Cobrança do WhatsApp Business muda a partir de outubro e vai trazer mais custos para empresas de ônibus que vendem passagens por esta plataforma

Viação Cometa, do Grupo JCA, é uma das companhias que também utiliza o Whatsapp

De acordo com especialista em mercado rodoviário, Ilo Löbel da Luz, uma operação que troca 10 mil mensagens de atendimento por mês, entre confirmação de reserva, aviso de atraso, tratativa de reembolso e suporte de SAC, passa a gastar cerca de R$ 350 mensais

ADAMO BAZANI

A partir de 1º de outubro de 2026, empresas de ônibus que utilizam a API oficial do WhatsApp Business, atualmente chamada de WhatsApp Business Platform, para vendas, atendimento, chatbots e integração com sistemas corporativos terão uma nova despesa: mensagens de serviço enviadas em resposta aos passageiros dentro da janela de atendimento de 24 horas passarão a ser cobradas pela Meta. Também deixarão de ser gratuitos os modelos de mensagens de utilidade enviados dentro dessa mesma janela. A cobrança será por mensagem efetivamente entregue, e não por conversa.

A mudança tem impacto direto sobre o transporte rodoviário interestadual de passageiros, que ampliou nos últimos anos o uso do WhatsApp para venda de bilhetes, consulta de horários, escolha de poltronas, envio de passagens, informações sobre viagens, cancelamentos e atendimento. Empresas como Águia Branca, Cometa, Auto Viação 1001, Catarinense, Expresso do Sul, Guanabara, Gontijo, Viação Garcia e Planalto mantêm canais de WhatsApp ligados à venda ou ao relacionamento com passageiros, embora a forma de utilização e a tecnologia adotada possam variar de uma companhia para outra.

A alteração não significa que todo uso empresarial do WhatsApp passe a ser pago. A regra se refere à plataforma oficial utilizada por empresas que integram o WhatsApp a centrais de atendimento, sistemas de venda, chatbots e outras ferramentas. O aplicativo WhatsApp Business convencional, usado diretamente no celular e sem a API, não entra nessa cobrança por mensagem.

COMO VAI FUNCIONAR A NOVA COBRANÇA

Hoje, quando um passageiro envia uma mensagem, abre-se uma janela de atendimento de 24 horas. Dentro desse período, a empresa pode responder com mensagens de serviço — textos livres enviados por atendentes, automações ou bots — sem tarifa de entrega da Meta.

A partir de 1º de outubro, essa janela de 24 horas continua existindo, mas deixa de significar, por si só, atendimento gratuito. Cada mensagem de serviço entregue ao passageiro passa a ter uma tarifa. A Meta estabeleceu, entretanto, uma franquia de 1.000 mensagens de serviço gratuitas por mês para cada número de telefone empresarial. A cobrança começa a partir da mensagem número 1.001.

No Brasil, a referência é a mesma tarifa aplicada às mensagens de utilidade. Para contas faturadas em reais, o valor de referência é de aproximadamente R$ 0,035 por mensagem. Para contas ainda faturadas em dólares, a tabela de outubro apresenta US$ 0,0068 por mensagem de serviço, utilidade ou autenticação destinada ao mercado brasileiro.

Há uma distinção importante.

Uma resposta escrita livremente por um atendente, como “Seu pedido de reembolso está sendo analisado”, pode ser classificada como mensagem de serviço se enviada dentro da janela aberta pelo passageiro.

Já mensagens estruturadas e previamente aprovadas pela Meta, como confirmação de compra, alteração de viagem, aviso operacional ou atualização de uma reserva, podem ser enquadradas como templates de utilidade. A partir de outubro, esses templates também deixam de ser gratuitos quando enviados dentro da janela de 24 horas e são cobrados desde a primeira mensagem entregue; a franquia de 1.000 mensagens vale para as mensagens de serviço, e não para os templates de utilidade.

As mensagens enviadas pelo próprio passageiro continuam sem cobrança para a empresa. Também permanece a gratuidade, por 72 horas, quando o contato tiver origem em determinados pontos gratuitos de entrada, como anúncios que levam diretamente ao WhatsApp.

Na prática, se um chatbot dividir uma única resposta em três mensagens diferentes e as três forem entregues ao passageiro, podem existir três cobranças. O modelo é por mensagem entregue, e não por atendimento, passageiro ou protocolo.

OS R$ 350 E A FRANQUIA DE MIL MENSAGENS

O exemplo de aproximadamente R$ 350 para 10 mil mensagens apresentado pelo especialista Ilo Löbel da Luz corresponde ao cálculo de 10 mil mensagens multiplicadas pela tarifa de aproximadamente R$ 0,035.

Na prática, o valor exato dependerá da composição dessas mensagens.

Se as 10 mil forem templates de utilidade sujeitos à tarifa cheia, a conta fica próxima de R$ 350.

Se todas forem exclusivamente mensagens de serviço de um único número empresarial, a franquia de mil mensagens deve ser descontada. Nesse cenário, seriam aproximadamente nove mil mensagens cobradas, o equivalente a cerca de R$ 315.

Uma operação real pode misturar respostas de SAC, templates de confirmação, avisos de viagem, mensagens de autenticação e marketing. Por isso, o custo final dependerá de quantas mensagens houver em cada categoria, do número de telefones utilizados, do mercado dos destinatários e de eventuais cobranças adicionais da empresa que fornece a plataforma de atendimento. A própria Meta cobra pela entrega; fornecedores tecnológicos podem acrescentar mensalidades, licenças ou outras tarifas.

O efeito aumenta rapidamente nas operações de grande escala. Cem mil mensagens cobradas integralmente a R$ 0,035 representam aproximadamente R$ 3,5 mil. Um milhão de mensagens representa cerca de R$ 35 mil, antes de considerar franquias, descontos aplicáveis a determinadas categorias e custos cobrados pelos fornecedores tecnológicos.

EMPRESAS INTERESTADUAIS QUE JÁ USAM WHATSAPP PARA VENDA E ATENDIMENTO

O levantamento abaixo reúne exemplos confirmados nos próprios canais das empresas. Não se trata de uma relação exaustiva do mercado.

Empresa Uso do WhatsApp
Águia Branca Zap Passagens para venda assistida e canal de SAC.
Viação Cometa Venda de passagem e atendimento virtual.
Auto Viação 1001 Venda, consulta de horários, rotas, preços e atendimento virtual.
Catarinense Venda de passagens e atendimento virtual.
Expresso do Sul Venda de passagens e atendimento virtual.
Guanabara Compra de passagens e atendimento ao passageiro.
Gontijo Venda pelo WhatsApp com atendimento automatizado durante a compra.
Viação Garcia Venda por WhatsApp e canal para troca, remarcação e reembolso.
Planalto Venda de passagem e SAC pelo WhatsApp.

Além dos canais próprios das viações, existem plataformas especializadas. O Buszap informa trabalhar com mais de 100 viações parceiras e oferece soluções de venda e atendimento automatizado pelo WhatsApp, inclusive no modelo white label, no qual o passageiro interage com um canal que leva a marca da própria empresa de ônibus.

Esse tipo de estrutura ajuda a explicar por que a mudança da Meta pode atingir mais empresas do que apenas aquelas que desenvolveram internamente seus próprios chatbots.

PRINCIPAIS IMPACTOS PARA AS EMPRESAS DE ÔNIBUS

Impacto Efeito esperado
SAC Respostas que hoje não geram tarifa podem passar a ter custo após a franquia.
Venda de passagem Mais mensagens no fluxo de compra significam maior custo variável.
Confirmações Templates de utilidade passam a ser cobrados também dentro da janela de 24 horas.
Chatbots Respostas muito fragmentadas podem multiplicar a quantidade de mensagens tarifadas.
Reembolsos e trocas Atendimentos longos podem gerar diversas mensagens cobradas.
Avisos operacionais Atrasos, alterações e confirmações podem gerar cobrança como utilidade.
Grandes operações O custo cresce diretamente com o volume de mensagens entregues.
Planejamento Empresas terão de medir mensagens por categoria, número e finalidade.
Fornecedores Tarifas da Meta podem se somar às mensalidades e cobranças das plataformas.
Atendimento humano Resposta escrita por atendente também pode ser tarifada quando enviada pela API.

ESPECIALISTA APONTA NECESSIDADE DE MEDIR O CUSTO DOS CANAIS DIGITAIS

Na avaliação de Ilo Löbel da Luz, especialista em mercado e regulação do transporte rodoviário interestadual de passageiros, a mudança evidencia uma fragilidade de gestão que ele identifica em parte das empresas do setor. Trata-se de uma análise do especialista sobre o mercado, e não de uma determinação regulatória da ANTT.

“Quando a Meta decide monetizar a conversa, a operação que nunca mediu esse canal descobre o custo de uma vez, na fatura. A que já aplica inteligência operacional sobre seus próprios processos só precisa ajustar a planilha, porque já sabia que esse número existia antes de ele aparecer”, afirma.

Para Ilo, SAC, Ouvidoria e canais digitais deveriam ser acompanhados de maneira mais próxima pelas empresas, inclusive do ponto de vista de custos e riscos operacionais.

“O canal de atendimento não é regulação em sentido estrito, mas é operação, e é onde a maioria das empresas do TRIP concentra seu maior ponto cego, porque trata SAC, Ouvidoria e canais digitais como despesa administrativa, não como frente de risco a ser monitorada com a mesma disciplina aplicada a frota ou linha”, avalia.

A interpretação é do especialista e deve ser entendida como sua opinião sobre a gestão das companhias. O tamanho efetivo da despesa a partir de outubro dependerá do volume e da estrutura de atendimento de cada operador.

CUSTO PODE INFLUENCIAR A FORMA DE ATENDER

A cobrança cria um incentivo econômico para que as empresas revejam a arquitetura de seus chatbots. Em vez de uma sequência de várias mensagens curtas para resolver uma mesma solicitação, uma empresa pode buscar respostas mais concentradas, desde que isso não prejudique a clareza ou a qualidade do atendimento.

Também passa a ser mais importante separar corretamente mensagens de marketing, utilidade, autenticação e serviço, acompanhar quantas mensagens são efetivamente entregues e identificar quais fluxos geram volumes elevados sem resultar em venda ou solução de demandas.

Isso não significa necessariamente reduzir o atendimento ao passageiro. A consequência pode ser justamente a necessidade de tornar os canais digitais mais eficientes, com sistemas capazes de resolver uma demanda com menos interações desnecessárias.

A mudança entra em vigor em 1º de outubro de 2026 para empresas que utilizam a WhatsApp Business Platform. Até 30 de setembro, as mensagens de serviço dentro da janela de 24 horas permanecem sob a regra atual de gratuidade.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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