HISTÓRIA – Sete de Setembro e Independência: empresas de ônibus levaram nomes do feriado pelas ruas do Brasil
Publicado em: 6 de setembro de 2026
Operadoras com referências à data cívica marcaram os transportes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul; em São Leopoldo, empresa criada justamente em 7 de setembro de 1954 continua em atividade
ADAMO BAZANI
Sete de Setembro e Independência não ficaram apenas nos nomes de avenidas, praças, bairros e escolas pelo Brasil. As referências à data em que se convencionou celebrar a Independência do País também foram parar nas laterais de ônibus e nas razões sociais de empresas que ajudaram a escrever diferentes capítulos da história do transporte coletivo brasileiro.
Há registros que atravessam quase um século. No Rio de Janeiro, a Independência Auto Ônibus já aparecia entre as empresas da cidade em 1927. Em São Paulo, a Viação Sete de Setembro começou a operar em 1960 e marcou a expansão da zona Sul. Embu-Guaçu, na Região Metropolitana paulista, teve a Independência Transporte Coletivo; Belo Horizonte também contou com uma Independência Auto Ônibus. E, em São Leopoldo (RS), a história é ainda mais diretamente ligada à data: a Empresa de Transporte Sete de Setembro nasceu no próprio feriado, em 7 de setembro de 1954, e continua transportando passageiros mais de sete décadas depois.
| Empresa | Local | História |
|---|---|---|
| Sete de Setembro | São Paulo (SP) | Anos 1960/70 |
| Sete de Setembro | São Leopoldo (RS) | Desde 1954 |
| Independência Auto Ônibus | Rio de Janeiro (RJ) | Desde anos 1920 |
| Independência | Embu-Guaçu (SP) | Desde 1967 |
| Independência Auto Ônibus | Belo Horizonte (MG) | Antecessora da Trans Oeste |
São Paulo teve a Viação Sete de Setembro dos ônibus vermelhos

Uma das empresas mais conhecidas a carregar a data no nome foi a Viação Sete de Setembro Ltda., na capital paulista.
Documentos históricos mostram que a companhia foi constituída em 16 de março de 1960 por Moysés dos Santos Ferreira e Hamilton Dias. Uma pesquisa sobre a administração dos transportes coletivos de São Paulo, disponível no acervo da Fundação Getulio Vargas, inclui a Viação 7 de Setembro entre as empresas de ônibus existentes na cidade já em abril daquele ano.
A empresa atuou principalmente na zona Sul e acompanhou uma fase de crescimento acelerado de bairros de Santo Amaro, Grajaú e áreas vizinhas. Era um período em que antigos terrenos rurais e chácaras davam espaço a novos loteamentos, enquanto milhares de trabalhadores se instalavam cada vez mais longe das regiões centrais.
O ônibus era muitas vezes um dos primeiros serviços estruturados a chegar a essas localidades. Além de transportar moradores aos locais de trabalho, comércio e serviços, as linhas acabavam induzindo a ocupação e a valorização dos bairros.
A Sete de Setembro chegou também a operar uma ligação intermunicipal entre Itapecerica da Serra e Santo Amaro. Registros do Diário Oficial mostram que o serviço foi posteriormente transferido para a Viação Rio Bonito.
A trajetória empresarial foi movimentada. A composição societária mudou diversas vezes e, em 1973, entraram empresários já ligados ao transporte no ABC Paulista, entre eles Danilo Adelmo Setti, Rubens Fogli e Antônio Said. A mudança coincidiu com uma fase de renovação de frota.
Os ônibus ficaram conhecidos pela predominância do vermelho na pintura. A companhia chegou à segunda metade dos anos 1970 ainda integrada ao sistema paulistano. Uma edição da revista Transporte Moderno de junho de 1977 mostra a 7 de Setembro no setor 14, juntamente com Rio Bonito, Bola Branca e Nossa Senhora do Socorro.
A empresa não atravessou por muito tempo a reorganização dos transportes promovida pela Prefeitura no fim daquela década. A reformulação dividiu a cidade em áreas, reorganizou operadoras e implantou a padronização de pintura conhecida como “saia e blusa”, mudando profundamente a estrutura empresarial do sistema.
O Diário do Transporte já recuperou essa história em reportagens anteriores, inclusive com registros da Junta Comercial e relatos de pesquisadores e passageiros que conheceram a empresa.
Em São Leopoldo, a Sete de Setembro nasceu no próprio 7 de setembro e existe até hoje

Se em São Paulo a data virou nome empresarial, no Rio Grande do Sul a ligação é ainda mais direta.
A Empresa de Transporte Sete de Setembro, de São Leopoldo, foi criada exatamente em 7 de setembro de 1954.
Pesquisa acadêmica da Unisinos registra que Waldemar Emílio Steglich, então taxista e marceneiro, comprou um ônibus de um quartel e iniciou a empresa, tornando-se um dos pioneiros do transporte coletivo urbano no município.
A companhia cresceu junto com São Leopoldo. Em 1977, diversificou as atividades ao iniciar serviços de fretamento para funcionários da fabricante Stihl. Em 1983, diante da expansão das operações, transferiu suas instalações do Centro para o bairro Rio Branco.
Ao contrário da maior parte das empresas históricas lembradas nesta reportagem, a Sete de Setembro gaúcha não ficou apenas na memória.
A companhia continua operando linhas urbanas em São Leopoldo e integra o sistema de bilhetagem COLEO ao lado de Viação Feitoria, Viação Leopoldense e Viação Sinoscap. O próprio consórcio confirma atualmente a participação da Sete de Setembro no transporte municipal.
Assim, em setembro de 2026, são 72 anos desde a primeira viagem da empresa.
Rio de Janeiro já tinha uma Independência Auto Ônibus nos anos 1920

O registro mais antigo localizado pelo Diário do Transporte nesta pesquisa vem do Rio de Janeiro e leva a história para os primeiros anos da expansão do ônibus motorizado nas grandes cidades brasileiras.
Uma dissertação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, baseada em acervos históricos sobre o sistema carioca, relaciona a Independência Auto Ônibus entre as empresas existentes em 1927.
Naquele ano, a companhia aparece com uma linha e quatro ônibus. Em 1929, essa Independência foi adquirida pela Viação Excelsior, que naquele período avançava sobre diversas pequenas empresas cariocas. A Excelsior também adquiriu Auto Viação Maracanã, Brasileira Auto Ônibus e Auto Viação Ypiranga.
O cenário ajuda a mostrar como era diferente a organização do transporte naquele momento. Em vez das grandes concessionárias estruturadas que se tornariam comuns décadas depois, havia numerosas pequenas empresas disputando passageiros, linhas e autorizações.
Curiosamente, a mesma pesquisa registra uma “Independência Auto Ônibus (nova)” já na relação de empresas de 1928. Isso mostra que o nome reapareceu no mercado carioca e exige cuidado para não tratar todas as empresas homônimas como uma única sociedade empresarial contínua.
Dez enormes GM-Coach chegaram para a Independência carioca em 1947
A presença do nome Independência no transporte do Rio não acabou nos anos 1920.
Uma publicação de 1947 preservada pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional relata a chegada dos Estados Unidos de dez ônibus GM-Coach descritos na época como “gigantes”, com capacidade para 80 passageiros.
Segundo a notícia, os veículos haviam sido importados pela Prefeitura do então Distrito Federal e vendidos à Independência Auto Ônibus Ltda. A previsão era colocar os carros em uma nova linha entre a Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel, e Ipanema, passando pelo Jockey Club.
O registro é especialmente significativo porque o Brasil ainda atravessava os efeitos das dificuldades de renovação de frota provocadas pela Segunda Guerra Mundial. A importação de ônibus norte-americanos ganhou importância para a recomposição dos sistemas urbanos depois do conflito.
A Independência continuava aparecendo na documentação pública nos anos seguintes. Em 1950, seu nome consta em pautas da Justiça do Trabalho; em 1951, uma reportagem tratou das condições de trabalho de motoristas e cobradores da empresa; e um acervo do Tribunal Regional Federal da 2ª Região registra a Independência Auto Ônibus entre 16 empresas envolvidas em um processo sobre emplacamento de veículos entre 1952 e 1954.
Há ainda registro judicial da empresa em 1957, o que confirma a permanência da denominação durante parte considerável da década de 1950.
Embu-Guaçu teve Independência ligando a cidade à capital paulista
Outra empresa com o nome cívico nasceu em Embu-Guaçu, na Região Metropolitana de São Paulo.
A Independência Transporte Coletivo Ltda. teve sua abertura empresarial registrada em 20 de setembro de 1967 e atuou tanto no transporte municipal como em ligações metropolitanas entre Embu-Guaçu e São Paulo.
Um documento oficial do Governo do Estado de São Paulo de 1997 mostra, por exemplo, uma proposta para autorização à Independência da linha entre Cipó, em Embu-Guaçu, e o Terminal Metrô Santa Cruz, na capital, com passagem pelo Largo Treze, em Santo Amaro. O mesmo procedimento previa serviço complementar entre Jardim Campestre e o Metrô Santa Cruz.
Registros fotográficos preservam ônibus da empresa com modelos que marcaram várias gerações, como Caio Bela Vista, Caio Vitória, Caio Alpha e Busscar Urbanuss.
Por volta de meados dos anos 2000, a operação passou a utilizar a marca Cidade Verde. Em 2006, documento oficial do Governo do Estado já relacionava a Viação Cidade Verde como uma das integrantes do Consórcio Intervias, responsável pela Área 1 do transporte metropolitano, que incluía Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra, Cotia, Taboão da Serra, Juquitiba e outros municípios.
A Cidade Verde posteriormente deixou o sistema.
Belo Horizonte também teve uma Independência Auto Ônibus
O nome Independência apareceu ainda no transporte coletivo de Belo Horizonte.
Registros especializados da frota mineira identificam a Independência Auto Ônibus Ltda. como antecessora da Trans Oeste Transportes Urbanos, operadora que passou a utilizar outra denominação empresarial.
Há registros fotográficos da Independência ainda na década de 2010, inclusive com ônibus Caio Apache Vip sobre chassis Mercedes-Benz circulando no sistema municipal de Belo Horizonte.
Neste caso, entretanto, a documentação pública disponível de forma aberta é menos abundante sobre a origem e os primeiros anos da empresa do que nos exemplos de São Paulo, São Leopoldo e Rio de Janeiro. Por isso, não é possível estabelecer com a mesma segurança, a partir das fontes consultadas, uma data inicial de operação.
Nomes de empresas contam também a história das cidades
Sete de Setembro e Independência são exemplos de uma característica bastante visível na formação do transporte coletivo brasileiro: os nomes das empresas frequentemente refletiam o ambiente cultural e social da época.
Santos e referências religiosas deram origem a incontáveis Nossa Senhora da Penha, Santa Brígida, Santa Cecília, São João, São José e São Geraldo. Lugares originaram Rio Bonito, Vila Carrão, Vila Ema, Itaquera e tantas outras. Datas, valores nacionais e símbolos cívicos também chegaram às garagens.
As empresas mudaram, foram compradas, fundidas, desapareceram ou trocaram de nome. Mas seus ônibus participaram do crescimento de bairros e cidades e, muitas vezes, chegaram antes do asfalto, da iluminação e de outros serviços públicos.
No caso das empresas que escolheram Sete de Setembro ou Independência, a história do transporte acabou cruzando, literalmente, com um dos símbolos mais conhecidos da história brasileira.
E uma delas ainda roda diariamente: a Sete de Setembro de São Leopoldo, criada há 72 anos justamente no dia que lhe deu o nome.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
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