Nova bilhetagem do transporte metropolitano do Rio Grande do Sul terá processamento unificado de dados e pode facilitar integrações para passageiros, diz Governo

Gestão estadual divulgou nesta quarta-feira (09) resultado de consulta pública, mais uma etapa antes da licitação; contrato é estimado em R$ 89,9 milhões por dez anos

ADAMO BAZANI

A nova bilhetagem dos transportes metropolitanos da Região Metropolitana de Porto Alegre (RS) deverá concentrar em uma mesma plataforma o processamento das viagens, pagamentos e dados dos passageiros, utilizar tecnologia baseada em contas e permitir meios de pagamento como cartões de crédito e débito. Segundo o Governo do Rio Grande do Sul, a centralização pode facilitar a integração entre diferentes serviços e operadores, além de separar a gestão financeira da bilhetagem das empresas responsáveis pela operação dos ônibus.

O projeto será estruturado como PPP (Parceria Público-Privada), com contrato estimado em R$ 89,9 milhões e prazo previsto de dez anos. Nesta quarta-feira, 09 de setembro de 2026, o Estado publicou no Diário Oficial o resultado da consulta e da audiência públicas realizadas sobre a proposta, uma das etapas que antecedem a publicação da licitação. Ainda não há empresa vencedora nem contrato assinado.

Na prática, o Governo pretende contratar uma estrutura independente de clearing house, responsável por receber, processar e organizar as informações financeiras geradas pelas viagens metropolitanas. O sistema será baseado no modelo ABT, sigla em inglês para account based ticketing, ou bilhetagem baseada em contas. O projeto também prevê equipamentos, processamento de pagamentos e armazenamento de informações em nuvem.

O QUE PODE MUDAR PARA O PASSAGEIRO

A principal diferença está na maneira como a passagem e as informações de uso do transporte são administradas.

Em uma bilhetagem tradicional, o cartão físico exerce papel central no armazenamento ou identificação dos créditos e direitos de viagem.

No sistema ABT, o elemento principal passa a ser a conta do passageiro mantida na plataforma central. Cartão, aplicativo ou outro meio habilitado funciona como uma forma de identificar essa conta.

Com isso, diferentes maneiras de pagamento podem ser associadas a um mesmo ambiente de processamento.

O projeto gaúcho prevê expressamente pagamentos com cartões de crédito e débito.

A centralização também cria condições tecnológicas para facilitar integrações entre linhas e operadores, porque as viagens deixam de depender exclusivamente de estruturas de arrecadação isoladas de cada empresa.

Isso, entretanto, não significa que a implantação da plataforma crie automaticamente uma tarifa única, integração gratuita ou novos descontos.

Essas regras continuarão dependendo da política tarifária definida pelo Estado e dos contratos do transporte metropolitano.

PROCESSAMENTO FINANCEIRO FICARÁ SEPARADO DA OPERAÇÃO DOS ÔNIBUS

A proposta do Governo gaúcho é separar duas atividades que tradicionalmente podem estar fortemente relacionadas: transportar passageiros e processar o dinheiro arrecadado com as viagens.

A futura concessionária da bilhetagem não será, por esse contrato, responsável por colocar ônibus em circulação.

Sua atribuição será administrar a estrutura tecnológica e financeira.

Já a operação dos ônibus metropolitanos está sendo tratada pelo Estado em outra modelagem de concessão.

A separação pode permitir que diferentes empresas operadoras utilizem uma infraestrutura comum de arrecadação e processamento.

O QUE É A CLEARING HOUSE

A expressão clearing house pode parecer distante da rotina do passageiro, mas representa uma das peças principais do projeto.

É a estrutura que recebe as informações das transações realizadas no sistema, identifica viagens e pagamentos, consolida os dados e permite calcular a distribuição dos valores entre os participantes.

Em uma rede metropolitana com diferentes linhas, empresas e municípios, esse processamento central pode registrar, por exemplo, que determinado passageiro realizou mais de uma viagem, utilizou operadores distintos ou efetuou o pagamento por meios diferentes.

A PPP publicada pelo Governo foi estruturada especificamente para contratar esse serviço de clearing house associado à nova bilhetagem.

CONTRATO É ESTIMADO EM R$ 89,9 MILHÕES POR DEZ ANOS

A modelagem divulgada pelo Governo prevê prazo contratual de dez anos.

O valor total estimado é de R$ 89,9 milhões.

A estruturação apresentada anteriormente pelo Estado projetou diferentes valores máximos de contraprestação conforme a etapa do contrato:

Período Valor máximo previsto
1º ano R$ 758,3 mil/mês
2º ao 5º ano R$ 844,9 mil/mês
6º ao 10º ano R$ 671,8 mil/mês

O planejamento econômico-financeiro apresentado também apontou aproximadamente R$ 20,78 milhões em investimentos, principalmente para aquisição e reposição de validadores, e R$ 42,15 milhões em despesas operacionais.

Os valores ainda pertencem à fase de modelagem e podem ser alterados até a publicação do edital definitivo.

SISTEMA DEVERÁ ACEITAR CARTÕES DE CRÉDITO E DÉBITO

A publicação oficial desta quarta-feira confirma que a solução tecnológica deverá contemplar processamento de pagamentos com cartões de crédito e débito.

Também estão previstos equipamentos e serviços de computação em nuvem destinados ao processamento e armazenamento dos dados.

A modelagem apresentada pelo Governo prevê ainda diferentes meios de pagamento e ferramentas de controle de fraudes.

A proposta é reduzir a dependência de um único cartão proprietário do sistema e ampliar as possibilidades de acesso ao transporte.

BILHETAGEM FAZ PARTE DE UMA REORGANIZAÇÃO MAIOR DOS ÔNIBUS METROPOLITANOS

O projeto tecnológico não está sendo desenvolvido isoladamente.

O Governo do Rio Grande do Sul também trabalha na reorganização da concessão do transporte coletivo metropolitano por ônibus.

A modelagem operacional prevê prazo diferente, de 15 anos, e divisão da Região Metropolitana de Porto Alegre em seis grupos territoriais.

São eles Centro, Leste, Nordeste, Noroeste, Oeste e Sudeste.

Entre os municípios abrangidos pelas diferentes áreas estão Canoas (RS), Esteio (RS), Novo Hamburgo (RS), São Leopoldo (RS), Sapucaia do Sul (RS), Cachoeirinha (RS), Gravataí (RS), Guaíba (RS), Eldorado do Sul (RS), Alvorada (RS), Viamão (RS), Montenegro (RS), Sapiranga (RS), Taquara (RS) e outras cidades metropolitanas.

A concessão operacional deverá tratar de ônibus, frota, garagens e sistemas de apoio à operação.

Já a bilhetagem terá contratação própria.

Essa separação significa que uma eventual troca de empresa operadora de determinada região não exigiria, em princípio, a substituição de toda a plataforma central de arrecadação.

CONSULTA E AUDIÊNCIA COMEÇARAM EM 2025

A estruturação da PPP da bilhetagem começou publicamente em 2025.

O Estado abriu consulta pública para receber contribuições sobre a modelagem e promoveu audiência com interessados.

Na publicação desta quarta-feira, a Secretaria da Reconstrução Gaúcha informa que estão disponíveis os resultados da Consulta Pública nº 04/2025 e da Audiência Pública nº 03/2025.

É esta a novidade administrativa desta edição do Diário Oficial.

Ela é importante porque encerra mais uma fase necessária para que o Estado possa consolidar a modelagem e preparar a concorrência, mas não deve ser confundida com lançamento do edital.

LICITAÇÃO AINDA NÃO FOI PUBLICADA

O projeto, portanto, ainda está na fase anterior à escolha da empresa responsável pelo sistema.

Depois da consulta e da audiência, o Governo precisa avaliar as contribuições, eventualmente alterar documentos, consolidar a modelagem jurídica, técnica e econômico-financeira e publicar o edital.

Só depois ocorrerão apresentação e julgamento de propostas, habilitação, definição da vencedora e assinatura do contrato.

A publicação desta quarta-feira não informa uma nova data definitiva para a licitação.

O cronograma inicialmente apresentado pelo Estado previa etapas anteriores em prazo menor, o que mostra que a estruturação levou mais tempo que a programação original.

TECNOLOGIA PODE FACILITAR INTEGRAÇÃO, MAS DECISÃO TARIFÁRIA CONTINUA SENDO DO PODER PÚBLICO

Para o passageiro, a maior possibilidade trazida pelo sistema unificado está na capacidade de reconhecer viagens e pagamentos em uma mesma plataforma, mesmo quando diferentes empresas participam da operação.

Tecnologicamente, isso facilita a implantação de integrações e outras políticas tarifárias.

Mas há uma distinção importante.

A bilhetagem consegue executar uma regra de integração. Quem decide se haverá integração, qual será o desconto, em quanto tempo ela será válida, quais linhas participarão e quanto o passageiro pagará é o poder concedente.

Assim, a nova plataforma pode criar a infraestrutura necessária para uma rede mais integrada, mas o benefício concreto dependerá das regras que o Governo do Rio Grande do Sul estabelecer para o transporte metropolitano.

É justamente esta relação entre tecnologia, concessões dos ônibus e política tarifária que deverá definir o impacto real da nova bilhetagem na rotina dos passageiros da Grande Porto Alegre.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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