Eletromobilidade

Alcolumbre publica US$ 496,6 milhões do BID e Bird para 1,1 mil ônibus elétricos em São Paulo; Nunes acusou Governo Federal

Diário do Transporte revelou em primeira mão a notificação de Ricardo Nunes ao Senado e TCU e também antecipou a aprovação dos empréstimos; reportagem mostrou ainda que São Paulo terá novos modelos de ônibus elétricos neste semestre

ADAMO BAZANI

A publicação no Diário Oficial da União desta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, formaliza uma etapa decisiva para a Prefeitura de São Paulo contratar US$ 496,6 milhões em financiamentos internacionais destinados à eletrificação da frota municipal de ônibus.

São duas operações de US$ 248,3 milhões cada: uma com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e outra com o Bird (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, instituição do Grupo Banco Mundial).

Segundo estimativas da Prefeitura de São Paulo, os recursos serão suficientes para viabilizar aproximadamente 1,1 mil ônibus elétricos para o sistema gerenciado pela SPTrans (São Paulo Transporte).

As Resoluções do Senado Federal nº 27 e nº 29, ambas de 2026, foram publicadas depois de uma sequência de impasses envolvendo os empréstimos, cobranças públicas da gestão do prefeito Ricardo Nunes ao Governo Federal e até acionamentos do Senado e do TCU (Tribunal de Contas da União).

O Diário do Transporte revelou em primeira mão, em 7 de agosto de 2026, que a Prefeitura de São Paulo havia acionado Senado e TCU e acusava o Governo Federal de reter os financiamentos internacionais para os ônibus elétricos.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/08/07/exclusivo-prefeitura-de-sao-paulo-aciona-senado-e-tcu-e-acusa-governo-federal-de-reter-financiamentos-para-onibus-eletricos/

Seis dias depois, em 13 de agosto, o Diário do Transporte também noticiou em primeira mão a aprovação pelo Senado das duas operações, que juntas somam US$ 496,6 milhões.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/08/13/senado-aprova-us-4966-milhoes-para-onibus-eletricos-de-sao-paulo-diario-do-transporte-revelou-risco-aos-financiamentos/

Agora, com a publicação das resoluções, a autorização legislativa deixa de ser apenas uma decisão tomada pelo Senado e passa formalmente a produzir efeitos.

Isso, entretanto, não significa que os US$ 496,6 milhões sejam depositados imediatamente nos cofres municipais. Ainda existem etapas contratuais, financeiras e de garantia que precisam ser cumpridas antes dos desembolsos.

Duas operações de US$ 248,3 milhões

A Resolução nº 27 autoriza o Município de São Paulo a contratar US$ 248,3 milhões com o BID, tendo a União como garantidora.

O texto determina expressamente que o dinheiro deve financiar o chamado Programa de Redução da Emissão de Gases Poluentes por meio da Eletrificação da Frota de Ônibus.

Já a Resolução nº 29 autoriza outros US$ 248,3 milhões, desta vez junto ao Bird, também com garantia da União e com a mesma destinação: o programa de eletrificação da frota municipal de ônibus.

Somadas, as duas operações chegam a:

BID: US$ 248,3 milhões

Bird: US$ 248,3 milhões

Total: US$ 496,6 milhões

É este montante que a administração municipal calcula ser capaz de contribuir para colocar aproximadamente 1,1 mil novos ônibus elétricos no sistema.

Diário do Transporte acompanha financiamento desde 2023

A história destas operações é anterior à polêmica de agosto de 2026.

Em junho de 2023, o Diário do Transporte revelou em primeira mão que a Cofiex (Comissão de Financiamentos Externos), ligada ao Governo Federal, havia aprovado o projeto que abria caminho para aproximadamente US$ 500 milhões, ou US$ 496,6 milhões, do BID e do Bird para eletrificação dos ônibus da capital.

Naquela fase inicial de estruturação, a Prefeitura falava em aproximadamente mil ônibus elétricos e em contrapartida municipal de US$ 125 milhões.

O desenho final publicado agora pelo Senado apresenta uma diferença importante: tanto a Resolução nº 27, do BID, quanto a nº 29, do Bird, registram no campo relativo à operação que não há valor de contrapartida.
Ou seja, o formato financeiro formalizado em 2026 não é exatamente igual à estrutura apresentada publicamente na fase inicial do projeto, em 2023.

Projeto passou por uma longa sequência de entraves

Desde que as operações começaram a ser estruturadas, a eletrificação dos ônibus paulistanos encontrou dificuldades de diferentes naturezas.

Uma delas foi a própria necessidade de ampliar a capacidade da rede elétrica nas garagens. A SPTrans já havia reconhecido, ainda em 2023, que o crescimento da frota exigiria modificações na infraestrutura de distribuição de energia.

Em março de 2024, Ricardo Nunes chegou a dizer ao Diário do Transporte que estudava medidas judiciais contra a Enel devido aos atrasos na infraestrutura necessária para a expansão da frota elétrica. Naquele momento, a estimativa de investimentos na infraestrutura de energia havia aumentado de aproximadamente R$ 600 milhões para R$ 1,6 bilhão.

Além dos problemas de infraestrutura, os mecanismos de financiamento e remuneração precisaram ser estruturados porque um ônibus elétrico custa significativamente mais que um modelo equivalente a diesel.

A Prefeitura adotou um sistema de subvenção no qual recursos públicos financiam a diferença entre os preços de referência do ônibus a diesel e do ônibus elétrico. A própria administração municipal informa que já utiliza contratos com Banco do Brasil, BNDES e Caixa para este mecanismo.

Investigações sobre empresas também entraram na discussão

A eletrificação ganhou um novo componente de controvérsia em junho de 2026.

Como mostrou o Diário do Transporte, o promotor Lincoln Gakiya informou que financiamentos de ônibus elétricos destinados a empresas investigadas por supostas ligações com o PCC (Primeiro Comando da Capital) estavam sendo suspensos.

Segundo o promotor, Ministério Público, BID e Banco Mundial estabeleceram mecanismos de fiscalização dos contratos diante das investigações.

A situação passou a provocar dúvidas sobre o andamento dos recursos internacionais e sobre quais empresas poderiam efetivamente utilizar os financiamentos.

Prefeitura acusou Governo Federal de reter recursos e acionou Senado e TCU

O impasse ganhou dimensão política e institucional em agosto.

Em 7 de agosto de 2026, o Diário do Transporte revelou com exclusividade que a gestão Ricardo Nunes havia enviado notificações ao Senado e ao TCU e acusava o Governo Federal de reter os financiamentos destinados à eletrificação.

A administração municipal buscava acelerar a conclusão do processo necessário para contratação dos empréstimos.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/08/07/exclusivo-prefeitura-de-sao-paulo-aciona-senado-e-tcu-e-acusa-governo-federal-de-reter-financiamentos-para-onibus-eletricos/

A questão era particularmente sensível porque os financiamentos já vinham sendo estruturados havia anos e passaram por diferentes instâncias técnicas e financeiras antes de chegar ao Senado.

Senado aprovou US$ 496,6 milhões em 13 de agosto

A etapa que destravou politicamente as operações ocorreu na quinta-feira, 13 de agosto de 2026.

O Senado aprovou as autorizações para os dois empréstimos, de US$ 248,3 milhões cada, somando US$ 496,6 milhões.

O Diário do Transporte também informou a aprovação em primeira mão e relembrou que já havia antecipado o risco ao andamento dos financiamentos.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/08/13/senado-aprova-us-4966-milhoes-para-onibus-eletricos-de-sao-paulo-diario-do-transporte-revelou-risco-aos-financiamentos/

As resoluções foram promulgadas pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e agora aparecem oficialmente na edição de 17 de agosto do Diário Oficial da União.

E agora? Publicação não significa liberação automática do dinheiro

A publicação desta segunda-feira elimina uma das etapas fundamentais: a necessidade constitucional de autorização do Senado para a contratação das operações externas com garantia da União.

Mas há um caminho administrativo e contratual antes de os recursos começarem efetivamente a chegar.

Em linhas gerais, o rito agora envolve a conclusão e assinatura dos contratos de financiamento com BID e Bird, a formalização da garantia da União e das respectivas contragarantias oferecidas pelo Município de São Paulo, além do cumprimento das chamadas condições prévias ao primeiro desembolso.

As duas resoluções condicionam a garantia federal ao cumprimento dessas exigências.

Município terá de comprovar regularidade com a União

Outro requisito é a demonstração da situação de adimplência de São Paulo.

As resoluções determinam a comprovação de regularidade em relação a tributos, empréstimos e financiamentos devidos à União e à prestação de contas de recursos anteriormente recebidos.

É uma condição para que a garantia federal seja efetivamente concedida às operações.

São Paulo dará contragarantias à União

Como a União será a garantidora dos empréstimos, o Município de São Paulo precisa oferecer contragarantias ao Governo Federal.

Os textos autorizam a vinculação de cotas de participação do município na arrecadação da União, além de receitas próprias municipais e outras garantias legalmente admitidas.

Na prática, é o mecanismo pelo qual a União se protege financeiramente caso precise honrar compromissos do município junto às instituições internacionais.

Depois dos contratos, começam os desembolsos

Cumpridas as condições, assinados os contratos e tornadas efetivas as operações, os bancos poderão iniciar os desembolsos conforme a execução do programa.

Os cronogramas que constam das resoluções são originalmente previstos e poderão ser alterados em razão da data em que os contratos forem efetivamente assinados.
Essa observação é especialmente importante porque as tabelas ainda trazem parcelas originalmente programadas para 2025, ano que já passou.

Portanto, os valores indicados para cada exercício não significam que o dinheiro esteja automaticamente liberado nem que necessariamente seguirá exatamente aquele calendário.

BID tinha US$ 22,154 milhões originalmente previstos para 2026

No financiamento do BID, o cronograma original é dividido entre 2025 e 2030.

Os valores indicados são:

2025: US$ 49,660 milhões

2026: US$ 22,154 milhões

2027: US$ 37,180 milhões

2028: US$ 51,588 milhões

2029: US$ 62,282 milhões

2030: US$ 25,436 milhões.

A operação terá prazo total de 180 meses, o equivalente a 15 anos, sendo 72 meses de carência e 108 meses de amortização.

Os pagamentos serão semestrais, pelo sistema de amortização constante.

Os juros têm como referência a taxa SOFR acrescida de margem de financiamento e spread definidos pelo BID.

Há ainda comissão de crédito de até 0,75% ao ano sobre o saldo não desembolsado e despesas de inspeção e vigilância dentro dos limites previstos na resolução.

Bird tinha US$ 35,124 milhões previstos para 2026

O contrato com o Bird possui condições diferentes.

O cronograma original indica:

2025: US$ 20,952 milhões

2026: US$ 35,124 milhões

2027: US$ 51,936 milhões

2028: US$ 64,857 milhões

2029: US$ 75,429 milhões.

O prazo total é de 168 meses, ou 14 anos, com prazo de amortização de até 138 meses.

A resolução registra carência de até 30 meses relacionada à aprovação do contrato pela Diretoria do Banco, cuja chamada Board Date ocorreu em 15 de maio de 2025.

Os pagamentos de juros e amortizações serão semestrais e também pelo sistema de amortização constante.

A operação prevê taxa SOFR acrescida do spread variável do Bird, comissão de compromisso de 0,25% sobre o saldo não desembolsado, taxa inicial de 0,25% sobre o financiamento e acréscimo de 0,50% aos juros em caso de mora.

Autorizações têm validade de 540 dias

A Prefeitura não dispõe de prazo ilimitado para fechar as operações.

Tanto a autorização referente ao BID quanto a do Bird estabelecem prazo máximo de 540 dias para o exercício da autorização, contado a partir da entrada em vigor das respectivas resoluções.

As normas entraram em vigor nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, com a publicação.
Além disso, caso as condições financeiras sejam modificadas antes da assinatura dos contratos de forma a gerar um ônus superior ao aprovado, será necessária nova autorização do Senado.

Dinheiro não será simplesmente entregue às empresas de ônibus

Outro ponto importante para compreender a operação é que o Município de São Paulo é o tomador dos empréstimos.

Isso não significa, portanto, que BID ou Bird simplesmente repassarão diretamente US$ 496,6 milhões às concessionárias de ônibus.

A Prefeitura adota um mecanismo de subvenção para investimentos na eletrificação. De forma simplificada, o poder público reconhece que o ônibus elétrico custa mais do que o veículo a diesel equivalente e subvenciona parte dessa diferença.

A Prefeitura informa oficialmente que a subvenção para a aquisição de ônibus elétricos já utiliza recursos provenientes de financiamentos contratados com Banco do Brasil, BNDES e Caixa Econômica Federal.

Os valores referenciais são estabelecidos pela administração municipal de acordo com cada tipologia de veículo e servem de base para a remuneração do investimento realizado pelas concessionárias.

Novos modelos de ônibus elétricos devem chegar ainda neste semestre

Ao mesmo tempo em que avançam os financiamentos, a SPTrans prepara a ampliação das opções de veículos elétricos que poderão operar nas linhas municipais.

Como mostrou o Diário do Transporte neste domingo, 16 de agosto de 2026, novos modelos estão em processos de avaliação e aprovação para entrada no sistema ainda neste segundo semestre.

Entre as novidades apresentadas ao mercado estão ônibus elétricos de diferentes portes e configurações de fabricantes como Eletra, BYD, Mercedes-Benz, Volvo, Scania, Volkswagen e Caio, além de opções de outras fabricantes.

Há modelos mídi, veículos de piso alto para aplicações específicas, ônibus de 15 metros e três eixos e articulados de 18 metros, ampliando a variedade em relação às configurações atualmente disponíveis.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/08/16/sao-paulo-tera-novos-modelos-de-onibus-eletricos-e-prefeitura-ja-reserva-remuneracao/

A prefeitura também já autorizou alterações nos contratos das concessionárias para possibilitar a remuneração de novos tipos de veículos elétricos que venham a ser incorporados ao sistema.

São Paulo tem 1.759 ônibus elétricos, mas ainda não cumpriu antiga meta

São Paulo chegou a 1.759 ônibus elétricos após a incorporação de 500 veículos apresentada pela prefeitura em junho de 2026.

Apesar de ser a maior frota deste tipo no Brasil, o total ainda ficou abaixo da antiga meta municipal de 2,6 mil elétricos prevista para dezembro de 2024.

A expansão enfrentou ao longo dos últimos anos uma combinação de custo elevado dos veículos, necessidade de infraestrutura elétrica nas garagens, estruturação de mecanismos de financiamento, mudanças contratuais e, mais recentemente, questionamentos envolvendo empresas investigadas e a demora para conclusão das operações internacionais.

A publicação desta segunda-feira não encerra todos esses desafios, mas elimina um dos maiores entraves formais para os US$ 496,6 milhões: a autorização do Senado para os empréstimos externos e para a garantia da União.

A partir de agora, o foco passa à conclusão dos instrumentos contratuais e de garantia, ao cumprimento das condições necessárias ao primeiro desembolso e, posteriormente, à aplicação efetiva dos recursos na eletrificação.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

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  1. A bola da vez são os ônibus elétricos. Gastança de dinheiro público dando para os chineses que estão comprando o Brasil.
    Quero ver até der um problema de geração de luz, vão tudo voltar aos diesel.
    Brasil não é para amadores

    1. Lucas disse:

      Os chineses não estão comprando o Brasil, eles estão investindo no Brasil. Investimento em capital bruto, ou seja, em fábricas.
      Esse tipo de investimento garante que a receita fique no Brasil e, até uma fatia da renda.

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