Eletromobilidade

Grupo Comporte coloca em operação ônibus elétrico chinês da CRRC em Mogi das Cruzes (SP)

Veículo foi apresentado pela prefeitura nesta segunda-feira (17). Parceiro da CRRC, mesma fabricante das composições do TIC São Paulo – Campinas, conglomerado da família Constantino de Oliveira já colocou o modelo para rodar no Distrito Federal e em Santos, onde mantém concessões de transportes

ADAMO BAZANI

O Grupo Comporte colocou em operação nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, mais um ônibus elétrico fabricado pela chinesa CRRC, ampliando a presença da marca no transporte coletivo brasileiro.

O veículo, apresentado oficialmente nesta segunda-feira pela prefeitura, tem autonomia declarada de 280 quilômetros por carga e capacidade para 77 passageiros, sendo 37 sentados e 40 em pé.

A operação será feita inicialmente nas linhas conjugadas C501 e C502, do Corredor 5 – Leste, que atendem os principais corredores da Vila Suíssa, Jardim São Pedro e proximidades, na região leste de Mogi das Cruzes.

Mais do que a estreia de um ônibus elétrico no sistema municipal, a chegada do modelo reforça uma aproximação empresarial que já ultrapassa o transporte sobre pneus.

O Grupo Comporte e a CRRC são parceiros também no setor ferroviário. O consórcio vencedor da concessão do TIC (Trem Intercidades) Eixo Norte, que vai ligar São Paulo a Campinas, foi formado pelo conglomerado brasileiro e pela estatal chinesa. A parceria constituiu a concessionária TIC Trens. O projeto prevê ainda o TIM (Trem Intermetropolitano), entre Jundiaí e Campinas, e a modernização da Linha 7-Rubi.

A CRRC participa também do planejamento dos novos trens que atenderão o sistema, e sua fábrica instalada em Araraquara (SP) poderá ser utilizada na produção das composições do TIM, segundo informações divulgadas pelo Governo do Estado de São Paulo.

CRRC AVANÇA NOS ÔNIBUS DO GRUPO COMPORTE

A utilização da tecnologia da CRRC em Mogi das Cruzes ocorre depois de o Grupo Comporte avançar com os veículos chineses em outras concessões de transporte coletivo.

No Distrito Federal, a Viação Piracicabana, empresa do grupo, adquiriu 90 ônibus elétricos da CRRC. Os primeiros veículos começaram a chegar ao País no primeiro semestre de 2026 para atendimento do sistema de Brasília e regiões administrativas. A Piracicabana é concessionária da Bacia 1 do transporte coletivo do Distrito Federal.

Em Santos, no litoral paulista, onde a Viação Piracicabana também opera o transporte municipal, um ônibus elétrico de origem chinesa começou a circular em 22 de janeiro de 2026.

Neste caso, o veículo tem autonomia declarada de até 220 quilômetros, piso baixo, sistema de ajoelhamento da suspensão, rampa de acessibilidade e ar-condicionado elétrico. A Prefeitura de Santos informou na ocasião que o ônibus seria avaliado em comparação aos modelos a diesel, inclusive sob os aspectos de consumo, custos e manutenção.

A Viação Piracicabana pertence ao Grupo Comporte, conglomerado com atuação em diferentes segmentos de transporte de passageiros, incluindo ônibus urbanos e rodoviários e sistemas sobre trilhos.

AUTONOMIA DE 280 KM E FRENAGEM REGENERATIVA

Segundo as informações apresentadas em Mogi das Cruzes, o ônibus possui propulsão 100% elétrica e autonomia de 280 quilômetros.

Entre os equipamentos estão suspensão a ar, freios a disco com ABS e sistema de frenagem regenerativa, pelo qual parte da energia gerada nas desacelerações pode retornar ao conjunto de baterias.

O veículo também possui comando de operação do tipo “push button”, eliminando a necessidade das trocas de marchas dos ônibus convencionais e reduzindo vibrações e solavancos durante a operação.

São três portas largas, além de sistema de segurança que impede a movimentação do veículo quando as portas estão abertas.

O modelo conta ainda com iluminação interna de LED, poltronas estofadas, vidros fumê, conjunto óptico em LED e quatro visores eletrônicos para identificação da linha e informações operacionais.

O piso baixo na região central permite acessibilidade a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

Outro equipamento é o ar-condicionado integrado, cujo funcionamento pode ser ajustado de acordo com a ocupação do coletivo.

Segundo a prefeitura, a manutenção e a operação serão acompanhadas tanto pela concessionária quanto pela fabricante, com monitoramento em tempo real do desempenho do ônibus. Esta possibilidade de acompanhamento é uma das características da nova geração de veículos elétricos, permitindo análise de parâmetros de consumo, baterias e condições de funcionamento durante a operação.

LINHAS C501 E C502

A escolha das linhas C501 e C502, segundo a administração municipal, levou em consideração as características físicas do ônibus e as condições do viário.

A linha C501 terá trecho total atendido de 24 quilômetros por viagem, enquanto a C502 terá 20,8 quilômetros.

Entre as principais vias percorridas estão Barão de Jaceguai, Nelusco Boratto, Dom Antonio Cândido Alvarenga, Dante João Stoppa, Olegário Paiva, João XXIII, Vereador Narciso Yague Guimarães, Prefeito Carlos Ferreira Lopes, Manoel Bezerra de Lima Filho, Carlos Barattino, Francisco Rodrigues Filho, Yoshiteru Onishi e Ricieri José Marcatto.

Dados da Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito mostram que, entre janeiro e junho de 2026, a C501 transportou 201.808 passageiros.

No mesmo período, foram 216.653 passageiros na C502.

PREFEITURA VAI ESTUDAR EXPANSÃO

Somente após o início da operação e da avaliação do desempenho do veículo é que a Prefeitura de Mogi das Cruzes pretende estudar uma eventual ampliação da chamada Linha Verde para outras regiões da cidade.

A prefeita Mara Bertaiolli participou da apresentação do veículo nesta segunda-feira acompanhada pelo vice-prefeito Téo Cusatis, pelo secretário municipal de Mobilidade e Trânsito, Felipe Kamiyama, pelo secretário-adjunto Fabio Vega e por vereadores.

“Este é mais um passo rumo a um transporte público moderno e sustentável. Com zero emissão de poluentes, mais conforto e acessibilidade, o veículo representa o início de um novo tempo para a mobilidade de Mogi das Cruzes”, afirmou Mara Bertaiolli.

A administração municipal não anunciou, nesta apresentação, uma quantidade definida de novos ônibus elétricos a ser incorporada à frota. A expansão dependerá dos estudos sobre o funcionamento do modelo e sobre sua adequação a outras regiões do município.

CRRC NÃO DESCARTA MERCADO  NACIONAL

Todos estes ônibus estão em conformidade com as normas brasileiras de transporte público. Já vieram enumerados e adesivados de fábrica, com toda a sinalização interna e a identidade visual própria do transporte coletivo do DF.

Como mostrou o Diário do Transporte, em 25 de março de 2026, durante a apresentação das instalações da chinesa CRRC, em Araraquara (SP), para produção de trens, o vice-presidente e até então titular da pasta, Geraldo Alckmin, disse que fabricantes receberão financiamentos por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), além de apoios para aquisição de terrenos, contato com custeio até mesmo das desapropriações.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/03/25/governo-federal-diz-que-quer-atrair-mais-fabricas-de-trens-para-o-brasil-e-que-nao-vai-apenas-financiar-via-bndes-mas-ceder-areas-e-bancar-desapropriacoes/

A reportagem do Diário do Transporte mostrou na ocasião também que técnicos do próprio Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, abertura das portas do Brasil para a indústria internacional de trens e de implementos metroferroviários também pode ampliar a produção de outros veículos e equipamentos voltados ao transporte público, como ônibus elétricos.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/04/07/exclusivo-incentivo-a-industria-de-trens-no-brasil-tambem-pode-abrir-as-portas-para-ampliar-producao-de-onibus-eletricos-por-outras-marcas/

DIVERSAS MARCAS:

Além da própria CRRC, outras gigantes que atuam nas produções metroferroviárias também fazem ônibus elétricos e a hidrogênio.

A própria Hyundai, com o braço ferroviário Rotem, possui unidade dedicada a ônibus elétricos.

A Mitsubishi Electric BV fabrica trens, composições de metrô e pela Mitsubishi Fuso Truck and Bus Corporation, da Daimler Truck, que, por sua vez, controla A Mercedes-Benz também tem forte atuação em ônibus elétricos.

A fabricante espanhola de trens CAF é proprietária da Solaris, com tecnologia de ônibus elétricos.

Não significa necessariamente que estas marcas se interessarão por plantas no Brasil, mas o Governo Federal sinalizou a disposição de, caso haja interesse, juntamente com o negócio metroferroviário, também incentivar o desenvolvimento local de ônibus elétricos a bateria e a hidrogênio.

O BNDES disponibilizou linhas de financiamentos que já somaram R$ 6,6 bilhões para ônibus elétricos e projeta mais ampliações de frotas. Várias licitações locais já pedem coletivos menos poluentes.

CHINESES AMPLIAM DISPUTA NO MERCADO BRASILEIRO

A entrada da CRRC no segmento de ônibus ocorre em um mercado que já desperta há alguns anos a atenção de diferentes fabricantes chineses.

Um dos casos mais consolidados é o da BYD, que possui produção de chassis de ônibus elétricos em Campinas (SP) desde 2015.

A unidade começou a montar chassis no País com investimento inicialmente divulgado de R$ 250 milhões. Desde os primeiros anos da operação, a estratégia da companhia foi aumentar o conteúdo produzido localmente para permitir o enquadramento dos veículos nas linhas de financiamento do BNDES.

Assim, diferentemente do modelo importado integralmente da CRRC que passou a ser utilizado pelo Grupo Comporte, a BYD possui produção industrial de chassis de ônibus elétricos em território brasileiro.

Outra chinesa que tenta ampliar presença no País é a Higer.

Como mostrou o Diário do Transporte em primeira mão em 24 de abril de 2026, a companhia anunciou uma nova estrutura no Brasil, incluindo sede comercial em São Paulo e um centro técnico em Piracicaba (SP), previsto para atuar no processo de nacionalização de componentes, capacitação técnica e distribuição de peças. A fabricante também informou que prepara uma planta de montagem no Brasil.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/04/24/em-primeira-mao-higer-tera-centro-de-desenvolvimento-e-nacionalizacao-de-onibus-eletricos-em-piracicaba-sp-inaugura-sede-comercial-na-capital-paulista-e-prepara-producao-no-brasil/

A Ankai é outra fabricante chinesa que entrou na disputa brasileira de ônibus elétricos.

A marca iniciou sua atuação comercial no País em parceria com o Grupo SHC, inicialmente com veículos integralmente importados da China. A gama apresentada ao mercado brasileiro inclui modelos de diferentes comprimentos, começando por veículos de seis metros e chegando aos urbanos de 12 metros, além de produtos maiores disponíveis internacionalmente.

A diferença entre importar o ônibus pronto e produzi-lo no Brasil ganha peso principalmente na discussão sobre financiamento.

BNDES E A PRODUÇÃO NACIONAL

As regras de diferentes linhas do BNDES criam condições mais favoráveis para máquinas e veículos produzidos no País, especialmente aqueles que atendem aos critérios de nacionalização e estão credenciados no sistema Finame.

No BNDES Finame – Baixo Carbono, por exemplo, o banco estabelece que os produtos financiados sejam novos, de fabricação nacional e credenciados no CFI (Credenciamento Finame). A linha contempla equipamentos que contribuam para maior eficiência energética ou redução das emissões de gases de efeito estufa.

Já no BNDES Finem destinado a ônibus e caminhões de baixo carbono, veículos com índice de nacionalização inferior a 60% podem receber apoio, mas o nível efetivo de participação da instituição considera apenas a parcela nacional do bem.

Na prática, estas regras tornam a nacionalização um componente importante da competição pelo mercado brasileiro de ônibus elétricos, especialmente nas aquisições que dependem de recursos públicos de longo prazo.

É neste cenário que fabricantes com produção já instalada no Brasil, como BYD, Mercedes-Benz, Marcopolo e a brasileira Eletra, ocupam uma posição diferente das empresas que ainda trazem os veículos completos do exterior.

Estudo publicado pelo próprio BNDES sobre a descarbonização dos transportes cita BYD, Eletra Industrial, Marcopolo e Mercedes-Benz entre as empresas que já produzem chassis de ônibus elétricos no País.

A Eletra tem um papel particular nesta discussão por ser uma fabricante de capital nacional e possuir planta em São Bernardo do Campo (SP), com desenvolvimento de soluções elétricas para ônibus e integração de componentes produzidos no Brasil.

A empresa anunciou a ampliação de sua capacidade industrial de 1,8 mil para até 3 mil ônibus elétricos por ano em 2026, com investimentos de R$ 40 milhões.

O próprio BNDES também vem tentando atrair mais fabricantes internacionais para produzir no Brasil. Em maio de 2026, representantes da instituição foram à China e à Alemanha justamente para discutir a instalação de novas fábricas de ônibus elétricos no País.

Desta forma, a presença do ônibus da CRRC em Mogi das Cruzes não representa apenas a chegada de mais um modelo elétrico a uma operação municipal.

O veículo também passa a integrar uma disputa maior entre fabricantes nacionais e estrangeiros pela eletrificação das frotas brasileiras, num momento em que disponibilidade de financiamento, índice de nacionalização, capacidade de pós-venda, fornecimento de peças, infraestrutura de recarga e custo total de operação começam a ter peso tão importante quanto a tecnologia embarcada nos próprios ônibus.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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