Aneel prevê norma nacional ainda em 2026 para facilitar avanço da eletromobilidade e conexão de veículos elétricos à rede
Publicado em: 10 de setembro de 2026
Previsão da futura regulamentação faz parte da primeira revisão da Agenda Regulatória da Aneel para 2026 e 2027, aprovada pela agência e publicada nesta quinta-feira, 10 de setembro de 2026
ADAMO BAZANI
Uma norma nacional para melhorar as condições de avanço da eletromobilidade e a conexão de veículos elétricos às redes de distribuição de energia está prevista para ser editada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) ainda em 2026. A iniciativa pode ter reflexos diretos sobre um dos principais obstáculos para a expansão dos ônibus elétricos no Brasil: não basta comprar os veículos, porque as garagens precisam receber energia em potência suficiente, além de carregadores, transformadores, equipamentos de proteção e, em muitos casos, reforços nas redes externas dos bairros.
São Paulo (SP) é o exemplo mais evidente desse desafio. A cidade possui 1.759 ônibus elétricos e a maior frota deste tipo no País, mas chegou a setembro de 2026 ainda sem cumprir a antiga meta de aproximadamente 2,6 mil coletivos elétricos prevista para dezembro de 2024. Faltam 841 ônibus para atingir aquele objetivo. Em junho deste ano, quando a frota estava em torno de 1,3 mil veículos, a capital concentrava aproximadamente 80% dos ônibus elétricos brasileiros. Ao mesmo tempo em que as compras avançaram, problemas de infraestrutura elétrica já chegaram a deixar veículos zero quilômetro sem operar e carregadores instalados sem condições de uso.
A previsão da futura regulamentação faz parte da primeira revisão da Agenda Regulatória da Aneel para 2026 e 2027, aprovada pela agência e publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira, 10 de setembro de 2026. No documento, a atividade é descrita como “aprimoramento regulatório para propiciar o avanço da eletromobilidade e sua conexão aos sistemas de distribuição”, com edição da norma prevista para 2026.
Norma deve tratar justamente da relação entre eletromobilidade e redes de distribuição
A futura regulamentação está inserida no eixo de Transmissão e Distribuição da Agenda Regulatória da Aneel.
A publicação ainda não estabelece quais serão as regras, obrigações, prazos ou procedimentos para as distribuidoras e consumidores. Portanto, não significa que novas normas de ligação para ônibus, automóveis ou carregadores elétricos já estejam valendo.
O que a Aneel definiu é que pretende concluir ainda neste ano uma atividade regulatória específica voltada a aprimorar as condições para o avanço da eletromobilidade e sua conexão aos sistemas de distribuição.
A abrangência é nacional porque a Aneel é a agência federal responsável pela regulação do setor elétrico e das concessionárias de distribuição.
A importância para os ônibus está na característica muito diferente de uma garagem de transporte coletivo em relação à recarga doméstica de um automóvel.
Uma empresa pode precisar conectar dezenas de ônibus praticamente ao mesmo tempo durante a madrugada. Dependendo do tamanho da frota, são necessárias redes de média tensão, subestações, transformadores, carregadores de alta potência, sistemas de gerenciamento da carga e obras tanto dentro da garagem como na rede pública que chega até o imóvel.
Assim, a disponibilidade de ônibus no mercado e de financiamento para comprá-los representa apenas uma parte da eletrificação.
Ônibus comprados chegaram a ficar parados em São Paulo por falta de energia
A dificuldade ficou clara em São Paulo (SP) principalmente entre o fim de 2024 e 2025.
Em março de 2025, apuração do Diário do Transporte mostrou entre 80 e 100 ônibus elétricos novos já disponíveis, mas sem condições de operação porque a infraestrutura necessária para levar energia às garagens ainda não estava concluída.
O prefeito Ricardo Nunes confirmou na ocasião que havia pelo menos 80 veículos parados e disse ter recorrido à própria Aneel e ao TCU (Tribunal de Contas da União) diante das dificuldades relacionadas à Enel, concessionária responsável pela distribuição de energia na capital.
Em abril daquele ano, a situação voltou a aparecer durante a apresentação de novos ônibus. Segundo Nunes, poderiam ter sido apresentados 165 veículos, mas somente 115 estavam naquela entrega porque outros 50 coletivos do lote estavam prontos e ainda não tinham condições de circular por falta da infraestrutura elétrica necessária.
Ou seja, naquele momento o gargalo já não estava apenas na fabricação ou aquisição dos ônibus. O veículo existia, havia sido comprado e estava fisicamente na cidade, mas não conseguia prestar serviço à população porque faltava energia em condições adequadas para recarregá-lo.
Houve empresa carregando ônibus na garagem de outra viação
As dificuldades chegaram a produzir situações incomuns na operação cotidiana.
Em março de 2025, o Diário do Transporte mostrou que a Transunião, operadora da zona Leste de São Paulo (SP), precisou carregar ônibus elétricos na garagem da Express porque a estrutura necessária ainda não estava disponível em sua própria unidade.
Em outra garagem da Transunião, havia 33 carregadores instalados desde agosto de 2024, num investimento informado de R$ 14 milhões, mas os equipamentos ainda aguardavam a chegada da energia necessária.
Na MobiBrasil, na zona Sul, a reportagem encontrou 33 ônibus elétricos novos parados e 16 carregadores instalados enquanto a empresa aguardava a ligação necessária. Alguns veículos estavam nesta situação havia quase um ano. Posteriormente, a Enel iniciou os trabalhos de ligação.
Os casos mostram por que a conexão da eletromobilidade à rede elétrica deixou de ser apenas uma questão do setor de energia e passou a interferir diretamente na política de transporte público.
São Paulo deveria ter chegado a 2,6 mil elétricos em dezembro de 2024
A antiga meta da Prefeitura de São Paulo previa aproximadamente 2,6 mil ônibus elétricos até dezembro de 2024.
O objetivo não foi cumprido.
A expansão ganhou velocidade posteriormente e a cidade chegou a 1.759 ônibus elétricos em 2026, mas o número representa apenas 67,7% daquela meta.
Ainda seriam necessários 841 veículos para alcançar os 2,6 mil previstos para quase dois anos antes.
Em junho de 2026, quando havia aproximadamente 1,3 mil coletivos elétricos na cidade, o Diário do Transporte mostrou que São Paulo concentrava cerca de 80% da frota nacional deste tipo. A prefeitura atribuía o atraso em relação ao planejamento principalmente à falta de infraestrutura de recarga e à capacidade da rede elétrica para atender ao aumento de demanda.
Desde outubro de 2022, as empresas do sistema municipal paulistano também estão impedidas de adquirir ônibus novos exclusivamente a diesel para a renovação da frota.
Isso aumentou a importância da velocidade da eletrificação: se os ônibus convencionais deixam de entrar e a infraestrutura elétrica não acompanha a chegada dos modelos novos, a renovação da frota pode ser comprometida.
Problema não é simplesmente instalar um carregador
Uma garagem de ônibus elétricos exige planejamento energético muito maior que o de um posto isolado de recarga.
O carregador é apenas a parte mais visível da estrutura.
É preciso verificar quanto de energia está disponível no ponto, qual a potência que poderá ser fornecida, se a rede do bairro comporta a demanda, se será necessária uma nova subestação, quais transformadores serão utilizados e como o carregamento será distribuído ao longo das horas em que os ônibus permanecem no pátio.
Também é necessário compatibilizar a operação.
Um ônibus urbano normalmente permanece circulando durante grande parte do dia e retorna à garagem em determinados períodos. Se dezenas ou centenas de veículos retornarem em horários semelhantes e todos precisarem receber energia, ocorre uma concentração expressiva de demanda.
Por isso, uma das alternativas estudadas para grandes frotas são sistemas inteligentes de gerenciamento da recarga, que distribuem a potência disponível entre os ônibus conforme o tempo de permanência, a carga restante das baterias e o horário previsto para a próxima saída.
Outra alternativa são sistemas estacionários de armazenamento de energia em baterias, os chamados BESS. A energia pode ser acumulada nos períodos de menor demanda e utilizada posteriormente para ajudar na recarga da frota, diminuindo os picos exigidos diretamente da rede.
Aneel também colocou armazenamento de energia na agenda
A revisão da Agenda Regulatória mostra que o desafio não está restrito aos veículos elétricos.
A agência prevê para 2027 regulamentar o armazenamento de energia elétrica nos sistemas de transmissão e distribuição. Para 2026 também aparece na agenda outra atividade voltada à inserção de sistemas de armazenamento no Sistema Interligado Nacional.
Essas tecnologias ganham importância justamente com o crescimento da geração renovável, das baterias e da eletromobilidade.
Para grandes sistemas de ônibus, podem permitir que parte da energia necessária seja armazenada e administrada de forma mais eficiente, principalmente nos horários em que muitos veículos precisam ser carregados simultaneamente.
Regulamentação ainda terá de mostrar como poderá ajudar as garagens
A inclusão do tema na Agenda Regulatória não significa, por enquanto, que os problemas enfrentados pelas cidades serão solucionados imediatamente.
A Aneel ainda terá de desenvolver a atividade regulatória e definir o conteúdo efetivo da norma.
Somente com o texto será possível saber se haverá mudanças em procedimentos de solicitação de conexão, estudos de carga, prazos, responsabilidades pelas obras, critérios técnicos, relacionamento entre grandes consumidores e distribuidoras ou outros aspectos que interferem na instalação de infraestrutura para veículos elétricos.
Mas a decisão de colocar uma regulamentação específica sobre eletromobilidade e conexão à distribuição entre as normas previstas para 2026 ocorre quando a experiência prática de cidades como São Paulo mostra que o ônibus elétrico não depende apenas da indústria automobilística.
Para que o veículo novo deixe a fábrica e efetivamente transporte passageiros, energia, rede e infraestrutura precisam chegar à garagem no mesmo ritmo.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



