UITP alerta para risco de dependência de fornecedores em novas bilhetagens e aponta tarifa automática mais barata e PIX entre caminhos para o transporte público

Estudo internacional atualizado em 2026 defende sistemas abertos, APIs e possibilidade de múltiplos fornecedores; relatório também mostra como tecnologia pode calcular a menor tarifa para cada passageiro e cita sistema brasileiro de pagamentos instantâneos como alternativa de baixo custo

ADAMO BAZANI

Autoridades e operadores de ônibus, metrôs e trens precisam evitar que a modernização da bilhetagem eletrônica crie uma dependência tecnológica e financeira excessiva de um único fornecedor. A recomendação aparece no estudo “Ticketing & Payments in Public Transport – Beyond demystification”, atualizado em 2026 pela UITP (Associação Internacional de Transportes Públicos), que aponta padrões abertos, APIs e sistemas capazes de trabalhar com diferentes empresas como caminhos para reduzir o chamado “vendor lock-in”, situação na qual trocar, ampliar ou modificar uma plataforma pode ficar tecnicamente difícil e caro.

O relatório também mostra que modernizar a bilhetagem pode trazer benefícios diretos para quem utiliza o transporte: sistemas mais novos conseguem calcular automaticamente a tarifa mais vantajosa conforme as viagens realizadas, inclusive estabelecendo tetos diários, semanais ou mensais. Em outra frente, a UITP cita expressamente o PIX, do Brasil, entre os sistemas nacionais de pagamento que podem ser usados de forma complementar no transporte coletivo, com liquidação em tempo real e redução da dependência de cartões próprios. O estudo recebeu contribuições e revisão técnica do Banco Mundial, que ressalva não necessariamente endossar todas as conclusões apresentadas.

NOVA BILHETAGEM PODE MODERNIZAR O SISTEMA, MAS TAMBÉM PRENDER O PODER PÚBLICO A UMA EMPRESA

O primeiro alerta do estudo diz respeito a uma questão que normalmente não aparece para o passageiro quando ele aproxima um cartão ou celular do validador: quem controla a tecnologia que está por trás da cobrança.

Durante décadas, sistemas de bilhetagem foram adquiridos com equipamentos, programas e estruturas próprias. Com a expansão da computação em nuvem e do ABT, sigla em inglês para bilhetagem baseada em conta, cresce o uso do modelo Software as a Service, conhecido como SaaS.

Nesse modelo, em vez de possuir necessariamente todo o programa instalado em seus próprios servidores, a autoridade ou operador contrata o software como um serviço continuado.

A UITP aponta vantagens. Sistemas SaaS podem receber atualizações constantemente, aumentar de capacidade com mais facilidade e utilizar estruturas dedicadas de hospedagem que podem oferecer maior disponibilidade e segurança.

O problema aparece quando a arquitetura central, o código-fonte e as regras de funcionamento permanecem específicos de uma única empresa.

Segundo o relatório, nesse cenário pode ser pouco realista imaginar que uma nova fornecedora conseguirá assumir e desenvolver o sistema sem forte participação da empresa que criou a plataforma original.

É o chamado vendor lock-in.

Em uma tradução próxima da realidade das licitações brasileiras, significa o contratante ficar tecnologicamente “preso” ao fornecedor.

Uma nova funcionalidade pode depender dele. Uma expansão pode depender dele. Integrações com outros sistemas podem depender dele. E uma eventual troca, mesmo após nova licitação, pode exigir uma transição cara e tecnicamente complexa.

PROBLEMA NÃO É O SAAS EM SI, MAS A AUSÊNCIA DE ABERTURA E GOVERNANÇA

O documento não conclui que contratar bilhetagem como serviço seja ruim.

Ao contrário: afirma que o SaaS está se tornando cada vez mais comum no setor.

O cuidado é com a forma como a tecnologia é contratada e estruturada.

A UITP diz que padrões técnicos, interfaces abertas, acesso aberto a APIs e alternativas com múltiplos fornecedores podem ajudar a construir sistemas mais flexíveis, expansíveis e econômicos.

API é, de forma simplificada, uma interface que permite que programas diferentes troquem informações e executem funções entre si.

Isso é particularmente importante em transporte público porque uma bilhetagem moderna pode precisar conversar com sistemas de ônibus municipais e metropolitanos, metrôs, trens, BRTs, aplicativos, bancos, carteiras digitais e outros serviços de mobilidade.

Se cada parte dessa comunicação depender exclusivamente da tecnologia fechada de uma única empresa, a interoperabilidade fica mais difícil.

CÓDIGO-FONTE E CONTINUIDADE DO SERVIÇO TAMBÉM PRECISAM ENTRAR NOS CONTRATOS

O relatório apresenta ainda mecanismos para reduzir o risco de o contratante ficar desassistido.

Um deles é o uso de estruturas de custódia do código-fonte, conhecidas no mercado como escrow.

Neste modelo, uma cópia do código pode permanecer sob guarda independente, com condições contratuais para que a autoridade possa utilizá-la caso o fornecedor deixe de cumprir o contrato ou, por exemplo, não tenha mais condições de manter o sistema.

A discussão é relevante porque bilhetagem não é apenas um meio de cobrar passagem.

Ela arrecada receita, controla gratuidades e benefícios, registra viagens, viabiliza integrações e gera dados utilizados no planejamento da operação.

Uma indisponibilidade prolongada ou uma transição malfeita pode afetar diretamente milhões de passageiros e o caixa das empresas operadoras.

SISTEMA DO FUTURO, PARA UITP, DEVE SER ABERTO E EXPANSÍVEL

Na conclusão, a UITP afirma que um sistema moderno deve reunir quatro características: flexibilidade, abertura, possibilidade de expansão e economicidade.

A flexibilidade permite alterar tarifas e criar produtos mais rapidamente.

A abertura e a capacidade de expansão facilitam a integração de novos meios de pagamento, operadores, fornecedores, modos de transporte e canais de venda.

O relatório defende ainda equilíbrio entre sistemas baseados no próprio cartão e arquiteturas baseadas em contas, combinadas com meios como cartão bancário por aproximação, NFC no celular e bilhetes móveis.

ABT MUDA O PAPEL DO CARTÃO DE TRANSPORTE

Uma das tecnologias centrais analisadas é justamente o Account-Based Ticketing, ou ABT.

Nos sistemas tradicionais baseados em mídia, informações importantes, como créditos e direitos de viagem, ficam armazenadas no cartão utilizado pelo passageiro.

No ABT, a lógica é diferente.

Os direitos de viagem, registros e regras tarifárias ficam principalmente no sistema central. O cartão, telefone, cartão bancário ou outro dispositivo funciona essencialmente como uma chave para identificar aquela conta.

Isso permite combinar vários meios de acesso sem necessariamente emitir um cartão de transporte para cada passageiro.

Mas também aumenta a importância de servidores, conectividade, segurança cibernética e proteção de dados.

A UITP ressalta que infraestruturas centralizadas precisam de criptografia, tokenização, padrões de segurança financeira e monitoramento contínuo.

PASSAGEIRO PODE SIMPLESMENTE VIAJAR E DEIXAR O SISTEMA DESCOBRIR A MENOR TARIFA

Depois da questão de governança e contratação, o estudo avança para uma mudança que pode ser muito mais perceptível ao passageiro.

É o chamado Best Fare Calculation, ou cálculo da melhor tarifa.

Em vez de obrigar a pessoa a decidir antecipadamente qual bilhete comprar, o próprio sistema acompanha as viagens e calcula posteriormente a alternativa mais barata.

Um passageiro poderia, por exemplo, utilizar o transporte várias vezes durante o dia aproximando sempre o mesmo cartão ou celular.

Ao atingir um limite previamente definido, o sistema deixaria de cobrar novas viagens naquele período.

Esse mecanismo é conhecido como fare capping, ou teto tarifário.

A UITP afirma que podem existir limites diários, semanais e mensais e que a tecnologia permite combinar tarifas por horário, zona, modo ou trajeto sem transferir toda essa complexidade para o passageiro.

MODELO PODE BENEFICIAR QUEM NÃO TEM DINHEIRO PARA COMPRAR PASSE MENSAL DE UMA VEZ

Há uma consequência social destacada no relatório.

Segundo a UITP, o cálculo automático da tarifa mais vantajosa pode ser mais equitativo para passageiros de menor renda.

O motivo é simples.

Uma pessoa pode saber que utilizará transporte todos os dias e que um passe mensal seria mais barato, mas não possuir dinheiro suficiente no início do mês para pagar todo o valor antecipadamente.

Ela acaba comprando viagens individuais e, no fim, pode gastar mais.

No sistema com teto tarifário, o passageiro paga conforme utiliza. Quando as cobranças acumuladas atingem o limite equivalente ao produto mais econômico, o sistema deixa de cobrar além daquele valor.

O relatório cita estudos segundo os quais pessoas de renda menor frequentemente não compram passes mensais mesmo quando seriam financeiramente mais vantajosos.

MAIS JUSTO PARA O PASSAGEIRO PODE SIGNIFICAR MENOS RECEITA ANTECIPADA

A UITP também apresenta o outro lado.

Esse modelo pode reduzir a receita obtida com determinadas modalidades de passes.

No bilhete mensal tradicional, por exemplo, o passageiro paga antecipadamente por um período, mesmo que depois realize menos viagens do que o previsto.

Com o cálculo automático, são consideradas as viagens efetivamente realizadas e aplicado o teto mais vantajoso.

Há ainda diferença no fluxo de caixa: passes tradicionais trazem receita antecipada, enquanto no modelo pós-pago o dinheiro chega gradualmente.

Portanto, implantar uma política de “melhor tarifa” exige avaliar não apenas tecnologia, mas também financiamento do sistema e divisão das receitas entre operadores.

BRASIL APARECE NO ESTUDO COM PIX

Na sequência, o relatório chama atenção diretamente para uma tecnologia brasileira.

Ao abordar sistemas nacionais abertos de pagamento, a UITP cita nominalmente:

País Sistema
Brasil PIX
Portugal MB Way
Índia UPI

Segundo o documento, esses meios vêm sendo utilizados de forma complementar na cobrança de transportes porque oferecem alcance amplo, baixo custo de transação e liquidação em tempo real, sem exigir necessariamente um equipamento proprietário específico para cada sistema.

A UITP afirma que podem servir para pagar uma viagem unitária, fazer recargas ou adquirir pacotes de mobilidade.

O passageiro poderia realizar a operação diretamente pela conta bancária ou carteira digital.

PIX PODE DIMINUIR DEPENDÊNCIA DOS CARTÕES FECHADOS

O estudo destaca como uma das vantagens a possibilidade de reduzir a dependência dos chamados sistemas closed-loop.

São aqueles nos quais o passageiro precisa possuir um meio específico emitido para aquele transporte, como um cartão próprio.

Segundo a UITP, sistemas nacionais de pagamento instantâneo podem ampliar a aceitação de pagamentos, manter capacidade de auditoria da arrecadação e diminuir custos de transações e taxas.

Quando combinados ao ABT, podem ainda proporcionar validação imediata do direito de viajar e participar de integrações entre ônibus, metrôs, trens e micromobilidade.

Isso não quer dizer que a UITP recomende simplesmente extinguir cartões de transporte e colocar PIX em seu lugar.

O próprio relatório defende convivência de tecnologias e transições graduais conforme as características locais.

BILHETE ÚNICO DE SÃO PAULO TAMBÉM É CITADO COMO REFERÊNCIA DE UMA GERAÇÃO ANTERIOR

O Brasil aparece em outro ponto interessante do estudo.

Ao contar a evolução da bilhetagem inteligente, a UITP relaciona alguns dos sistemas de cartões de transporte mais conhecidos internacionalmente:

Oyster, de Londres; Octopus, de Hong Kong; Navigo, de Paris; Suica, do Japão; e o Bilhete Único, de São Paulo (SP).

Neste tipo de arquitetura, os direitos de viagem e informações ficam armazenados no chip do cartão.

A comparação mostra duas etapas da evolução tecnológica presentes no mesmo relatório.

De um lado está o Bilhete Único paulistano como exemplo de uma geração de cartões inteligentes que substituiu sistemas anteriores e ampliou as possibilidades de integração.

De outro está o PIX citado entre as alternativas que podem participar de uma nova fase, na qual conta, processamento central e diferentes meios de pagamento ganham importância.

CARTÃO DE CRÉDITO OU DÉBITO TAMBÉM PODE SER A PRÓPRIA PASSAGEM

Outra alternativa analisada é o open-loop com cartões bancários.

Nesse sistema, o passageiro aproxima diretamente no validador o cartão de débito ou crédito, ou sua versão digital armazenada no celular.

Não há necessidade de comprar previamente um cartão específico do transporte.

A UITP considera conveniência e familiaridade as principais vantagens, especialmente para turistas e passageiros eventuais.

Mas novamente existe uma ressalva social.

O próprio relatório reconhece que o modelo pressupõe acesso do passageiro ao sistema bancário, condição que não está presente para todas as pessoas ou em todos os mercados. Por isso, tecnologias abertas podem precisar conviver com cartões próprios, dinheiro ou outros meios.

NÃO É O “FIM DO CARTÃO”

Um dos pontos mais importantes do documento é justamente não tratar inovação como substituição imediata de tudo aquilo que já existe.

A UITP afirma que novas tecnologias de bilhetagem não tornam automaticamente obsoletas as anteriores.

Cartões inteligentes, bilhetes de papel e outros meios continuam operando porque os sistemas existentes receberam investimentos elevados e porque passageiros possuem condições tecnológicas e financeiras diferentes.

O desafio é integrar e migrar sem impedir ninguém de viajar.

Durante uma mudança, sistemas antigos e novos podem funcionar paralelamente.

Em uma rede com milhares de ônibus e milhões de passageiros, a migração pode ser gradual, inclusive porque substituir de uma única vez validadores, cartões, sistemas centrais e redes de venda envolve custos elevados e riscos operacionais.

TECNOLOGIA NÃO RESOLVE SOZINHA A POLÍTICA TARIFÁRIA

A conclusão da UITP também evita uma visão de que basta instalar novos validadores para modernizar o transporte.

A escolha de um sistema de cobrança envolve tecnologia, proteção de dados, segurança cibernética, capacidade institucional, modelo de contratação, governança e características do mercado local.

A tecnologia pode permitir PIX, cartões bancários, teto tarifário, integração multimodal e cálculo automático da menor tarifa.

Mas a decisão sobre quem paga quanto, quais gratuidades permanecem, como serão financiados os descontos, como a arrecadação será repartida e quem controla os dados continua sendo uma decisão do poder público e dos responsáveis pelo sistema.

É justamente por isso que o alerta inicial do relatório ganha importância.

Para a UITP, modernizar não significa somente comprar uma tecnologia mais nova. Significa evitar que a nova estrutura fique fechada, incapaz de conversar com outros sistemas ou excessivamente dependente de uma única empresa.

Nesse cenário, padrões abertos e governança da contratação tornam-se tão importantes quanto a forma pela qual o passageiro aproxima o cartão, utiliza o celular ou faz um PIX para entrar no ônibus, metrô ou trem.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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