ESPECIAL Lat.Bus 2026: tecnologia dos ônibus avança, mas financiamento desafia renovação das frotas
Publicado em: 11 de agosto de 2026
Primeiro dia tem novos elétricos, carrocerias, micro-ônibus e soluções com biometano, biodiesel, etanol e IA; juros, queda de demanda e concorrência chinesa entram no debate sobre como levar as novidades às ruas
ADAMO BAZANI
Colaborou Vinícius de Oliveira
A Lat.Bus 2026 abriu nesta terça-feira, 11 de agosto de 2026, em São Paulo, mostrando uma indústria que acelera o desenvolvimento tecnológico dos ônibus ao mesmo tempo em que enfrenta o desafio de viabilizar economicamente a renovação das frotas. A cobertura do Diário do Transporte acompanhou novos elétricos de Mercedes-Benz, Scania, Volkswagen, Volvo e Eletra/Mascarello; o Torino 2027 e G8 Tech da Marcopolo; a nova família de micro-ônibus da Mascarello; novidades de Iveco, Irizar, Caio e Busscar; além de inteligência artificial, conectividade e soluções destinadas à redução de consumo, emissões, manutenção e tempo de parada.
O primeiro dia também mostrou que a transformação não se resume aos ônibus a bateria. Biometano, biodiesel B100, etanol, sistemas híbridos e E-Trol dividem espaço com a eletrificação, enquanto crescem as opções de veículos de maior capacidade e diferentes configurações. Fora dos estandes, porém, os números e debates expõem o outro lado desse avanço: juros elevados, queda nos emplacamentos, concorrência chinesa, frota envelhecida e demanda de passageiros ainda abaixo dos níveis anteriores à pandemia colocam em discussão quem financiará e como será possível transformar as tecnologias apresentadas na feira em ônibus efetivamente incorporados às operações.
ELETRIFICAÇÃO CHEGA A NOVOS TAMANHOS E APLICAÇÕES

Uma característica observada pelo Diário do Transporte neste primeiro dia foi a diversificação dos ônibus elétricos.
Se há poucos anos os modelos a bateria estavam concentrados principalmente nos ônibus urbanos convencionais de aproximadamente 12 metros, a Lat.Bus 2026 reúne alternativas de diferentes comprimentos, capacidades e tipos de operação.
A Mercedes-Benz apresentou o eCity, ônibus elétrico de 12 metros desenvolvido sobre a arquitetura da família OF e que, inicialmente, será oferecido já encarroçado pela Caio.
O modelo tem piso alto, autonomia média anunciada de 150 quilômetros e previsão de chegada ao mercado em 2027. A proposta é atingir inclusive cidades pequenas e médias e operações nas quais um elétrico de configuração mais simples possa ser economicamente adequado.
A fabricante também iniciou as vendas do eO500UA articulado elétrico para Brasil e América Latina. Com isso, a linha elétrica urbana da Mercedes-Benz passa a abranger o eCity, o eO500U padron e o eO500UA articulado.
Segundo a montadora, aproximadamente 400 unidades do eO500U já circulam na cidade de São Paulo.
O articulado de aproximadamente 18 metros foi mostrado na feira com carroceria Caio Millennium BRT. O Diário do Transporte já havia conhecido antecipadamente o chassi no campo de provas da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP).
A configuração amplia as opções da fabricante para operações de maior capacidade.
SCANIA APRESENTA NOVO ELÉTRICO K 300 DE 15 METROS

A Scania apresentou na Lat.Bus o novo K 300 6×2*4 elétrico, de três eixos e 15 metros.
A configuração de 15 metros não é inédita na gama da fabricante. A Scania já possui experiência nesta faixa de comprimento, inclusive com o K 270 U. A novidade da Lat.Bus está na chegada do K 300 elétrico, ampliando para a propulsão a bateria as alternativas da marca para ônibus urbanos de três eixos e maior capacidade.
O novo modelo pode transportar até 105 passageiros e possui motor elétrico de 300 kW, equivalente a aproximadamente 408 cv.
São oferecidas configurações com quatro ou cinco conjuntos de baterias. Na maior delas, a capacidade chega a 445 kWh.
A autonomia declarada é de até 250 quilômetros.
O K 300 reforça também uma movimentação observada entre diferentes fabricantes na feira: a oferta de ônibus de 15 metros e três eixos com novas tecnologias de propulsão para linhas e corredores de maior demanda.
A estratégia da Scania, entretanto, não está limitada à bateria.
A fabricante também leva à feira soluções movidas a biometano e a nova geração de chassis rodoviários Super.
Parte destas novidades já havia sido antecipada pelo Diário do Transporte antes da abertura da Lat.Bus, em entrevistas realizadas com executivos da fabricante.
VOLVO AMPLIA ALTERNATIVAS PARA ÔNIBUS DE 15 METROS

A Volvo também apresenta alternativas para ônibus urbanos de três eixos e maior capacidade.
Uma das novidades é o B320R 6×2 B100 Flex, chassi que pode receber carrocerias de até 15 metros e transportar até 120 passageiros, dependendo da configuração.
O veículo pode utilizar diesel ou B100, biodiesel puro, inclusive em diferentes proporções.
Segundo a Volvo, a utilização integral do B100 pode reduzir em até 90% as emissões em comparação com o combustível fóssil.
A fabricante também possui o BZR 6×2 elétrico.
Desta forma, a Volvo oferece soluções urbanas de três eixos tanto elétricas quanto com motor a combustão compatível com biodiesel puro.
A presença de diferentes produtos nesta faixa mostra como os ônibus de 15 metros continuam ganhando alternativas tecnológicas para operações de maior demanda.
ELETRA E MASCARELLO AMPLIAM OPÇÕES DO HORIZON

Outro movimento importante da feira ocorreu na indústria nacional.
A Eletra anunciou parceria com a Mascarello e passou a oferecer sua tecnologia de tração elétrica no Horizon.
O modelo havia sido apresentado inicialmente com tecnologia BYD e foi conhecido pelo Diário do Transporte em primeira mão ainda no início de 2026.
Agora, a carroceria passa a contar também com uma alternativa Eletra.
A configuração Midi, na categoria próxima das dez toneladas, permite à Eletra entrar em uma faixa de veículos elétricos menores na qual ainda existem poucas opções no mercado brasileiro.
A parceria também representa uma diversificação das carrocerias associadas à tecnologia da empresa de São Bernardo do Campo (SP), historicamente bastante ligada aos produtos da Caio.
MASCARELLO RENOVA FAMÍLIA DE MICRO-ÔNIBUS

Além do Horizon elétrico e da parceria com a Eletra, a Mascarello chega à Lat.Bus com uma nova geração de micro-ônibus.
A fabricante paranaense desenvolveu a família S2, S3 e S4, que adota elementos da nova linguagem visual da marca e atualizações para diferentes aplicações urbanas, escolares e de fretamento.
O Micro S2 é destinado às aplicações de menor porte e pode ser montado sobre chassis de nove ou 11 toneladas. Tem 2,20 metros de largura e comprimento de até 10,6 metros, podendo transportar até 40 passageiros em determinadas configurações de fretamento.
O Micro S3 também utiliza chassis de nove ou 11 toneladas e pode chegar a 10,6 metros de comprimento, mas possui carroceria de 2,40 metros de largura. Pode ser configurado para transporte urbano, escolar e fretamento, inclusive com acessibilidade e ar-condicionado.
O S4 ocupa a faixa de maiores dimensões da nova família.
O Diário do Transporte já havia antecipado os novos modelos em 4 de agosto, uma semana antes da abertura da Lat.Bus.
A renovação ocorre em um momento de crescimento da Mascarello. Dados da Fabus mostram que a fabricante produziu 1.844 carrocerias no primeiro semestre de 2026, alcançando participação de 15,08% entre as fabricantes associadas. Somente na categoria de miniônibus foram 1.092 unidades entre janeiro e junho, volume superior às 1.017 unidades produzidas durante todo o ano de 2025.
E-TROL REAPARECE COMO ALTERNATIVA

A Eletra também reforçou na Lat.Bus o conceito E-Trol.
A tecnologia permite ao ônibus circular tanto conectado à rede aérea como utilizando baterias.
Internacionalmente, o conceito é conhecido como IMC, In Motion Charging. Enquanto circula conectado à rede elétrica, o ônibus também recarrega suas baterias, podendo depois percorrer trechos sem fios.
Segundo a Eletra, o sistema pode reduzir a necessidade de grandes conjuntos de baterias e diminuir a infraestrutura de recarga necessária nas garagens.
Outro recurso apresentado pela empresa é o Carbonômetro, desenvolvido para calcular em tempo real as emissões evitadas pela utilização dos ônibus elétricos.
VOLKSWAGEN COM ELÉTRICOS DE PISO ALTO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A Volkswagen Caminhões e Ônibus também amplia sua participação na eletromobilidade.
Entre os produtos apresentados estão os e-Volksbus 22H e e-Volksbus 18H, ambos elétricos de piso alto.
O 18H é direcionado principalmente ao segmento de fretamento e pode atingir autonomia anunciada de até 350 quilômetros.
Os veículos já haviam sido antecipados pelo Diário do Transporte, que conversou anteriormente com a direção da fabricante sobre a ampliação da família elétrica.
Mas uma das novidades que chamou atenção no primeiro dia não estava propriamente dentro do ônibus.
A Volkswagen apresentou o Volks Care School, aplicativo que utiliza inteligência artificial para treinamento de motoristas.
A ferramenta funciona como uma espécie de instrutor digital e pode personalizar o treinamento de acordo com o veículo, a frota e o profissional.
O sistema também permite verificar diagnósticos de falhas dos veículos e identificar necessidades específicas de capacitação de cada motorista.
É um exemplo de outra tendência observada na Lat.Bus: a tecnologia dos ônibus está avançando para além da propulsão.
TORINO 2027: NOVA GERAÇÃO DO URBANO DA MARCOPOLO

Entre os lançamentos de carrocerias, um dos destaques é o Torino 2027.
O Diário do Transporte conheceu o modelo antes da feira. Na semana anterior à Lat.Bus, Adamo Bazani esteve na unidade da Marcopolo em São Paulo, a convite da fabricante, teve contato com os veículos e entrevistou executivos responsáveis pelos projetos.
O Torino recebeu nova dianteira, traseira e conjunto óptico, mas as alterações vão além do desenho.
A Marcopolo direcionou parte do desenvolvimento para diminuir manutenção e tempo de ônibus parado.
As folhas das portas ficaram 30% mais leves, a central elétrica foi redimensionada e o veículo passou a utilizar a arquitetura EVIA para integração dos sistemas e diagnóstico de falhas.
A fabricante informa ainda redução superior a 30% na utilização de fibra de vidro.
No posto do motorista, o novo isolamento térmico pode reduzir a temperatura em até 5°C.
Também houve reformulação da climatização. Segundo a Marcopolo, a velocidade média do ar pode ficar até 40% maior que na geração anterior.
O Torino 2027 será produzido nas fábricas de Caxias do Sul (RS) e São Mateus (ES).
G8 TECH BUSCA REDUZIR CONSUMO

Nos rodoviários, a Marcopolo apresentou o G8 Tech.
Neste caso, as mudanças visuais são menores. O foco está principalmente em aerodinâmica, segurança, eletrônica e eficiência.
Um dos recursos são os slats dianteiros desenvolvidos em parceria com o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).
Segundo a fabricante, os componentes proporcionam redução de 15% no arrasto aerodinâmico e economia de combustível de 3,5%.
O modelo também recebeu câmera 360 graus de série, sistema Black Box para armazenamento de imagens e informações da operação, possibilidade de monitoramento do motorista por câmera e sistema automático de supressão de incêndio no compartimento do motor.
HÍBRIDO COM ETANOL TAMBÉM ENTRA NO MERCADO

Outra novidade da Marcopolo mostra como a feira não está restrita ao binômio diesel-elétrico.
O Volare Attack 10 Híbrido entrou oficialmente em comercialização.
O veículo utiliza conceito Range Extender.
Neste sistema, a tração das rodas é elétrica. Um motor HORSE H10 1.0 Turbo abastecido com etanol funciona como gerador de eletricidade e não movimenta mecanicamente o veículo.
O sistema utiliza motor elétrico WEG e bateria de alta tensão de até 120 kWh.
A autonomia anunciada varia de 500 km a 650 km e o veículo também pode ser conectado a uma fonte externa de eletricidade.
IVECO BUS AMPLIA GAMA

A Iveco Bus apresentou o novo BUS 17-210.
O chassi utiliza motor N45 de quatro cilindros, 210 cv e torque máximo de 720 Nm.
A proposta é atender aplicações urbanas, rodoviárias e de fretamento nas quais não seja necessária uma motorização de maior cilindrada.
O modelo terá versões com suspensão metálica e pneumática Full Air.
A Iveco também mantém na gama o 17-210 G, movido a gás natural ou biometano.
O conjunto reforça outro conceito bastante presente nesta Lat.Bus: a abordagem multienergética, na qual fabricantes desenvolvem diferentes tecnologias de propulsão de acordo com as características da operação.
IRIZAR LEVA TECNOLOGIAS DO EFFICIENT PARA O i6

No segmento rodoviário, a Irizar apresentou uma nova geração do i6.
Além da reformulação visual, com alterações nos conjuntos ópticos, dianteira, traseira e lateral, o modelo recebeu soluções desenvolvidas originalmente para o Efficient.
Uma delas está na estrutura.
Segundo a fabricante, a utilização de aços de maior resistência permitiu diminuir espessuras e reduzir peso.
Também foram incorporadas soluções aerodinâmicas e uma nova família de poltronas.
A Irizar aproveitou a Lat.Bus para fazer um balanço do Efficient na América Latina. Segundo a empresa, alguns operadores registraram redução de até 14% no consumo com o modelo.
CAIO E BUSSCAR RENOVAM PRODUTOS

Caio e Busscar também apresentaram novos modelos.
Na Caio, aparecem o Apache Vip VI, nova geração do urbano de motor dianteiro; o eApache Vip II, destinado a chassis elétricos de piso alto; uma evolução do eMillennium; e o B-Millennium, destinado a motores de combustão que utilizam combustíveis alternativos ao diesel, como gás natural e biometano.
A Busscar mostrou os modelos El Buss FT e El Buss 325L.
O QUE O PRIMEIRO DIA MOSTROU
O conjunto das novidades acompanhadas pelo Diário do Transporte permite identificar movimentos que vão além da quantidade de lançamentos.
A eletrificação se diversifica. Há modelos de piso baixo e piso alto, convencionais, padron, articulados, três eixos, opções para fretamento e veículos menores.
Ao mesmo tempo, a transição energética não está sendo tratada pelas fabricantes exclusivamente como eletrificação a bateria. Biometano, biodiesel B100, sistemas híbridos com etanol e E-Trol também aparecem como alternativas.
A renovação das carrocerias também ganhou peso. Torino 2027, G8 Tech, Irizar i6, novos produtos da Caio e Busscar e a família S2, S3 e S4 da Mascarello mostram que o desenvolvimento ocorre independentemente da fonte de energia.
Outro movimento está na eficiência. Redução de consumo, peso, manutenção, tempo de imobilização e custo total de propriedade aparecem nos argumentos de diferentes fabricantes.
Há ainda uma transformação menos visível que a troca dos motores: software, telemetria, inteligência artificial, diagnóstico remoto e monitoramento passam a ocupar espaço cada vez maior no desenvolvimento dos ônibus.
TECNOLOGIA AVANÇA, MAS FINANCIAMENTO É DESAFIO
É justamente o contraste entre o que está nos estandes e a situação econômica do transporte coletivo que ajuda a definir o primeiro dia da Lat.Bus 2026.
A indústria apresenta mais alternativas tecnológicas, mas os sistemas de transporte ainda enfrentam dificuldades para renovar suas frotas.
O Anuário NTU 2025-2026 mostra que, em 2025, foram realizadas 3,7% menos viagens que no ano anterior e que a demanda de passageiros permaneceu 22,5% abaixo do registrado em 2019.
A idade média da frota ficou em 6,38 anos e 146 municípios brasileiros já adotam Tarifa Zero universal.
Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta queda nos emplacamentos e aponta os juros elevados como obstáculo à renovação das frotas. A concorrência dos fabricantes chineses, especialmente no segmento de veículos elétricos, também entrou no debate durante a abertura do evento.
Assim, uma das questões colocadas pela Lat.Bus 2026 não está apenas em qual tecnologia será predominante.
O desafio é também encontrar condições de financiamento e modelos econômicos capazes de transformar ônibus elétricos, veículos a biometano e biodiesel, híbridos, novas carrocerias e sistemas digitais apresentados na feira em renovação efetiva das frotas brasileiras.
A Lat.Bus 2026 prossegue até quinta-feira, 13 de agosto, na São Paulo Expo, e o Diário do Transporte continua acompanhando no local os lançamentos, entrevistas, debates e novidades do setor.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
Colaborou Vinícius de Oliveira


