Lat.Bus 2026: Goal apresenta nova plataforma para planejar ônibus, motoristas e recargas elétricas em tempo real
Publicado em: 7 de agosto de 2026
Sistema nativo em nuvem usa inteligência artificial para montar escalas, reduzir viagens ociosas e adaptar a operação a trânsito, falhas de veículos e disponibilidade da tripulação
ALEXANDRE PELEGI
A Goal apresentará na Lat.Bus 2026 uma nova geração de seu sistema de planejamento operacional para empresas de ônibus e órgãos gestores. A plataforma reúne programação de linhas, montagem de escalas, controle de veículos e motoristas, acompanhamento da operação em tempo real e planejamento específico para frotas elétricas.
A Lat.Bus será realizada de 11 a 13 de agosto de 2026, no São Paulo Expo, na capital paulista. A feira, a maior da América Latina no setor, reunirá fabricantes, operadores, fornecedores de tecnologia e representantes do poder público para apresentar soluções destinadas ao transporte urbano e rodoviário de passageiros.
Em entrevista ao Diário do Transporte, o diretor comercial da Goal no Brasil, André Vieira, afirmou que a participação na feira também marcará publicamente uma nova etapa da empresa no mercado brasileiro.
Além de apresentar uma equipe ampliada e reformulada, a companhia mostrará o GoalBus, sistema que substitui a geração anterior da plataforma, desenvolvida originalmente há cerca de três décadas.
“Quem estiver presente no nosso estande vai encontrar uma nova equipe, uma estrutura de pessoas totalmente reformulada e uma estrutura muito maior do que os clientes estavam acostumados. A grande novidade é o novo software de planejamento que a Goal está trazendo para o mercado”, afirmou Vieira.
Fundada em 1992, em Madri, na Espanha, a Goal atua em mais de 30 países. Segundo o executivo, mais de 200 mil veículos são atualmente programados ou planejados com soluções desenvolvidas pela companhia.
Planejamento deixa de ser apenas uma tarefa para o futuro
Uma das principais mudanças trazidas pela nova plataforma é a transformação do planejamento em uma atividade praticamente contínua.
Tradicionalmente, o planejamento operacional é associado à construção antecipada de tabelas de horários, definição de linhas e elaboração das escalas de veículos e trabalhadores. Na prática, entretanto, a operação cotidiana sofre interferências constantes, como congestionamentos, obras, acidentes, veículos indisponíveis e ausências de motoristas.
O novo sistema foi desenvolvido para atualizar o planejamento sempre que alguma dessas condições for alterada.
Caso um ônibus apresente uma falha durante o serviço, por exemplo, o centro de controle pode substituir o veículo e reorganizar as viagens. O mesmo ocorre se um motorista precisar ser afastado ou substituído durante a jornada.
A cada alteração, o sistema recalcula os efeitos operacionais e financeiros da decisão. A informação também é incorporada ao planejamento dos dias seguintes, considerando que determinado veículo ou profissional poderá continuar indisponível.
“A operação consegue substituir um motorista, trocar um veículo e atualizar o planejamento em tempo real. Cada mudança mostra o impacto financeiro e operacional”, explicou Vieira.
Inteligência artificial testa diferentes cenários
O GoalBus é nativo em nuvem e oferecido no modelo de software como serviço, conhecido pela sigla SaaS – Software as a Service (Software como Serviço). A plataforma utiliza algoritmos matemáticos e recursos de inteligência artificial para procurar a melhor combinação entre veículos, motoristas, horários e viagens.
Segundo André Vieira, um planejamento que poderia levar semanas para ser construído manualmente pode, dependendo da complexidade da operação, ser processado pelo sistema em aproximadamente uma hora.
A otimização procura reduzir indicadores como quantidade de veículos necessários, horas extras, períodos improdutivos da tripulação e quilometragem ociosa — aquela percorrida sem passageiros entre a garagem, os terminais e os pontos iniciais das linhas.
A inteligência artificial também permite comparar diferentes modelos de operação. O planejador pode simular, por exemplo, se é mais vantajoso contratar trabalhadores, ampliar horas extras, recolher veículos à garagem ou mantê-los em terminais entre os períodos de serviço.
“O principal benefício é permitir que o planejador pense fora da caixa. Com a quantidade de variáveis que existe hoje, é muito difícil criar manualmente diferentes cenários. O sistema faz isso de forma muito rápida”, disse Vieira.
Trânsito em tempo real
Outra funcionalidade que será demonstrada na Lat.Bus é a utilização de informações de trânsito em tempo real.
A plataforma pode ser integrada a ferramentas como o Google Maps e considerar as diferenças de tempo de viagem entre dias da semana e faixas horárias.
A medida é especialmente relevante nas cidades brasileiras, onde grande parte dos ônibus ainda circula sem prioridade no sistema viário e disputa espaço com carros, motocicletas, obras e ocorrências de trânsito.
Com os dados atualizados, o operador consegue identificar atrasos, recalcular tempos de viagem e reorganizar a oferta de acordo com o que efetivamente está ocorrendo nas ruas.
Recarga de ônibus elétricos
O planejamento de ônibus elétricos será outro destaque da Goal na feira.
Diferentemente de um veículo a diesel, cuja programação normalmente não é condicionada pela autonomia diária, o ônibus elétrico exige que o sistema considere capacidade e estado da bateria, consumo energético, relevo das linhas, disponibilidade dos carregadores, potência da rede elétrica e tempo necessário para cada recarga.
O GoalBus possui um módulo específico para essa finalidade, atualmente em implantação e testes em operações brasileiras. Entre os projetos citados pela empresa está o sistema administrado pela Urbs, em Curitiba, que reúne mais de 1,2 mil veículos.
O objetivo é evitar que a recarga seja definida apenas por um percentual mínimo de bateria.
O sistema pode concluir, por exemplo, que o melhor momento para conectar determinado ônibus ao carregador ocorre quando a bateria ainda está em 70%. Uma recarga parcial naquele intervalo poderá ser mais eficiente do que esperar o fim do dia, especialmente quando são considerados o itinerário seguinte, a disponibilidade dos equipamentos e a demanda sobre a rede elétrica.
“O planejamento inteligente leva em consideração o melhor horário do dia para o ônibus carregar, o itinerário, o relevo, o tipo de carregador e a disponibilidade da rede”, afirmou Vieira.
Integração com bilhetagem, GPS, telemetria e ERP
A plataforma da Goal não foi desenvolvida para substituir os demais sistemas utilizados pelas empresas.
Por meio de uma interface de programação aberta, a chamada API, o GoalBus pode receber e enviar dados para sistemas de bilhetagem eletrônica, GPS, gestão de frota, telemetria e ERP.
Também pode importar arquivos no padrão GTFS, usado para organizar informações sobre linhas, itinerários, pontos de parada e horários.
Segundo Vieira, a proposta é posicionar o planejamento no centro do ecossistema tecnológico da operação.
Os dados de localização e demanda são transformados em escalas e programações. Na outra ponta, as informações sobre jornadas e horas trabalhadas podem ser enviadas ao sistema responsável pelo fechamento da folha de pagamento.
“Estamos no meio do ecossistema. Conseguimos importar dados importantes para a operação, transformá-los em planejamento e entregar as informações prontas para os outros sistemas”, explicou.
Relação entre operadores e poder público
O sistema possui módulos destinados tanto às empresas operadoras quanto aos órgãos gestores.
Prefeituras, secretarias e autoridades de transporte podem utilizar dados cartográficos, informações do Censo, localização de escolas e hospitais, demanda de passageiros e frequência desejada para definir a oferta do serviço.
Quando gestor e operador utilizam a mesma plataforma, a programação pode ser encaminhada diretamente pelo sistema. A empresa recebe o quadro de horários e, caso considere necessário, apresenta também pela plataforma uma proposta de alteração.
A intenção é substituir planilhas, documentos em PDF e relatórios produzidos manualmente por um fluxo digital e rastreável.
Esse modelo ganha importância em sistemas que recebem subsídios públicos. Como os pagamentos podem ser calculados com base em custos, quilometragem, viagens realizadas ou veículos colocados em circulação, a existência de informações compartilhadas amplia a transparência entre contratante e contratado.
Os dados também podem fornecer elementos para discussões sobre reequilíbrio econômico-financeiro de contratos, revisão dos tempos de viagem e adequação dos quadros de horários.
Integração com o sistema da SPTrans
Durante a entrevista, André Vieira também comentou a modernização do monitoramento dos cerca de 14 mil ônibus municipais da cidade de São Paulo.
Segundo ele, a adoção de um sistema centralizado pela SPTrans não elimina a necessidade de as empresas terem plataformas próprias para organizar garagens, veículos e trabalhadores.
A solução da Goal possui API aberta e poderá, de acordo com Vieira, trocar informações com o sistema implantado pelo órgão gestor paulistano.
Na avaliação do executivo, quanto maior for a capacidade tecnológica do poder público, maior será também a necessidade de modernização das operadoras.
Além de responder mais rapidamente às determinações do gestor, uma empresa com dados estruturados poderá demonstrar que determinado tempo de viagem está desatualizado ou que uma oferta programada precisa ser revista.
“Sem um software, o operador não vai conseguir acompanhar o ritmo das mudanças na operação. Visibilidade e agilidade são fundamentais”, declarou.
Regras trabalhistas
A Goal também prepara uma funcionalidade destinada à configuração automática das regras trabalhistas.
A ferramenta permitirá importar documentos em Word, PDF ou planilhas contendo acordos coletivos e normas sindicais. O sistema deverá identificar limites de jornada, intervalos, horários permitidos, regras para horas extras e locais destinados às pausas.
Depois da leitura, essas condições serão incorporadas automaticamente à montagem das escalas.
Segundo Vieira, o recurso pode contribuir para reduzir erros de programação e riscos de passivos trabalhistas, especialmente em operações que precisam administrar milhares de jornadas diferentes.
Nova etapa no Brasil
A Goal passou os últimos anos por uma reestruturação de processos, equipe e produtos. O GoalBus começou a ser apresentado aos clientes brasileiros entre fevereiro e março de 2026.
De acordo com André Vieira, clientes que utilizam há cinco, dez ou 15 anos a plataforma anterior estão migrando para o novo ambiente. A empresa também possui novos projetos em implantação em diferentes regiões do País.
Na Lat.Bus, a companhia pretende demonstrar que o planejamento deixou de ser apenas a elaboração antecipada de uma tabela.
Em uma operação sujeita a congestionamentos, falhas mecânicas, mudanças de demanda, restrições trabalhistas e limites de autonomia das baterias, planejar passa a significar recalcular continuamente o serviço.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



