JTP é selecionada no Novo PAC para financiar R$ 68,4 milhões em ônibus para Rio Branco (AC)
Publicado em: 2 de setembro de 2026
Empresa está em transição para substituir a Ricco e já foi contemplada pelo programa para Bragança Paulista e Porto Velho; Diário do Transporte anunciou em primeira mão entrada da operadora na capital acreana e compra de 60 ônibus zero quilômetro
ADAMO BAZANI
O Ministério das Cidades selecionou uma proposta da JTP para um financiamento de R$ 68,4 milhões destinado à aquisição de ônibus para o transporte público de Rio Branco (AC). A operação faz parte do Novo PAC – Mobilidade Urbana, no subeixo Renovação de Frota do Pró-Transporte, será realizada com recursos do FGTS e terá o Banco Mercedes-Benz do Brasil como agente financeiro. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União desta quarta-feira, 02 de setembro de 2026.
A seleção ocorre justamente enquanto a empresa prepara a entrada definitiva no sistema de ônibus da capital acreana em substituição à Ricco Transportes. O Diário do Transporte anunciou em primeira mão, em 24 de junho, que a JTP havia sido escolhida no processo emergencial, com remuneração técnica de R$ 11,29 por quilômetro, e posteriormente revelou que seriam comprados 60 ônibus zero quilômetro. O planejamento prevê uma frota total de 120 veículos. A portaria federal, porém, não informa a quantidade de ônibus que será financiada pelos R$ 68,4 milhões, portanto não é possível afirmar apenas pelo documento que o financiamento corresponde exatamente aos 60 veículos já anunciados.
COM Rio Branco é o nome fantasia da filial da JTP que aparece no Novo PAC
Embora a portaria do Ministério das Cidades traga a razão social JTP Transportes, Serviços, Gerenciamento e Recursos Humanos Ltda., o CNPJ selecionado para o financiamento, 07.580.559/0012-30, corresponde à filial cujo nome fantasia é COM Rio Branco.
A filial foi aberta em 06 de julho de 2026 na capital acreana e tem como atividade principal cadastrada o transporte rodoviário coletivo de passageiros com itinerário fixo municipal.
O ato federal não define modelo, fabricante, carroceria, quantidade ou tecnologia de propulsão dos ônibus. O objeto oficial se limita à “aquisição de ônibus para transporte público coletivo urbano”.
Também é importante diferenciar seleção de liberação efetiva dos recursos. A portaria torna pública a escolha da proposta dentro do Novo PAC/Pró-Transporte para financiamento com recursos do FGTS. A contratação e o desembolso seguem as etapas financeiras da operação.
Diário do Transporte anunciou em primeira mão entrada da JTP em Rio Branco
Em 24 de junho de 2026, o Diário do Transporte anunciou em primeira mão que o Conselho Municipal de Transporte Público havia aprovado a tarifa técnica oferecida pela JTP para substituir a Ricco.
A JTP foi a única empresa que apresentou proposta no chamamento emergencial. O valor aprovado para remuneração da operação foi de R$ 11,29 por quilômetro rodado, enquanto a passagem paga pelo usuário permaneceu em R$ 3,50. A diferença passou a ser prevista como subsídio municipal.
Relembre: Conselho aprovou R$ 11,29 por km para JTP substituir a Ricco em Rio Branco
Em 11 de julho, o Diário do Transporte mostrou que, segundo o prefeito Alysson Bestene, a JTP compraria 60 ônibus zero quilômetro para Rio Branco.
O planejamento divulgado pela prefeitura prevê 120 veículos no total. A previsão inicial era começar com 19 ônibus novos e ampliar gradualmente essa quantidade até chegar aos 60 zero quilômetro, completando a frota com 60 seminovos.
Os ônibus novos foram anunciados com ar-condicionado. Para a frota como um todo, o contrato prevê acessibilidade, Wi-Fi, tomadas USB, GPS, bilhetagem eletrônica e acompanhamento por um CCO, o Centro de Controle Operacional.
Relembre: JTP vai comprar 60 ônibus zero quilômetro para Rio Branco, disse prefeito
Crise com a Ricco se intensificou após quatro anos de contratos emergenciais
A transição tem uma história que começou antes da escolha da JTP.
A Ricco assumiu parte significativa do transporte de Rio Branco em 2022, inicialmente em caráter emergencial, depois da saída da Empresa Auto Viação Floresta. Desde então, o contrato foi sendo renovado.
Em fevereiro de 2026, a prefeitura informou uma nova prorrogação por seis meses. Naquele momento, o acordo previa R$ 12,4 milhões e um aumento do subsídio municipal. A própria Ricco posteriormente contestou aspectos dessa relação contratual e afirmou publicamente que havia problemas de defasagem de remuneração e repasses.
Paralelamente, Rio Branco tentava estruturar uma concessão definitiva. Uma concorrência estimada em mais de R$ 1 bilhão foi alvo de questionamentos levados ao Ministério Público do Acre e acabou suspensa em abril de 2026 para ajustes.
Paralisação total levou prefeitura a decretar emergência em abril
A situação se agravou em 22 de abril, quando os rodoviários paralisaram integralmente o sistema em meio a reivindicações relacionadas a salários e benefícios atrasados.
A prefeitura decretou situação de emergência no transporte coletivo por 60 dias, permitindo a adoção de medidas excepcionais para restabelecer e assegurar o serviço. Os ônibus voltaram às ruas no dia seguinte depois de um acordo entre trabalhadores, Ricco e administração municipal.
Poucos dias depois, uma decisão da Justiça do Trabalho apontou problemas envolvendo mais de 40 ônibus utilizados pela Ricco e determinou providências relacionadas à regularização dos veículos e ao pagamento dos trabalhadores.
A prefeitura criou ainda um grupo de trabalho para analisar informações técnicas, operacionais, administrativas e financeiras do transporte, cujo prazo foi prorrogado em maio.
Novo chamamento foi aberto em junho para substituir a Ricco
Em 11 de junho, a RBTrans abriu um novo chamamento emergencial para escolher uma empresa que substituísse a Ricco.
O contrato previsto tinha duração de até 12 meses e valor máximo inicial de remuneração de R$ 11,56 por quilômetro. O objetivo declarado era evitar interrupções enquanto o município buscava uma solução definitiva para o transporte.
Em 23 de junho, a prefeitura prorrogou por outros 60 dias a situação de emergência que havia sido decretada em abril.
No dia seguinte ocorreu a aprovação da proposta da JTP. A empresa foi a única participante do processo e ofereceu R$ 11,29 por quilômetro, abaixo do teto do chamamento.
Apreensão de 38 ônibus da Ricco agravou situação durante a transição
Em 30 de junho, outro episódio aumentou a pressão sobre o sistema: 38 ônibus utilizados pela Ricco foram apreendidos por determinação judicial.
A ordem previa a reintegração de posse de até 50 veículos e estava relacionada a uma dívida estimada em aproximadamente R$ 3 milhões. Naquele dia, a redução da frota provocou lotação em pontos e no terminal, e apenas 48 ônibus chegaram a circular, segundo informações reunidas pelo Diário do Transporte.
A prefeitura então estruturou uma transição para que a Ricco continuasse atendendo parte das linhas enquanto a JTP preparava frota, garagem, pessoal e sistemas tecnológicos.
Em julho, o município informou que esse período poderia chegar a 90 dias, com transferência gradual das linhas e dos trabalhadores para a nova operação.
Ministério Público acompanhou mudança e estabeleceu preocupação com continuidade do atendimento
A transição também passou a ser acompanhada pelo Ministério Público do Acre.
Em 14 de julho, o MPAC recomendou medidas para garantir continuidade, regularidade e segurança do transporte durante a troca de empresas. O cronograma apresentado naquele momento previa a conclusão de etapas técnicas em 31 de julho, o início efetivo da JTP até 1º de setembro e a transferência dos créditos tarifários dos usuários até 10 de setembro.
Em agosto, o prefeito Alysson Bestene esteve em São Paulo e visitou a sede da JTP, em Barueri, e a fábrica da Caio, em Botucatu, onde os 60 ônibus novos destinados a Rio Branco estavam sendo produzidos. Posteriormente, o prefeito afirmou que a expectativa era de chegada dos veículos em setembro.
Na terça-feira, 1º de setembro, um dia antes da publicação da seleção do Novo PAC, a prefeitura criou formalmente uma comissão com servidores para acompanhar a desmobilização da Ricco e a implantação da JTP, demonstrando que a transição operacional ainda estava em andamento.
JTP já opera ônibus urbanos em Porto Velho e Bragança Paulista
A chegada ao Acre amplia a presença da JTP no transporte coletivo urbano.
Atualmente, a empresa mantém operações municipais de ônibus em Porto Velho (RO) e Bragança Paulista (SP). Em Porto Velho, a JTP é concessionária desde 2020, após vencer a concorrência para um contrato de 15 anos. O Portal da Transparência municipal registra valor contratual superior a R$ 1,047 bilhão.
Em Bragança Paulista, o contrato firmado em 2020 permanece válido. Em maio de 2026, o STJ manteve a validade da contratação após disputa judicial relacionada à licitação realizada em 2019.
Antes de Rio Branco, JTP já havia sido selecionada pelo Novo PAC em Bragança Paulista e Porto Velho
A operação de R$ 68,4 milhões para Rio Branco não é a primeira seleção da JTP para financiamento de ônibus dentro do Novo PAC.
Em maio de 2025, o Ministério das Cidades selecionou uma proposta da empresa de R$ 25,65 milhões para aquisição de ônibus urbanos em Bragança Paulista, também por meio do Pró-Transporte e com o Banco Mercedes-Benz como agente financeiro. O ato federal previa recursos do FGTS.
Meses depois, em outubro de 2025, a JTP foi novamente selecionada, desta vez para R$ 47,025 milhões em Porto Velho. O dinheiro também foi destinado à aquisição de ônibus para o transporte público coletivo urbano e teve o Banco Mercedes-Benz como agente financeiro.
O Diário do Transporte mostrou a seleção para Porto Velho em 24 de outubro de 2025, lembrando que a empresa opera a concessão da capital de Rondônia desde março de 2020.
Relembre: JTP foi selecionada no Novo PAC com R$ 47 milhões para Porto Velho
Em Bragança Paulista, a seleção de R$ 25,65 milhões havia sido anunciada para a compra de 30 ônibus. Em junho de 2025, a cidade apresentou uma renovação com 38 veículos, dos quais 24 eram zero quilômetro e 14 seminovos.
JTP deixou Embu das Artes em março de 2026
A empresa também teve uma operação importante em Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo, mas deixou o sistema municipal em março de 2026.
A JTP operava no município desde 2019. A substituição ocorreu pela Viação Cidade das Artes, empresa ligada às viações Miracatiba e Pirajuçara, que assumiu o transporte municipal a partir de março.
Como mostrou o Diário do Transporte, parte dos ônibus utilizados na transição pela nova empresa era formada justamente por veículos usados da própria JTP, além de coletivos provenientes do Rio de Janeiro.
Com a entrada em Rio Branco, a atuação urbana da JTP passa a se concentrar em três sistemas: Porto Velho, Bragança Paulista e a capital acreana, esta última ainda em processo de implantação e transição nesta primeira semana de setembro.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


