Eletromobilidade

BYD assume a liderança de emplacamentos de ônibus elétricos no acumulado entre janeiro e agosto de 2026. Mercado total sobe 82%, aponta Fenabrave

Já considerando apenas o mês de agosto, montadora chinesa instalada em Campinas (SP) respondeu por 49% de todos os emplacamentos. Em agosto, a Mercedes-Benz consegue a vice-liderança

ADAMO BAZANI

A fabricante chinesa de ônibus elétricos instalada em Campinas, no interior paulista, BYD, assumiu o posto de liderança nos emplacamentos deste segmento no Brasil.

Já a tradicional líder, a Caio Induscar com Eletra, marcas nacionais, aparece agora na segunda posição.

Os resultados fazem parte do balanço de emplacamentos divulgado nesta quinta-feira, 03 de setembro de 2026, pela Fenabrave – Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores, que reúne as revendedoras, autorizadas e concessionárias por todo o País.

De acordo com a entidade, considerando todas as marcas, entre janeiro e agosto de 2026, o mercado de ônibus elétricos no Brasil subiu 82,03% em comparação com semelhante período de 2025, com 932 unidades ante 512.

Considerando a variação entre julho e agosto, a alta foi de 185,39%, com 89 unidades emplacadas em julho e 254 em agosto. Já comparando as 254 unidades de agosto de 2026 com as 41 de agosto de 2025, a alta foi de 519,5%.

Entre as marcas, a BYD tem, no acumulado do ano, 301 unidades emplacadas, o que significa 32,30% de fatia no mercado. Somente em agosto, a companhia chinesa emplacou no Brasil 126 unidades, o que resulta em 49,61% de participação.

Já a Induscar, com a Eletra, soma 275 unidades no acumulado do ano entre janeiro e agosto de 2026, com 29,51% de mercado. Somente em agosto, o consórcio nacional de fabricantes emplacou 31 unidades, ou 12,20%, caindo, neste recorte do mês, para terceiro lugar e ficando atrás da Mercedes-Benz, que registrou 75 unidades emplacadas e 29,53% de fatia.

Entretanto, a fabricante alemã com planta em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, figura em terceiro lugar no acumulado entre janeiro e agosto de 2026, com 191 unidades e 20,49% de participação.

Um destaque é para o quarto lugar no acumulado do ano, ocupado pela chinesa CRRC, que desaparece do ranking de agosto. É que se trata de uma importação pontual para a Viação Piracicabana, do Grupo Comporte, que colocou 90 unidades no Distrito Federal e uma em Santos. O Grupo Comporte é sócio da CRRC no TIC (Trem Intercidades), que está sendo construído entre São Paulo, Jundiaí e Campinas e que engloba a Linha 7-Rubi de trens metropolitanos.

A empresa pode vir a importar mais unidades da fabricante da China, que produz trens como atividade principal.

Os números da Fenabrave já refletem a entrega de 500 ônibus elétricos para a cidade de São Paulo, que ocorreu em 22 de junho de 2026 e teve cobertura presencial do criador e editor-chefe do Diário do Transporte, Adamo Bazani.

Como mostrou a reportagem, quase todos os ônibus exibidos na ocasião, 490, eram da BYD, Eletra/Caio e Mercedes-Benz.

Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2026/06/22/video-exclusivo-de-500-onibus-eletricos-entregues-neste-domingo-21-490-sao-de-tres-marcas-de-tecnologia-dizem-fabricantes/

As três estimam fatias maiores. A BYD diz que está com carteira cheia de encomendas. A Eletra firmou parceria também com a encarroçadora Mascarello, sem se desvincular da Caio, e aposta em uma nova geração de chassis inteligentes lançada em agosto. A Mercedes-Benz também está com pedidos do eO500U e aposta na comercialização do modelo articulado de 18 metros eO500UA.

A cidade de São Paulo responde por mais de 80% da frota de ônibus elétricos do Brasil.

RANKING DOS ÔNIBUS ELÉTRICOS – ACUMULADO DE JANEIRO A AGOSTO DE 2026

Marca Unidades Participação
1º BYD 301 32,30%
2º Induscar 275 29,51%
3º Mercedes-Benz 191 20,49%
4º CRRC 91 9,76%
5º VW Truck & Bus 42 4,51%
6º Higer 15 1,61%
7º Marcopolo 12 1,29%
8º Volvo 4 0,43%
9º Agrale 1 0,11%
TOTAL 932 100%

Fonte: Fenabrave – agosto/2026

No levantamento da Fenabrave, a denominação Induscar corresponde aos ônibus elétricos produzidos na parceria entre Caio e Eletra. A tecnologia de tração e os chassis são da Eletra, enquanto a Caio Induscar aparece no emplacamento porque é quem realiza o faturamento do veículo completo.

Da mesma forma, quando a Fenabrave registra Marcopolo neste levantamento, a referência não é simplesmente às carrocerias produzidas pela empresa, mas aos veículos da marca Volare comercializados completos pelo grupo.

RANKING DOS ÔNIBUS ELÉTRICOS – AGOSTO DE 2026

Marca Unidades Participação
1º BYD 126 49,61%
2º Mercedes-Benz 75 29,53%
3º Induscar 31 12,20%
4º VW Truck & Bus 22 8,66%
TOTAL 254 100%

Fonte: Fenabrave – agosto/2026

Os dados mostram também uma concentração significativa do mercado. BYD, Eletra/Caio e Mercedes-Benz responderam juntas por 767 dos 932 ônibus elétricos emplacados entre janeiro e agosto, equivalentes a 82,30% do segmento.

No recorte apenas de agosto, BYD, Mercedes-Benz e Eletra/Caio somaram 232 dos 254 veículos registrados, ou 91,34% do total.

A Volkswagen Caminhões e Ônibus, por sua vez, ganhou espaço em agosto, com 22 unidades e participação de 8,66%, alcançando 42 veículos no acumulado do ano.

A EVOLUÇÃO DA BYD NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL

A chegada da BYD ao primeiro lugar do mercado brasileiro de ônibus elétricos ocorre depois de mais de uma década de presença industrial da companhia no País e de expansão da tecnologia da fabricante chinesa na América Latina.

A fábrica de Campinas foi anunciada em 2014 e inaugurada em 2015 como a primeira unidade produtiva da BYD na América do Sul, voltada justamente à fabricação de chassis de ônibus elétricos. A capacidade inicialmente anunciada era de até mil ônibus por ano.

A trajetória industrial da companhia no Brasil passou por diferentes etapas:

  • 2014 – BYD anuncia Campinas (SP) como sede de sua primeira fábrica na América do Sul.
  • 2015 – começa a operação da unidade de Campinas para fabricação de chassis de ônibus elétricos.
  • 2017 – a companhia inaugura uma segunda fábrica em Campinas, desta vez destinada à produção de módulos fotovoltaicos.
  • 2020 – entra em operação a fábrica de baterias de fosfato de ferro-lítio no Polo Industrial de Manaus (AM), criada, entre outras aplicações, para abastecer ônibus elétricos.
  • 2025 – a BYD amplia de maneira significativa sua presença industrial brasileira com a entrada em operação do complexo de veículos eletrificados de Camaçari (BA). A unidade baiana é destinada principalmente aos automóveis e não substitui a produção de chassis de ônibus de Campinas.
  • 2026 – em 25 de agosto, a BYD anunciou ter alcançado a marca de mil chassis de ônibus elétricos produzidos em Campinas. A fábrica atravessa um dos maiores ritmos de produção desde sua inauguração e passa por ampliação.

Segundo informações divulgadas pela própria fabricante em agosto de 2026, a linha de Campinas chegou a produzir cerca de 30 chassis por semana, equivalentes a uma média de seis por dia útil.

A operação brasileira integra uma presença da BYD que se expandiu por diversos mercados latino-americanos. A companhia transformou a região em um dos principais territórios internacionais de sua divisão de ônibus elétricos, com veículos em sistemas de transporte coletivo de diferentes países.

O Brasil ganha importância especial nessa estratégia por combinar um dos maiores mercados de ônibus do mundo com produção local. A fábrica de Campinas permite à BYD disputar encomendas públicas e privadas com produto fabricado no País, reduzindo a dependência da importação integral dos veículos.

O avanço da BYD em 2026 é expressivo quando observado mês a mês. Até julho, a companhia somava 175 elétricos emplacados e ocupava a segunda colocação, atrás da Induscar/Eletra, que tinha 244. Somente os 126 registros de agosto elevaram a BYD para 301 unidades e inverteram a liderança do acumulado.

Ou seja, em apenas um mês, a vantagem de 69 ônibus que a Eletra/Caio mantinha sobre a BYD transformou-se em uma vantagem de 26 veículos para a fabricante chinesa.

A EVOLUÇÃO DA ELETRA E A IMPORTÂNCIA DE UMA INDÚSTRIA NACIONAL FORTE

A mudança na liderança não diminui o peso da Eletra na história da eletromobilidade brasileira. Pelo contrário: a empresa de São Bernardo do Campo está entre as pioneiras mundiais na aplicação comercial de tecnologias elétricas e híbridas em ônibus urbanos.

A história industrial da Eletra começou em 1988, quando Maria Beatriz e João Antônio Braga, integrantes de uma família tradicional do transporte coletivo no ABC Paulista, decidiram desenvolver no Brasil tecnologias de tração elétrica adaptadas às condições operacionais brasileiras.

A companhia desenvolveu, em 1999, o primeiro ônibus híbrido com tecnologia nacional. O projeto combinava motor elétrico de tração da WEG, motor Mercedes-Benz para geração de energia e baterias Moura. Em 2003, a tecnologia ficou entre as cinco finalistas do World Technology Award, nos Estados Unidos.

A experiência acumulada passou por trólebus, ônibus híbridos e, posteriormente, ônibus 100% elétricos a bateria.

A estratégia industrial adotada pela Eletra é diferente daquela de uma montadora verticalizada. A empresa criou uma cadeia de fornecedores nacionais e internacionais na qual integra chassis, sistemas de tração, motores, baterias e carrocerias.

A parceria mais conhecida é com a Caio, de Botucatu (SP), razão pela qual os veículos aparecem nos dados da Fenabrave como Induscar. Mais recentemente, a Eletra ampliou as opções de carroceria e firmou parceria também com a Mascarello, de Cascavel (PR).

Em agosto de 2026, durante a Lat.Bus, a empresa apresentou uma nova geração de chassis elétricos, ampliando a estratégia de oferecer plataformas destinadas a diferentes capacidades e aplicações.

A existência de uma indústria brasileira forte neste segmento tem importância que ultrapassa a disputa mensal de emplacamentos.

Além da geração de empregos e renda, uma cadeia produtiva instalada no País significa desenvolvimento de engenharia nacional, formação de mão de obra especializada, capacidade de manutenção, disponibilidade de componentes e menor dependência de veículos integralmente importados.

Também permite que os projetos sejam desenvolvidos levando em consideração características específicas das cidades brasileiras, como temperatura, pavimento, topografia, elevada quantidade de passageiros, jornadas operacionais extensas e diferentes padrões de carrocerias.

A disputa de mercado, portanto, ocorre em um momento no qual o Brasil começa a criar escala suficiente para sustentar uma cadeia industrial própria de ônibus elétricos.

Mesmo perdendo a liderança acumulada para a BYD em agosto, a Eletra/Caio permanece muito próxima: são 275 veículos, contra 301 da concorrente, uma diferença de apenas 26 unidades.

A EVOLUÇÃO DA MERCEDES-BENZ E O PESO DA REDE DE PÓS-VENDA

A terceira força que ganhou velocidade no mercado brasileiro de ônibus elétricos é a Mercedes-Benz.

A empresa entrou mais tarde que BYD e Eletra na produção comercial de ônibus elétricos a bateria no Brasil, mas trouxe para este mercado uma estrutura construída ao longo de décadas de liderança no segmento nacional de chassis de ônibus.

O eO500U teve pré-lançamento em 2021 e apresentação pública na Lat.Bus de 2022. O modelo foi desenvolvido no Brasil para as características operacionais do País e da América Latina.

A produção em série passou a ser realizada na fábrica 4.0 da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, utilizando uma linha flexível que permite fabricar chassis elétricos e modelos a diesel na mesma estrutura. Cerca de 600 trabalhadores foram treinados para a produção do elétrico.

As primeiras 50 unidades foram destinadas às empresas Metrópole Paulista, MobiBrasil e Sambaíba, da cidade de São Paulo. A partir daí, a frota cresceu rapidamente.

Em outubro de 2025, a Mercedes-Benz informou ter superado a marca de 400 unidades do eO500U vendidas no País. Naquele momento, os veículos já acumulavam mais de cinco milhões de quilômetros percorridos somente na cidade de São Paulo.

A companhia também trabalha na ampliação do portfólio.

Além do eO500U padron, a Mercedes-Benz desenvolveu no Brasil o eO500UA, articulado elétrico de 18 metros destinado a operações de maior capacidade. O projeto foi apresentado inicialmente na Lat.Bus de 2024, com previsão de produção em São Bernardo do Campo e também de exportação para mercados latino-americanos.

Na Lat.Bus 2026, a fabricante também apresentou o eCity, modelo elétrico de piso alto voltado a operações que não necessitam das mesmas características e autonomia dos ônibus de grande capacidade.

Um dos diferenciais competitivos da Mercedes-Benz está fora da própria linha de montagem: a capilaridade de sua estrutura comercial e de pós-venda.

A marca construiu ao longo de décadas uma ampla rede de concessionários e assistência técnica espalhada pelo Brasil. Em levantamento divulgado pela própria Mercedes-Benz, a estrutura chegou a superar 280 pontos de atendimento, considerando concessionários e oficinas dedicadas dentro de clientes.

Para o ônibus elétrico, essa estrutura pode ter peso relevante.

A eletrificação muda diversos componentes do veículo e exige capacitação específica, mas os operadores continuam necessitando de disponibilidade de peças, diagnóstico, manutenção, assistência técnica, financiamento e atendimento rápido para reduzir o tempo de ônibus parado.

A Mercedes-Benz também oferece ferramentas de gestão de frota, planos de manutenção, estoque consignado de peças e serviços financeiros, criando uma estrutura que procura acompanhar o veículo durante toda a operação.

É justamente a combinação entre produto nacional, rede de concessionários, pós-venda e relacionamento histórico com empresas de ônibus que a fabricante utiliza como diferencial para acelerar sua presença no mercado elétrico.

Os números de agosto mostram esse movimento: foram 75 ônibus elétricos Mercedes-Benz emplacados em apenas um mês, contra 31 da Eletra/Caio.

Com isso, a Mercedes-Benz ficou com 29,53% dos registros mensais e alcançou a vice-liderança de agosto.

No acumulado, entretanto, ainda existe distância: são 191 Mercedes-Benz, contra 275 Eletra/Caio e 301 BYD.

MERCADO ELÉTRICO CRESCE MESMO COM QUEDA DO MERCADO TOTAL DE ÔNIBUS

O desempenho dos elétricos contrasta com o comportamento do mercado brasileiro de ônibus como um todo.

Segundo a Fenabrave, foram emplacados 2.437 ônibus de todas as tecnologias em agosto de 2026, contra 2.691 em julho, uma queda mensal de 9,44%. Na comparação com agosto de 2025, quando foram registrados 2.053 veículos, entretanto, houve crescimento de 18,70%.

No acumulado de janeiro a agosto, o mercado total chegou a 18.119 ônibus, abaixo das 18.923 unidades de igual período de 2025, retração de 4,25%.

Isso significa que, enquanto o mercado brasileiro total de ônibus caiu 4,25% no acumulado, o segmento exclusivamente elétrico avançou 82,03%.

Os elétricos passaram, assim, a representar aproximadamente 5,14% de todos os ônibus novos emplacados no País entre janeiro e agosto de 2026.

Em agosto, a participação foi ainda maior: os 254 elétricos corresponderam a cerca de 10,42% dos 2.437 ônibus de todas as tecnologias registrados no mês.

Os dados mostram que a eletrificação, apesar de ainda representar uma parcela minoritária do mercado brasileiro total, cresce em velocidade muito superior à dos ônibus convencionais.

A concentração das compras na cidade de São Paulo ainda é determinante para estes resultados. O próximo passo para BYD, Eletra, Mercedes-Benz e as demais fabricantes será ampliar a escala para outras capitais, regiões metropolitanas e cidades médias.

Essa descentralização será decisiva para mostrar se o crescimento registrado em 2026 representa apenas um ciclo de grandes encomendas concentradas em São Paulo ou o início de uma mudança estrutural no mercado brasileiro de ônibus.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    Era só uma questão de tempo que a BYD deslanchasse.
    E agora com a Mercedes Benz e a VW lançando e diversificando produtos, a concorrência tende a se intensificar nesse ainda restrito mercado. Cabendo a Eletra manter-se atualizada pra manter uma fatia do bolo, frente à sua iminente perda da liderança.
    Fora isso, resta ao próprio mercado dos elétricos o desafio de reduzir a sua dependência excessiva de São Paulo.

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