo do potencial da rede.

Uma pequena peça necessária para reparar um equipamento instalado em uma cidade distante pode ser despachada utilizando sucessivamente diferentes empresas de ônibus.

No exemplo apresentado durante a entrevista, uma peça poderia sair de São Paulo, chegar a Rio Branco e posteriormente seguir em outra linha até Cruzeiro do Sul, no Acre.

O técnico responsável pelo reparo recebe informações sobre a evolução da viagem e consegue programar seu deslocamento para encontrar a encomenda.

O sistema também permite fazer o caminho inverso, utilizando a logística reversa para devolver componentes que precisam ser reparados ou recondicionados.

Do “last mile” para o “last block”

Para o fundador da Envia By Bus, uma nova transformação está ocorrendo na logística.

Depois de conceitos como first mile, middle mile e last mile, a atenção estaria migrando para aquilo que Petribú chama de “last block”, ou último quarteirão.

É o trecho final da entrega, quando informações aparentemente simples passam a ser decisivas: quem recebeu, em qual horário, onde a mercadoria foi deixada e qual é a comprovação da entrega.

Isso vale tanto para o comércio eletrônico quanto para operações B2B. “A energia da tecnologia está muito mais agora na ponta, seja no B2B ou no B2C”, diz Petribú.

Fotos, QR Codes, confirmação de recebimento e notificações passam, portanto, a integrar o serviço logístico tanto quanto o deslocamento físico da encomenda.

Contêineres dentro do bagageiro

Outra experiência trazida da aviação está na forma de acomodar as cargas.

Petribú explica que, nos aeroportos, malas e encomendas são organizadas previamente em contêineres, reduzindo o tempo de permanência da aeronave em solo.

A empresa adaptou o princípio ao ônibus.

São utilizados contêineres sobre pallets que podem ser carregados previamente no centro de distribuição do cliente e depois movimentados até o bagageiro.

A solução busca melhorar a ocupação cúbica, reduzir o trabalho realizado pelos funcionários dentro do compartimento e acelerar a operação.

Segundo Petribú, o carregamento de um contêiner previamente preparado pode ser realizado em cerca de cinco minutos.

65 mil partidas diárias

O tamanho potencial dessa rede é um dos principais argumentos apresentados pela empresa.

Petribú afirma que o ecossistema utilizado pela Envia By Bus envolve aproximadamente 320 empresas rodoviárias e que o País registra cerca de 65 mil partidas de ônibus por dia.

Ele estima ainda que um ônibus LD possa disponibilizar aproximadamente três toneladas de capacidade para encomendas, dependendo naturalmente da operação e da utilização do bagageiro.

Para o empresário, apenas uma pequena parcela desse potencial é atualmente aproveitada. “As empresas de ônibus como um todo talvez usem menos de 10% dessa oferta de capacidade”, explica.

A comparação feita por Petribú durante a feira é ilustrativa: segundo ele, o volume disponível no bagageiro de determinados ônibus pode equivaler à capacidade de aproximadamente quatro veículos comerciais leves do tipo Fiorino.

Estradas ainda são uma limitação

O modelo, entretanto, depende da mesma infraestrutura que afeta o transporte rodoviário de passageiros.

Estradas ruins, trechos não pavimentados, interrupções e travessias por balsas podem comprometer velocidade, custos e previsibilidade.

Petribú afirma que essas características são incorporadas ao cálculo dos tempos previstos de viagem quando fazem parte regularmente do percurso.

Em rotas amazônicas, por exemplo, o tempo necessário para uma travessia por balsa pode integrar previamente o SLA — Service Level Agreement, ou nível de serviço contratado.

Segundo o empresário, o índice de cumprimento do SLA da Envia By Bus está atualmente em 98%.

Tornar o ônibus um modal logístico conhecido

Para Petribú, o próximo desafio não é necessariamente criar uma nova infraestrutura, mas fazer com que o mercado enxergue uma estrutura que já existe.

O transporte de encomendas em ônibus não é novidade. Empresas rodoviárias realizam esse serviço há décadas. A mudança estaria na possibilidade de integrar operadores diferentes, digitalizar os processos e oferecer ao embarcador uma rede nacional com acompanhamento padronizado.

“O ônibus não está na sala de visita dos profissionais de logística”, resumiu.

O objetivo, diz, é popularizar o ônibus como alternativa logística, colocando-o ao lado de caminhões, aviões e cabotagem no planejamento dos embarcadores.

A tese da Envia By Bus parte, portanto, de um ativo que já percorre diariamente o País: milhares de ônibus cumprem suas viagens regulares levando passageiros. A oportunidade está em utilizar melhor o espaço disponível sob seus pés — e fazer com que a informação sobre cada encomenda viaje tão rápido quanto ela.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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